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Mitos e verdades sobre o camelo


- Artigo atualizado no dia 6 de julho de 2018 -

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          Os camelos são um dos animais mais conhecidos do planeta e muito famosos pelas suas habilidades de sobrevivência em ambientes extremos, especialmente em termos de aridez. Mesmo sob uma temperatura de 30-35°C em temporadas de seca nos desertos do Saara e do Sahel, os dromedários conseguem ficar de 10 a 15 dias sem consumir água (incluindo de alimentos)! Toda essa fama, contudo, acabou gerando alguns mitos sobre esses mamíferos, os quais acabaram fincando raízes bem profundas no imaginário popular. Entre esses mitos, três se destacam, com dois deles envolvendo suas corcovas. O mais engraçado é que, entre esses dois mitos, um é bem simples e o outro é bem complexo em seus supostos mecanismos científicos de plausibilidade.

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   CAMELOS

          Os camelos (gênero Camelus, família Camelidae) são mamíferos com casco de dedos pares (ordem Artiodactyla) que são muito bem adaptados à vida em desertos gelados ou quentes, e bastante singulares por possuírem notáveis corcovas em suas costas. Basicamente, os camelos são divididos, hoje, em três espécies: os dromedários (C. dromedarius), camelos-Bactrianos (C. bactrianus) e o camelo-Bactriano selvagem (C. ferus), este último em crítico estado de conservação. Os dromedários - os quais englobam cerca de 94% da população total de camelos hoje - possuem apenas uma corcova nas costas, enquanto os Bactrianos possuem duas corcovas.



          Enquanto o dromedário é muito bem adaptado às condições áridas e quentes, os Bactrianos são muito bem adaptados para viverem em regiões secas e frias. Ambos são espécies domesticadas de suma importância para as atividades humanas em várias localidades áridas e semi-áridas na Ásia e na África, desempenhando principalmente a função de transporte, mas também servindo para inúmeras outras funções, como fornecedor de leite, carne, fibras e pele. Em relação às suas adaptações para o calor e a falta de água, os dromedários vencem, de longe, qualquer outro mamífero no quesito sobrevivência.

          De acordo com registros fósseis e genéticos, as primeiras espécies da família   Camelidae surgiram há cerca de 46 milhões de anos na América-do-Norte. Após esses animais migrarem para a Ásia via estreito de Bering durante o Mioceno Superior (7,246-4,900 milhões de anos atrás) - e posteriormente evoluírem para as espécies do gênero Camelus - os seus ancestrais acabaram desaparecendo no território Norte-Americano. Alguns, porém, tinham migrado antes para a América-do-Sul, evoluindo para três espécies do gênero Llama e uma espécie do gênero Vicugna. Essa primeira grande divergência na família Camelidae ocorreu há cerca de 17 milhões de anos. Já a divergência entre dromedários e camelos-Bactrianos ocorreu há cerca de 4,4 milhões de anos.

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   MITOS

           Bem, começando com as corcovas, não, elas não são uma reserva de água. Esse é o primeiro e mais difundido mito. Na verdade, elas são ricas em gordura, ou seja, apenas são uma reserva de energia para o camelo. Agora, o segundo mito vem da gordura dessa corcova e envolve uma bioquímica que faz sentido, mas não se encaixa para esse caso.



           Em toda metabolização energética, tanto de gorduras quanto do carboidratos, na presença de oxigênio (oxidação), ocorre a formação de água e gás carbônico como produtos finais de uma complexa cascata de reações bioquímicas, envolvendo a formação de piruvato, o ciclo de Krebs e a cadeia respiratória. Muitos pensam que essa grande reserva de gorduras dos camelos serve, além de fornecer energia, para a produção massiva de água, a qual manteria o corpo hidratado durante os momentos de extrema escassez hídrica. Porém, se o camelo oxidasse grande quantidade de gordura com o objetivo de gerar água, ele perderia parte considerável dela durante a respiração (troca massiva de gás carbônico produzido e oxigênio reagente) e aumento excessivo da temperatura durante o processo de 'queima calórica', apesar dele possuir mecanismos que minimizam essas perdas. Não, por mais charmoso e complexo que esse processo possa parecer, ele não faz sentido prático, e o camelo aproveita sua reserva de gordura principalmente como fonte de energia e de forma gradativa. Por outro lado, obviamente, ele também ganha uma água extra durante sua metabolização, mas não para matar a sede em situações de emergência.

            O terceiro mito é em relação à suposta água ingerida em excesso pelo camelo durante os períodos de oferta hídrica. Nesse sentido, o camelo beberia quantidades absurdas de água armazenando o excedente no seu corpo, para ser usado posteriormente nos momentos de seca. Mais uma vez, isso é apenas lenda. O camelo, quando bebe água, apenas ingere o suficiente para reidratar o seu corpo. De qualquer forma, esse 'suficiente' é muita coisa, sendo que eles conseguem beber enormes quantidades de água em poucos minutos (um camelo de 500-600 quilos pode beber até 200 litros de água em cerca de 3 minutos!). Suas hemácias sanguíneas até possuem um formato diferenciado do habitual entre os mamíferos - bem arrendondadas - para suportarem grandes quantidades de água entrando na corrente sanguínea (a pressão osmótica aumenta bastante).

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   VERDADES

             Mas se todas essas alegações expostas não passam de mitos, como o camelo se vira tão bem nos desertos, enfrentando longos períodos de completa falta de água no seu habitat? Simples: eles possuem diversas adaptações que não são, infelizmente, tão populares quanto os mitos.

           Os camelos são mestres em preservar a água do seu corpo. Enumerando:

1. Eles produzem muito pouca urina e, quando produzem, fazem com que ela seja a mais concentrada possível para minimizar a perda de água. Se um homem adulto excretasse urina como um camelo desidratado faz, isso significaria um volume diário de apenas 0,08 litros na média. Suas fezes também são incrivelmente secas, saindo com aparente falta absoluta de umidade;

2. Suas narinas possuem uma área superficial muito grande e possuem diversas estruturas espiraladas, com ambas características se unindo para forçar grande parte da água arrastada pela respiração a condensar dentro do nariz e ser reabsorvida pelo corpo;

3. Durante períodos de desidratação, o metabolismo do camelo se torna bastante baixo, quase metade do metabolismo de um gado vivendo no mesmo ambiente. Isso diminui a produção de calor, o que, consequentemente, impede que a temperatura corporal suba muito, reduzindo a eliminação de água via transpiração e respiração.

4. Diferente de outros mamíferos com bastante pelagem, as gotículas de suor geradas nas glândulas sudoríparas do camelo evaporam diretamente da pele, e não da ponta dos pelos. Isso otimiza bastante a retirada de calor via evaporação.

5. Como já mencionado, um camelo de 500 kg consegue beber 150-200 litros de água, em poucos minutos e de uma só vez, após ficar sem bebê-la durante 5-7 dias. Ou seja, eles compensam o estado de desidratação bebendo acima de 30% da própria massa corporal de água. Mesmo um camelo bem alimentado consegue beber de 10 a 20 litros de água por minuto, e sem parar. Isso evita desperdícios e longas interrupções de jornada quando uma fonte abundante de água é encontrada, além de mais rápida recuperação do estado de desidratação.

6. Vasos sanguíneos faciais presentes nos dromedários funcionam como um preciso mecanismo de resfriamento do tecido cerebral durante momentos de estresse de calor. O sangue resfriado na cavidade nasal via perda de calor evaporativa é desviado para as cavidades ósseas (sinus) cerebrais através das veias nasal e angular. No sinus cavernoso, o sangue arterial na rede carótida é resfriado pelo sangue venoso frio antes de entrar no cérebro, levando a um substancial resfriamento - onde as variações de temperatura ficam na faixa de 33-45°C.

7. Os camelos conseguem suportar altas temperaturas corporais, acima dos 40°C. Isso faz com que pouca água seja necessária para resfriar o corpo, ou através do suor ou ofegando. Eles aproveitam as baixas temperaturas do deserto à noite para perderem o excesso de calor corporal. De 40,7°C, a temperatura corporal do camelo pode cair para pouco acima de 34°C durante a noite. Essa diferença de temperatura de 6,2°C em um espécime pesando cerca de 500 kg é equivalente a aproximadamente 2500 kcal, a qual, se fosse dissipada via transpiração (evaporação), iria requerer quase 5 litros de água, poupando o camelo dessa significativa perda. Somando-se a isso, as longas pernas desses animais mantêm seu corpo bem afastado das areias quentes, contribuindo para o resfriamento;

8. Mesmo perdendo água do corpo durante períodos muito grandes de seca, os camelos conseguem ainda caminhar 'tranquilamente' sob o forte Sol do deserto em condições de desidratação que ficam na faixa de incríveis 30-40%! Para se ter uma ideia, se nós perdemos de 1-2% da nossa massa corporal na forma de água, já passamos a ficar com bastante sede. Se perdemos mais de 5%, passamos a ter graves consequências no organismo. Se perdemos um pouco mais de 20%, a morte é quase certa! No geral, mamíferos não adaptados às regiões desérticas não conseguem suportar perdas de água em torno de 15%.

            Além dessas incríveis habilidades de 'manipulação hídrica', a gordura na corcova dos camelos ainda serve para proteger do aquecimento solar, já que as gorduras são péssimas condutoras de calor. Os pelos mais grossos por cima das corcovas também servem para a proteção dos raios solares (alguns possuem verdadeiras jubas nessa região) e conservação da temperatura corporal. E olha que não foram listadas todas as adaptações do camelo. Sem sombra de dúvidas, o camelo é um dos mais bem adaptados representantes do Reino Animal.
         

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.djur.cob.lu.se/Djurartiklar/Kamel.html
  2. https://pag.confex.com/pag/xxiv/webprogram/Paper18655.html
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/030096299290522R
  4. http://www.bbc.co.uk/schools/gcsebitesize/science/edexcel_pre_2011/environment/evolutionrev2.shtml
  5. http://www.nma.gov.au/__data/assets/pdf_file/0017/19421/Extremes_desert_science.pdf
  6. https://www.environment.gov.au/system/files/pages/a117ced5-9a94-4586-afdb-1f333618e1e3/files/60-ind.pdf 
  7. http://www.iucnredlist.org/details/63543/0
  8. The ship of the desert. The dromedary camel (Camelus dromedarius), a domesticated animal species well adapted to extreme conditions of aridness and heat. Special Issue No.3, 1990: 231-236 
  9. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25333821
  10. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/1348454