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Estou seguro e posso me livrar de carrapatos na água?


            Você estava andando no mato e, após várias aventuras, percebeu que estava infestado de carrapatos. Ao invés de tirá-los um por um do corpo de forma adequada e segura, ou procurar atendimento médico para auxílio na remoção e investigação de possíveis doenças infecciosas transmitidas por esses parasitas (1), você resolve mergulhar na água de um lago, piscina ou banheira para afogar os carrapatos, esperando que naturalmente se desprendam ao morrer. Ora, carrapatos são animais terrestres e precisam de oxigênio do ar para sobreviverem, certo? Bem, errado.

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(1) Leitura recomendada


          Carrapatos (Ixodidae) são aracnídeos de vertebrados terrestres e possuem três estágios larvais de vida livre: larva, ninfa e adulto (2). Uma refeição de sangue durante vários dias é consumida em cada um desses estágios, após os quais o carrapato sofre metamorfoses. Entre as refeições e desligados de um hospedeiro, os diferentes estágios podem sobreviver por vários meses, até anos sem nova alimentação. Mecanismos que ajudam os carrapatos a tolerar prolongada sobrevivência sem um hospedeiro incluem um exoesqueleto hidrofóbico que inibe perda de água, mecanismos ativos de absorção de água para renovar as reservas de água do corpo, taxas metabólicas que são uma ordem de magnitude inferiores do que vários outros artrópodes terrestres, e forte resistência ao frio. Além disso, carrapatos podem sobreviver vários dias até meses submersos em água!

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(2) Curiosidade: Apesar das pessoas comumente associarem ácaros a seres microscópicos ou quase microscópicos que vivem na poeira e causam alergias respiratórias, carrapatos também são ácaros. Aliás, os carrapatos nem mesmo são os maiores ácaros! Sugestão de leitura: Qual é o maior ácaro conhecido?

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           Tentar afogar um carrapato pode ser uma tarefa difícil. Ninfas e larvas não alimentadas das espécies Rhipicephalus appendiculatus e Amblyomma variegatum conseguem sobreviver na água por várias semanas a meses. Adultos fêmeas da espécie Dermacentor variabilis sem alimentação podem sobreviver até 15 dias submersas. A espécie Amblyomma americanum consegue sobreviver até 70 dias em água doce, até 64 dias em água salina e até 46 dias em água marinha (Ref.1). Larvas e adultos da espécie Argas persicus - um carrapato de corpo mole que parasita aves - conseguem sobreviver submersos em água de torneira por até 72 horas (Ref.2). Fêmeas adultas da espécie Dermacentor albipictus conseguem sobreviver submersas em água por até 72 horas com taxa de mortalidade de 12%; dependendo da idade, enquanto larvas de D. albipictus podem sobreviver por até 5 semanas com taxa de mortalidade de 37% (Ref.3).

            O principal fator que parece explicar essa grande capacidade dos carrapatos de sobreviverem submersos em água é uma estrutura chamada plastron (Ref.4). O plastron é um fino filme de gás mantido por estruturas cuticulares a prova d'água, e que funciona como uma "guelra" física que pode extrair oxigênio molecular (O2) da água; o O2 extraído é então difundido dentro do espaço de ar e, a partir dali, para dentro do sistema respiratório interno do organismo. Respiração via plastron é observada em vários artrópodes, incluindo besouros, centopeias intertidais e ácaros em geral. Os carrapatos possuem um par de espiráculos situado na superfície ventral-lateral diretamente posterior às pernas traseiras; cada espiráculo é coberto por uma placa espiracular que é perfurada e contém vários aerófilos, câmaras internas de ar e pedicais cuticulares (Fig.1). A placa espiracular funciona como uma interface ar-água necessária para a respiração via plastron nesses aracnídeos durante submersão (Fig.2).

Figura 1. O sistema respiratório de carrapatos adultos e na fase de ninfa é similar àquele de outros insetos, com um sistema traqueal suprindo oxigênio para todo o corpo. O carrapato, contudo, também é capaz de utilizar oxigênio dissolvido na água através do plastron. Em outras palavras, os carrapatos são capazes de respirar debaixo d'água, apesar de ser um animal terrestre. Sobrevivência dos carrapatos na água pode também ser auxiliada por depressão metabólica e possivelmente respiração anaeróbica. Ref.4

 

Figura 2. Tempo e taxa de sobrevivência de fêmeas de carrapato da espécie D. variabilis submersas em água com concentração normal de oxigênio (pontos pretos) e em água com baixa concentração de oxigênio (pontos brancos). Foram submersos quase 1000 carrapatos nos testes experimentais associados ao gráfico. Os resultados mostram claramente que esses aracnídeos removem oxigênio dissolvido na água para respiração e prolongar o tempo de sobrevivência debaixo d'água. Ref.4

           Na natureza, essa incrível habilidade de sobrevivência e de respiração efetiva debaixo da água é importante para os diferentes estágios de vida dos carrapatos durante eventos de chuva pesada ou inundações temporárias, quando frequentemente estão desanexados de hospedeiros e em ambientes próximos ao solo (ou no solo), ou mesmo quando o hospedeiro possui muita afinidade com ambientes aquáticos e passam boa parte do tempo nadando  (ex.: capivaras).


   COMO REMOVER DE FORMA SEGURA UM CARRAPATO?

            Evite testar "receitas caseiras" para a remoção de carrapatos, como "pintar" o parasita com removedor de unha, ou usar calor para forçá-lo a sair da pele. O objetivo deve ser remover o carrapato o mais rápido possível, e não esperar "desanexação voluntária", E, para isso, uma simples pinça é muito efetiva nessa tarefa, seguindo esses passos (Ref.5):

- Use pinças de ponta fina limpas para agarrar o carrapato o mais próximo possível da superfície da pele (Fig.3).

- Puxe para cima de forma firme e uniforme. Não torça ou sacuda o carrapato; isso pode fazer com que as partes bucais se desprendam e permaneçam na pele (se isso acontecer, remova as partes bucais do carrapato com a pinça). Se você não conseguir remover a boca desprendida com facilidade, deixe-a ali e permita que a pele cicatrize.

- Após remover o carrapato, limpe a área mordida e suas mãos com álcool ou sabão e água.

- Nunca esmague ou esprema o carrapato com seus dedos. Livre-se do carrapato removido colocando-o em álcool; colocando-o em um saco ou contêiner selado; embrulhando-o firmemente em uma fita adesiva; ou jogando-o no vaso sanitário. 

Figura 3. Forma segura de remoção de um carrapato na pele. Ref.5

          Se você desenvolver vermelhidão no corpo ou febre dentro de várias semanas após remover o carrapato (ou carrapatos), busque atendimento médico urgente. Reporte aos médicos sobre o carrapato, onde a mordida no corpo ocorreu e em qual região [geográfica] você provavelmente foi parasitado.


REFERÊNCIAS

  1. Lindsey et al. (2019). Assessing the underwater survival of two tick species, Amblyomma americanum and Amblyomma maculatum. Ticks and Tick-borne Diseases, Volume 10, Issue 1, Pages 18-22. https://doi.org/10.1016/j.ttbdis.2018.08.013
  2. https://www.biotaxa.org/pja/article/view/201525
  3. https://cdnsciencepub.com/doi/abs/10.1139/cjz-2022-0003
  4. Fielden et al. (2011). Underwater survival in the dog tick Dermacentor variabilis (Acari:Ixodidae). Journal of Insect Physiology, 57(1), 21–26. https://doi.org/10.1016/j.jinsphys.2010.08.009
  5. https://www.cdc.gov/ticks/removing_a_tick.html