YouTube

Artigos Recentes

Por que a variante Delta é muito mais transmissível?

 
- Atualizado no dia 19 de agosto de 2021 -

          A variante Delta (B.1.617), primeiro detectada na Índia e um dos grandes protagonistas da trágica segunda onda nesse país, está se espalhando rápido pelo mundo, já respondendo por mais de 99% dos novos casos registrados no Reino Unido. Além do território Britânico, um rápido, marcante e recente aumento de casos foi observado nos EUA (>80% dos novos casos), aumentando a preocupação relativa às pessoas resistindo a tomar as vacinas. Cientistas preveem que a variante Delta irá rapidamente se tornar globalmente dominante (Ref.2).

- Continua após o anúncio -


          Essa variante possui três subtipos (variando de 7 a 10 substituições na proteína S) já descritos (Ref.3): B.1.617.1B.1.617.2 e B.1.617.3. Existe também outra altamente transmissível variante em circulação na Índia, denominada B.1.618, a qual inclui na proteína S três mutações: Δ145-146, E484K e D614G. Entre essas mutações, está a D614G, comprovadamente responsável por substancial maior disseminação viral, e a E484K, comprovadamente responsável por maior escape imune e compartilhada com as variantes P.1 e B.1.351. 

           A variante Delta B.1.617.2 de maior preocupação e mais ampla disseminação é caracterizada pelas mutações na proteína Spike T19R, Δ157-158, L452R, T478K, D614G, P681R, e D950N (Ref.4). Enquanto algumas dessas mutações (ex.: resíduos 452 e 484 no domínio de ligação do receptor) podem afetar as repostas imunológicas - aumentando o risco de substancial evasão imune em relação a anticorpos neutralizantes contra cepas prévias do SARS-CoV-2 -, a principal preocupação é relativa à maior transmissibilidade dessa variante. 

          É estimado que a variante Delta é pelo menos 2 vezes mais transmissível que a cepa original do vírus e associada com um número básico de reprodução (R0) estimado de 5-7 (Ref.5).  e a mutação P681R (no local de clivagem S1-S2) - caracterizada pela substituição de um resíduo de prolina por uma arginina -  pode ser a principal culpada: mutações nesse local parecem interferir com o processamento proteolítico e aumentar a capacidade de replicação do SARS-CoV-2, o que leva a maiores cargas virais e transmissão aumentada. Porém, é importante realçar que é improvável a culpa exclusiva da mutação P681R, já que outra variante próximo-relacionada - conhecida como Kappa e emergindo também na Índia - possui muitas das mutações da Delta, incluindo a P681R (Ref.16), porém sem estar associada com robusta capacidade de transmissão.

           Por exemplo, a tosse de uma pessoa infectada com a variante Delta pode expelir muito mais partículas virais associadas a aerossóis do que outras variantes, facilitando o estabelecimento de uma nova infecção em pessoas expostas (!).

(!) Leitura recomendadaSão necessárias 1000 partículas virais do novo coronavírus para iniciar uma infecção

          Aliás, inclusive os sintomas iniciais da COVID-19 causada pela variante Delta parecem ser diferentes, similares aos de um resfriado comum, incluindo nariz escorrendo, garganta irritada e outros sintomas associados a infecções no trato respiratório superior (Ref.6).

          Em um estudo publicado recentemente como preprint (Ref.7), e citado pela Nature (Ref.8), pesquisadores analisaram 62 indivíduos na China infectados pela variante Delta, quantificando a carga viral diariamente ao longo do curso da infecção. Eles compararam esses participantes com dados clínicos de 63 pessoas infectadas com a cepa original do SARS-CoV-2 em 2020. Os resultados mostraram que, nos indivíduos infectados com a Delta, o vírus se tornava primeiro detectável após quatro dias de exposição, comparado com uma média de seis dias entre aqueles infectados com a cepa original, sugerindo que a variante Delta se replica muito mais rápido e que indivíduos infectados com essa cepa se tornam mais rapidamente infecciosos.

          Mais notável, indivíduos infectados com a Delta mostraram ter cargas virais até 1260 vezes maiores do que aqueles infectados com a cepa original. Uma quantidade dramaticamente maior de partículas virais no trato respiratório significa que eventos de superdisseminação provavelmente irão infectar ainda mais pessoas.

- Continua após o anúncio -


           A combinação de uma alta carga viral e um menor período de incubação é compatível com a maior transmissibilidade da variante Delta. Isso também implica que cruciais medidas não-farmacológicas de controle epidêmico (em particular, testagem, rastreamento e isolamento de casos e seus contatos) podem ficar menos efetivas. É, portanto, justificada a decisão do governo Australiano em impor um novo lockdown em regiões englobando quase metade da população do país com o crescimento de novos casos (Delta) - e o qual já vem mostrando ótimos resultados (Ref.9). Justifica-se também as recentes críticas do Dr. Anthony Fauci - principal especialista em doenças infecciosas dos EUA - quanto à excessiva flexibilização das medidas de controle epidêmico entre os Norte-Americanos, em um momento quando a variante Delta se alastra rápido. Fauci considera necessário revisitar as recomendações de máscara para os vacinados e talvez aplicar uma dose (imunizante) de reforço para os mais vulneráveis (Ref.10).

           Em outras palavras, a variante Delta é substancialmente mais difícil de ser parada. Países com uma grande parte da população ainda não completamente imunizada - como no Brasil - precisam reforçar as medidas de controle epidêmico e acelerar o avanço das vacinas. E, novamente, quanto mais o vírus se dissemina, infecta e se replica, mais mutações e maior o risco de variantes ainda mais preocupantes.


   ISRAEL: RETORNO DA EPIDEMIA

          Com um rígido controle e acompanhamento da pandemia, Israel é um dos países com os maiores níveis de vacinação contra a COVID-19, com 78% daqueles com 12 anos ou mais de idade completamente vacinados, a maioria com as duas doses da Pfizer (vacina mRNA-baseada). Porém, o país agora está enfrentando uma das maiores taxas de infecção do mundo, com quase 650 novos casos diários por milhão de pessoas (população total de 9,3 milhões) (Ref.12). Mais da metade desses novos casos de infecção são em pessoas vacinadas.

           Essa nova onda epidêmica em Israel é um alerta grave para outros países, especialmente aqui no Brasil, onde muitos ainda não estão completamente vacinados ou nem sequer receberam a primeira dose. Enquanto que em Israel as hospitalizações e mortes são ainda relativamente baixas, por causa da grande proporção de vacinados, um rápido alastramento dessa variante aqui no Brasil pode aumentar substancialmente o número de internações e óbitos.

           Existe evidência em Israel de que uma queda natural na imunidade humoral (em particular, anticorpos neutralizantes) induzida pelas vacinas pode ser um fator contribuinte em facilitar a infecção pela Delta. Um estudo preprint (não revisado por pares) (Ref.13) mostrou que pessoas vacinadas em janeiro tinham 2,26 vezes maior risco de infecção do que pessoas que foram vacinadas em abril (apesar de existir potencial co-fator de risco ligado ao fato que que os Israelitas mais idosos - e naturalmente com um sistema imune mais comprometido - foram os primeiros vacinados). Outro recente estudo preprint, citado pela Nature (Ref.15) e analisando a população Britânica, também corrobora essa conclusão, trazendo evidência de que a efetividade da vacina da AstraZeneca-Oxford contra infecção pela variante Delta cai significativamente com o passar do tempo.

          Além de uma terceira dose de reforço já sendo aplicada na população, especialistas em Israel estão defendendo que medidas não-farmacológicas de controle epidêmico precisam ser retornadas e reforçadas, como o uso universal de máscara e distanciamento social - tais medidas começaram, de fato, a ser reinstaladas no país.

          Aliás, na Nova Zelândia, um único caso detectado na cidade de Auckland foi suficiente para o governo decretar um lockdown na região por uma semana, enquanto o restante do país ficará em lockdown por três dias (Ref.14). No país, apenas cerca de 20% da população está totalmente vacinada - a vacinação lá não foi apressada porque a transmissão comunitária havia sido previamente eliminada (!) - e a preocupação com a variante Delta é grande.

(!) Leitura recomendadaComo a Nova Zelândia conseguiu eliminar a transmissão da COVID-19 no país?

            Escolas, escritórios e todos os negócios não essenciais serão fechados. "Eu quero assegurar à Nova Zelândia que nós planejamos para essa eventualidade. Ser duro logo no início funcionou para nós antes," disse a Primeira Ministra Jacinda Arden.


> Ainda é incerto se a variante Delta é mais virulenta. Vacinas até o momento testadas mostraram ainda manter alta eficácia clínica contra essa cepa (prevenção de hospitalização e de morte). Um estudo publicado ontem no periódico The New England Journal of Medicine (Ref.11), analisando a população da Inglaterra vacinada ou com a vacina da Pfizer (BNT162b2) ou com aquela da AstraZeneca/Oxford (ChAdOx1 nCoV-19), encontrou que a efetividade (eficácia no mundo real) desses imunizantes contra infecção sintomática causada pela variante Delta continua alta, provavelmente implicando em alta eficácia clínica (prevenção de hospitalização e, principalmente, de morte). Após duas doses, a efetividade da Pfizer mostrou ser de 93,7%, e, da AstraZeneca de 67%. Porém, após apenas uma dose, a efetividade para ambas mostrou-se muito baixa (30,7%). O estudo reforça a importância da vacinação em meio à disseminação das variantes de preocupação e, mais importante, da segunda dose quando necessário, especialmente para a população mais vulnerável. 

> Boa parte das mutações (deleções, substituições, edições endógenas, recombinações) do SARS-CoV-2 e de outros vírus ocorre durante o processo de transcrição e replicação do RNA viral (via complexo replicase–transcriptase), onde erros acabam ocorrendo na formação da sequência genética, como a introdução de uma letra/base nitrogenada errada (A, G, C ou U). Porém, evidências  acumuladas sugerem que danos (ex.: oxidação) e edições endógenas (ex.: enzimas antivirais do hospedeiro) são a forma dominante de mutações do SARS-CoV-2 intra-hospedeiro, resultando em típicas assimetrias na cadeia genética do vírus.  

> IMPORTANTE: Mais uma vez reforçar também a questão dos reservatórios naturais do vírus, algo sendo ignorado pela grande mídia. VÁRIOS mamíferos não-humanos são vulneráveis ao SARS-CoV-2, incluindo animais domésticos. O descontrole epidêmico aumenta a exposição desses animais ao vírus, mantendo sua circulação em populações selvagens e/ou domésticas, e aumentando o risco de alta divergência evolutiva e de um potencial SARS-CoV-3 com capacidade de transmissão zoonótica. NÃO podemos nos esquecer da tragédia que ocorreu na Dinamarca ano passado com as martas. Para mais informações, acesse: Gatos e outros animais não-humanos podem ser infectados pelo novo coronavírus?


REFERÊNCIAS

  1. https://www.bmj.com/content/373/bmj.n1513.full
  2. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0262407921011210
  3. https://www.saberatualizadonews.com/2021/05/variante-indiana-chegou-no-brasil-o-que.html
  4. https://www.nature.com/articles/d41586-021-01696-3
  5. https://www.thelancet.com/journals/lanres/article/PIIS2213-2600(21)00328-3/fulltext 
  6. https://www.yalemedicine.org/news/5-things-to-know-delta-variant-covid 
  7. https://www.nature.com/articles/d41586-021-01986-w
  8. https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.07.07.21260122v2
  9. https://jglobalbiosecurity.com/articles/10.31646/gbio.121/
  10. https://www.bbc.com/news/world-us-canada-57962387
  11. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2108891
  12. https://www.sciencemag.org/news/2021/08/grim-warning-israel-vaccination-blunts-does-not-defeat-delta
  13. https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.07.29.21261317v1.full.pdf
  14. https://www.bbc.com/news/world-asia-58241619
  15. https://www.nature.com/articles/d41586-021-02261-8
  16. https://www.nature.com/articles/d41586-021-02275-2