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Gatos e outros animais não-humanos podem ser infectados pelo novo coronavírus?

- Atualizado no dia 27 de dezembro de 2020 -

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          Em dezembro de 2019, um novo coronavírus causou um grande surto de doença pulmonar na cidade de Wuhan, a capital da província de Hubei na China, e tem desde então se espalhado globalmente. O vírus eventualmente foi nomeado SARS-CoV-2, devido ao fato do seu genoma (constituído de RNA) ser ~82% idêntico ao coronavírus (SARS-CoV) responsável pelo SARS (síndrome respiratória aguda grave). Ambos os vírus pertencem ao clado b do gênero Betacoronavirus. A doença causada pelo SARS-CoV-2 é chamada COVID-19. Apesar dos casos de infecção inicialmente estarem conectados ao mercado de animais e alimentos marinhos de Wuhan, uma eficiente transmissão humano-para-humano levou ao crescimento exponencial do número de casos e a eventual declaração de uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

          No momento, são mais de 123 milhões de casos oficialmente confirmados e mais de 2,7 milhões de mortes registradas. No geral, pacientes contraindo a forma severa da doença constituem aproximadamente 15-20% dos casos de hospitalização. No cenário de escassez de tratamentos específicos eficazes, as vacinas sendo testados ou já em uso são a nossa única estratégia para o controle efetivo da pandemia.

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          Mas não são apenas humanos sendo infectados. No dia 26 de março de 2020 tivemos o primeiro gato testado positivo para o novo coronavírus, algo que se somou a outros dois casos prévios confirmados em cães. Desde então, vários mamíferos têm se mostrado suscetíveis ao vírus. Mas existe alguma evidência de que cães e gatos podem transmitir o novo coronavírus para humanos após serem contaminados? E outros animais? O quão eles são suscetíveis ao novo vírus? Quais as recomendações das agências de saúde?


   CÃES, GATOS, CORONAVÍRUS

         Cães (Canis familiares) e gatos (Felis catus) compartilham vários dos mesmos receptores celulares presentes na nossa espécie (Homo sapiens), e usados pelos vírus para entrarem nas células hospedeiras. De fato, os vírus responsáveis pelos últimos surtos graves causados por coronavírus - SARS-CoV e MERS-CoV -, apesar de terem origem inicial de morcegos, infectaram humanos a partir de hospedeiros intermediários, incluindo civetas e camelos. Inclusive, durante o surto de SARS em 2003, cientistas reportaram que gatos estavam sendo infectados com o SARS-CoV e transmitindo o vírus para outros felinos.

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(I) Para mais informações sobre o assunto, acesse: O que sabemos até o momento sobre o novo coronavírus?

          Mas apesar do SARS-CoV-2 compartilhar 96,2% de similaridade genética com a cepa RaTG13 de coronavírus, detectada em morcegos do gênero Rhinolophus na província de Yunnan em 2013, esse novo coronavírus não tinha sido previamente detectados em humanos ou outros animais (antes da atual pandemia). Evidências recentes acumuladas sugerem que um animal intermediário mamífero - provavelmente o pangolim (gênero Mannis) (I) - foi o hospedeiro intermediário entre morcegos e humanos. Nesse sentido, dois cenários emergem: um coronavírus ancestral evoluiu no hospedeiro intermediário, capaz de infectar com alta eficiência humanos, ou um coronavírus no hospedeiro intermediário evoluiu para uma forma minimamente capaz de infectar humanos e, entre estes, evoluiu uma capacidade otimizada de infectar nossa espécie.

          Esse cenário de hospedeiro intermediário também levantou outras importantes questões. O SARS-CoV-2 é capaz de efetivamente infectar outros animais e ampliar seu espectro de reservatórios naturais? Em humanos, a doença causada por esse vírus (COVID-19) expressa uma ampla gama de graus de gravidade e de sintomas - desde febre e tosse até falhas respiratórias fatais -, mas como a infecção se comporta em outros animais? Poderia existir modelos não-humanos de infecção para testar de forma mais segura potenciais antivirais e vacinas?

           Em um estudo publicado na PNAS (Ref.17), pesquisadores analisaram um banco de dados com 410 vertebrados - incluindo 252 mamíferos - para investigar a conservação inter-espécies do ACE2 e a probabilidade dele funcionar como um receptor para o SARS-CoV-2. Analisando 25 aminoácidos nessa proteína importantes para a interação com o vírus, os pesquisadores revelaram que um amplo espectro de espécies com esses aminoácidos altamente conservados entre os mamíferos, de roedores a cetáceos. Entre os primatas, praticamente todos tinham uma sequência peptídica idêntica à nossa. Entre aqueles com alta probabilidade de ligação viral, os pesquisadores encontraram sete roedores, doze cetáceos, três cervídeos, três primatas lemuriformes, dois representantes da ordem Pilosa (a qual engloba os tamanduás) e um primata do Velho Mundo (Angola colobus). Ou seja, o que não falta são candidatos a intermediários - e de animais potencialmente suscetíveis à infecção pelo SARS-CoV-2.





            Um estudo subsequente publicado na Scientific Reports (Ref.18) também trouxe forte evidência teórica mostrando que um amplo número de mamíferos estão suscetíveis ao SARS-CoV-2, entre os quais 26 em próximo contato com humanos. 


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          Ao longo de 2020, evidências emergiram que não apenas animais selvagens, mas também os domésticos, podem também ser infectados pelo novo coronavírus. O primeiro desses casos foi um cão Pomerânio, em Hong Kong (Ref.1). O cão infectado estava vivendo junto com um paciente portando COVID-19. Inicialmente, apenas uma pequena quantidade de RNA viral foi confirmada a partir de amostras retiradas das cavidades oral e nasal do canídeo.  Posteriormente, o Departamento de Agricultura, Pesca e Conservação de Hong Kong (AFCD) confirmou que o cão estava de fato infectado pelo vírus, desenvolvendo anticorpos como resposta à infecção viral. Porém, o cão não demostrou sintomas do COVID-19.

          Já o segundo caso registrado foi de um Pastor-Alemão de 2 anos de idade vivendo também com uma pessoa infectada com COVID-19 em Pok Fu Lam, Hong Kong, e mandado para a quarentena junto com outro cão 'vira-lata' de 4 anos vivendo da mesma casa (Ref.2). Testes oral e nasal deram positivo para a infecção viral no Pastor-Alemão, mas não no outro. Assim como o caso anterior, o cão infectado não desenvolveu sintomas.

          O terceiro caso de infecção não-humana foi em um gato na província de Liège, Bélgica, infectado pelo seu dono (Ref.3). O felino apresentou sintomas da doença incluindo diarreia, vômito e dificuldade respiratória uma semana após os sintomas terem emergido em seu dono, segundo detalharam as autoridades Belgas de saúde.

          A partir desses três casos reportados, vários estudos clínicos se seguiram investigando a questão, confirmando uma alta taxa de infecção entre cães, gatos e outras espécies de mamíferos. 


   ESTUDOS CLÍNICOS

          Para esclarecer melhor essa questão, um estudo clínico publicado como preprint no periódico medRxiv (Ref.4) foi o primeiro a investigar o potencial de infecção pelo SARS-CoV-2 em animais domésticos. Usando duas cepas do novo coronavírus coletadas em Wuhan, China, e protocolos rigorosos de biossegurança (nível 4), os pesquisadores expuseram cães, porcos, galinhas, gatos, furões e patos a altas doses de SARS-CoV-2.

          Os pesquisadores encontraram que, enquanto o vírus se replica de forma muito ineficiente em cães, e incapaz de infectar porcos, galinhas e patos, a capacidade de replicação e infecção se mostrou relativamente alta entre furões e gatos, especialmente nesses últimos.

          Todos os furões testados se tornaram infectados com as duas cepas no trato respiratório superior, com dois deles - um de cada cepa - desenvolvendo sintomas como febre e perda de apetite 10-12 dias após a exposição viral. Exames patológicos nesses dois espécimes confirmaram a produção de anticorpos para o SARS-CoV-2, além de outras evidências fisiológicas positivas, como peribronquite leve nos pulmões e outros marcadores imunes. Outros experimentos levaram à conclusão de que o SARS-CoV-2 pode se replicar no trato respiratório de furões por até 8 dias, sem causar doença severa ou morte.

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          No caso dos gatos, 5 espécimes de 8 meses de idade ('sub-adultos') foram inoculados intranasalmente com as cepas virais. Dois dos gatos expostos ao vírus foram testados, e os pesquisadores encontraram RNA viral , assim como partículas virais infecciosas, no trato respiratório superior desses animais. Nos outros gatos, RNA viral foi detectado nas fezes de dois no 3° dia e em todos eles no 5° dia. Após 11 dias, RNA viral foi detectado em várias regiões do trato respiratório superior, incluindo traqueia, palato mole, amígdala e região nasal. Anticorpos específicos foram detectados nos três.

          Os três últimos gatos citados foram colocados em gaiolas e próximos de três gatos não infectados. Após um período de tempo, os pesquisadores detectaram RNA viral em um dos gatos não infectados, sugerindo que esse felino contraiu o vírus a partir de gotículas contaminadas expelidas pelos gatos infectados - ou talvez fezes e/ou urina.

          Para replicar os resultados, os pesquisadores também analisaram 10 gatos juvenis (70-100 dias de idade). Estudos histopatológicos revelaram que dois gatos expostos ao vírus tinham massivas lesões nos epitélios da mucosa nasal e traqueal, e nos pulmões, três dias depois, com um deles morrendo e o outro sendo eutanasiado (procedimento padrão para o exame histopatológico). Todos os gatos juvenis inoculados apresentaram RNA viral no trato respiratório superior. Esses resultados indicaram que o SARS-CoV-2 pode se replicar de forma eficiente em gatos, com os mais jovens sendo mais permissivos.

          Entre os 5 cães testados, apesar de dois inoculados com as cepas terem dado positivo para RNA viral em amostras retiradas de fezes, nenhum deles continham vírus infeccioso. Além disso, um Beagle inoculado e examinado histopatologicamente 4 dias depois não expressou RNA viral em nenhum órgão, incluindo na região do trato respiratório superior. Isso sugere que os cães são muito pouco suscetíveis à infecção pelo SARS-CoV-2.

          Para os outros animais testados (porcos, galinhas e patos), nenhum foi infectado, expressou RNA viral ou mostrou capaz de infectar outros.

          Nesse sentido, os autores concluíram que os gatos deveriam acompanhados de perto como parte dos esforços de eliminar o COVID-19 em humanos.

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ATUALIZAÇÃO (06/04/20): Após teste de confirmação realizado pelo Laboratório Nacional de Serviços Veterinários em Iowa, Nadia parece ser o primeiro caso conhecido de um animal infectado com o novo coronavírus (SARS-CoV-2) nos EUA. A tigresa, junto com dois tigres de Amur e três leões Africanos no Zoológico de Bronx, New York, mostraram sintomas típicos do COVID-19, incluindo tosse seca. Acredita-se que um dos tratadores, assintomático, tenha transmitido o vírus para esses felinos. Apesar do apetite dos tigres e leões infectados ter diminuído um pouco, os especialistas acreditam que eles irão se recuperar bem. Nos EUA, já são quase 337 mil casos confirmados e próximo de 10 mil mortes. New York é o grande epicentro do país, com cerca de 123 mil casos confirmados e mais de 4 mil mortes.

ATUALIZAÇÃO (12/05/20): Macacos Rhesus - e possivelmente outros primatas - são suscetíveis ao SARS-CoV-2, e desenvolvem doença respiratória que dura de 8 a 16 dias quando expostos ao vírus, incluindo características no tecido pulmonar similar àquelas vistas em pacientes humanos. O achado foi detalhado na Nature (Ref.8). Altas cargas virais no trato respiratório superior também foram detectadas nesses animais. Esses primatas podem servir como potenciais modelos laboratoriais para o estudo da patogênese da COVID-19.

ATUALIZAÇÃO (14/05/20): Um estudo publicado no periódico The New England Journal of Medicine (Ref.9) confirmou que gatos podem ser prontamente contaminados com o SARS-CoV-2. Os pesquisadores - da Universidade de Tóquio, Japão - administraram o vírus isolado de um paciente em três gatos, e, no dia seguinte, foi possível detectar o vírus em dois deles (via teste em secreção nasal dos felinos). Dentro de três dias, os pesquisadores detectaram o vírus em todos os três gatos. Na segunda parte do estudo, foram expostos mais três gatos aos gatos infectados, e todos os três se tornaram infectados dentro de seis dias. Apesar de emitirem o vírus pelas passagem nasal, nenhum dos gatos ficou doente - ou expressou sintomas - e eventualmente se livraram sozinhos do vírus. Mas os pesquisadores reforçaram que não existe evidência de que esses animais possam transmitir o vírus.

ATUALIZAÇÃO (14/05/20): No entanto, um estudo publicado na Nature (Ref.10) confirmou que dois cães em Hong Kong, China, foram infectados pelo SARS-CoV-2 transmitido por humanos. Durante a quarentena, ambos (um Pomeraniano de 17 anos de idade e um Pastor-Alemão de 2,5 anos) permaneceram assintomáticos. Mas ainda é incerto se os cães podem transmitir os vírus para outros animais, incluindo humanos.

ATUALIZAÇÃO (26/05/20): Em um estudo publicado como preprint na medRxiv (Ref.11), analisando 23 gatos convivendo com indivíduos com COVIVD-19, os pesquisadores encontraram que um deles deu resultado positivo (via teste RT-qPCR) para o SARS-CoV-2. O gato infectado estava assintomático.

ATUALIZAÇÃO (26/07/20): Em um estudo publicado no The Lancet (Ref.14), pesquisadores inocularam intranasalmente nove morcegos-da-fruta (Rousettus aegyptiacus), furões (Mustela putorius), porcos (Sus scrofa domesticus), e 17 galinhas (Gallus gallus domesticus) com o SARS-CoV-2. Após análises via RT-PCR e testes com anticorpos - além de testes imunoquímicos histopatológicos pós-autópsia -, os pesquisadores encontraram que os porcos e as galinhas não são suscetíveis ao SARS-CoV-2, mas que sete dos morcegos (78%) expressaram uma infecção transiente e que 1 de 3 morcegos mantidos em contato com os morcegos inoculados acabaram infectados. Infecção ocorreu em todos os furões, mas nenhum sinal clínico foi observado. Todos os 3 furões não-inoculados mantidos em contato com os furões inoculados foram infectados. Portanto, replicação eficiente foi observada em morcegos e, especialmente, em furões, com esses últimos lembrando humanos infectados com sintomas subclínicos e com alta capacidade de transmissão.

ATUALIZAÇÃO (18/09/20): Estudos publicados nas últimas semanas vêm fortemente sugerindo que uma proporção bem maior do que o pensado de cães e de gatos estão sendo infectados pelo SARS-CoV-2. Para mais informações, acesse: Últimas da pandemia: Martas parecem transmitir o novo coronavírus para humanos

ATUALIZAÇÃO (09/11/20): Em um estudo publicado no periódico Emerging Infectious Diseases (Ref.16) mostrou que o guaxinim-cão (Nyctereutes procyonoides) também é suscetível à infecção pelo SARS-CoV-2, mas sem demonstrarem sinais de uma doença associada. A replicação do vírus e lesões ocorrem no tecido nasal desse animal, e existe transmissão intra-espécie.

ATUALIZAÇÃO (12/01/21): No Zoológico Safari Park de San Diego, EUA, oito gorilas da subespécie Gorilla gorilla gorilla (gorila-ocidental-das-terras-baixas) foram infectados pelo SARS-CoV-2, desenvolvendo sintomas como tosse e congestão nasal (Ref.18). A notícia traz grande preocupação para a comunidade científica, porque os vírus respiratórias oriundos de humanos são a principal causa de morte em várias comunidades de primatas superiores e são responsáveis por 20% das mortes súbitas em gorilas das montanhas na África.




ATUALIZAÇÃO (20/01/21): Encontrado do sul do Canadá até o norte do Brasil, essa espécie de veado (Odocoileus virginianus) - foto abaixo - mostrou-se altamente suscetível ao SARS-CoV-2 em experimentos laboratoriais (inoculação intranasal de partículas virais), resultando em infecção subclínica e com os espécimes infectados capazes de transmitir partículas virais infecciosas para outras membros do mesmo grupo via secreções nasais. Esses achados foram descritos em um estudo publicado como preprint (ainda não revisado por pares) na plataforma bioRxiv (Ref.19). Todos os espécimes infectados diretamente ou indiretamente produziram anticorpos neutralizantes anti-SARS-CoV-2.



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   MARTAS

          Milhares de martas foram sacrificadas na Holanda, e a maioria dos animais sacrificados eram filhotes nascidos há apenas algumas semanas. O SARS-CoV-2 atacou fazendas que criam esses animais - martas (mustelídeos do gênero Martes) - para a produção de peles (algo já bastante polêmico e amplamente criticado por grupos de proteção aos animais). 

          Análises genéticas e epidemiológicas mostraram que no mínimo dois trabalhadores nessas fazendas foram contaminados com o vírus oriundo de martas infectadas. O SARS-CoV-2 pode infectar outros animais, incluindo gatos, cães, tigres, hamsters, furões e macacos, mas não existia nenhum caso conhecido da transmissão desses animais para humanos e é pouco provável que gatos ou cães estejam contribuindo em alguma extensão para a disseminação da doença.

          O primeiro surto epidêmico de infecção pelo SARS-CoV-2 em martas foi reportado nos dias 23 e 25 de abril em fazendas possuindo 12 mil e 7,5 mil animais respectivamente. Muitas martas estavam morrendo - acima do normal - e algumas tinham secreções nasais ou dificuldade respiratória. Em ambos os casos, o vírus foi primeiro transmitido por um trabalhador infectado com o vírus. 

          O vírus vem se alastrando com fúria desde então entre esses mamíferos, e hoje atingiu um acumulado de 12 das 130 fazendas holandesas de martas. A transmissão parece ocorrer via gotículas contaminadas em superfícies ou via poeira contendo matéria fecal de animais infectados. Assim como humanos, martas infectadas podem ser assintomáticas, ou desenvolver problemas severos, incluindo pneumonia. Em uma fazenda a mortalidade alcançou valores pouco significativos, mas em outra a taxa foi de quase 10%. 

          Essa variação na taxa de mortalidade ainda é um mistério, e abre um alerta: os vírus podem evoluir para formas mais letais em hospedeiros criados em grandes aglomerações (a gripe aviária em galinhas é um exemplo). Isso porque o vírus não é penalizado quando se torna mais letal por ter vários outros hospedeiros ao redor para se espalhar com facilidade. Porém, até o momento, o SARS-CoV-2 entre as martas não tem se mostrado mais ou menos virulento. Nesse último ponto, uma vez que mais de 90% dos animais estavam infectados, o vírus parava de circular devido à imunidade de rebanho... até alcançar uma nova fazenda. 

           Nenhum outro país reportou infecções em martas a não ser na Holanda. E como as autoridades Holandesas suspeitaram que 50 mil casos de humanos infectados no país estavam ligados às martas, eles acabaram decidindo pelos sacrifícios em massa. A questão se tornou visível em um estudo preprint publicado na bioRxiv (Ref.12). Martas, portanto, podem representar um reservatório para o vírus e fonte de contaminação para humanos. Mais um motivo para acabar com as fazendas de peles.

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ATUALIZAÇÃO (18/08/20): Além da Holanda, infecções de martas têm sido documentadas em outros países, como Dinamarca e Espanha. Agora, nos EUA, o vírus começou a se alastrar pelas fazendas de martas do país, as quais somam um total de pelo menos 245 em 22 estados (Ref.15).

ATUALIZAÇÃO (18/09/20): Transmissão zoonótica a partir de martas parece ocorrer: Últimas da pandemia: Martas parecem transmitir o novo coronavírus para humanos
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   DEVEMOS NOS PREOCUPAR?

           Ainda é difícil inferir o quão eficientes os gatos e cães são de serem infectados em um ambiente não-controlado ou se são realmente capazes de transmitirem para humanos. Suscetíveis em alguma extensão ao SARS-CoV-2 eles, de fato, parecem ser. Considerando a alta prevalência desses animais nos lares das pessoas, é improvável que eles atuem de forma importante na transmissão do vírus. Autoridades de saúde continuam reforçando que o foco deve ser voltado para o distanciamento/isolamento social, uso universal de máscaras e higiene das mãos para reduzir o risco de transmissão humano-para-humano (Ref.2-6). 

        No entanto, um estudo mais recente publicado na Nature (Ref.20), pesquisadores da Universidade de Bari resolveram analisar 540 cães e 277 gatos no norte da Itália entre março e maio deste ano, vivendo em casas com pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 e em regiões severamente afetadas pela COVID-19. Testes com anticorpos acusaram uma infecção prévia pelo vírus em 3% dos cães e 4% dos gatos analisados. Essas taxas de infecção nesses animais são comparáveis com aquelas vistas em pessoas na Europa na época da testagem. Porém, é importante reforçar que não existem evidências de que cães e gatos possam transmitir o vírus para humanos.
          
          É válido também ressaltar que associado ao surto de SARS, apesar dos gatos também terem se mostrado capaz de serem infectados e de transmitirem o vírus (SARS-CoV) para outros gatos, não existem evidências de que esses animais estavam transmitindo o patógeno para humanos ou fomentando a epidemia.          .

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          Por precaução, algumas agências de saúde recomendam que cães e gatos em contato com pacientes com coronavírus também sejam colocados em quarentena, principalmente porque não se conhece o caminho futuro de evolução do vírus ou da pandemia. Considerando que mamíferos como primatas, furões, morcegos, tigres e martas são suscetíveis ao vírus, as pessoas sabidamente infectadas ou assintomáticas devem restringir o contato com outros animais, especialmente mamíferos, e também evitar expor seus animais de estimação a outros animais. E se seu cão ou gato expressar sintomas de alguma doença, leve-o imediatamente ao veterinário. São medidas que protegem tanto humanos quanto cães e gatos.

          E independentemente do novo vírus, é sempre uma boa recomendação lavar as mãos com água e sabão após o contato com cães e gatos - e seus alimentos e resíduos - para prevenir também a transmissão de outros patógenos (zoonoses), como  E.coli e Salmonella. Levar seu animal doméstico ao veterinário regularmente é outra prática mais do que recomendável.

          No entanto, temos outro grande problema explicitado pelo caso das martas: evolução viral. Quanto mais o vírus se espalha, mais perigosas mutações se acumulam e mais reservatórios naturais são potencialmente criados. E esses reservatórios naturais - em animais domesticados ou selvagens - é um ambiente perfeito para uma dramática divergência evolutiva capaz de gerar inclusive um novo coronavírus (SARS-CoV-3) que pode potencialmente ser retransmitido zoonoticamente para humanos. Além disso, estamos ameaçando espécies em ambiente selvagem já em ameaça de conservação. A devastação ambiental agrava a situação.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.info.gov.hk/gia/general/202003/26/P2020032600756.htm
  2. https://www.sciencemag.org/news/2020/03/should-pets-be-tested-coronavirus
  3. http://www.afsca.be/newsletter-da-vt/newsletter285_nl.asp
  4. https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.03.30.015347v1.full.pdf
  5. https://www.nature.com/articles/d41586-020-00984-8
  6. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/daily-life-coping/animals.html
  7. https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.04.07.029090v1
  8. https://www.nature.com/articles/s41586-020-2324-7
  9. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMc2013400
  10. https://www.nature.com/articles/s41586-020-2334-5
  11. https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.14.20101444v1
  12. https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.05.18.101493v1
  13. https://www.thelancet.com/journals/lanmic/article/PIIS2666-5247(20)30089-6/fulltext
  14. https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.07.21.214346v2
  15. https://www.sciencemag.org/news/2020/08/covid-19-hits-us-mink-farms-after-ripping-through-europe
  16. https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/12/20-3733_article
  17. https://www.pnas.org/content/early/2020/08/20/2010146117
  18. https://www.sciencemag.org/news/2021/01/captive-gorillas-test-positive-coronavirus
  19. https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2021.01.13.426628v1
  20. https://www.nature.com/articles/s41467-020-20097-0