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Gatos e outros animais não-humanos podem ser infectados pelo novo coronavírus?

- Artigo atualizado no dia 26 de maio de 2020 -

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          Em dezembro de 2019, um novo coronavírus causou um grande surto de doença pulmonar na cidade de Wuhan, a capital da província de Hubei na China, e tem desde então se espalhado globalmente. O vírus eventualmente foi nomeado SARS-CoV-2, devido ao fato do seu genoma (constituído de RNA) ser ~82% idêntico ao coronavírus (SARS-CoV) responsável pelo SARS (síndrome respiratória aguda grave). Ambos os vírus pertencem ao clado b do gênero Betacoronavirus. A doença causada pelo SARS-CoV-2 é chamada COVID-19. Apesar dos casos de infecção inicialmente estarem conectados ao mercado de animais e alimentos marinhos de Wuhan, uma eficiente transmissão humano-para-humano levou ao crescimento exponencial do número de casos e a eventual declaração de uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

          No momento, são mais de 5,6 milhões de casos oficialmente confirmados e mais de 351 mil mortes registradas. No geral, pacientes contraindo a forma severa da doença constituem aproximadamente 15-20% dos casos. Nenhum tratamento efetivo ou vacina ainda existe para o COVID-19.

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          Mas não são apenas humanos sendo infectados. Na última quinta-feira (26/03), tivemos o primeiro gato testado positivo para o novo coronavírus, algo que se soma a outros dois casos confirmados em cães. Mas existe alguma evidência de que cães e gatos podem transmitir o novo coronavírus para humanos após serem contaminados? O quão eles são suscetíveis ao novo vírus? Quais as recomendações das agências de saúde?


   CÃES, GATOS, CORONAVÍRUS

         Cães (Canis familiares) e gatos (Felis catus) compartilham vários dos mesmos receptores celulares presentes na nossa espécie (Homo sapiens), e usados pelos vírus para entrarem nas células hospedeiras. De fato, os vírus responsáveis pelos últimos surtos graves causados por coronavírus - SARS-CoV e MERS-CoV -, apesar de terem origem inicial de morcegos, infectaram humanos a partir de hospedeiros intermediários, incluindo civetas e camelos. Inclusive, durante o surto de SARS em 2003, cientistas reportaram que gatos estavam sendo infectados com o SARS-CoV e transmitindo o vírus para outros felinos.

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(I) Para mais informações sobre o assunto, acesse: O que sabemos até o momento sobre o novo coronavírus?

          Mas apesar do SARS-CoV-2 compartilhar 96,2% de similaridade genética com a cepa RaTG13 de coronavírus, detectada em morcegos do gênero Rhinolophus na província de Yunnan em 2013, esse novo coronavírus não tinha sido previamente detectados em humanos ou outros animais (antes da atual pandemia). Evidências recentes acumuladas sugerem que um animal intermediário mamífero - provavelmente o pangolim (gênero Mannis) (I) - foi o hospedeiro intermediário entre morcegos e humanos. Nesse sentido, dois cenários emergem: um coronavírus ancestral evoluiu no hospedeiro intermediário, capaz de infectar com alta eficiência humanos, ou um coronavírus no hospedeiro intermediário evoluiu para uma forma minimamente capaz de infectar humanos e, entre estes, evoluiu uma capacidade otimizada de infectar nossa espécie.

          Esse cenário de hospedeiro intermediário também levanta outras importantes questões. O SARS-CoV-2 é capaz de infectar outros animais e ampliar seu espectro de reservatórios naturais? Em humanos, a doença causada por esse vírus (COVID-19) expressa uma ampla gama de graus de gravidade e de sintomas - desde febre e tosse até falhas respiratórias fatais -, mas como a infecção se comporta em outros animais? Poderia existir modelos não-humanos de infecção para testar de forma mais segura potenciais antivirais e vacinas?

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          Nas últimas semanas, evidências emergiram que não apenas animais selvagens, mas também os domésticos, podem também ser infectados pelo novo coronavírus. O primeiro desses casos foi um cão Pomerânio, em Hong Kong (Ref.1). O cão infectado estava vivendo junto com um paciente portando COVID-19. Inicialmente, apenas uma pequena quantidade de RNA viral foi confirmada a partir de amostras retiradas das cavidades oral e nasal do canídeo.  Posteriormente, o Departamento de Agricultura, Pesca e Conservação de Hong Kong (AFCD) confirmou que o cão estava de fato infectado pelo vírus, desenvolvendo anticorpos como resposta à infecção viral. Porém, o cão não demostrou sintomas do COVID-19.

          Já o segundo caso, mais recente, foi de um Pastor-Alemão de 2 anos de idade vivendo também com uma pessoa infectada com COVID-19 em Pok Fu Lam, Hong Kong, e mandado para a quarentena junto com outro cão 'vira-lata' de 4 anos vivendo da mesma casa (Ref.2). Testes oral e nasal deram positivo para a infecção viral no Pastor-Alemão, mas não no outro. Assim como o caso anterior, o cão infectado não desenvolveu sintomas.

          Por fim, o último caso de infecção não-humana foi em um gato na província de Liège, Bélgica, infectado pelo seu dono (Ref.3). O felino apresentou sintomas da doença incluindo diarreia, vômito e dificuldade respiratória uma semana após os sintomas terem emergido em seu dono, segundo detalharam as autoridades Belgas de saúde.

          Com base nesses três casos reportados, é possível que cães, gatos e outros animais domésticos possam estar atuando na disseminação do vírus entre humanos?


   ESTUDO CLÍNICO

          Para esclarecer melhor essa questão, um estudo preprint publicado hoje no periódico medRxiv (Ref.4) foi o primeiro a investigar o potencial de infecção pelo SARS-CoV-2 em animais domésticos. Usando duas cepas do novo coronavírus coletadas em Wuhan, China, e protocolos rigorosos de biossegurança (nível 4), os pesquisadores expuseram cães, porcos, galinhas, gatos, furões e patos a altas doses de SARS-CoV-2.

          Os pesquisadores encontraram que, enquanto o vírus se replica de forma muito ineficiente em cães, e incapaz de infectar porcos, galinhas e patos, a capacidade de replicação e infecção se mostrou relativamente alta entre furões e gatos, especialmente nesses últimos.

          Todos os furões testados se tornaram infectados com as duas cepas no trato respiratório superior, com dois deles - um de cada cepa - desenvolvendo sintomas como febre e perda de apetite 10-12 dias após a exposição viral. Exames patológicos nesses dois espécimes confirmaram a produção de anticorpos para o SARS-CoV-2, além de outras evidências fisiológicas positivas, como peribronquite leve nos pulmões e outros marcadores imunes. Outros experimentos levaram à conclusão de que o SARS-CoV-2 pode se replicar no trato respiratório de furões por até 8 dias, sem causar doença severa ou morte.

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          No caso dos gatos, 5 espécimes de 8 meses de idade ('sub-adultos') foram inoculados intranasalmente com as cepas virais. Dois dos gatos expostos ao vírus foram testados, e os pesquisadores encontraram RNA viral , assim como partículas virais infecciosas, no trato respiratório superior desses animais. Nos outros gatos, RNA viral foi detectado nas fezes de dois no 3° dia e em todos eles no 5° dia. Após 11 dias, RNA viral foi detectado em várias regiões do trato respiratório superior, incluindo traqueia, palato mole, amígdala e região nasal. Anticorpos específicos foram detectados nos três.

          Os três últimos gatos citados foram colocados em gaiolas e próximos de três gatos não infectados. Após um período de tempo, os pesquisadores detectaram RNA viral em um dos gatos não infectados, sugerindo que esse felino contraiu o vírus a partir de gotículas contaminadas expelidas pelos gatos infectados - ou talvez fezes e/ou urina.

          Para replicar os resultados, os pesquisadores também analisaram 10 gatos juvenis (70-100 dias de idade). Estudos histopatológicos revelaram que dois gatos expostos ao vírus tinham massivas lesões nos epitélios da mucosa nasal e traqueal, e nos pulmões, três dias depois, com um deles morrendo e o outro sendo eutanasiado (procedimento padrão para o exame histopatológico). Todos os gatos juvenis inoculados apresentaram RNA viral no trato respiratório superior. Esses resultados indicaram que o SARS-CoV-2 pode se replicar de forma eficiente em gatos, com os mais jovens sendo mais permissivos.

          Entre os 5 cães testados, apesar de dois inoculados com as cepas terem dado positivo para RNA viral em amostras retiradas de fezes, nenhum deles continham vírus infeccioso. Além disso, um Beagle inoculado e examinado histopatologicamente 4 dias depois não expressou RNA viral em nenhum órgão, incluindo na região do trato respiratório superior. Isso sugere que os cães são muito pouco suscetíveis à infecção pelo SARS-CoV-2.

          Para os outros animais testados (porcos, galinhas e patos), nenhum foi infectado, expressou RNA viral ou mostrou capaz de infectar outros.

          Nesse sentido, os autores concluíram que os gatos deveriam acompanhados de perto como parte dos esforços de eliminar o COVID-19 em humanos.

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ATUALIZAÇÃO (12/05/20): Macacos Rhesus - e possivelmente outros primatas - são suscetíveis ao SARS-CoV-2, e desenvolvem doença respiratória que dura de 8 a 16 dias quando expostos ao vírus, incluindo características no tecido pulmonar similar àquelas vistas em pacientes humanos. O achado foi detalhado na Nature (Ref.8). Altas cargas virais no trato respiratório superior também foram detectadas nesses animais. Esses primatas podem servir como potenciais modelos laboratoriais para o estudo da patogênese da COVID-19.

ATUALIZAÇÃO (14/05/20): Um estudo publicado no periódico The New England Journal of Medicine (Ref.9) confirmou que gatos podem ser prontamente contaminados com o SARS-CoV-2. Os pesquisadores - da Universidade de Tóquio, Japão - administraram o vírus isolado de um paciente em três gatos, e, no dia seguinte, foi possível detectar o vírus em dois deles (via teste em secreção nasal dos felinos). Dentro de três dias, os pesquisadores detectaram o vírus em todos os três gatos. Na segunda parte do estudo, foram expostos mais três gatos aos gatos infectados, e todos os três se tornaram infectados dentro de seis dias. Apesar de emitirem o vírus pelas passagem nasal, nenhum dos gatos ficou doente - ou expressou sintomas - e eventualmente se livraram sozinhos do vírus. Mas os pesquisadores reforçaram que não existe evidência de que esses animais possam transmitir o vírus.

ATUALIZAÇÃO (14/05/20): No entanto, um estudo publicado na Nature (Ref.10) confirmou que dois cães em Hong Kong, China, foram infectados pelo SARS-CoV-2 transmitido por humanos. Durante a quarentena, ambos (um Pomeraniano de 17 anos de idade e um Pastor-Alemão de 2,5 anos) permaneceram assintomáticos. Mas ainda é incerto se os cães podem transmitir os vírus para outros animais, incluindo humanos.

ATUALIZAÇÃO (26/05/20): Em um estudo publicado como preprint na medRxiv (Ref.11), analisando 23 gatos convivendo com indivíduos com COVIVD-19, os pesquisadores encontraram que um deles deu resultado positivo (via teste RT-qPCR) para o SARS-CoV-2. O gato infectado estava assintomático.
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   DEVEMOS NOS PREOCUPAR?

          Como apenas um único estudo de pequeno porte foi realizado, ainda é difícil inferir o quão eficientes os gatos são de serem infectados em um ambiente não-controlado ou se são realmente capazes de transmitirem para humanos. Suscetíveis em alguma extensão ao SARS-CoV-2 eles, de fato, parecem ser. Mas até agora apenas um gato foi reportado infectado e com sintomas, mesmo em meio à pandemia mundial (!). Considerando a alta prevalência dessas animais nos lares das pessoas, é improvável que eles atuem de forma importante na transmissão do vírus. Autoridades de saúde continuam reforçando que o foco deve ser voltado para o isolamento social e higiene das mãos para reduzir o risco de transmissão humano-para-humano (Ref.2-6).

          Só nos EUA, existem cerca de 150 milhões de cães e gatos, e se esses animais fossem facilmente contaminados a partir de humanos infectados, inúmeros casos teriam sido reportados. Para reforçar, testes realizados recentemente em milhares de cães e gatos - incluindo vários em contato direto com pessoas infectadas e/ou sofrendo de problemas respiratórios - deram negativo (nenhuma detecção de RNA viral) para todas as amostras (Ref.1-2).

          Isso é corroborado por um estudo preprint mais recente publicado na bioRxiv (Ref.7), o qual testou 21 animais domésticos (9 gatos e 12 cães) vivendo em contato próximo com seus donos e pertencentes a uma comunidade veterinária de 20 estudantes dos quais 2 desses últimos testaram positivo para o COVID-19 e 11 dos restantes consecutivamente mostraram sinais clínicos compatíveis com a doença (febre, tosse, etc.). Apesar de alguns dos animais domésticos apresentarem vários sinais clínicos indicativos de uma infecção pelo SARS-CoV-2, nenhum deles testou positivo para o vírus e nem possuíam anticorpos específicos

          É válido também ressaltar que associado ao surto de SARS, apesar dos gatos também terem se mostrado capaz de serem infectados e de transmitirem o vírus (SARS-CoV) para outros gatos, não existem evidências de que esses animais estavam transmitindo o patógeno para humanos ou fomentando a epidemia.          .

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          Por precaução, algumas agências de saúde recomendam que cães e gatos em contato com pacientes com coronavírus também sejam colocados em quarentena, principalmente porque não se conhece o caminho futuro de evolução do vírus ou da pandemia. Pessoas doentes devem restringir o contato com outros animais, especialmente mamíferos, e também evitar expor seus animais de estimação a outros animais. E se seu cão ou gato expressar sintomas de alguma doença, leve-o imediatamente ao veterinário. São medidas que protegem tanto humanos quanto cães e gatos.

          E independentemente do novo vírus, é sempre uma boa recomendação lavar as mãos com água e sabão após o contato com cães e gatos - e seus alimentos e resíduos - para prevenir também a transmissão de outros patógenos (zoonoses), como  E.coli e Salmonella. Levar seu animal doméstico ao veterinário regularmente é outra prática mais do que recomendável.

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ATUALIZAÇÃO (06/04/20): Após teste de confirmação realizado pelo Laboratório Nacional de Serviços Veterinários em Iowa, Nadia parece ser o primeiro caso conhecido de um animal infectado com o novo coronavírus (SARS-CoV-2) nos EUA. A tigresa, junto com dois tigres de Amur e três leões Africanos no Zoológico de Bronx, New York, mostraram sintomas típicos do COVID-19, incluindo tosse seca. Acredita-se que um dos tratadores, assintomático, tenha transmitido o vírus para esses felinos. Apesar do apetite dos tigres e leões infectados ter diminuído um pouco, os especialistas acreditam que eles irão se recuperar bem. Nos EUA, já são quase 337 mil casos confirmados e próximo de 10 mil mortes. New York é o grande epicentro do país, com cerca de 123 mil casos confirmados e mais de 4 mil mortes.
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.info.gov.hk/gia/general/202003/26/P2020032600756.htm
  2. https://www.sciencemag.org/news/2020/03/should-pets-be-tested-coronavirus
  3. http://www.afsca.be/newsletter-da-vt/newsletter285_nl.asp
  4. https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.03.30.015347v1.full.pdf
  5. https://www.nature.com/articles/d41586-020-00984-8
  6. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/daily-life-coping/animals.html
  7. https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.04.07.029090v1
  8. https://www.nature.com/articles/s41586-020-2324-7
  9. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMc2013400
  10. https://www.nature.com/articles/s41586-020-2334-5
  11. https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.14.20101444v1