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Como a Nova Zelândia conseguiu eliminar a transmissão da COVID-19 no país?

Com uma população total superior a 5 milhões de habitantes e situada em uma ilha (e arquipélago associado) no sul do Oceano Pacífico, a Nova Zelândia, sob a liderança da Primeira-Ministra Jacinda Arden, conseguiu eliminar a transmissão do novo coronavírus (SARS-CoV-2) - responsável pela doença COVID-19 -, acumulando um total de apenas 1569 casos e 22 mortes. Se comparássemos apenas em questão de números, esse total de mortes seria equivalente a ~924 mortes caso considerássemos a população do Brasil (~210 milhões de habitantes). Mas, no Brasil, estamos há meses com mais de 1000 mortes diárias, e um acumulado que já ultrapassou as 100 mil mortes (e um número provavelmente muito subestimado).

E a principal resposta para esse abismo epidemiológico entre Brasil e Nova Zelândia? Política guiada pela Ciência na ilha do Pacífico e Ciência guiada pela política no caos Sul-Americano.

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Logo após as descrições iniciais do surto do novo coronavírus em Wuhan, na China, reportes em janeiro deste ano confirmaram que a COVID-19 era quase certa de se transformar em uma séria pandemia. Apesar do natural isolamento geográfico da Nova Zelândia, as autoridades do país sabiam que a introdução do SARS-CoV-2 era iminente por causa do alto número de turistas e estudantes que chegam ao país todo verão, predominantemente da Europa e da China continental. Os modelos epidemiológicos de cientistas no país indicaram que a pandemia se alastraria rápido, colapsando o sistema de saúde, e levando irreparável dano aos povos nativos Maõri e pessoas do Pacífico. 

Nesse sentido, o governo da Nova Zelândia começou a implementar um plano prévio voltado para pandemias de influenza (vírus da gripe) já no começo de fevereiro, o qual incluía o preparo de hospitais para um maior influxo de pacientes. Também foi iniciado um reforço nas políticas de controle de fronteiras para atrasar o chegada da pandemia.

O primeiro caso na Nova Zelândia de COVID-19 foi diagnosticado em 26 de fevereiro. Nessa mesma semana, as autoridades Chinesas reportaram que a infecção pelo SARS-CoV-2 estava se comportando mais como uma síndrome respiratória aguda grave (SARS) do que como uma gripe, sugerindo que um confinamento da doença era possível.

Já pelo meio de março, estava claro que a transmissão comunitária estava ocorrendo na Nova Zelândia e que o país não possuía uma testagem e uma capacidade de rastreamento dos casos suficientes para conter o vírus - como feito com sucesso na Coreia do Sul, por exemplo. Assim, seguindo fortemente o aconselhamento de especialistas e as evidências científicas, os líderes do país - especialmente a Primeira-Ministra Jacinda Arden - mudaram decisivamente a estratégia de mitigação para uma estratégia de eliminação. O governo implementou um estrito lockdown (quarentena total) em todo o país (designado Alerta Nível 4) no dia 26 de março, incluindo o fechamento das fronteiras, a obrigação de permanecer em casa, o fechamento dos comércios e a suspensão de todas as atividades não-essenciais. 

Durante esse período de exponencial aumento dos casos locais, muitas pessoas se perguntaram se essa forma intensiva de controle iria funcionar.  

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Após 5 semanas de quarentena total, e com o número de casos declinando rapidamente, a Nova Zelândia diminui o nível de emergência para Alerta de Nível 3 por um adicional de 2 semanas, resultando em um total de 7 semanas do que foi essencialmente uma ordem nacional de 'ficar em casa'. 

Jacinda Ardern, em pronunciamento oficial, afirmou então no dia 27 de abril que o país conseguiu vencer a batalha da primeira onda contra o novo coronavírus, ao não registrar mais casos de contágios locais. "Não há transmissão [do vírus] generalizada e não detectada na Nova Zelândia", declarou Ardern. "Vencemos essa batalha." Algumas empresas, os estabelecimentos que entregam comida e as escolas foram autorizadas a reabrir as portas. Mas Arden também reforçou que não existia nenhuma certeza de que o risco da pandemia havia desaparecido por completo. 

No início de maio, o último caso conhecido de COVID-19 foi identificado na comunidade e a pessoa foi colocada em isolamento, marcando o fim definitivo da transmissão comunitária identificável. Em 8 de junho, o governo anunciou a redução no nível de emergência para Alerta Nível 1, portanto efetivamente declarando o fim da pandemia sobre a Nova Zelândia, 103 dias após a identificação do primeiro caso. O país se encontra agora em uma fase de pós-eliminação, a qual também traz suas próprias incertezas.

Os únicos casos que estão sendo identificados no país são entre viajantes internacionais, todos os quais são mantidos em quarentena ou isolamento por 14 dias após a chegada, para que não comprometam o status de eliminação do país. Obviamente, a Nova Zelândia permanece vulnerável para surtos futuros oriundos de falhas no controle de fronteiras e das políticas de isolamento/quarentena. De fato, vários países que conseguiram suprimir a curva epidêmica inicial do SARS-CoV-2 - incluindo a China, Hong Kong, Singapura, Coreia do Sul e Austrália - têm experienciado reincidências de surtos pontuais, com rápidas respostas de re-escalação das medidas de controle, como uso mandatório universal de máscaras (algo aliás que não foi ainda implementado na Nova Zelândia) (!).

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(!) Porém, mais recentemente, o Ministério da Saúde da Nova Zelândia (I) reforçou a recomendação do uso universal das máscaras para o enfrentamento de qualquer possível novo surto do SARS-CoV-2 no país. Para mais informações, acesse: Quais são as melhores e piores máscaras caseiras contra a COVID-19?
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O número total de casos (1569) e de mortes (22) têm permanecido baixos no país, com a taxa de mortalidade por habitante (4 para cada 1 milhão de habitantes) sendo uma das menores entre as nações desenvolvidas. A vida pública retornou ao quase normal. Muitas partes da economia doméstica estão agora operando a níveis pré-COVID-19. Está sendo planejado no momento medidas de cuidadoso relaxamento de algumas políticas de controle das fronteiras, como permitir que viajantes de jurisdições estrangeiras (nacional ou regional) que também eliminaram a COVID-19 (ex.: algumas ilhas do Pacífico) entrem no país sem quarentena.

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Para mitigar os efeitos adversos na economia das medidas mais estritas de isolamento social, o governo na Nova Zelândia instituiu um programa especial de gastos visando dar suporte às empresas e negócios diversos, e suplementar a renda de empregados que perderam seus empregos ou cujos empregos estavam ameaçados.

Decisões governamentais rápidas e decisivas e baseadas na ciência foram críticas para a supressão pandêmica no país. A implementação de intervenção em vários níveis (medidas de controle de fronteiras, medidas de controle de transmissão comunitária, e medidas de controle caso-baseadas) comprovaram-se efetivas.

Aliado à confiança na Ciência, a Primeira-Ministra Jacinda Arden forneceu liderança empática e efetivamente comunicou mensagens essenciais para o público - reforçando que o combate à pandemia seria o trabalho unificado de um "time de 5 milhões" -, o que resultou em uma alta confiança pública e aderência voluntária às rígidas e desgastantes medidas de controle epidêmico.

Enquanto isso, no Brasil, já registramos quase 3 milhões de casos e mais de 100,2 mil mortes, com a "liderança" de um presidente que já derrubou dois Ministros da Saúde por causa de um medicamento sem eficácia terapêutica contra a COVID-19, que tenta diminuir a todo momento a gravidade da pandemia e da doença associada, e que, ao ser questionado sobre o enorme número de casos de mortes acumuladas respondeu "E daí?". Temos um número ridículo de testagens, completa desorganização entre os níveis federal e estadual, políticas falhas de isolamento social, mensagens contraditórias e frequentemente anti-científicas entre os setores governamentais para a população, e uma curva epidêmica que se transformou em um platô de alto número diário de mortes (>1000 na média). Um caos fruto de uma ciência abafada pela ignorância política. 


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ATUALIZAÇÃO (14/08): A Primeira-Ministra Jacinda Ardern impôs um lockdown de 12 dias na maior cidade do país, Auckland (1). Com 1,5 milhão de habitantes, a cidade voltou agora para um estado de Alerta Nível 3, após terem sido reportados novos casos de COVID-19, ligados a 4 membros infectados de uma mesma família (com exceção de um indivíduo entrando no país e isolado no controle de fronteira). São agora 29 casos confirmados, e um total de 38 pessoas colocadas em quarentena. Os cientistas do país ainda não sabem como ocorreram essas infecções, e não acreditam que o vírus (SARS-CoV-2) estava circulando sem ser detectado nos últimos 3 meses, especialmente considerando o sistema de testagem imposto nos hospitais (2). Talvez algum tipo de falha no controle de fronteira. A possibilidade da exposição viral ter vindo de algum alimento importado contaminado, apesar de remota, está sendo também investigada (de fato, um membro da família lidou com um produto alimentício importado).

O notório cientista e epidemiologista da Nova Zelândia Prof. Michael Baker afirmou: "A Nova Zelândia irá se livrar do vírus de novo."
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> Referência: NEJM

(I) Referência adicional: Health.govt.nz

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