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Agências de saúde alertam: Maconha NÃO deve ser usada durante a gravidez e a lactação


           Esta semana, o estado de New York, EUA, legalizou o uso recreativo de maconha (ou marijuana), assim como a venda regulada. O uso (fumo ou ingestão) no estado agora será permitido para adultos com 21 anos de idade ou mais, criando o potencial de uma indústria de US$4,2 bilhões. Porém, existem problemas sendo ignorados com as massivas campanhas de legalização da maconha em vários países. Assim como o consumo alcoólico e o fumo de tabaco – ambos também legalizados ao redor do mundo – trazem prejuízos e riscos à saúde, o mesmo está associado com o uso recreativo da maconha (!), mas muitos estão promovendo a maconha recreativa como algo saudável e mesmo terapêutico, distorcendo a real utilização medicinal da Cannabis e seus derivados (ex.: uso e estudo de extratos e compostos isolados como o canabidiol para o tratamento de problemas específicos de saúde, levando também em conta o balanço de riscos e benefícios). 

(!) Leitura recomendadaFumo e uso recreativo da maconha: lobo sob pele de cordeiro

            Maconha NÃO deve ser usada por crianças e adolescentes, devido à interferência direta e deletéria dessa droga no sistema endocanabinoide em desenvolvimento nessas duas fases. E, mais importante, maconha e seus derivados NÃO devem ser usados por mulheres grávidas e lactantes. 

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   MACONHA, GRAVIDEZ E LACTAÇÃO

           Cannabis é um gênero de plantas da família Cannabaceae, as quais contêm mais de 80 compostos biologicamente ativos. Os mais conhecidos desses compostos é o THC (Δ-9-tetrahidrocanabinol ) e o CBD (canabidiol). Produtos manufaturados a partir da Cannabis incluem a maconha e o haxixe, os quais possuem variados teores de THC e de CBD. 


           É raro e preocupante ver alguém divulgando que o consumo de maconha ou que qualquer outro produto extraído da Cannabis NÃO deve ser usado durante a gravidez e a amamentação, com especial preocupação quanto à exposição ao THC. Mesmo produtos contendo apenas CBD não são aprovados por agências de saúde para seu uso na gravidez, e não existem estudos suficientes atestando a segurança de uso dessa substância pelas grávidas e pelas lactantes (Ref.1-2). Pelo contrário, estudos em laboratório em modelos de animais não-humanos têm mostrado que a exposição de CBD causa problemas com o sistema reprodutivo de fetos do sexo masculino (Ref.3). Esses alertas são reforçados pela Administração de Drogas e de Alimentos dos EUA, Academia Americana de Pediatria, Faculdade Americana Obstétrica e de Ginecologia, e a Academia de Medicina da Amamentação (Ref.4-5). Não existem níveis seguros de exposição na gravidez e na lactação aos canabinoides (Ref.6).

          O THC - principal composto psicoativo da maconha - atravessa a placenta, a barreira sangue-cérebro, é altamente lipofílico (afinidade com gordura, podendo ser acumulado nos tecidos adiposos do corpo materno e fetal), e pode ser detectado no leite materno. De fato, bebês de mães testadas positivas para THC testam positivo para THC (Ref.7), e inclusive podem experimentar sintomas de síndrome de abstinência (Ref.3). O CBD também pode ser transferido para o bebê através do leite materno, e experimentos em ratos apontam que essa transferência (sangue materno -- feto) é rápida, com o composto sendo temporariamente acumulando no cérebro, trato gastrointestinal e no fígado fetais (Ref.8). No corpo do feto ou do bebê, esses e outros canabinoides podem afetar o desenvolvimento cerebral – ao interferir com o sistema endocanabinoide –, modular de forma deletéria o sistema imune, e causar danos ao cordão umbilical. Mecanismos moleculares e celulares envolvidos também podem incluir redução dos níveis de ácido fólico, inibição do fator de crescimento endotelial vascular, indução de apoptose, e inibição de migração e de replicação celulares (críticos na embriogênese, especialmente no desenvolvimento cerebral fetal). 

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SISTEMA ENDOCANABINOIDE: O sistema endocanabinoide é uma complexa rede de ligantes endógenos (endocanabinoides) e receptores, e as enzimas as quais sintetizam e metabolizam. Os receptores G proteína-acoplados (GPCR), incluindo o receptor canabinoide tipo 1 (CB1) e o receptor canabinoide tipo 2 (CB2), podem ser encontrados em várias regiões do sistema nervoso central, incluindo a retina, córtex cerebral, sistema límbico, núcleo subcortical, cerebelo, tronco cerebral e corda espinhal. Os receptores CB1 e CB2 se ligam fortemente ao THC, e o CBD interage mais com outros diferentes receptores associados. 

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           Em um estudo publicado este ano no periódico JAMA Pediatrics (Ref.9), pesquisadores encontraram que que o THC persiste no leite materno por até 6 semanas mesmo após cessado o consumo de maconha. O estudo examinou 25 mulheres com histórico de uso da maconha durante a gravidez e com teste positivo de urina para o THC quando admitidas em hospital para o parto. Sete dessas mulheres foram capazes de se absterem da droga durante a lactação. Apesar das concentrações de THC terem variado de mulher para mulher dependendo de fatores diversos (IMC, metabolismo, nível de uso), THC continuou sendo excretado em níveis significativos no leite materno por até 6 semanas. Na verdade, até o final do estudo, todas ainda tinham níveis detectáveis de THC no leite materno!

          O uso frequente de maconha - leve, moderado ou pesado - durante a gravidez é potencialmente perigoso para o feto, e está associado a problemas de sono, nas funções cognitivas (incluindo memória), nas funções executivas (lobo frontal) - racionalização, atenção, impulsividade, motivação -, anencefalia (má-formação fetal do cérebro), atividade neural anormal e sintomas afetivos (depressão), de hiperatividade e de ansiedade ao longo do desenvolvimento da criança. Existe também aumento de risco para parto espontâneo prematuro, natimorto e baixo peso no nascimento. Antes da gravidez efetiva (implantação do embrião no útero), os canabinoides podem afetar a implantação e a motilidade falopiana, ao interferir com a sinalização endocanabinoide pré-implantação. Em ratos, a exposição de THC durante a gravidez é comprovadamente deletéria para o desenvolvimento fetal e induz danos vasculares na placenta (Ref.10).

          Uma análise recentemente publicada no Birth Defects Research (Ref.11) reuniu estudos mostrando também que a exposição de maconha no período de gravidez pode levar a prejuízos morfológicos e comportamentais ao feto similares àqueles vistos na Espectro de Desordens Alcoólicas no Feto (FASD). Um estudo publicado no periódico Journal of Perinatology (Ref.12), analisando 3435 mulheres grávidas, mostrou que o consumo de maconha estava associado com maior risco de desenvolvimento anormal do recém-nascido dentro de 12 meses e significativo maior risco (+70%) de pequenas dimensões para a idade gestacional. Ao analisar os dados clínicos de 11489 crianças (5997 meninos, média de idade de 9,9 anos), e a exposição da mãe à maconha durante a gravidez, um estudo publicado em 2020 no periódico JAMA Psychiatry (Ref.13) encontrou que a exposição a essa droga persistindo mesmo após o conhecimento da mulher sobre a gravidez estava consistentemente associado a uma maior incidência de psicopatologias nas crianças (problemas de atenção, sociais, manifestações psicóticas, etc.). 

          Durante a amamentação, a exposição do recém-nascido ao THC e outros canabinoides, mesmo em pequenas quantidades, pode causar danos no cérebro e resultar em hiperatividade, baixa função cognitiva, mudanças nos receptores de dopamina, alteração do epigenoma e outras consequências a longo prazo (Ref.18-19). Em grande extensão, o mesmo é válido para crianças e adolescentes. 

         Isso sem contar que o fumo da maconha – forma mais comum de consumo – produz muitos dos compostos tóxicos e cancerígenos produzidos pelo fumo do cigarro, piorando o fato que esse fumo (maconha) é feito sem filtro (levando à liberação de grande quantidade de particulados). Soma-se a isso o fato de que muitos produtos comercializados no mercado não passam por regularização ou mesmo uma mínima fiscalização, e óleos de CBD, por exemplo, podem vir contaminados com metais pesados, altos níveis de THC, pesticidas, bactérias, fungos, entre outros. Existem também alternativas sintéticas dos canabinoides vendidas sem qualquer controle no mercado (K2, Spice, Spike, Mr. Happy, etc.) muito mais fortes do que a maconha padrão, trazendo efeitos como agitação severa, alucinação, ilusões paranoicas, ansiedade e mesmo total perda de memória. Mesmo a maconha padrão têm sido alvo de inúmeras experimentações (ex.: híbridos) para aumentar seu valor de mercado, com produtos cada vez mais potentes (maior conteúdo de THC). O único medicamento aprovado e regulamentado pelas agências de saúde é o medicamento Epidiolex, produzido a partir de CBD isolado e usado no tratamento de raras e severas formas de epilepsia em crianças (Ref.21). 

           Em meio a essas evidências acumuladas, alguns especialistas até mesmo sugerem que o dramático aumento nas taxas de crianças com autismo e com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, entre outros problemas psiquiátricos, nos últimos 20-30 anos pode ter parte de contribuição do aumento sem precedentes de grávidas usando maconha durante a gravidez, resultando em algo recentemente chamado de 'Transtorno do Espectro da Cannabis Fetal' (Ref.22). No caso do autismo, o qual afeta muito mais crianças do sexo masculino do que do sexo feminino, a exposição fetal ao THC está coincidentemente associada com efeitos adversos mais pronunciados no sexo masculino (Ref.23).

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   FALTA DE CONSCIENTIZAÇÃO 

           A consequência da quase ausência de campanhas de conscientização no sentido de alertar mulheres querendo engravidar ou grávidas? Nos EUA, 34-64% das mulheres usuárias de maconha continuam usando a droga durante a gravidez por acreditarem que o hábito é totalmente seguro (Ref.25). E o número de mulheres que acreditam que o uso regular de maconha é seguro durante a gravidez aumentou de 4,6% em 2005 para 19% em 2015 (Ref.25). Muitas pessoas inclusive recomendam o uso de maconha para mulheres grávidas para aliviar enjoos no primeiro trimestre de gravidez. Já outras grávidas comumente reportam o uso da droga visando diminuir o estresse e a ansiedade, dor crônica, insônia, ou mesmo para aumentar o apetite (Ref.26). 

          Segundo uma pesquisa nacional nos EUA, cerca de 4,9% das mulheres grávidas de 15 até 44 anos de idade reportaram uso de maconha em 2016, um aumento de 3,4% em relação ao ano anterior (Ref.27), e é reportado que até 8% das mulheres grávidas de 18 a 25 anos estão utilizando maconha durante a gravidez. Um estudo de 2018 no Colorado, EUA, seguindo a legalização da maconha para uso recreativo no estado, encontrou que a maioria (70%) dos fornecedores de maconha recomendava a droga como tratamento para enjoos matinais, e poucos orientavam os consumidores a procurarem a opinião de um profissional de saúde qualificado sobre a questão (Ref.28). 

> Para mais informações sobre o enjoo matinal, e formas seguras de amenizá-lo, acesse: O termo 'enjoo matinal' é correto para as náuseas e vômitos na gravidez?

          Para piorar a situação, veículos populares de mídia – ignorando as agências de saúde e o quadro geral da literatura acadêmica – têm destacado um estudo de revisão (Ref.29) de baixa qualidade e com graves erros metodológicos denunciados na comunidade acadêmica (Ref.30-31) sugerindo que o uso de maconha no período de gestação não está associado com efeitos adversos cognitivos na infância. Com as limitadas evidências até a data da problemática revisão e com o crescente acúmulo de evidências de efeitos adversos nos últimos dois anos, é impossível tal conclusão. O estudo enviesado não incluiu uma meta-análise, e seus próprios resultados sugerem efeitos cognitivos adversos que podem ser significativos. 

          Sem campanhas efetivas de conscientização, pessoas vão continuar confundindo uso/potencial medicinal da Cannabis com o uso recreativo, incluindo o danoso fumo da maconha, e assimilando as iniciativas de legalização e de descriminalização como uma sinalização governamental de que a maconha é completamente segura e sem contraindicações. 

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   CONCLUSÃO 

           Agências e especialistas de saúde são claros em recomendar total abstinência do uso de maconha durante a gravidez e a lactação. Apesar das evidências serem ainda limitadas, à medida que as campanhas efetivas de descriminalização e de legalização avançam pelo mundo, os estudos sobre a questão também avançam, e as evidências acumuladas nos últimos anos fortemente sugerem que a exposição da Cannabis e seus derivados alimentam sérios riscos de danos neurais no feto e/ou no bebê. Após a legalização da maconha no Canadá, houve um aumento estimado de 71% no uso da droga no período pré-concepção (Ref.33), aumentando de forma robusta o risco de exposição do feto aos canabinoides da maconha nas primeiras semanas de gravidez, mesmo com a grávida escolhendo descontinuar o uso da maconha após descobrir a gravidez. Casais querendo engravidar, grávidas e lactantes devem evitar o consumo de maconha.

> ALERTA: Importante também mencionar que mesmo existindo evidências muito limitadas sobre a eficácia e segurança do uso de extratos da Cannabis para o tratamento do autismo, pais vêm cada vez mais usando essa alegada via terapêutica por conta própria para o alívio de sintomas do espectro autista nos seus filhos. É preciso muito cuidado, acompanhamento profissional e balanço de riscos e benefícios para o uso medicinal de canabinoides em crianças e adolescentes. Para mais informações, acesse: Maconha é eficaz no tratamento do autismo? 


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

    1. https://www.nytimes.com/article/marijuana-laws.html
    2. https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/what-you-need-know-and-what-were-working-find-out-about-products-containing-cannabis-or-cannabis
    3. https://www.nature.com/articles/s41372-020-0708-z 
    4. https://link.springer.com/article/10.1007/s11916-020-00872-w 
    5. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/cbl.30458
    6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7723128/
    7. https://journals.healio.com/doi/abs/10.3928/00485713-20210209-01
    8. https://www.mdpi.com/2227-9059/9/3/267
    9. https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/2776975
    10. https://www.nature.com/articles/s41598-019-57318-6
    11. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/bdr2.1545
    12. https://www.nature.com/articles/s41372-019-0576-6
    13. https://www.karger.com/Article/Abstract/510821
    14. https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2770964
    15. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S089203622100012X
    16. https://www.nature.com/articles/s41372-020-00911-9
    17. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6370295/
    18. https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1715163519893395
    19. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7723128/
    20. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/bdr2.1766
    21. https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2018/210365lbl.pdf
    22. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0306987718312106
    23. https://www.mdpi.com/1422-0067/22/4/1666
    24. https://medlineplus.gov/druginfo/natural/1439.html
    25. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0376871618308263
    26. https://journals.lww.com/journaladdictionmedicine/Abstract/publishahead/Daily   _Cannabis_Use_During_Pregnancy_and_Postpartum.99280.aspx
    27. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5970054/
    28. https://pediatrics.aappublications.org/content/147/3_MeetingAbstract/743
    29. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2020.00816/full
    30. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32973603/
    31. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7969787/ 
    32. http://www.usp.br/aun/index.php/2019/10/18/uso-da-maconha-na-gravidez-compromete-o-crescimento-e-a-saude-do-feto/
    33. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1701216321002425