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Quais são as causas para o aparecimento prematuro dos fios brancos de cabelo?


- Atualizado no dia 27 de setembro de 2022 -

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          A emergência de fios brancos no couro cabeludo - cabelos grisalhos - e em outras partes do corpo é um sinal óbvio de avanço da idade. No entanto, esse branqueamento capilar pode começar de forma prematura, geralmente antes mesmo dos 20 anos de idade em indivíduos de pele mais clara e antes dos 30 anos de idade em indivíduos de pele mais escura. Mas quais são os fatores que fomentam o aparecimento prematuro de fios brancos? Apenas fatores genéticos explicam? O estresse pode causar essa perda de pigmentação capilar?


   FIO DE CABELO HUMANO

          O cabelo consiste basicamente de um fio cravado em um folículo sob a pele (bulbo capilar ou raiz) onde as células se multiplicam continuamente, sendo esta a parte biologicamente ativa do cabelo, e o fio propriamente dito como a parte externa à pele. O fio é formado por quatro unidades principais: a cutícula, córtex, medula e um complexo de membrana celular. A cutícula é a camada externa, composta por escamas planas sobrepostas que rodeiam o fio e o protege de danos. Esta camada apresenta uma fina membrana externa medindo 5-10 nanômetros, denominada epicutícula, que é composta por ácidos graxos unidos por material adesivo composto por uma camada fibrosa de proteína subjacente, conectada por ligações tio-éster de cisteína.




           Por baixo da membrana exterior, existe uma camada altamente reticulada com elevado conteúdo de cistina, a exocutícula, e ainda a endocutícula, formada por aminoácidos, especialmente, lisina, arginina, ácido aspártico e ácido glutâmico. A cutícula é ainda envolvida por células incolores sobrepostas. No interior da cutícula encontra-se a parte mais volumosa do fio, denominado córtex, rico em proteínas organizadas na forma de espiral com aproximadamente 1 nanômetro de diâmetro denominadas de α-queratina. Estas cadeias de proteínas são interligadas por pontes de dissulfetos e contribuem significativamente para a maleabilidade do fio.

          No córtex encontramos ainda quantidades variáveis de pigmentos que determinam a coloração natural do cabelo. Também é o córtex o responsável pelas propriedades físicas e mecânicas dos cabelos relacionadas à textura e resistência à tração.

          A medula é tipicamente um eixo oco no interior do cabelo,5 formado por fibras de queratina arranjadas na forma de pequenas cavidades onde são armazenados os pigmentos. Deste modo, o cabelo humano é composto por aproximadamente 95% de proteínas, das quais a principal é a queratina. Os componentes restantes são água, lipídios (estruturais e livre), pigmentos e elementos traços que geralmente são combinados quimicamente por meio de cadeias laterais de proteínas ou com grupos de ácidos graxos.

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            Finalmente, a cor natural do cabelo é controlada por fatores genéticos e em geral está associada aos diferentes grupos humanos-étnicos (1). Entretanto, sabe-se que a substância que dá cor ao cabelo humano é o pigmento melanina presente no córtex e na medula. A melanina é formada por células produtoras de pigmentos denominadas melanócitos, as quais produzem particularmente dois tipos de melanina: eumelanina e feomelanina. A diversidade de cores (ruivos, loiros, castanhos, etc.) emerge em sua maior parte da quantidade e da razão de eumelanina marrom-escura e da feomelanina marrom-avermelhada.


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(1) Leitura recomendada: Existem raças humanas?

          Existem várias diferenças entre a pigmentação na pele e a aquela no cabelo, apesar de ambas envolverem melanina. No bulbo capilar, cada melanócito está associado com cinco queratinócitos, formando uma 'unidade capilar folículo-melanina', uma estrutura preta na forma de pera localizada na porta da papila dérmica do cabelo pigmentado. Já na pele, cada melanócito está associado com 36 queratinócitos. E ao contrário da pele, onde a produção pigmentar é contínua, a melanogênese nos fios de cabelo é próximo-relacionada com os estágios de crescimento capilar. O fio de cabelo é ativamente pigmentado na fase anágena, mas a produção de melanina cessa durante a fase catágena e é ausente na fase telógena (2).

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(2) Para mais informações sobre o ciclo de crescimento capilar, acesse: Mitos sobre a calvície


   CABELOS GRISALHOS

          A perda de pigmentação em um número cada vez maior de fios no cabelo é um processo comum que ocorre à medida que as pessoas envelhecem. Cerca de 50% da população possui em torno de 50% do cabelo grisalho a partir dos 50 anos de idade, fenômeno popularmente conhecido como a 'regra do 50-50-50'. A maioria dos fios de cabelo não-pigmentados são brancos, atribuíveis à perda total de melanina no bulbo capilar. O termo 'cabelo grisalho' se refere a uma mistura de fios brancos não-pigmentados e fios pigmentados. 

          Às vezes, uma única fibra de cabelo pode mostrar uma progressiva diluição pigmentar de preto para cinza e finalmente para branco. A emergência de cabelos grisalhos geralmente se inicia nas têmporas, e então se espalha para a área frontal, o vórtex, e a região parietal, afetando a região ocipital (na nuca) por último. Cabelos grisalhos após os 40 anos aparecem mais na área frontal. Curiosamente, a rápida progressão do branqueamento do cabelo não está associada com o fato dos fios brancos terem surgido de forma prematura ou não: o processo sempre terá rápida progressão, como regra geral, a partir dos 50 anos.

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         Nos fios de cabelo perdendo a pigmentação, a unidade pigmentária se torna pouco definida, os melanócitos diminuem em número e se tornam arredondados, e melanócitos oligodendríticos se tornam visíveis no bulbo capilar proximal. Outras mudanças degenerativas nas células dendríticas no folículo capilar seguem o processo, e eventualmente todos os melanócitos melanogênicos são perdidos no bulbo capilar, tornando o fio branco.

         O branqueamento do cabelo pode ser herdado de forma autossômica-dominante. Se o processo começa antes dos 30 anos de idade, temos geralmente caracterizado uma forma prematura de cabelos grisalhos, apesar dos critérios poderem variar devido a fatores genéticos, epigenéticos e patogênicos. Indivíduos de pele mais clara, já com uma menor produção natural de melanina, podem experienciar cabelos grisalhos antes dos 20 anos de idade.

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CURIOSIDADE: A cor branca dos fios de cabelo é apenas uma ilusão de ótica. O amarelo pálido da queratina parece branco à nossa visão devido à reflexão ou refração da luz incidente. Processo similar ocorre com os pelos dos ursos-polares. Para mais informações acesse: Os pelos do urso-polar não são brancos, e, sim, transparentes!
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           Em primeiro lugar, o estabelecimento de cabelos grisalhos pode estar associado a doenças autoimunes e genéticas, incluindo vitiligo, albinismo, síndromes metabólicas e várias síndromes raras de envelhecimento prematuro, incluindo a síndrome de Hutchinson Gilford e Werner.  Os cabelos grisalhos podem também refletir deficiências nutricionais (especialmente de vitaminas) e o uso de medicamentos como a cloroquina. Cerca de 55% dos pacientes com anemia perniciosa - incapacidade de absorver suficiente vitamina B12 - expressam cabelos grisalhos antes dos 50 anos, comparado com 30% da população em geral. Deficiências em cobre (Cu), ferro (Fe) e proteínas na dieta é outro fator que pode levar aos fios brancos. Níveis de chumbo (Pb) e de selênio (Se) no sangue não parecem estar associados com a emergência de fios brancos prematuros (Ref.6). Menor produção de hormônios na tireoide é outro fator que costuma causar esbranquiçamento capilar prematuro. Por fim, cabelos brancos ou grisalhos também estão associados com um maior risco de problemas cardiovasculares, apesar de incerta a natureza dessa relação.

           Para exemplificar, um relato de caso publicado em 2016 no periódico Annals of Dermatology (Ref.11) descreveu o caso de um menino Coreano de 11 de anos de idade foi apresentado a uma clínica dermatológica com o histórico de 1 ano de progressivo e lento branqueamento do cabelo no vórtex do seu escalpo. Exame físico revelou uma grande quantidade de cabelo grisalho nessa região (Foto A). O paciente não tinha nenhum histórico de aparecimento prematuro de fios brancos e de doenças autoimunes, incluindo alopécia areata, vitiligo, doenças autoimunes da tireoide, anemia perniciosa e algumas síndromes prematuras que manifestam branqueamento do cabelo.




          Exames laboratoriais foram notáveis apenas por acusar baixos níveis de ferritina (2.6 ng/ml; normal, 20-80) e de hemoglobina (8.4 g/dl; normal, 10-15,5), consistentes com anemia por deficiência de ferro, a qual pode ter sido causada por uma operação prévia de estenose pilórica (condição em que a abertura entre o estômago e o intestino delgado fica mais espessa) no paciente. Tratamento com suplementação de ferro (sulfato ferroso oral, 40 mg/dia) por 5 meses reverteu quase toda a despigmentação do cabelo, retornando ao preto normal de antes (Foto B). Níveis de ferritina e de hemoglobina no sangue voltaram quase à faixa normal (15.1 ng/ml e 15 g/dl, respectivamente). 




          No entanto, independentemente do gatilho, ainda são em grande parte desconhecidos os mecanismos exatos do branqueamento dos fios de cabelo em humanos. Entre as principais hipóteses, suportadas por convincentes evidências científicas, podemos citar:


   ESTRESSE OXIDATIVO

          O esbranquiçamento capilar pode ser causado pela depleção de melanócitos foliculares nos bulbos capilares, devido à desregulação de mecanismos antioxidantes e expressão de fatores anti-apoptóticos. Durante a fase ativa de crescimento capilar (anágena) temos uma melanogênese ativa no folículo capilar. Isso envolve hidroxilação de tirosina e oxidação de dihidroxifenilalanina para melanina, causando enorme acúmulo espécies oxidativas (produção excessiva de superoxidase cobre-zinco, induzindo a formação excessiva de peróxido de hidrogênio/H2O2).

          Nesse sentido, o acúmulo de espécies reativas de oxigênio impõe significativo estresse oxidativo sobre os melanócitos bulbares e sobre o altamente proliferativo epitélio do bulbo capilar (consistindo de queratinócitos). Inflamação, luz ultravioleta, fumo de tabaco, poluição, consumo alcoólico, estresse psicoemocional, certos compostos químicos e defeitos genéticos podem engatilhar mais estresse oxidativo ou falhas no sistema anti-oxidante, tornando os melanócitos desprotegidos e levando à eventual emergência dos cabelos grisalhos.

          Condições patológicas associadas a defeitos em mecanismos de reparação do DNA - tornando esse ácido nucleico mais suscetível ao estresse oxidativo - podem também facilitar a despigmentação via danos oxidativos. Um exemplo são as síndromes progeroides. O vitiligo é outra condição associada a cabelos grisalhos que parece tornar os melanócitos mais sensíveis ao estresse oxidativo.

          Aliás, os cabelos grisalhos e brancos estão associados a um maior risco de doenças cardiovasculares, independentemente da idade cronológica (Ref.7-9), sugerindo também um indicador de envelhecimento biológico, este o qual, por sua vez, está ligado a um aumento do estresse oxidativo no corpo.


   CÉLULAS-TRONCO MELANOCÍTICAS

             O esbranquiçamento do cabelo pode ser causado por uma falha na auto-manutenção das células-tronco melanocíticas (MSCs), sendo um fator fortemente associado ao grisalhamento observado com o avanço da idade. Tal manutenção requer em especial a família de genes Bcl-2 (responsáveis por regula a permeabilidade da membrana externa da mitocôndria) e o fator transcricional micro-oftalmia-associado (MITF). Por exemplo, deficiências ligadas ao Bcl-2 podem engatilhar apoptose seletiva das MSCs, e já foi demonstrado em estudos com roedores que a depleção dessas células-tronco nos melanócitos bulbares e no bulbo capilar - ou migrando para o bulbo capilar - ativa a despigmentação dos fios de cabelo. E como será explorado mais à frente, o estresse agudo de fato atua na depleção dessas células-tronco, resultando no branqueamento de pelos pretos de ratos.


   FATORES DE CRESCIMENTO

           Interessantemente, os fios de cabelo brancos (despigmentados) estão associados com um mais robusto crescimento e maior grossura quando comparados com fios pigmentados. A taxa de crescimento, diâmetro da medula, e o diâmetro médio dos fios despigmentados são maiores do que nos pigmentados, existindo também uma diferenciação terminal adiantada. De fato, genes responsáveis pela produção de queratina (grupo KRT) são mais extensivamente expressos nos fios brancos do que nos fios pretos.




   ESTRESSE DEIXA O CABELO BRANCO?

          Ao longo das décadas e dos séculos, evidências empíricas e anedóticas têm associado o estresse com a emergência ou com uma mais rápida progressão dos cabelos brancos. Relatos médicos sugerem que o processo de despigmentação capilar – ou canície, no jargão científico – pode ocorrer de modo bem mais acelerado sob condições de estresse intenso e persistente ou depois de um grande trauma. Alguns historiadores especulam que tal fenômeno acometeu a rainha Maria Antonieta quando, no auge da Revolução Francesa (1793), soube que seria levada à guilhotina. O ex-presidente Barack Obama, também, após dois mandatos à frente do governo Norte-Americano, expressou um notável aumento no número de cabelos brancos.

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          Porém, até pouco tempo atrás, não existia suporte científico para uma associação direta entre estresse e cabelos grisalhos. Isso mudou com um estudo publicado em 2020 no periódico Nature (Ref.5), onde pesquisadores da Universidade de São Paulo em parceria com pesquisadores da Universidade de Harvard, EUA, conseguiram finalmente comprovar o fenômeno em ratos.

          Nos experimentos, os pesquisadores notaram que ratos de pelagem escura injetados com a substância resiniferatoxina - a qual engatilha dor e estresse - experienciavam uma progressiva despigmentação dos pelos. Análises subsequentes - usando adrenalectomia, denervação, ablação celular e edição genética - mostraram que o estresse agudo causava uma depleção não-reversível das células-tronco melanocíticas  através de ativação do sistema nervoso simpático inervando o nicho de produção dessas células.



          Quando somos jovens, as células-tronco melanocíticas encontram-se em um estado indiferenciado – como todas as células-tronco. À medida que envelhecemos, vão gradualmente se diferenciando e, quando o processo se completa, param de produzir os melanócitos. O estudo demonstrou que uma ativação simpática intensa faz com que o processo de diferenciação progrida muito mais rapidamente. Ou seja, no estudo, os pesquisadores mostraram que o estresse engatilha o envelhecimento das células-tronco melanocíticas, levando ao aparecimento precoce dos pelos brancos.

          No entanto, demonstração desse processo em humanos veio só recentemente, com um estudo publicado no periódico eLife (Ref.12), o qual também revelou que existe reversão natural da despigmentação nos fios de cabelo.

           O crescimento capilar é um processo ativo que acontece sob a pele dentro dos folículos capilares. Esse processo - incluindo maturação de melanossomos - demanda uma grande quantidade de energia, suprida aerobicamente por estruturas (organelas) dentro das células chamadas mitocôndrias. Enquanto os fios de cabelo estão crescendo, as células recebem sinais químicos e elétricos de dentro do corpo, incluindo hormônios de estresse. Nesse sentido, é possível que essas exposições endógenas mudem como proteínas e outras moléculas são acomodadas na haste capilar em crescimento. À medida que o cabelo cresce para fora do escalpo, a estrutura capilar endurece, preservando as moléculas acomodadas em uma forma estável. Essa preservação é visível como padrões de pigmentação e pode ir mudando em um mesmo fio durante o alongamento.

          No novo estudo, os pesquisadores reportaram um novo método - incluindo microscopia eletrônica - para digitalizar e medir pequenas mudanças de coloração ao longo de fios únicos de cabelo humano. Esse método revelou que alguns fios brancos naturalmente reganham sua coloração, contrariando a crença comum de que a perda de pigmentação capilar é permanente. No próximo passo do estudo, os pesquisadores alinharam os reportes dos participantes (14 voluntários, 7 mulheres, idade média de 35 anos) sobre momentos de maior ou menor estresse com essas mudanças de pigmentação nos fios de cabelo. Eles encontraram uma forte associação: quando um participante reportava um aumento no estresse, um fio de cabelo analisado perdia sua pigmentação; quando o participante reportava redução no estresse, o mesmo fio de cabelo reganhava sua pigmentação - provavelmente a partir de algumas células-tronco e células amplificadoras transientes persistindo na raiz capilar.

Visualização microscópica de um fio capilar único exibindo despigmentação durante seu crescimento (cabelo grisalho) e, então, ganhando novamente sua pigmentação normal. A escala indicada representa as variações de cor do fio ao longo da sua extensão. A intensidade da pigmentação foi dinamicamente capturada sobre um microscópio motorizado de estágio a uma ampliação de 10x, analisando o fio de cabelo de uma mulher Asiática de 30 anos. Rosenberg et al., 2021


          Essa reversão natural de despigmentação havia sido previamente reportada apenas em um número de relatos de casos. Cabelos grisalhos, tanto em homens quanto em mulheres, é um estado reversível, pelo menos temporariamente. Por outro lado, esse fenômeno mostrou-se limitado a raro, envolvendo folículos capilares isolados, e, portanto, irá passar provavelmente despercebido na maioria dos casos.

           Mapeando centenas de proteínas dentro dos fios de cabelo, os pesquisadores mostraram que os fios brancos continham mais proteínas ligadas a mitocôndrias e uso de energia. O achado sugere que metabolismo e atividade mitocondrial atuam na despigmentação capilar e emergência dos cabelos grisalhos. De fato, a melanogênese é um processo sensível ao estresse oxidativo, um subproduto dos processos metabólicos mitocondriais. Com base em um modelo matemático construído a partir dos dados coletados, os pesquisadores simularam variações na cor do cabelo ao longo da vida de um indivíduo. O modelo sugeriu que pode existir um limite para a despigmentação capilar temporária: se os cabelos estão a ponto iminente de ficarem grisalhos, um evento estressante pode engatilhar essa mudança de forma precoce; quando o evento estressante acaba, se um cabelo está pouco acima do limite, então a despigmentação pode ser revertida.


          Apesar de reduzir o estresse ser ideal para a saúde física e mental em geral, isso não necessariamente significa que você pode reverter seus cabelos grisalhos de volta a cor normal com uma vida mais calma e serena, especialmente em idades mais avançadas. E é errôneo achar que uma criança ou adolescente irá ter o cabelo grisalho apenas por causa de estresse. 

          "Com base no nosso modelo matemático, nós achamos que o cabelo precisa alcançar um limite antes de se tornar grisalho," disse o pesquisador Martin Picard da Universidade de Columbia e um dos autores do estudo (Ref.13). "Na meia idade, quando o cabelo está próximo desse limite por causa da idade biológica e outros fatores, o estresse pode acelerar a ultrapassagem desse limite, fazendo a transição para o estado grisalho. Porém, nós não achamos que reduzir o estresse em uma pessoa de 70 anos de idade que já possui cabelos grisalhos há anos irá escurecer os fios brancos, ou que estresse em uma criança de 10 anos de idade será suficiente para esse tipo de transição."


    TRATAMENTOS E PREVENÇÃO

          Como os cabelos brancos estão geralmente associados ao avanço da idade e à velhice, muitos indivíduos - especialmente mulheres e adultos com menos de 30 anos - podem sofrer de baixo auto-estima ao se depararem com os cabelos grisalhos. Nesse sentido, muitos acabam recorrendo a tinturas de cabelo para disfarçar os fios brancos. Tintas naturais - como aquelas produzidas a partir de pigmentos de plantas como a Emblica officinalis, a Zizyphus spina-christi e a Lawsonia alba - são melhores opções por serem hipoalergênicas e não-tóxicas. Tintas permanentes e sintéticas podem trazer riscos de danos à estrutura capilar e à saúde em geral (3, Ref.10).

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(3) Leitura recomendada: Tintas permanentes e alisadores de cabelo associados ao câncer de mama

          Alguns indivíduos também costumam arrancar de forma sistemática e segura (clínica) os fios de cabelo brancos caso ainda sejam poucos.

          Em caso de deficiências nutricionais e hipotiroidismo, um reforço na dieta ou via suplementação nutricional e terapias de reposição hormonal podem resolver a questão e reverter os fios brancos (re-pigmentação). No caso de ausência de deficiências nutricionais, não existem evidências científicas dando suporte ao uso de vitaminas e minerais, como biotina, cálcio, zinco, cobre e selênio, para reverter ou prevenir o aparecimento de fios brancos. Porém, existem evidências dando suporte ao uso de pantotenato de cálcio para o tratamento de certos casos de cabelos grisalhos prematuros (200 mg diários) (Ref.3).

           Nesse último ponto, é válido reforçar que não existe suporte científico para o uso de 'shampoos antioxidantes', fortificados com vitaminas C e E, por exemplo, para o tratamento ou prevenção dos fios brancos.

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          Existem também reportes anedóticos de escurecimento temporário dos fios brancos com o suco de ácido P-aminobenzoico (PABA) em testes clínicos laboratoriais. No entanto, especialistas não recomendam o uso dessa substância para o único propósito de repigmentação capilar. Nesse mesmo caminho, é relevante também mencionar que certos medicamentos usados para o tratamento de cânceres, pertencentes à classe dos inibidores da tirosina-quinase (ex: nilotinibe e imatinibe), também podem causar re-pigmentação dos fios de cabelo como efeito colateral, como mostrado no relato de caso abaixo envolvendo um paciente de 51 anos de idade; vários casos nesse sentido são reportados na literatura acadêmica (Ref.14-16). Obviamente, esses medicamentos não podem ser usados apenas para fins estéticos, e repigmentação capilar não é uma regra, apenas um possível efeito colateral.


         Por fim, como explorado no tópico anterior, os cabelos brancos podem ser fomentados pela exposição a um forte estresse agudo (grande trauma ou dor, por exemplo) ou estresse intenso e persistente. É incerto se qualquer nível de estresse crônico possa também engatilhar o processo, mas uma boa dica para prevenir o grisalhamento prematuro seria buscar estratégias para reduzir ao máximo o estresse no dia-a-dia.


   CONCLUSÃO

          Vários fatores parecem engatilhar o aparecimento de fios brancos no cabelo além do envelhecimento natural (avanço da idade). Desde deficiências nutricionais até o estresse agudo, esses fatores provavelmente agem via três mecanismos principais para a depleção do pigmento capilar: estresse oxidativo, depleção das células-tronco melanocíticas e interferência nos fatores de crescimento capilar. Em termos de tratamento, a maioria terá que se contentar - pelo menos por enquanto - com correções cosméticas via tinturas capilares. Nos casos onde deficiências nutricionais ou hormonais estão envolvidas, existe, contudo, a possibilidade de reversão natural dos fios não-pigmentados para fios pigmentados via terapias de reposição hormonal e reeducação alimentar.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6290285/
  2. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422014000600019
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6029974/
  4. https://ghr.nlm.nih.gov/primer/genefamily/keratins
  5. https://www.nature.com/articles/s41586-020-1935-3
  6. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jocd.13173
  7. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1110260817300807
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6768519/
  9. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6526979/
  10. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/[email protected]/(ISSN)2045-7634.oncology-breast-cancer
  11. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5125965/
  12. https://elifesciences.org/articles/67437
  13. https://www.cuimc.columbia.edu/news/its-true-stress-does-turn-hair-gray-and-its-reversible
  14. Amitay-Laish et al. (2011). Adverse cutaneous reactions secondary to tyrosine kinase inhibitors including imatinib mesylate, nilotinib, and dasatinib. Dermatologic Therapy, Volume 24, Issue 4, Pages 386-395. https://doi.org/10.1111/j.1529-8019.2011.01431.x
  15. Heidary et al. (2008). Chemotherapeutic agents and the skin: An update. Journal of the American Academy of Dermatology, 58(4), 545–570. https://doi.org/10.1016/j.jaad.2008.01.001
  16. Kockerols & Westerweel (2022). Hair Repigmentation Induced by Nilotinib. NEJM [Images in Clinical Medicine]. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2119953