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Qual é a diferença entre foliculite e pelo encravado?

           O pelo nasce de uma estrutura da pele chamada de folículo piloso. É nesta estrutura que existe a raiz do pelo, sua única parte viva, que vai do bulbo até a saída do poro na epiderme. O bulbo se encontra na posição mais inferior do folículo, onde há a papila dérmica e a matriz do pelo, que são responsáveis pelos processos de regeneração e por onde o pelo recebe sua nutrição, trazida por capilares sanguíneos. O istmo ou talo é o segmento intermediário que vai do músculo eretor do pelo até a abertura da glândula sebácea (cada folículo está associado a pelo menos uma glândula sebácea e ela é responsável pela produção da oleosidade natural do pelo e da pele). O infundíbulo é a porção mais superior do folículo que continua até a superfície da epiderme e do lado de fora, temos a haste do pelo.

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          A inflamação ou infecção do folículo piloso é chamada de foliculite, uma condição comum e geralmente benigna. Provoca vermelhidão ao redor do pelo e pode estar associada a secreções purulentas (pústulas brancas ou amareladas). As lesões podem ser únicas ou múltiplas, agudas ou crônicas, e podem ocorrer espontaneamente ou fomentadas por fatores como suor, depilação por cera, raspagem dos pelos com lâminas, fricção, falta de higiene e fatores imunológicos. E apesar de mais raros, existem casos de foliculite induzidos por depilação a laser (Ref.3). A manifestação pode ser assintomática, incluir prurido (coceira) ou leve dor. Nos homens ocorre frequentemente na região da barba e nas mulheres em regiões pubianas e axilares, principalmente pelo constante hábito de se depilarem. Porém, as lesões podem se manifestar em qualquer área do corpo com pelos, e em indivíduos de todas as idades. 

          Existem vários tipos de foliculite associados a vários agentes causais - comumente infecção bacteriana na parte superficial ou profunda do folículo capilar -, onde podemos citar:

- Foliculite superficial: É a mais comum forma de foliculite e causada por bactérias do gênero Stafilococos, geralmente a espécie S. aureus, mas ocasionalmente pode envolver a espécie S. pyogenes. Na maior parte dos casos se resolve espontaneamente dentro de poucos dias. No entanto, para quadros mais extensivos, antibióticos tópicos podem ser necessários. Para quadros de foliculite mais profunda causada por estafilococos (ex.: furunculose, carbunculose, sicose da barba), ou para um quadro cutâneo superficial muito extensivo, antibióticos orais podem ser necessários. Foliculite mais profunda é manifestada classicamente como nódulos na pele.

- Foliculite bacteriana Gram-negativa: Comumente referida como "foliculite de banheira quente", essa condição resulta de infecção com a bactéria Pseudomonas aeruginosa. Tipicamente emerge após exposição a água contaminada em piscinas ou banheiras quentes tratadas de forma inadequada. Outra bactéria que pode causar essa condição inclui os gêneros Klebsiella e Enterobacter; foliculite causada por essas bactérias comumente emerge após uso a longo prazo de antibióticos orais. Com boa higiene da pele, geralmente esse tipo de foliculite se resolve espontaneamente dentro de 7 a 10 dias; em alguns casos associados ao uso prolongado de antibióticos, uso adicional de antibiótico oral específico (ex.: ampicilina) pode ser necessário.

- Foliculite pitirospórica: Essa forma particular de foliculite é fúngica, causada por espécies de fungos lipofílicos do gênero Malassezia (ex.: M. furfur), os quais fazem parte do microbioma normal da pele. Devido a distúrbios na imunidade (ex.: paciente imunossuprimido) ou mesmo tratamento com antibiótico oral, esses fungos podem crescer na pele de forma descontrolada e resultar em patologias diversas. Tipicamente encontrada em adolescentes - secundária à atividade aumentada das glândulas sebáceas nessa faixa de idade (!) - a foliculite pitirospórica é comumente manifestada sobre os ombros, costas, rosto e pescoço do paciente. Em cerca de 80% dos casos as lesões estão associadas com prurido. Suspeita clínica dessa condição deve ser levantada em pacientes diagnosticados com acne que não responderam ou pioraram o quadro de lesões na pele após tratamento com antibióticos. Análise microscópica direta ou histopatológica visando a detecção de hifas e esporos fúngicos é útil para um diagnóstico conclusivo. Terapia sistêmica com antifúngico oral é frequentemente o tratamento de escolha para esse tipo de foliculite, concomitante ou não com antifúngicos tópicos. Sem tratamento adequado, esse tipo de foliculite pode persistir por anos.

 

- Foliculite viral: Mais comumente causada pelo vírus da herpes, pode também ser raramente causada pelo vírus do molluscum contagiosum (infecção de pele geralmente benigna caracterizada por pequenas lesões cutâneas que podem aparecer em qualquer lugar do corpo; tipicamente se resolve sem cicatrizes dentro de 6-12 meses). Foliculite devido ao vírus da herpes se manifesta de forma muito similar à foliculite bacteriana com a exceção que as vesículas papulares e/ou placas estão geralmente presentes e não pústulas. Outro ponto chave de diagnóstico é que as lesões tipicamente aparecem em agrupamentos. O tratamento envolve fármacos antivirais usados para a herpes ou tratamento usado para o molluscum (ex.: curetagem ou crioterapia).

- Foliculite por Demodex: Esse é um tipo de foliculite controverso e alegadamente atribuído ao ácaro da espécie Demodez foliculorum, este o qual está presente provavelmente no rosto de >90% da população humana. Em especial, era especulado que esse ácaro não possuía ânus, acumulando fezes até sua morte, quando então liberava o conteúdo fecal dentro dos poros da pele e, consequentemente, levava a inflamações. Porém, um recente estudo mostrou que esses aracnídeos possuem, sim, ânus. Para mais informações, fica a sugestão de leitura: Ácaros no nosso rosto estão em dramático processo de transição evolutiva, aponta estudo

- Foliculite actínica: Essa é uma rara fotodermatose que geralmente aparece entre 4 e 24 horas após exposição à luz solar. O mecanismo pelo qual exposição à luz ultravioleta resulta em lesões foliculíticas permanece não esclarecido, possivelmente envolvendo reações inflamatórias induzidas por radiação ultravioleta A (UVA) e aquecimento local da pele. É caracterizada por erupções pustulosas, monomórficas e eritematosas aparecendo sobre áreas expostas como bochechas, lados do pescoço, ombros e braços. Tipicamente, as erupções não são associadas com prurido e não deixam cicatrizes. Essas erupções se resolvem espontaneamente dentro de 5-10 dias após exposição solar ser cessada. Limitar a exposição solar é necessário para o tratamento e prevenção. Existem relatos de caso de tratamento efetivo com o uso de retinoides tópicos (Ref.9). 


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> A manifestação da foliculite actínica pode ser muito extensiva e visivelmente pronunciada, nesse caso conhecida como foliculite superficial actínica, cujas lesões emergem dentro de 24-72 horas após a exposição solar e são caracterizadas como pústulas foliculares (comumente sobre o peito, costas, braços e pescoço). Como exemplo de relato de caso nesse sentido, acesse: Paciente de 29 anos com foliculite superficial actínica 
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- Foliculite eosinofílica: Esse tipo de foliculite é encontrado predominantemente naqueles com HIV avançado ou aqueles com baixa contagem de células CD4. Pode também ocorrer como um raro efeito colateral em pacientes submetidos à quimioterapia. Enquanto que a exata etiologia dessa condição é desconhecida, estudos sugerem que pode ser resultado de uma doença inflamatória secundária a desregulação imune e com um possível quadro infeccioso concomitante. Mais comumente, essa condição se apresentam como vermelhidões e pápulas foliculares tipo-urticárias, geralmente sobre o escalpo, rosto e pescoço, e raramente envolve pústulas. Tratamento se resume, basicamente, ao coquetel antiviral usado para paciente infectados com o HIV.

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> Existem vários tipos especiais de foliculite além dos tipos mais comuns mencionados. Para mais informações nesse sentido, fica a sugestão de leitura da Ref.2

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           Apesar da foliculite ser confundida popularmente com o pelo encravado, nesta última condição - chamada medicamente de pseudofoliculite - o pelo e o sebo não saem naturalmente à superfície da pele, onde encravam devido ao espessamento da pele, ou seja, não possui causa bacteriana. Também conhecida como pili incarnati, na pseudofoliculite o pelo tipicamente nasce e volta para o folículo, podendo gerar um processo inflamatório. Na maioria das lesões resultantes podem ser notadas pápulas foliculares, pústulas e hiperpigmentação pós-inflamatória. Nas mulheres, essa condição é mais comumente observada nas regiões pubianas e axilares.


           A pseudofoliculite pode ser também causada pela raspagem dos pelos. A raspagem torna os pelos mais afiados e perfurantes, facilitando a invasão da derme com consequente reação inflamatória. Outra causa comum são alterações da espessura da pele, consequentes frequentemente do atrito gerado por roupas apertadas ou meias-calças. Essas alterações são uma forma de proteção do organismo para evitar lesões maiores.

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(!) É importante também diferenciar a foliculite da acne. A acne é uma desordem cutânea comum que primariamente afeta o rosto, peito e costas de adolescentes e jovens adultos, sendo caracterizada por inflamação da unidade pilossebácea que por sua vez é resultado da proliferação da bactéria Propionibacterium acnes. A acne pode se apresentar como pápulas inflamatórias, pústulas e nódulos. Para mais informações, fica a sugestão de leitura: Isotretinoína e ácido retinóico funcionam contra a acne? 

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK547754/
  2. Sun & Chang (2017). Special types of folliculitis which should be differentiated from acne. Dermato Endocrinology, 9(1):e1356519.
  3. https://doi.org/10.1080%2F19381980.2017.1356519  
  4. Schuler et al. (2020). Folliculitis Induced by Laser Hair Removal: Proposed Mechanism and Treatment. The Journal of Clinical Aesthetic Dermatology, 13(5):34-36. 
  5. Paichitrojjana A. (2022). Malassezia Folliculitis: A Review Article. Journal of the Medical Association of Thailand, 105 (2):160-7.
  6. Malgotra & Singh (2021). Malassezia (Pityrosporum) Folliculitis Masquerading As Recalcitrant Acne. Cureus, 13(2): e13534. https://doi.org/10.7759/cureus.13534
  7. Durdu et al. (2019). High accuracy of recognition of common forms of folliculitis by dermoscopy: an observational study. Journal of the American Academy of Dermatology. https://doi.org/10.1016/j.jaad.2019.03.054 
  8. https://www.cdc.gov/poxvirus/molluscum-contagiosum/index.html
  9. Rahman et al. (2020). First reported cases of actinic folliculitis treated successfully with topical retinoid. Clinical and Experimental Dermatology, 45(6), 716–718. https://doi.org/10.1111/ced.14179
  10. Veysey & George (2005). Actinic folliculitis. Clinical and Experimental Dermatology, 30(6), 659–661. https://doi.org/10.1111/j.1365-2230.2005.01899.x