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Por que os gatos às vezes comem plantas?


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          Quem possui um gato de estimação (Felis catus), talvez já tenha presenciado um estranho hábito: a ocasional mastigação e ingestão de plantas (como grama e outras espécies vegetais ornamentais), muitas vezes seguido de vômito. Esse fenômeno tem sido frequentemente reportado por proprietários de cães (Canis familiares) e gatos domésticos. No caso dos gatos o mistério é ainda mais pronunciado, já que os felinos são animais essencialmente carnívoros. Nesse sentido, pesquisadores da Universidade da Califórnia, EUA, resolveram investigar a questão e propuseram uma nova hipótese para explicar o hábito vegetariano (1).

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          Para isso, os pesquisadores realizaram uma pesquisa online pedindo para que donos de gatos respondessem a um questionário sobre a questão. Eles receberam 2296 retornos, estes os quais foram filtrados seguindo como principal critério de exclusão a necessidade dos donos dos gatos terem sido capazes de acompanhar o comportamento desses felinos 3 ou mais horas por dia. Eliminando também os participantes que eram mantidos dentro do domicílio sem acesso a plantas, os pesquisadores obtiveram 1021 participantes aptos a serem analisados.

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          Os resultados das análises dos questionários revelaram que 71% dos gatos tinham sido vistos comendo plantas no mínimo 6 vezes, 61% mais de 10 vezes, e 11% nunca foram vistos comendo plantas. Comparando os gatos vistos comendo as plantas no mínimo 10 vezes com aqueles que nunca foram vistos comendo, não foram encontradas diferenças na faixa de idade, sexo, origem ou número de gatos no domicílio. Dos gatos vistos comendo plantas no mínimo 10 vezes, 67% foram estimados de comerem plantas diariamente ou semanalmente. Quando questionados sobre o estado dos gatos antes de comer as plantas, 91% dos participantes disseram que seus gatos pareciam quase sempre normais. O ato de vomitar posteriormente à ingestão das plantas foi um pouco mais comum, onde 27% reportaram que os gatos frequentemente vomitavam após comer as plantas.

           Em um estudo prévio realizado pelos pesquisadores no mesmo formato mas focado nos cães, foi revelado um padrão similar ao visto na pesquisa com os gatos, incluindo a frequência de ingestão das plantas, estado aparentemente normal antes da ingestão, e ato de vômito 20-30% das vezes.

          Entre os gatos mais jovens (3 anos de idade ou menos), 39% se engajaram em uma alimentação diária de plantas comparado com 27% dos gatos com 4 anos ou mais de idade. E enquanto que a porcentagem de gatos mais jovens não mostrando nenhum sinal de doença ou mal-estar antes da ingestão das plantas foi similar ao de gatos mais velhos, apenas 11% dos gatos mais jovens foram observados vomitando frequentemente após a ingestão comparado com os gatos mais velhos (30%). Esses padrões mostraram-se também similares aos dos cães.

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          Uma explicação comum (hipótese) dada para o hábito vegetariano nos gatos e nos cães é que esses mamíferos estariam doentes ou com mal-estar antes da ingestão de plantas, e com esse ato ajudando a induzir o vômito, fazendo-os se sentirem melhores. Porém, os resultados do estudo não deram suporte para essa hipótese, além de derrubar outra ideia: a de que esses animais aprenderiam o hábito quando novos observando os gatos mais velhos.

          Segundo os pesquisadores, a explicação desse estranho hábito adotado pelos carnívoros domésticos é que a ingestão regular de plantas seria uma predisposição herdada de ancestrais selvagens, algo suportado também por vários reportes de carnívoros selvagens comendo plantas - evidenciado por partes grama e de outras plantas não-digestíveis em suas fezes. Estudos em primatas já revelaram que plantas não-digestíveis ajudam a limpar o sistema digestivo de parasitas helmintos, ao aumentar a atividade muscular do trato digestivo. Dado que virtualmente todos os carnívoros selvagens carregam uma carga de parasitas intestinais, o ato regular e instintivo de comer plantas teria uma função adaptativa na manutenção de uma carga parasitária intestinal tolerável, independentemente se o animal sente ou não os parasitas.

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          Com base nessa nova hipótese, os pesquisadores deram um conselho para os donos de cães e gatos: comprem ou cultivem grama para esses animais mastigarem. Isso dará uma chance deles exercitarem seus comportamentos inatos com uma fonte segura de planta não-venenosa.


(1) Apresentação do estudo (p.106): International Society for Applied Ethology (2019)

Referência adicional: Science Magazine