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Reino Chimú e o maior sacrifício em massa de crianças da história


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          Um estudo publicado no periódico PLOS ONE (Ref.1) detalhou os achados de centenas de ossadas encontradas no Peru durante escavações entre os anos de 2011 e 2016, as quais representam o maior evento de sacrifício infantil em massa já registrado. O provável massacre ritualístico ocorreu no século XV, matando mais de 140 crianças e mais de 200 lhamas de uma só vez, dentro do Estado Chimú. Arqueólogos primeiro detalharam a descoberta em 2018 em uma história exclusiva para a National Geographic (Ref.2).

  • ATENÇÃO: A parte inicial deste artigo traz uma breve introdução sobre a cultura Chimú e uma visão geral sobre os sacrifícios praticados na Antiguidade. No tópico LHAMAS E CRIANÇAS, o novo estudo é explorado.

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   ESTADO CHIMÚ

          O Reino - ou Estado - Chimú ascendeu entre os séculos XI e XV, dominando uma larga área da costa Peruviana. Sua emergência, em torno de 950 d.C., seguiu o declínio da cultura Moche e acompanhou o florescimento da cultura Sicán na mesma região, ao redor do ano de 750 d.C. nos vales dos rios Lambayeque e La Leche. No seu apogeu, o domínio Chimú controlou um território que ia do Norte da atual fronteira entre Peru e Equador ao sul onde hoje se encontra a capital Peruana de Lima, englobando mais de 1000 km ao longo da costa do Peru. O Reino Chimú, chamado Chimor, veio a um fim com a conquista pelos Incas.



          A capital do Reino de Chimor era a cidade de Chan Chan, localizada no rio do vale Moche, e a qual era composta por áreas similares a labirintos - hoje referidas como 'ciudadelas' ou 'citadelas' - cercadas por altas muralhas feitas de barro seco e cobertas por lama emplastada e enfeitadas com contornos esculpidos. As citadelas eram estruturadas com longos corredores levando a espaços com diferentes usos, como grandes locais para cerimônias, poços, galpões de armazenamento e templos ligados a redes de estradas internas. Esses corredores e espaços eram tão complexos que seria difícil para alguém navegar por eles sem possuir uma familiaridade prévia, o que auxiliava a segurança do Reino além da presença de guardas.




          A citadela era um casa da realeza, câmara de audiência, e um local de armazenamento durante a vida do rei, e, quando este morria, sua tumba. Cada novo rei construía uma nova citadela, à medida que o antigo rei era enterrado na dele. Cada rei começa do zero, precisando construir sua riqueza e sua reputação próprias. Esse peculiar sistema pode ter sido uma das razões da força que o Reino de Chimor alcançou, tanto em termos de expansão territorial quanto em termos de relativa estabilidade, já que cada novo rei precisava explorar e produzir novas fontes de riqueza. Os reis também tinham acesso aos mais belos e sofisticados produtos da arte e da cultura Chimú, incluindo detalhadas miniaturas esculpidas, fantásticos trabalhos em joias, luxuosos tecidos e elaborados enfeites feitos de penas e conchas. Cada rei possuía um fiel servo chamado de Fonga Sigde, cuja mais notável tarefa era espalhar um pó vermelho de Spondylus esmagada na frente do rei à medida que este andava, criando um contínuo tapete vermelho que expressava o qual poderoso e rico era o governante.






          As penas de aves diversas eram muito utilizadas pela cultura Chimú para enfeites variados, e muitas eram capturadas de pássaros da floresta Amazônica. Quanto mais exóticas e coloridas as penas, mais isso sinalizava que o rei conseguia explorar recursos nas mais diversas e longínquas regiões. A grande abundância de penas de pássaros tropicais, como araras, no ritual parafernália da elite Chimú, assim como a presença de sementes tóxicas da mesma região (Nectandra sp e Tevethia peruviana), sugerem que a cultura e a economia Chimú se ramificavam até as montanhas dos Andes. A principal base de sustentação do Estado Chimú era a agricultura intensiva, com campos alimentados por uma sofisticada rede de canais hidráulicas administrada por uma burocracia bastante eficiente. Criação de animais como fonte de alimento - como camelídeos e porcos - também era uma atividade comum, incluindo a exploração de frutos marinhos.




          Os Chimú também realizavam diversos trabalhos de cerâmicas, peças variadas forjadas em metais (como ouro e prata) e artesanato com conchas encontradas nas prais e no mar. As esculturas feitas com esses materiais representavam os mais diversos afazeres e acontecimentos do dia-a-dia dos Chimú, inclusive miniaturas de frutas, instrumentos musicais e objetos de uso doméstico. As cerâmicas eram bem diferentes daquelas dos Moche, sendo menos sofisticadas e criativas, e geralmente não pintadas, trazendo apenas forma (funcional e decorativa) e texturas superficiais (decorativas) retratando peixes, conchas, barcos, etc. No entanto, as cerâmicas eram produzidas em massiva quantidade.








          Durante a expansão do Reino Chimú para o norte, essa civilização entrou em contato com a cultura Sícan, na regiãço Lambayeque, e incorporou várias das suas distintas tradições, especialmente em relação aos trabalhos com ouro, bronze e prata e na orientação marítima. A expansão para o sul foi tardia e bem lenta. Para se ter uma ideia, o Vale do Rio Casma - metade do caminho para a fronteira sul do Reino Chimú - só foi integrado em ~1300 d.C.

           O Período Intermediário Tardio (900-1500 d.C.) representou um tempo instável na Costa Norte Peruviana, marcado por guerras e massacres à medida que políticas emergentes lutavam por poder econômico e supremacia religiosa na região, especialmente no século XIV. Evidências arqueológicas de conflitos e subjugações incluem um massacre em Punta Lobos, no litoral de Casma, onde cerca de 200 vítimas (crianças, adultos e idosos) foram executadas durante a expansão militar do Reino Chimú no ano de 1350 d.C.

          No início da década de 1470 - menos do que um século antes da conquista Espanhola da América do Sul - o Reino Chimú foi conquistado pelos Incas. O povo Chimú, em uma região central no norte, se rebelou contra os invasores, mas foi derrotado e impedido de carregar armas na região costeira. Muitos artesãos, porém, foram levados para a capital Inca Cusco, onde foram permitidos de continuarem produzindo seus trabalhos em cerâmica, metais, penas e conchas, contribuindo também para o enriquecimento cultural da civilização Inca.

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   SACRIFÍCIOS

          Sacrifícios humanos e de outros animais eram realizados por várias sociedades no mundo antigo. Os motivos para os sacrifícios humanos e a escolha das vítimas sacrificadas variavam entre essas sociedades, mas diversas evidências apontam que crianças também eram bastante visadas nesses rituais. Antropólogos consensualmente concordam que os corpos das crianças frequentemente eram considerados como entidades híbridas e, portanto, podem ter sido vistas como mensageiros sagrados apropriados ou como presentes dignos para um Deus.

           No entanto, apesar de ser alegado que o sacrifício de bebês e de crianças era amplamente praticado na Antiguidade, as evidências arqueológicas mostrando evidências de mortes intencionais em indivíduos tão jovens são frequentemente escassas, o que faz esse tipo de alegação controversa. De qualquer forma, é sabido que na Mesoamérica e na América do Sul o sacrifício de crianças era praticado em significativa extensão. A mais bem documentada evidência arqueológica nesse sentido é o sacrifício em massa de 48 crianças no Templo Mayor na cidade Mexicana de Tenochtitlán (1). Na América do Sul, a prática também era presente, e os Incas parecem que sacrificavam crianças em ocasiões especiais, como na coroação de um novo governante.


           No Peru Pré-Hispânico, indivíduos eram sacrificados e colocados em tumbas acompanhando pessoas importantes para a vida após a morte, enterrados como oferendas dedicatórias em arquiteturas monumentais, e sacrificados em vários contextos como presentes aos Deuses. Indivíduos capturados (inimigos) eram pegos em invasões e guerras organizadas de pequena escala, e mortos tanto na forma de rituais quanto na forma de represália. Camelídeos (2), como lhamas (Lama glama), também eram comumente sacrificados e depositados em covas como oferendas. Na década de 1970, escavações em Chan Chan encontraram as ossadas de centenas de jovens mulheres que foram sacrificadas em diferentes épocas para acompanharem seus reis em plataformas localizadas nos palácios da citadela.


          No entanto, até pouco tempo atrás, só se sabia de um evento de sacrifício infantil que ocorreu no Norte do Peru, quando arqueólogos encontraram, em 1969, os vestígios ósseos de 17 crianças e 20 camelídeos na cidade de Huanchaco, associada ao Reino Chimú. O evento ocorreu em torno de 1400 d.C. de acordo com datação de radiocarbono.

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   LHAMAS E CRIANÇAS

          Os moradores da cidade Peruana de Huanchaco primeiro noticiaram ossos humanos em 2011, nas dunas costais próximas da antiga capital do império Chimú, em um local conhecido como Huanchaquito-Las Llamas. Isso chamou imediatamente a atenção dos arqueólogos, e um time internacional e interdisciplinar de pesquisadores - liderados por Gabriel Prieto da Universidade Nacional de Trujillo e John Verano da Universidade de Tulane, e com o financiamento da National Geographic Society - correu para explorar local pelos próximos 5 anos.

          Os trabalhos de campo na área de 7500 metros quadrados revelaram os restos de mais de 140 crianças com idades de 5 a 14 anos - idades determinadas via evidências anatômicas e genéticas -, assim como 200 jovens lhamas (mamífero da espécie Lama glama muito comum na região). A maioria das crianças possuíam idades entre 8 e 12 anos, e poucas delas apresentavam notáveis patologias orais - cáries e abcessos -, sugerindo que crianças marginalizadas e de baixa classe social não foram escolhidas preferencialmente para os sacrifícios. Análises das razões de isótopos de nitrogênio e de carbono observadas nas crianças sacrificadas sugerem que elas formam uma amostra heterogênea, talvez composta de indivíduos selecionadas de vários grupos geográficos e étnicos, ao invés de uma única população - padrão similar a sacrifícios infantis associados aos Incas. As ossadas foram datadas em torno do ano de 1400-1450 d.C., a partir de análises de radiocarbono de cordas e textos antigos encontrados junto aos esqueletos enterrados. Todas as mortes parecem ter ocorrido em um único evento, considerando análises de camadas do solo realizadas pelos pesquisadores.







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          A lhamas e as crianças tinham cortes no esterno e costelas deslocadas - sugerindo que seus corações foram removidos durante algum tipo de ritual. Os corpos das lhamas foram posicionados com muito cuidado ao lado ou sobre as crianças, estas as quais foram enterradas descalças (sem as típicas sandálias do povo Chimú). Segundo os especialistas, as crianças provavelmente foram vítimas de um massacre ritualístico em resposta ao péssimo clima que devastou as condições de agricultura da sociedade Chimú devido ao El Niño. Explorações no sítio arqueológico revelaram uma camada de lama sobre os sedimentos associados às covas indicando que os sacrifícios precederam, e talvez foram inspirados, por uma grande tempestade de chuva ou inundação que impactou a economia, política e estabilidade ideológica Chimú. De qualquer forma, segundo os pesquisadores responsáveis pelas análises, o evento de sacrifício em massa foi claramente uma enorme investimento de recursos para a cultura Chimú.

          Diversas pegadas conservadas no local indicam que um grupo de crianças e de lhamas foi conduzido para o local de sacrifício - situado em uma área elevada - das bordas norte e sul, se encontrando no centro do local onde foram mortas e enterradas (algumas foram apenas deixadas ao relento). Tanto os animais quanto as crianças foram mortas com eficientes cortes transversais ao longo do esterno, com a falta de hesitação nos cortes indicando que os golpes foram desferidos por uma ou mais mãos treinadas e de forma muito sistemática.



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          Além disso, no local, foram encontrados os restos de três adultos e vestígios de dois potes cerâmicos intencionalmente quebrados (provavelmente contendo alguma bebida usada no ritual). Sinais de traumas na cabeça gerados pelo bruto impacto de um objeto e a falta de pertences junto aos corpos desses adultos levaram os pesquisadores a suspeitarem que eles podem ter tido um papel no evento de sacrifício e foram mortos pouco tempo depois.

          Até o momento, o maior evento de sacrifício de crianças que se possui evidências físicas é a execução ritualística e enterro de 48 crianças no Templo Mayor, na capital Asteca de Tenochitlán (hoje a Cidade do México).

          Poucas décadas após esse evento ritualístico em Las Llamas, o Chimú sucumbiu às forças do Império Inca em torno do ano de 1475.



REFERÊNCIAS
  1. https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0211691 
  2. https://news.nationalgeographic.com/2018/04/mass-child-human-animal-sacrifice-peru-chimu-science/ 
  3. http://www.textilemuseum.ca/cloth_clay/resources/chimu.cfm
  4. https://www.khanacademy.org/humanities/art-americas/south-america-early/chim-culture/a/introduction-to-the-chim-culture
  5. https://australianmuseum.net.au/learn/cultures/international-collection/chimu-state/