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Anestesia geral: Um dos maiores mistérios da medicina?


- Atualizado no dia 27 de dezembro de 2025 -

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         Todos os anos, mais de 300 milhões de procedimentos médicos complexos e potencialmente dolorosos são realizados ao redor do mundo, requerendo o uso de anestésicos gerais - isolados ou combinados - para que sejam possibilitados na prática e com o máximo de conforto para o paciente. Apesar da importância e do uso comum, os mecanismos da anestesia geral ainda não são totalmente esclarecidos. Muitas substâncias funcionam como anestésicos gerais (ex.: éter e propofol), mas não sabemos ao certo o que exatamente elas fazem no corpo para promover os característicos estados de inconsciência, imobilidade, analgesia (ausência de dor) e amnésia (perda de memória), mais especificamente no cérebro. Aliás, até mesmo as plantas são anestesiadas com essas substâncias!


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   ANESTESIA GERAL

        Anestésicos gerais foram primeiro usados no século XIX quando foi descoberto que a inalação de gás éter fazia com que pacientes parassem de sentir dor durante cirurgias. Desde então, várias substâncias químicas distintas que induzem anestesia geral têm sido encontradas e modificadas. No entanto, apesar do fato de que vários anestésicos gerais estarem sendo usados por mais de 150 anos, relativamente pouco é conhecido sobre como esses diferentes compostos - sem similaridades químicas na maioria dos casos - se comportam como agentes anestésicos induzindo principalmente perda de resposta a estímulos externos e aparente perda de consciência. 

          Nesse sentido, vários estudos ao longo dos anos vêm buscando possíveis receptores específicos de ação no sistema nervoso (principal hipótese defendida) - especialmente envolvendo sinapses - ou outros mecanismos para o estabelecimento de uma teoria válida que explique bioquimicamente a atividade dos anestésicos no corpo de forma abrangente .


        Similar ao sono, a anestesia geral lembra um interruptor reversível, basicamente eliminando temporariamente a consciência e produzindo um estado comportamental inerte ideal para a realização de cirurgias diversas. A busca pelos mecanismos da anestesia geral ao longo dos anos tem focado em proteínas que exercem efeitos na excitabilidade neural, como os receptores inibitórios GABA(A), os quais são, de fato, alvos de vários anestésicos gerais, mas ainda permanecendo não resolvido quais outros mecanismos podem ser responsáveis pela completa perda de resposta comportamental observada em todos os animais expostos às concentrações "cirúrgicas" (doses clínicas) dessas drogas. Somando-se a isso, os efeitos desses anestésicos diferem em certo grau dependendo da forma como são administrados no corpo (injetados ou inalados).

        Entender os anestésicos gerais tem sido um grande desafio na medicina por vários motivos. Ao contrário de várias drogas que agem em um número limitado de proteínas no corpo, esses anestésicos parecem interagir com inúmeras proteínas e outras moléculas. Além disso, alguns pesquisadores acreditam que esses compostos podem trabalhar através de um número de diferentes vias biomoleculares, significando que para um anestésico funcionar não é necessário um único alvo molecular ou que um único alvo molecular não é suficiente para fazer o serviço sem a ajuda de outros. Outro ponto importante: a anestesia geral afeta algo ainda relativamente pouco compreendido pelos cientistas: a consciência.

           Existe evidência experimental inclusive que os anestésicos podem agir através de interação direta com microtúbulos no cérebro no sentido de causar a perda de consciência (Ref.28). Isso traz potencial suporte para a hipótese de que a vibração quântica coletiva dessas proteínas (microtúbulos) dentro dos neurônios é responsável ou necessária para a manifestação da consciência. Esclarecer em detalhes os mecanismos da anestesia geral, portanto, pode ajudar a esclarecer se a natureza física da consciência é quântica ou clássica. 

          Válido também apontar que os mecanismos de ação dos anestésicos locais e regionais (perda de sensibilidade em uma região específica e limitada do corpo) também não são totalmente compreendidos, apesar de não envolverem perda de consciência.

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> Em 16 de outubro de 1846, o dentista William Thomas Green Morton foi o primeiro a demonstrar publicamente o uso de anestesia com éter durante a remoção indolor de um tumor no pescoço de Edward Gilbert Abbott, no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, EUA. O termo "anestesia" é derivado do Grego, e significa "sem sensação".
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   ISOFLUORANO: RESPOSTA?

          Nas sinapses - regiões de encontro entre neurônios - sinais são enviados via neurônios pré-sinápticos e recebidos por neurônios pós-sinápticos. Na maior parte das sinapses, a comunicação ocorre via mensageiros químicos - conhecidos como neurotransmissores. Quando um impulso elétrico nervoso, ou potencial de ação, chega ao final do neurônio pré-sináptico, isso faz com que vesículas sinápticas - pequenos pacotes membranosos que contêm neurotransmissores - se fundam com a membrana terminal, liberando os neurotransmissores dentro do espaço entre neurônios. Quando uma quantidade suficiente de neurotransmissores é sentida pelo neurônio pós-sináptico, é engatilhado um novo potencial de ação nessa célula neural, permitindo que o um impulso nervoso seja transmitido através de vários neurônios.



          Em um estudo publicado no periódico Journal of Neuroscience (Ref.19), pesquisadores demonstraram o mecanismo primário de ação do anestésico geral e volátil isoflurano, o qual mostrou agir enfraquecendo a transmissão dos sinais elétricos transmitidos nas sinapses, mas de forma específica: bloqueia preferencialmente os sinais de alta frequência. Esses sinais de alta frequência são requeridos para funções como cognição, consciência e movimento (controle motor), e possuem efeito mínimo em impulsos de baixa frequência que controlam funções vitais (funções neuronais basais), como respiração e batimento cardíaco. Isso explicaria como o isoflurano é capaz de causar anestesia.



         Em testes com ratos, os pesquisadores mostraram que doses clínicas de isoflurano atenuaram correntes excitatórias pós-sinápticas ao diminuir a probabilidade de liberação e o número de vesículas prontamente liberáveis, seja atenuando exocitose ao inibir correntes de íons de cálcio (Ca2+) evocadas por uma curta despolarização pré-sináptica, seja inibindo exocitose evocada por uma despolarização prolongada ao bloquear diretamente o influxo de Ca2+ do maquinário exócitico. O bloqueio dos canais de Ca2+ mostrou efeitos pronunciados apenas em potenciais de ação de alta frequência, especialmente ao interferir no maquinário exócitico. Impulsos de baixa frequência mostraram engatilhar menos exocitose, e, portanto, o bloqueio do maquinário exótico realizado pelo isoflurano não estaria associado a efeitos significativos nesse cenário.

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   MAIS DO QUE DORMIR

        Um estudo publicado em 2018 na Cell (Ref.6), liderado pelo pesquisador Bruno van Swinderen, da Universidade de Queensland, mostrou que os anestésicos gerais - no caso o propofol e o etomidato foram os compostos estudados - fazem muito mais do que colocar o indivíduo para "dormir".


       Estudos anteriores já haviam mostrado que os anestésicos gerais, incluindo o propofol, agem no sistema de sono do cérebro, como uma típica pílula de dormir, e envolvendo uma potenciação dos receptores GABA(A) nos circuitos envolvidos no processo de sono/despertar no cérebro de mamíferos (!). Porém, o estudo mostrou que o propofol também atua interferindo nos mecanismos pré-sinápticos, provavelmente afetando a comunicação dos neurônio ao longo de todo o cérebro de forma sistemática que difere de apenas colocar o organismo em um sono profundo (basicamente um coma).

       Os pesquisadores encontraram especificamente que o propofol restringe a mobilidade de uma proteína chave - sntaxina1A - na membrana plasmática das sinapses de todos os neurônios. Essa restrição leva à diminuição comunicativa dentro da massa cerebral. Essa disrupção da conectividade sináptica é o que realmente pode fazer as cirurgias serem possíveis, apesar dos anestésicos gerais de fato colocarem você para dormir primeiro. Aliás, esse novo mecanismo pode explicar o porquê das pessoas experienciarem moleza e desorientação após procedimentos cirúrgicos feitos sob anestesia geral.

        A descoberta possui importantes implicações para as pessoas cujos cérebros são vulneráveis, como em crianças com o tecido cerebral ainda em desenvolvimento ou para pessoas com Alzheimer ou Parkison. Nesse sentido, pode também explicar porque indivíduos muito jovens e idosos exibem às vezes complicações durante a anestesia geral.

        Porém é incerto se outros anestésicos gerais possuem o mesmo efeito. Como previamente mostrado, o isofluorano atua também nas sinapses alterando os fluxos de íons cálcio. Outro anestésico, a dexmedetomidina, é um agonista a2-receptor, induzindo uma hiperpolarização de neurônios locus coeruleus, uma redução na liberação de norepinefrina e um aumento nas saídas inibitórias em centros principais de excitação. No geral, o propofol e o etomidato podem potencialmente seguir essas linhas de ação e estarem diretamente associados ao maquinário da exocitose. Podem também existir diferenças de mecanismos de ação entre anestésicos gerais voláteis (aspirados) ou intravenosos (injetados), ou devido a outros fatores diversos.

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(!) ATUALIZAÇÃO: Um estudo publicado no periódico JNeurosci (Ref.23) encontrou que durante o sono e durante a anestesia geral, existe o mesmo tipo de mudança de conectividade neural em uma rede compreendendo regiões do tálamo, cingulado anterior e posterior, córtex e giro angular. Através de tomografia por emissão de pósitrons, os pesquisadores mostraram que essas regiões exibem menor fluxo sanguíneo quando o indivíduo perde conectividade (sob efeito do sono ou de anestésicos), e maior fluxo sanguíneo quando a conectividade é recuperada. Isso também sugere que esses estados de conectividade podem estar associados com a consciência humana.

> Aliás, algumas células neuronais específicas do córtex cerebral exibem maior atividade espontânea sob anestesia do que quando o indivíduo está no estado despertado. Efeitos de anestésicos como o isoflurano também modificam profundamente o sistema auditivo associado ao tronco cerebral, além de modificar representações sensoriais no circuito tálamo-cortical. A consciência não parece depender apenas da simples atividade dos neurônios para emergir, mas da sincronização apropriada de comunicação ao longo do córtex cerebral. Sons e sensações táteis ainda produzem atividade neural na região cortical anestesiada, mas falha de processamento dessas informações em mais alto nível - induzida pelos anestésicos gerais - impede a percepção consciente desses estímulos. Ref.24-26

> O propofol, e possivelmente outros anestésicos, parecem também interferir em um estado cerebral conhecido como "estabilidade dinâmica". Nesse estado, os neurônios possuem excitabilidade suficiente para responder a novos estímulos, mas o cérebro consegue retomar o controle rapidamente e impedir que fiquem excessivamente excitados. A instabilidade crescente nesse sistema causada pela exposição ao propofol parece ser crítica para a perda de consciência. Ref.29
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   Mudança de Fase

          E independentemente da substância anestésica, a perda de consciência na anestesia geral parece ter uma assinatura universal: mudança de fase das ondas cerebrais.

          Em um estudo publicado na Cell (Ref.30), pesquisadores analisaram dois anestésicos que operam de forma bem distinta a nível molecular e celular: quetamina e dexmedetomidina. O estudo conduziu experimentos em animais não-humanos.

           O que as duas drogas têm em comum, segundo mostrou o estudo, é a forma como elas influenciam as ondas cerebrais, que são produzidas pela atividade elétrica coletiva dos neurônios. Quando as ondas cerebrais estão em fase, ou seja, quando os picos e vales das ondas estão alinhados, grupos locais de neurônios no córtex cerebral podem compartilhar informações para produzir funções cognitivas conscientes, como atenção, percepção e raciocínio. Quando as ondas cerebrais ficam fora de fase, a comunicação local, e consequentemente as funções, se desfaz, levando à inconsciência.


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   MEMBRANA LIPÍDICA?

          Para muitos anestésicos (mas não todos), lipofilicidade (grau de afinidade de uma molécula com lipídios) é o fator único mais significativo para indicar a potência anestésica (correlação Meyer-Overton), o que sugere que perturbações nas membranas celulares (constituídas por estruturas lipídicas) agem como mediadores de anestesia.

          Dentro da membrana, regiões de lipídios ordenados, chamadas de 'balsas lipídicas', permitem a compartimentalização de proteínas e de lipídios em nanoescala. As dimensões exatas dessas compartimentos é uma questão ainda debatida, mas experimentos in vitro sugerem algo em torno de 100 nanômetros.

          Nesse sentido, os anestésicos são especulados de trazer disrupção às balsas lipídicas, particularmente alterando lipídios cristalinos cercando um canal (de íons, por exemplo), podendo ativá-lo ou desativá-lo ao mudar o ambiente lipídico. Porém, evidência experimental direta ligando essas propriedades biofísicas a um canal de íon na membrana ou qualquer outra proteína anestésica-sensitiva ainda não existia.

           Em um estudo publicado na PNAS (Ref.22), pesquisadores examinaram mais a fundo as interações entre os anestésicos gerais (clorofórmio e isoflurano) e as balsas lipídicas constituídas de colesterol e lipídios saturados - conhecidas como GM1 - e o canal de íon potássio TREK-1 anestésico-sensitivo. Eles demonstraram experimentalmente em culturas celulares e moscas da fruta geneticamente modificadas, que o clorofórmio e isoflurano ativam o TREK-1 através da enzima fosfolipase D2 (PLD2) nas balsas lipídicas das membranas e subsequente produção do sinalizador lipídico ácido fosfatídico (PA). Quando a atividade catalítica do PLD2 era desativada, as correntes anestésicas associadas ao TREK-1 eram bloqueadas de forma robusta. Em outras palavras, o TREK-1 só se torna sensível a esses anestésicos via ação do PLD2 nas balsas lipídicas.



          Nos experimentos com moscas geneticamente modificadas para não expressarem o PLD2, estas se tornavam resistentes à anestesia.

          Os pesquisadores concluíram que anestésicos gerais inalados, como clorofórmio, isoflurano, dietil éter, xenônio e propofol, alteram a nanoestrutura ordenada de lipídios nas membranas e ativam a enzima PLD2 para induzirem anestesia.


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   SEQUESTRANDO O CONTROLE DE SONO

          Apesar dos anestésicos gerais possuírem uma complexa ação no cérebro, grande parte dessa ação parece residir, de fato, nas áreas do sistema nervoso associadas ao sono. Nesse sentido, um estudo publicado no periódico Neuron (Ref.17) pode ter resolvido outra peça do quebra-cabeças por trás da anestesia geral, ao mostrar que diferentes substâncias usadas para essa função promovem inconsciência ao sequestrar os circuitos neurais responsáveis por fazer um indivíduo dormir. Ou seja, esses anestésicos não agem simplesmente inibindo neurônios, mas ativando certos neurônios - como já apontado por outros estudos experimentais.

          Através de marcadores químicos, os pesquisadores analisaram ratos sob anestésicos gerais. Eles mostraram que essas drogas ativavam um conjunto de neurônios localizados em uma pequena região cerebral no hipotálamo chamada de núcleo supraóptico, o qual atua conectando o sistema nervoso ao sistema endócrino (células neuroendócrinas). Manipulando essa região sem o auxílio das drogas anestésicas, os pesquisadores também conseguiram uma estado de dormência nos ratos similar àquele deflagrado pelos anestésicos gerais. Além disso, ao ser ativada previamente essa região, o efeito da aplicação posterior de anestésicos gerais é prolongado. Já a inibição dessa região diminuiu os efeitos da anestesia geral e trouxe prejuízos para o sono natural.

           Antes desse estudo, era ainda incerto se drogas de anestesia geral e os mecanismos naturais de sono compartilhavam um caminho neural comum.

          O achado pode ajudar na formulação de novas drogas anestésicas associadas com menos efeitos colaterais e também ajudar pessoas que possuem dificuldade para dormir devido a certas doenças.


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   TOTAL PERDA DE CONSCIÊNCIA?

         Um estudo de 2018, conduzido por pesquisadores da Universidade de Michigan e da Universidade da Califórnia, EUA (Ref.15), mostrou que durante a anestesia não ocorre a total perda de consciência, mesmo a pessoa não mais reagindo ao ambiente à sua volta. 

          Durante experimentos monitorados por eletroencefalograma e tomografia por emissão de pósitron, 47 voluntários saudáveis foram anestesiados aleatoriamente ou com dexmedetomidina ou com propofol, e, então, expostos a diferentes estímulos verbais e não-verbais. Apesar de não conseguirem conscientemente se lembrar de nada, o cérebro deles respondiam aos estímulos do ambiente, mas não conseguia discernir sentenças lógicas das ilógicas no caso dos estímulos verbais. Um dos resultados mais interessantes dos experimentos é que quando sons ruins eram tocados para os anestesiados, eles eram mantidos na memória inconsciente dos participantes após acordados, estes os quais respondiam mais rápido aos mesmos sons quando tocados novamente, mesmo não se lembrando conscientemente deles.

         Basicamente, o estudo mostrou que o cérebro consegue processar sons e palavras quando anestesiado, mesmo o indivíduo não se lembrando desses estímulos quando acordados. Isso vai de encontro à crença comum de que a anestesia induz necessariamente uma total perda de consciência, e sugere que a anestesia geral pode ter um efeito muito mais parecido com aquele visto no sono natural do que antes pensado, apesar de substanciais diferenças, como reforçado no tópico anterior.

         Nesse caminho, também é válido mencionar que entre 0,1% e 0,9% dos procedimentos de anestesia acabam resultando em uma terrível experiência associada a uma consciência normal intraoperativa com lembrança explícita. Em outras palavras, um pequeno percentual de pessoas que são anestesiadas continuam relativamente acordadas e cientes durante a cirurgia mas incapazes de responder ao ambiente externo, e se lembram de sensações desagradáveis ao saírem do estado de anestesia. 

          Essas sensações desagradáveis durante a anestesia geral podem envolver lembranças auditivas (48%), dores (28%) e/ou dificuldade em respirar (48%). Tais experiências podem levar até mesmo a traumas - como o transtorno de estresse pós-traumático (PTSD) - e aversão do paciente a novos procedimentos cirúrgicos envolvendo anestesia. Mesmo com o uso hoje de monitores avançados de atividade cerebral, é ainda difícil para os anestesiologistas detectarem um estado de alta consciência nos pacientes quando anestesiados (o que corresponde a um procedimento anestésico parcialmente falho), principalmente por causa do fato de que entendemos pouco ainda sobre as bases neurológicas da consciência.

        Os fatores de risco para a consciência intraoperativa com lembrança explícita são englobados em três subgrupos: pacientes, procedimentos cirúrgicos e técnicas anestésicas. Cirurgias cardíacas e cesarianas de emergência, por exemplo, aumentam substancialmente as chances desse evento ocorrer, especialmente os procedimentos cardíacos. Pacientes mais jovens (<60 anos) do sexo feminino e aqueles viciados (usuários de drogas requerem uma maior quantidade de anestésicos) também são importantes fatores de risco, onde as mulheres possuem uma chance 3 vezes maior de desenvolverem o quadro. O uso de propofol ou de dexmedetomidina parece diminuir os riscos.


   ACORDANDO DA ANESTESIA

           Ao sair da anestesia, mais de um terço dos pacientes pode apresentar sonolência extrema ou hiperatividade, um efeito colateral chamado delírio. Células imunológicas especiais no cérebro, chamadas micróglias, parecem ter papel importante nesse processo e podem agir protegendo os neurônios dos efeitos colaterais da anestesia e, assim, acabam despertando o cérebro anestesiado (Ref.31). Durante a anestesia, as micróglias aumentam a atividade dinâmica de vigilância no cérebro e interagem de forma mais íntima com os neurônios. A hiperatividade do delírio pode ser resultado das micróglias intervindo em excesso entre os neurônios e as sinapses inibitórias.


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   PLANTAS ANESTESIADAS?

          Um estudo publicado em 2017 no periódico Annals of Botany (Ref.7) demonstrou experimentalmente que plantas reagem às substâncias anestésicas de forma relativamente similar aos animais, sugerindo que esses organismos podem ser usados como modelos em experimentos para o estudo de anestésicos - embora, obviamente, o fenômeno não sugere a existência de "consciência" em plantas (Ref.32). Estudos subsequentes também têm trazido evidências experimentais de que plantas expostas a anestésicos gerais perdem suas respostas a estímulos externos (Ref.33-35).

         Na verdade, desde o final do século XIX, vários reportes de fisiologistas botânicos têm sido feitos sobre efeitos de anestésicos em plantas, mas não se sabia o quão similar eles eram com os animais ou quais os processos específicos sendo afetados. Até mesmo Charles Darwin chegou a comentar sobre o fenômeno. Em 1878, o fisiologista francês Claude Bernard publicou resultados de vários experimentos com anestesia em plantas e chegou a concluir que: “tudo o que está vivo deve sentir e pode ser anestesiado, o resto está morto” (Ref.35). E, em certo sentido, existe também evidência na literatura científica que paramécias - protozoários ciliados - e fungos também podem ser anestesiados.

          Aliás, especialmente sob estresse, as plantas, em geral, produzem seus próprios anestésicos endógenos, como etanol, divinil éter, acetaldeído, mentol, cocaína, atropina, monoterpenos, fenilpropanos, etano, etileno, entre vários outros. De fato, plantas emitem quantidades gigantescas de hidrocarbonetos de baixa massa molecular e outros compostos voláteis, com muitos deles possuindo propriedades anestésicas. E mais: o aumento de pressão ambiente (>1 MPa) tende a reverter todas as ações de anestésicos em plantas, algo que também ocorre com animais, incluindo a perda de consciência nesses últimos, ao agir contra o aumento da fluidez das membranas celulares disparado pela ação desses compostos.

          No estudo experimental de 2017, quando expostas aos anestésicos gerais, as plantas analisadas perdiam movimentos autônomos e induzidos. Sob anestesia, uma das plantas carnívoras (1) mais famosas - aquela com abertura "dentada" na forma de boca, Dionaea muscipula - não mais conseguia gerar sinais elétricos e suas armadilhas de captura permanecem abertas, mesmo quando seus pelos de ativação são tocados. O mesmo mostrou ocorrer com a planta carnívora do tipo 'papel mata-moscas' (Drosera capensis), cujos movimentos autônomos eram suprimidos, permanecendo imobilizada em um formato curvado. Ambas as plantas foram imobilizadas pela mesma concentração de éter dietílico


Efeito anestésico do éter dietílico em plantas carnívoras e na espécie Mimosa pudica. Essa última - comumente chamada de "dormideira" - é uma planta muito popular da família Fabaceae, cujas folhas são rapidamente curvadas para dentro quando tocadas, aquecidas ou sacudidas; as folhas espontaneamente se abrem após alguns minutos seguindo o fechamento. No escuro, as folhas da M. pudica também gradualmente se fecham até a claridade voltar.

          Os experimentos também mostraram que anestésicos gerais também dificultam a germinação de plantas e o acúmulo de clorofila em mudas de agrião. Raízes de Arabidopsis (gênero de pequenas plantas com flores nativas da Europa e da Ásia) também foram afetadas por todos os anestésicos testados, através de ação no processo de reciclagem endócitica vesicular e no balanço de espécies reativas oxigenadas. Assim como nos animais, as plantas mostraram-se sensitivas a vários anestésicos que não possuem similaridades estruturais entre si.

         Os resultados desse estudo sugerem que a ação de anestésicos ao nível celular e de órgãos são, em significativa extensão, similares em plantas e animais, e que o alvo desses compostos parecem ser processos ou moléculas gerais relacionadas às membranas celulares ou microtúbulos ao invés de receptores específicos, como defendido por parte da comunidade científica - talvez através de efeitos na estrutura eletrônica de proteínas críticas embebidas nas bicamadas lipídicas das membranas ou no citoplasma. De fato, anestésicos modificam a espessura e propriedades mecânicas da membrana celular. 

Modelo proposto para uma célula vegetal sob anestesia. Os anestésicos bloqueiam os potenciais de ação das plantas. O tráfego de membrana é perturbado e espécies reativas de oxigênio (ROS) excessivas são geradas rapidamente. Essas respostas celulares rápidas levam à perda de resposta a estímulos externos. A linha dupla representa a membrana plasmática da célula, comprometida em células sob anestesia. Enquanto respostas a estímulos externos são inibidas, outras respostas celulares são aumentadas nas plantas sob anestesia (ex.: geração de ROS e resposta ao choque térmico). Ref.33-34

          Será que plantas podem servir como modelo razoável para anestesia em humanos?

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   ANESTESIAS GERAIS SÃO PERIGOSAS?

        Sem anestesia geral, muitos procedimentos cirúrgicos importantes - especialmente aqueles mais invasivos - não seriam possíveis, incluindo cirurgias cardíacas, cirurgias cerebrais e transplante de órgãos. Os anestésicos podem ser administrados tanto diretamente na corrente sanguínea (intravenoso) ou como um gás de inalação. A via intravenosa irá agir mais rápido e desaparecer rapidamente do corpo, permitindo aos pacientes irem para casa mais cedo após a cirurgia. Já os efeitos promovidos pela forma inalada podem demorar mais tempo para desaparecer.

        Hoje, a anestesia geral, tipicamente, é um procedimento muito seguro. Porém, pode impor um maior risco adverso para alguns pacientes, como idosos ou pessoas com doenças/condições crônicas, incluindo diabetes, obesidade e fumantes. Além disso, os efeitos de anestésicos podem durar por vários dias em alguns pacientes, especialmente os idosos e as crianças muito novas. 

          Geralmente, os médicos usam o termo 'dormir' para se referirem aos efeitos da anestesia geral - com o objetivo de evitar preocupações desnecessárias nos pacientes -, mas, basicamente, o que temos é um coma reversível. Como o cérebro entra e sai de um coma induzido, a abrupta mudança no estado neural trazida pela anestesia geral naturalmente traz uma certa curiosidade científica sobre os possíveis efeitos colaterais em certos indivíduos.

        O sistema nervoso central não é totalmente desenvolvido no nascimento. O cérebro possui aproximadamente 335 gramas no nascimento, dobra de tamanho ao 6 meses de idade e quase triplica aos 12 meses. Esse período de sinaptogênese pode tornar o cérebro especialmente vulnerável à ação dos anestésicos gerais e, portanto, otimizar a ação desses compostos ao conhecer todos os seus mecanismos de funcionamento torna-se vital. Além disso, existem limitadas evidências de que procedimentos múltiplos de anestesia até a idade de 3 anos - e algumas fracas evidências estendendo essa faixa até os 10 anos - podem aumentar os riscos de danos por neurotoxicidade ligados ao desenvolvimento futuro de problemas de aprendizado, linguagem e habilidades cognitivas. Porém, mesmo com tais possíveis efeitos neurotóxicos - longe de ser uma possibilidade conclusiva -, os benefícios do procedimento de anestesia geral acaba superando e muito os riscos em todas as idades dependendo da cirurgia a ser realizada. Aliás, para muitos procedimentos críticos, não existem outras opções.

         Em 2016, o FDA Norte-Americano tinha alertado que a sedação prolongada ou realizada repetidas vezes em crianças menores de 3 anos de idade pode afetar o desenvolvimento cerebral. O alerta foi emitido com base em estudos clínicos com outros animais, estes os quais quando expostos muito jovens à maioria dos anestésicos comumente utilizados em doses clínica exibem mudanças na estrutura cerebral, levando a efeitos adversos no comportamento e cognição anos mais tarde.

           Um estudo de 2018 conduzido por pesquisadores da Mayo Clinic no periódico Anesthesiology (Ref.12) não encontrou evidência de que crianças recebendo anestesia antes dos 3 anos de idade possuem um QI menor do que aquelas que não recebem anestésicos. Porém, para crianças que receberam anestesias várias vezes, enquanto o QI mostra níveis comparáveis com as outras, as habilidades motoras finas sofrem um pequeno prejuízo, além dos pais reportarem mais problemas comportamentais e de aprendizado.

           No estudo da Mayo Clinic, 997 pessoas nascidas de 1994 até 2007 em Olmsted County, Minnesota, foram analisadas, sendo dividas em três grupos baseados na exposição às anestesias antes dos 3 anos de idade: 206 tiveram duas ou mais ; 380 tiveram apenas uma; e 411 não tiveram nenhuma. Os procedimentos cirúrgicos envolvidos, em sua maioria, envolviam intervenções no ouvido, no nariz ou na garganta. Inteligência, memória e várias outras funções cerebrais eram similares entre os grupos. Porém, foram percebidos declínios modestos nas habilidades motoras finas - como a destreza em desenhar figuras com um lápis ou o quão rápido eram em processar informações de leitura -, e um maior risco no desenvolvimento de problemas comportamentais, como dificuldade em ler, ansiedade, isolamento social, agressão e menor foco de atenção. 

          Os autores desse estudo realçaram que o uso de anestesias nessa fase da infância em procedimentos cirúrgicos de urgência ou recomendação médica, mesmo múltiplas vezes, traz benefícios que superam os riscos.

          Mas alguns anestésicos podem ser mais arriscados do que outros. Um estudo mais recente publicado na PNAS (Ref.27) - envolvendo análise longitudinal de 93 bebês - constatou que a exposição prolongada e/ou repetida a agentes anestésicos GABAérgicos (ex.: sevoflurano e propofol) nos primeiros dois meses de vida resulta em uma maturação acelerada dos padrões de atividade elétrica cerebral evocados por estímulos visuais, quando registrados entre 2 e 5 meses de idade, em comparação com bebês que não foram expostos à anestesia geral precocemente. Isso sugere que essa "classe" de anestésicos não deveria ser usada em recém-nascidos.

            Um estudo subsequente, também conduzido por pesquisadores da Mayo Clinic, e publicado no British Journal of Anaesthesia (Ref.16), encontrou que adultos acima dos 70 anos de idade expostos à anestesia geral e cirurgia associada parecem exibir um declínio sutil nas habilidades de processar informações e de memória, com efeitos na função cerebral de longo prazo. A conclusão veio depois da análise de 1819 participantes com idades entre 70 e 89 anos (seguidos por 20 anos), e, apesar do declínio na função cerebral ser pequeno, este pode ser significativo para indivíduos com problemas cognitivos pré-existentes ou já com uma baixa função cognitiva. Porém, ainda é incerto se ou a anestesia, e/ou a cirurgia, e/ou a condição tratada são a causa do problema.

          Esse último achado foi reforçado por outro estudo da Mayo Clinic (Ref.20), onde foi encontrado que adultos com idade mais avançada que tiveram cirurgia com anestesia geral podem experienciar uma modesta aceleração do declínio cognitivo (atrofia cortical em áreas do cérebro), mesmo anos depois. No entanto, não foi encontrada evidência ligando a anestesia geral a um aumento de risco de Alzheimer (não foi observado maior acúmulo de proteína amiloide). Para essa conclusão, foram examinados 585 pacientes via escaneamentos cerebrais. 

          Um estudo de 2020 publicado no Journal of the American Geriatrics Society (Ref.21), analisando 7499 pacientes com idade de 66 anos ou mais, também não encontrou maior risco de desenvolvimento de demência nos 5 anos seguindo a anestesia geral ou regional.

           De qualquer forma, sérios efeitos colaterais nas pessoas em geral - como uma queda perigosa na pressão sanguínea - são muito menos comuns do que antigamente, sendo hoje considerados muito raros. Mesmo assim, como muitos procedimentos médicos, existem alguns riscos, incluindo raros casos de alergias aos compostos sendo empregados para a anestesia. Para minimizá-los, médicos especializados chamados de anestesiologistas cuidadosamente monitoram o estado de inconsciência dos pacientes, ajustando a quantidade de anestésicos sendo administrados entre outros medicamentos também agindo em conjunto.

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> Os anestésicos deixam as pessoas inconscientes e previnem a sensação de dor, mas não paralisam os músculos, estes os quais continuam sendo capazes de se moverem. Nesse sentido, além dos anestésicos, durante cirurgias são frequentemente administrados relaxantes musculares (em específico, agentes de bloqueio neuromuscular). Esses fármacos aumentam os riscos de complicações respiratórias pós-cirurgias sob anestesia geral, incluindo reduzida capacidade pulmonar transiente de absorção de oxigênio e infecções nos pulmões e trato respiratório. Ref.18

> Por motivos não muito bem esclarecidos, profissionais de saúde do sexo feminino trabalhando em hospitais podem experienciar um maior risco de aborto espontâneo caso sejam expostas cronicamente a gases anestésicos durante procedimentos diversos (ex.: gases que vazam da máscara de pacientes). Por isso é feito um rígido controle em hospitais - ou deveria ser feito - para minimizar essas exposições.

> Existe evidência acumulada de que a anestesia geral pode ser realizada de forma segura para a mãe e  durante o procedimento de cesariana. A anestesia regional - geralmente com bloqueio espinhal ou epidural - tem sido preferida há muito tempo para partos cesáreos, em parte devido a preocupações com os efeitos que a anestesia geral pode ter sobre os recém-nascidos durante o trabalho de parto e o parto.
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   CONCLUSÃO

        Só nos EUA, quase 60 mil pacientes recebem anestesia geral por dia para a realização de cirurgias. Apesar de ser um procedimento extremamente comum, ainda não esclarecemos todas as ações específicas dos anestésicos gerais no cérebro. Vital para medicina, a anestesia geral carrega alguns riscos, mas, em geral, é um procedimento seguro e traz benefícios que superam e muito quaisquer potenciais efeitos deletérios associados dependendo do procedimento cirúrgico a ser realizado e da urgência médica associada.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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