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Suicídios e Armas de Fogo


- Artigo atualizado no dia 12 de outubro de 2018 -

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           Nos EUA, a segunda causa mais comum de morte entre pessoas de 15 a 34 anos é o suicídio. E entre todas as mortes por armas de fogo no país, 60% delas ocorrem por suicídio (Ref.1). Em uma média diária, mais de 100 pessoas morrem por suicídio no país, onde cerca de metade das mortes ocorrem com o uso de armas de fogo (Ref.14). Além disso, um estudo feito recentemente pela Universidade de Harvard mostrou que o número de suicídios aumentam com o aumento na disponibilidade de armas de fogo de região para região do país (Ref.2). Diversos outros estudos feitos ao longo dos anos também mostram uma forte relação entre o acesso facilitado e porte de armas e o aumento no número de suicídios (Ref.2-19). E amplas medidas de redução da disponibilidade e acesso de armas de fogo em alguns países foram efetivas para diminuírem o índice de suicídios (Ref.19). E isso é só para citar alguns. Não dá para ficar mais claro.


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   ASSOCIAÇÃO CLARA

          Resultados de um estudo recentemente publicado no American Journal of Public Health (Ref.22) vieram para corroborar, mais uma vez, os inúmeros estudos prévios ligando a prevalência de armas de fogo nos lares com o maior número de suicídios. Esses resultados mostraram que a taxa 35% maior de suicídios nas áreas rurais do Estado de Maryland do que nas áreas urbanas pode ser claramente atribuído ao maior uso de armas de fogo nessas regiões.

          De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo estudo, este o qual analisou 6,2 mil suicídios no Estado entre os anos de 2003 e 2015, esses resultados vão ao encontro de inúmeros outros estudos ligando a maior presença dessas armas no ambiente familiar com um maior número de suicídios. Nas áreas rurais de Maryland, os suicídios por armas de fogo são 66% maior do que nas áreas urbanas.

         Ainda de acordo com os pesquisadores, os resultados sugerem que um melhor controle de armas e programas de conscientização/segurança precisam ser implantados para resolver esse grave problema de saúde pública. Apesar da mídia Norte-Americana sempre tender a retratar mais as mortes por armas de fogo em termos de homicídio, apenas 1 em cada três mortes por essas armas são relacionadas a um crime, sendo as outras duas ligadas ao suicídio.

          Nos EUA, os índices de suicídio aumentaram para 13,3 mortes para cada 100 mil habitantes em 2015, o maior nos últimos 30 anos. É a 10° maior causa de mortes no país e é a segunda em termos de fatalidades acidentais. Homens são quatro vezes mais suscetíveis a usar armas de fogo do que mulheres, estas as quais preferem usar outros métodos (os quais estão associados a uma maior taxa de falha). Entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos, suicídios por armas de fogo nos EUA matam mais de 1000 anualmente

          Nesse sentido, um estudo de revisão sistemática publicado ano passado (janeiro, 2017) (Ref.21), sobre a relação entre armas de fogo e índices de suicídio, mostrou que regiões nos EUA que adotaram leis mais duras quanto à compra de uma arma de fogo e rígida avaliação do histórico do comprador foram efetivas em diminuir a quantidade de suicídios. Em outras palavras, empecilhos para a entrega de armas de fogo para qualquer um ajudaram a frear os índices de suicídio em certas regiões do país.  

        Continuando nessa linha, um estudo publicado na Suicide and Life-Threatening Behavior (Ref.25), analisando diversas co-variáveis que poderiam explicar as variações de taxas de suicídios cometidos entre os estados Norte-Americanos - como religião, psicopatologias, consumo de drogas, acesso a armas de diferentes naturezas, etc. - não conseguiu retirar o grande fator de risco associado com as armas de fogo.

          Para não ficarmos presos em análise aos EUA, um estudo publicado em setembro deste ano (2018) no Journal of Health Economics (Ref.27) mostrou que a diminuição da prevalência de armas de fogo entre a população na Suíça está diretamente associada à diminuição nas taxas de suicídio por armas de fogo e total. Para uma diminuição de 1000 armas de fogo para cada 100 mil habitantes, os autores do estudo encontraram que houve uma diminuição de 9% nas taxas de suicídio via essas armas, mas nenhuma variação no número de suicídios via outros métodos.

          Outro fato válido de ser apontado é que o suicídio é a principal causa de morte entre policiais ao redor do mundo. Vítimas de um trabalho desgastante e em contato diário com a violência, o estresse e traumas podem fomentar os atos de suicídio entre esses profissionais. Nesse sentido, o contato permanente e facilitado com as armas de fogo pode também ser um fator importante a ser levado em conta, especialmente considerando que esses profissionais são constantemente treinados para enfrentarem situações traumáticas e estressantes. Um estudo publicado na Comprehensive Psychiatry (Ref.28) em junho deste ano (2018) mostrou que a taxa média anual (2006-2015) de suicídios entre os policiais do Rio Grande do Sul (12,5/100000) é maior do que aquela vista na população geral do estado (10,5/100000) e quase três vezes maior do que aquela vista entre a população geral do Brasil (5,1/100000).

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   EFEITO E CAUSA

           Obviamente, ter a posse de uma arma de fogo não aumentará a idealização suicida no indivíduo. Um pessoa determinada a tirar a própria vida - resultante de um pensamento momentâneo ou acumulativo - irá tentar o ato com qualquer tipo de método ou arma a disposição, priorizando meios de fácil acesso. Nesse sentido, as três principais causas para tornar as armas de fogo aliadas número um dos suicídios são:

1. Elas são um dos métodos mais mortais para se cometer tal ato, enquanto outros meios frequentemente tendem a falhar (afogamento, envenenamento, cortes com faca, etc.) ou demoram tempo suficiente para um socorro chegar. E, após a falha no suicídio, o indivíduo tende a desistir da ideia de colocar fim à própria vida seja por ter mais tempo para racionalizar sobre seus problemas seja por receber maior apoio externo de familiares e profissionais de saúde;

2. Boa parte (mas não a maioria) das pessoas tendem a estar, quando decidem se suicidar, sob um impulso instantâneo de desprezo à vida, ou seja, agem pelo momento. Com uma arma de fogo à disposição, o ato fica mais fácil e rápido de ser cometido, enquanto outros métodos mais planejados e calculistas permitem que a pessoa tenha mais tempo para pensar durante sua preparação, fazendo-as desistir bem mais frequentemente no momento de execução. Isso também é ainda mais válido para os casos de homicídio;

3. Puxar o gatilho dá uma sensação de alívio instantâneo, sem sofrimento, enquanto os outros métodos podem passar uma ideia de grande tortura antes da morte. Além disso, o ato de puxar o gatilho cria uma ilusão de que um terceiro está tirando sua vida, e não você mesmo, deixando o ato mais fácil de ser executado. Este último ponto também vale para os casos de homicídio.

          Todos esses fatores de incentivo são potencializados caso o indivíduo possua transtornos metais - como depressão - ou sofra com o abuso de substâncias de vício - como o alcoolismo. No caso de crianças e adolescentes, os pais que possuem armas de fogo em casa precisam a todo custo mantê-las bem longe e seguras dos filhos, especialmente porque nessa faixa de idade os indivíduos tendem a agir mais impulsivamente. Pais que possuem armas de fogo precisam também ter mais urgência em procurar tratamento profissional para os filhos caso estes sofram com problemas relacionados ao abuso de drogas e a transtornos mentais.

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      CASO JAPÃO

          Muitos gostam de citar o alto índice de suicídios no Japão - 18,5 mortes para cada 100 mil habitantes em 2015 (Ref.24) -  para desacreditar a associação entre armas de fogo e o aumento no número de suicídios, já que no território Japonês a presença dessas armas entre a população é extremamente baixa. Apesar das taxas Japonesas de suicídio terem diminuído substancialmente neste século após alcançarem um pico total de 34427 mortes em 2003 - em 2016 o número total foi de 21897 mortes, algo resultado de grandes esforços das políticas públicas aderençando a situação alarmante - o suicídio continua sendo um problema grave no país. Em 2014, o Japão era o 6° país em taxa de suicídio, ficando atrás de países como Lituânia (30,8 suicídios para cada 100 mil habitantes), Coreia do Sul (28,5) e Suriname (24,2).

           Porém, algo óbvio nunca é levantado entre os críticos mais apaixonados contra as políticas de desarmamento da população civil ou de maior regulamentação armamentista: e se as armas de fogo fossem mais amplamente disseminadas entre a população Japonesa, será que a variação da taxa média anual de suicídios manteria-se a mesma ou aumentaria significantemente? Além disso, o Japão possui uma cultura bem diferente daquela carregada pelos países do Ocidente. Usar esse país como escudo em defesa da maior acesso de armas de fogo pela população Brasileira, por exemplo, não faz sentido.

            Na Guiana, um dos países com maiores índices de suicídio no mundo (44,2 para cada 100 mil habitantes, enquanto a média mundial é 16, segundo a OMS), a principal ferramenta de suicídio é o uso de pesticidas (65%), os quais são muito fáceis de serem adquiridos nas zonas rurais do país. Em seguida, vem o método de enforcamento, contando com 1 em cada 5 casos. Mas o mais importante vem agora: para cada suicídio bem sucedido, existem mais 25 tentativas fracassadas, segundo profissionais de saúde no país. Agora imagine se as armas de fogo fossem amplamente disseminadas pelo país, ao invés dos pesticidas. (Ref.20)
           

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    CONCLUSÃO

           Sim, a grande presença das armas de fogo no nosso ambiente domiciliar e cotidiano não tende a fazer bem para ninguém. Por trás da ilusão de proteção, existem acidentes de manuseio, homicídios não-intencionais, letal curiosidade infantil e maiores riscos de suicídio. As campanhas de desarmamento da população civil não são apenas uma aposta cega no combate à violência. São tiros certeiros pela causa da paz. Armas deveriam ter o seu uso restrito para agentes da lei e segurança que possuem treinamento específico para usá-las, os quais estarão sendo constantemente monitorados para que esses artefatos atuem, em princípio, apenas durante momentos específicos e necessários. Distribuir armas para todos não é, e nunca será, solução positiva para nada. O excesso de violência na sociedade precisa ser solucionado na raiz do problema, e não aumentando o potencial de violência em todos os lados.



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REFERÊNCIAS
  1. http://www.nytimes.com/2015/12/14/opinion/to-reduce-suicides-keep-the-guns-away.html?_r=0
  2. https://www.hsph.harvard.edu/magazine-features/guns-and-suicide-the-hidden-toll/
  3. http://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJM199208133270705
  4. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1485564/
  5. http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1111/sltb.12243
  6. http://ajp.psychiatryonline.org/doi/pdf/10.1176/appi.ajp.2013.13060818
  7. http://heinonline.org/HOL/Page?handle=hein.journals/bclr56&div=37&g_sent=1&collection=journals
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  11. http://injuryprevention.bmj.com/content/21/e1/e116.short
  12. http://ajph.aphapublications.org/doi/abs/10.2105/AJPH.2013.301409
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  14. http://www.aappublications.org/news/2016/06/27/Suicide062716?trendmd-shared=0
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  19. http://ajp.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/appi.ajp.2016.16010069
  20. http://www.bbc.com/news/world-latin-america-37618854
  21. http://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/article-abstract/2582989
  22. http://www.jhsph.edu/news/news-releases/higher-rural-suicide-rates-driven-by-use-of-guns.html
  23. http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2018/02/19/peds.2017-3884
  24. http://www.who.int/mental_health/suicide-prevention/japan_story/en/
  25. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4884900/
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