Qual é a relação entre dirofilarose e cães?
![]() |
| Figura 1. Achados na paciente. |
Uma mulher de 26 anos de idade, previamente saudável, apresentou-se ao departamento de emergência de oftalmologia com uma lesão móvel na sua pálpebra esquerda que persistia há 24 horas. Ela tinha um cão de estimação. Exame físico revelou uma estrutura serpentina dentro da parte superior da pálpebra esquerda que estava cercada por eritema e edema leves (Fig.1A e vídeo). Excisão cirúrgica da lesão foi subsequentemente realizada e revelou um verme nematódeo de 11 cm (Fig.1B).
O parasita filiforme removido foi identificado como pertencente à espécie Dirofilaria repens após análise histológica, com microfilárias observadas em dois "úteros" do verme (Fig.C, setas). Um diagnóstico de dirofilariose subcutânea foi feito.
Durante a investigação médica, a paciente também relatou um pequeno nódulo que se desenvolveu na sua têmpora direita 1 mês antes da apresentação hospitalar e que desapareceu 1 dia antes da lesão serpentina aparecer na pálpebra esquerda.
Após extração do verme, os sintomas da paciente se resolveram.
DIROFILARIOSE
A dirofilariose, também chamada "doença do verme do coração" (heartworm disease), é uma antropozoonose emergente de cães, de caráter crônico, causada por vermes nematódeos do gênero Dirofilaria, onde o Dirofilaria immitis é a espécie mais amplamente conhecida, sendo transmitida por mosquitos dos gêneros Aedes (1), Culex (2), Anopheles (3) e Ochlerotatus, Coquillettidia e Mansonia (Fig.3). Nos humanos, a parasitose caracteriza-se comumente por comprometimento do parênquima pulmonar ou nódulos subcutâneos, porém, nos cães, manifesta-se como lesões no endotélio vascular e obstruções causadas pelo parasita adulto, sendo encontrado principalmente no ventrículo direito do coração. Os gatos, embora possam ser parasitados, são mais resistentes à infecção.
![]() |
| Figura 3. Mosquitos do gênero Aedes, Anopheles e Culex, principais vetores dos parasitas do gênero Dirofilaria spp. |
Leitura recomendada:
- Qual é a diferença entre Chikungunya e Dengue?
- O que é a Febre de Oropouche?
- Malária no Brasil afeta apenas a região Amazônica?
A espécie D. immitis, em específico, é um parasita dos sistemas circulatório (coração e grandes vasos) e linfático, tecido subcutâneo, cavidade peritoneal ou mesentério de cães, canídeos silvestres e, menos frequentemente, gatos, necessitando de um hospedeiro invertebrado intermediário - mosquitos hematófagos em particular - para ser transmitido para esses animais. Os vertebrados são os hospedeiros definitivos.
A distribuição geográfica da parasitose em animais diversos é mundial, com casos registrados na África, Ásia, Austrália, Europa, e nas Américas do Sul e do Norte. Nas áreas endêmicas, incluindo regiões tropicais e temperadas favoráveis ao crescimento do verme, a prevalência de infecções por D. immitis varia de 40 a 70% nos cães e de 1 a 4% nos gatos. No Brasil, a dirofilariose canina é muito comum, em especial nas regiões costeiras (Ref.3).
Diversos fatores podem interferir nas taxas de prevalência da infecção por D. immitis em cães, como a população de vetores, a população canina desprotegida, o clima, o número de cães microfilarêmicos (com microfilárias circulando no sangue), a idade, o manejo e as viagens para regiões endêmicas. Portanto, o comportamento dos vetores, sua adaptação a novos ambientes e o transporte de cães para diferentes regiões são fatores importantes por trás da distribuição mundial da infecção.
Para a ocorrência da dirofilariose humana vários fatores devem ser também considerados, como o tamanho da população canina, alterações climáticas, prevalência da infecção em cães, densidade da população de mosquitos vetores e frequência de exposição dos humanos às picadas desses insetos. Humanos são considerados hospedeiros aberrantes ou acidentais.
----------
> Os reservatórios naturais mais competentes para esses vermes são os canídeos domésticos e selvagens (para as espécies Dirofilaria repens e Dirofilaria immitis), guaxinins (para a espécie Dirofilaria tenuis) e ursos (para a espécie Dirofilaria ursi). Mas vários outros mamíferos podem ser infectados por esses vermes, incluindo lontras e ouriços. Ref.4
> O atual processo de aquecimento global antropogênico pode estar por trás do aumento de casos clínicos reportados de dirofilaríase em humanos e outros animais. Em humanos, já é considerada uma zoonose emergente. Ref.4
> Nos tecidos humanos, os vermes nem sempre alcançam a maturidade sexual, mas fêmeas grávidas têm sido extraídas de vários pacientes - mesmo naqueles imunocompetentes. Dirofilíase subcutânea em humanos geralmente se manifesta em áreas descobertas, como a cabeça e os membros, suscetíveis às picadas de mosquitos. Geralmente humanos são infectados pela espécie D. repens. Ref.5
> Os vermes Dirofilaria podem infectar locais e tecidos diversos no corpo humano, mas principalmente a pele, pulmão e olhos. Do total de 27 espécies válidas do gênero, apenas três delas têm sido comumente associadas com infecções em humanos: D. immitis, D. tenuis e D. repens. Ref.6
-----------
A espécie D. repens é um parasita natural de cães e gatos na Europa, Ásia e África, localizando-se no tecido subcutâneo e no olho, enquanto a D. tenuis parasita o tecido subcutâneo, linfonodos, conjuntiva e cordão espermático de humanos. Nos gatos, a maior parte das infecções é amicrofilarêmica, a carga parasitária é baixa e a infecção é geralmente assintomática.
Os vermes necessitam de um artrópode hematófago (mosquito) para o desenvolvimento do ciclo vital. Os parasitas adultos, machos e fêmeas, vivem nos tecidos ou cavidades orgânicas dos hospedeiros definitivos. As fêmeas são vivíparas, incubam os ovos no útero e liberam larvas de primeiro estágio (L1) para o sangue circulante, as quais se alojam na pele. As microfilárias são ingeridas pelo artrópode durante o consumo sanguíneo de vertebrados. No interior do mosquito ou de outro artrópode, as microfilárias se desenvolvem até atingir o terceiro estágio larval (L3) migrando rapidamente até as partes bucais do hospedeiro invertebrado, sendo, então, depositadas na pele do animal pelos mosquitos, durante novo consumo sanguíneo.
As larvas L3 adentram a pele do novo hospedeiro pelo local da picada do mosquito e, após vários meses de migração e maturação, alcançam as artérias pulmonares. Um pequeno nódulo se desenvolve, tipicamente próximo do local de inoculação (picada), onde o verme se desenvolve. Raramente múltiplos nódulos são manifestados. Dez a 12 microfilárias por picada podem ser transmitidas por um só mosquito.
![]() |
| Figura 4. Ilustração do ciclo biológico da Dirofilariose Canina. |
Em humanos infectados pela D. repens, cada nódulo tipicamente contém um único verme fêmea imaturo e se desenvolve após 2-12 meses após infecção inicial. O verme D. repens possui a habilidade de migrar nos tecidos humanos até 30 cm em 2 dias, mas podem viajar ainda mais longe em tecidos subcutâneos (Ref.4). Nódulos subcutâneos ligados à dirofilaríase podem resultar em manifestações clínicas que variam dependendo da localização, incluindo irritação, eritema e/ou prurido (coceira). Complicações locais ou sistêmicas mais sérias são raras. Nódulos pulmonares são causados pela espécie D. immitis, e predominantemente em pacientes adultos do sexo masculino de 40 a 59 anos de idade (Ref.5).
Os nódulos causados pela dirofilaríase podem ocorrer em várias localizações e tecidos do corpo humano, e são frequentemente diagnosticados de forma errônea como neoplasmas (Ref.4). Na dirofilaríase subcutânea, o inchaço pode migrar alguns centímetros por dia. Nódulos antigos e assintomáticos podem representar vermes totalmente encapsulados pelo sistema imune, com subsequentemente fibrose e calcificação do pseudocisto (Ref.7). Em raros casos, o verme pode produzir lesões cutâneas similares a larvas migrâneas, como no relato de caso inicial (Fig.1).
A larva infectante L3 se desenvolve em três a quatro meses após a inoculação, evolui para a larva de quarto estágio (L4) nos vasos sanguíneos, entre três e nove dias pós-infecção, ocorrendo a quarta muda (L5) entre 50 e 58 dias pós-infecção. As larvas L5 chegam ao ventrículo direito dos cães 20 dias após a quarta muda, aproximadamente 70 dias após a inoculação.
Os vermes adultos podem viver por vários anos no cão, e a microfilária pode sobreviver, no máximo, por dois anos e meio.
A doença muitas vezes se apresenta de forma assintomática nos cães, e muitos proprietários descobrem quando buscam auxilio veterinário para seus cães por outros motivos. Quando sintomática, o animal pode apresentar uma tosse de causa desconhecida, intolerância ao exercício, hemoptise e pode desenvolver Insuficiência Cardíaca Congestiva Direita, podendo desencadear complicações mais sérias como hipertensão pulmonar e síndrome da veia cava ocorrendo obstrução do fluxo sanguíneo no coração direito do animal - e, em alguns casos, óbito.
Em humanos, a infecção pode resultar em síndromes pulmonar, subcutânea ou ocular dependendo da espécie infectante.
O tratamento veterinário consiste no uso de medicamentos adulticidas (Melasormina) e para erradicação das microfilárias (Ivermectina), sendo esta última também utilizada como uma medicação para a prevenção da enfermidade (Ref.8). Quando o animal apresenta uma grande infestação de vermes no coração, é recomendada remoção cirúrgica destes, evitando assim maior risco de um tromboembolismo.
Na maioria dos casos clínicos em humanos, a simples extração do verme ou a excisão cirúrgica completa de um nódulo é uma modalidade de diagnóstico e tratamento para a dirofilariose humana. Infecções intraoculares precisam ser tratadas com urgência, especialmente considerando presença de migração ativa do verme - impondo risco de sérios danos na estrutura ocular. Idealmente, vermes migrantes precisam ser imobilizados antes da remoção. Uso de medicamentos como ivermectina, albendazol e/ou dietilcarbamazina pode ser necessário em alguns casos.
REFERÊNCIAS
- Constantinescu & Dumitru (2025). Subcutaneous Dirofilariasis. New England Journal of Medicine, 393(21):p e37. https://doi.org/10.1056/NEJMicm2509643
- Silva & Langoni (2009). Dirofilariose: zoonose emergente negligenciada. Ciência Rural, 39(5). https://doi.org/10.1590/S0103-84782009005000062
- Filho et al. (2024). Dirofilaria immitis em cães de região costeira turística do estado de Alagoas, Brasil. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, 33(3). https://doi.org/10.1590/S1984-29612024055
- Momčilović et al. (2025). Human dirofilariasis – A potentially significant nematode zoonosis in an era of climate change. Journal of Infection, Volume 90, Issue 4, 106460. https://doi.org/10.1016/j.jinf.2025.106460
- Chieffi et al. (2025). Dirofilariasis: an emerging, yet neglected zoonosis. Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology, Goiânia, v. 54, n. 2, p. 1–12. https://doi.org/10.5216/rpt.v54i2.82178
- Santilli et al. (2025). Autochthonous human subconjunctival dirofilariasis in europe: a case report from Italy and literature review. European Journal of Clinical Microbiology & Infectious Diseases. https://doi.org/10.1007/s10096-025-05299-y
- Papadopoulos et al. (2025). Human Dirofilariasis with Intraoral Localization: A Literature Review. Journal of Oman Medical Association 2(2), 13. https://doi.org/10.3390/joma2020013
- Ramos & Lima (2024). Avaliação clínica e laboratorial de cães portadores de Dirofilaria Immitis no município de Patos-PB. Revista Interdisciplinar Encontro das Ciências, v. 7, n. 1. https://riec.univs.edu.br/index.php/riec/article/view/386
- Joseph et al. (2023). Human Subcutaneous Dirofilariasis. Cureus 15(3): e35879. https://doi.org/10.7759/cureus.35879





