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Sangue de São Januário: Milagre ou Alquimia?



          Religiões e cultos diversos são fundados na base da fé, e geralmente buscam evidências miraculosas ou supostamente fora de um padrão de lógica para dar credibilidade aos seus corpos de adoração. Nesse sentido, fica mais do que plausível entender o porquê das religiões terem uma influência tão poderosa em épocas mais antigas quando se compara com os períodos mais recentes. À medida que a ciência evolui e consegue explicar um espectro maior de eventos observados na Natureza, as antes sólidas bases da fé passam a ter suas estruturas abaladas. E um dos milagres que ainda persistem sem, supostamente, existir uma explicação científica para o mesmo é a famosa liquefação do sangue de São Januário. Mas será que a ciência realmente foi vencida aqui?

Durante o reino do Imperador Diocletian, em 305 d.C., um bispo de Benevento chamado Januarius foi preso por visitar e encorajar as ações de um padre chamado Sosius. Posteriormente Januarius foi condenado à morte por decapitação pelo governador de Campania

          Segundo a história, o sangue de São Januário teria sido coletado por uma mulher chamada Eusebia após a morte por decapitação do santo. Supostamente no ano de 1389, o sangue seco, que tinha sido conservado em um recipiente totalmente vedado, havia se liquefeito (passou do estado sólido para o líquido) espontaneamente. Após esse evento, o sangue voltou a se coagular e pelos próximos 2 séculos e meio, a liquefação espontânea ocorreu primeiro 1 vez ao ano, depois 2 vezes ao ano e, por fim, 3 vezes ao ano. Até o século 17, a explicação para o fenômeno era de que o sangue reconhecia que era parte do sangue do santo e ficava impaciente enquanto esperava sua ressurreição, ativando seu retorno para o estado líquido. A partir do século 18, esse pensamento foi abandonado e começaram a surgir tentativas de explicação lógica para o "milagre".

Milhares de pessoas se reúnem todos os anos para testemunhar o fenômeno da liquefação do sangue de São Januário e também poder beijar as ampolas na Catedral de Nápoles, na Itália. Essa reunião ocorre em três datas: 19 de Setembro, 16 de Dezembro e no sábado após a primeira segunda de Maio

           Esse ´sangue santo´ está guardado dentro de duas ampolas hermeticamente fechadas e ambas fixadas em um relicário de prata. A ampola menor, em forma cilíndrica, contém apenas alguns pontos avermelhados, enquanto a ampola maior, com capacidade volumétrica em torno de 60 ml possui, aproximadamente, 60% do seu conteúdo preenchido por uma substância avermelhada bem escura (quando sólida, a coloração é mais amarronzada e bem escura). Nas datas mencionadas na legenda da imagem acima, o relicário é trago para receber as rezas das autoridades religiosas, supostos parentes de São Januário e pessoas diversas. Após as rezas, é esperado que o sangue se liquefaça. Porém, em algumas ocasiões, esse sangue sólido se transforma em líquido antes mesmo de receber as rezas, pode ocorrer em diferentes datas (ou não ocorrer) e o próprio processo de liquefação leva diferentes intervalos de tempo para se completar (imediatamente, horas ou até mesmo dias) ou retornar para sua fase sólida. Só que, claro, essas irregularidades podem ser, e são, interpretadas como premonições ou situações espirituais diversas.

Imagem das ampolas dentro do relicário de prata

           No caso da liquefação não ocorrer, enormes desastres seriam certos de atingirem a Itália, como em 1973, quando houve uma epidemia de cólera em Nápoles; em 1939, quando a Segunda Guerra Mundial começou; em 1940, quando a Itália entrou nessa guerra; e em 1943, quando a Itália foi ocupada pelos nazistas. E semana passado, no tradicional dia 16 de Dezembro, o sangue não se liquefez, algo que foi interpretado como o prenúncio de grandes tragédias afetando o país (Ref.3). Suspeito, não? Em um momento de grande tensão geopolítica entre diversos países, ocorrência de violentas guerras e constante ameaça de atos terroristas na Europa, fica grandes as chances de algo ruim ocorrer de fato. E isso sem falar das grandes quantidades de recusas na liquefação durante a Segunda Guerra Mundial. Somando-se a isso, em 1976, por exemplo, quando o sangue falhou em se liquefazer, o "pior terremoto da história da Itália aconteceu". Porém, apesar de um terremoto realmente ter acontecido, ele não foi nem perto o ´pior´. Ora, assim fica fácil terem coincidências com "enormes desastres".

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         Ok, podem parecer estranhos esses desvios tão grandes de regularidade da liquefação sanguínea, porém esse processo em si já é extremamente misterioso, ainda mais considerando que o sangue está seco. Não só a liquefação espontânea é milagrosa mas também os ciclos inacabáveis de solidificação-liquefação. Então, sob o olhar científico só existe uma explicação caso a ampola guarde um conteúdo original desde a sua feitura séculos atrás: a substância não é sangue. Parece fácil responder essa dúvida, certo? É só alguém abrir as ampolas e fazer análises químicas para aferir o conteúdo. Porém, a Igreja Católica não permite que as ampolas sejam abertas, sob a justificativa de que o suposto sangue santo seja afetado pelo contato direto com o ambiente externo, resultando em danos irreparáveis.

          Nesse sentido, duas análises espectroscópicas foram feitas, uma no ano de 1902 e outra em 1989. Nesse tipo de análise, onde apenas radiações eletromagnéticas são utilizadas, teoricamente se torna possível ter uma boa leitura do conteúdo dentro das ampolas, já que os feixes eletromagnéticos (infravermelho, visível, entre outros) conseguem atravessar o seu vidro. Mas apesar desses dois testes terem confirmado a presença de hemoglobinas, esses resultados são amplamente criticados pela comunidade científica, porque os métodos de emissão e absorção usaram luz visível e eram muito pouco precisos. Caso fosse sangue, os métodos utilizados teriam enorme dificuldade em atravessar o conteúdo solidificado e impurezas da própria ampola poderiam atrapalhar as medidas, dando falsos positivos. Testes com métodos espectroscópicos mais modernos e eficientes foram sugeridos para a Igreja Católica, mas permissões ainda não foram dadas.

Em outras épocas também pode ocorrer a liquefação, como em períodos de visita do Papa em exercício. Nesse caso, o Papa Francisco, em 2015, por exemplo, foi colocado em presença do sangue, o qual teria se liquefeito pela metade, indicando que São Januário o amava e o aprovava.

          Bem, caso esses resultados sejam realmente falsos, do que poderia ser feito esse ´sangue´? Várias explicações já foram propostas, incluindo que o material presente nas ampolas seria fotossensível, higroscópico ou possuidor de um baixo ponto de fusão. Em grande parte desses materiais, porém, existem enormes falhas que não cobrem todo o fenômeno de liquefação observado. A luminosidade do meio não parece interferir (fotossensibilidade). Já o fato de ser higroscópico (absorveria umidade do ar, se tornando uma mistura líquida) não faz sentido porque as ampolas estão realmente vedadas, sem contato direto com a atmosfera. Em termos de temperatura de fusão, a temperatura ambiente também não parece interferir com o fenômeno. Em outras propostas, existe a impossibilidade química de certos materiais terem sido alcançados já no século 14. Diante dessas frustrações, seria hora de largar o jaleco e admitir o milagre? Não tão rápido!

          Em 1991, um estudo publicado na Nature mostrou que o tal sangue, na verdade, era uma substância conhecida como gel tixotrópico (Ref.1 e 4), e as evidências para essa afirmação são mais do que fortes. Através de uma solução contendo hidróxido de óxido de ferro - FeO(OH) - em forma coloidal, é possível formar tal gel, o qual possui a característica de se liquefazer quando agitado ou vibracionado, voltando novamente à sua forma sólida quando colocado em repouso. Além disso, sua absorção de bandas no visível utilizando os métodos espectroscópicos de 1906 e 1989 é similar a de um sangue velho coagulado, onde diferenças mínimas são muito difíceis de serem observados a olho nu. E qual a descrição do "sangue sagrado" de São Januário? Sim, uma massa preta ou marrom escura quando sólida que, durante a liquefação, passa por um estado líquido avermelhado, depois amarelo-avermelhado e, finalmente, escarlate. O mesmo acontece com o sangue simulado do gel tixotrópico!

Resumo para a produção do gel tixotrópico, o nosso sangue santo simulado

         E todos os reagentes e técnicas utilizadas para a preparação desse gel podiam ser facilmente encontradas na Itália do século 14. Bicarbonato de cálcio (CaCO3) é um dos minerais mais comuns na superfície terrestre; o cloreto de sódio (NaCl) é também amplamente extraído de várias fontes, naturais ou minerais; água destilada já era produzida e, mesmo se não fosse, água da chuva poderia ser usada no lugar; e cloreto férrico (FeCl3) é encontrado no mineral molisita, o qual é precipitado de fluxos de lava vulcânica, ou seja, áreas de atividade vulcânica, como o Monte Vesúvio (Itália), mostram abundância desse composto. Do ponto de vista histórico, a única dificuldade que seria encontrada na época pelos alquimistas seria o processo de diálise que precisa ser feito para purificar a mistura coloidal, onde se é retirado cloreto férrico que não reagiu e o cloreto de cálcio formado como subproduto. Essa diálise pode ser feita com sacos de celofane, papel de pergaminho ou intestino de animais ( servem como membrana semipermeável). Mas apesar de bexigas e intestino de animais já serem amplamente utilizados na época para o armazenamento de pigmentos, o uso para a purificação de soluções coloidais só veio a ter registro no século 19. Porém, existem registros históricos desses materiais terem sido usados para a filtração de águas salinas e para esse processo pular para um diálise exige-se apenas um pequeno empurrão. Algum alquimista ter feito uma observação do tipo por acidente ( como grande parte das notáveis descobertas químicas são feitas) é mais do que plausível.

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           E olha que engraçado. Após o milagroso sangue de São Januário ter sido revelado ao público, outros sangues milagrosos também começaram a surgir na Itália, como os de São João Batista, São Gregório Armeno, Santa Patrícia e São Pantaleão. Todos eles possuindo a mesma propriedade de liquefação espontânea e nenhum deles ocorrendo antes do século 14. Será difícil acreditar que os responsáveis pela mistura do gel tixotrópico teriam passado o conhecimento para outros ou até mesmo fornecido o ´sangue falso´? Bem, nesse ponto também fica a pergunta: por que alguém teria o trabalho de produzir um sangue falso? Ora, em uma sociedade altamente religiosa, autoridades da fé querendo manter o seu poder poderiam muito bem financiar ou recompensar muito bem tais descobertas. Aliás, na época da revelação do sangue sagrado, o rei da Itália era o Robert de Anjou, descrito como uma pessoa extremamente religiosa. Quer outro motivo para a Igreja ou um alquimista buscar uma fantástica relíquia sagrada que agradasse o rei?

Suposto retrato do Rei de Nápoles, Robert de Anjou: agradar um rei altamente religioso com uma relíquia tão fantástica como um sangue sagrado portador de propriedades nunca antes vistas seria algo mais do que lucrativo para a Igreja

         No final, fica mais do que claro que aquilo dentro das ampolas é, com altíssima probabilidade de certeza, um gel tixotrópico, e isso seria facilmente comprovado caso a Igreja deixasse os métodos mais modernos de análise serem empregados. No começo deste texto, eu mencionei que não havia uma ´explicação científica conclusiva´, porque justamente falta comprovar a existência do gel dentro da ampola. Alguém arrisca uma data para isso acontecer?

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/labs/articles/25080643/
  2. http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.490.5736&rep=rep1&type=pdf
  3. http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/from_our_own_correspondent/8036438.stm
  4. http://www.nytimes.com/1991/10/15/science/science-watch-chemists-duplicate-miracle-of-saint-s-blood.html
  5. https://paperspast.natlib.govt.nz/periodicals/NZT18810805.2.16