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Fique alerta: a obesidade também causa câncer



         Infelizmente, a população, no geral, ainda vê a obesidade apenas como um incômodo estético. Se estar acima do peso se transformasse em um novo padrão de beleza, eu apostaria todas as minhas fichas que seria mais do que raro alguém procurar uma forma de controlar o percentual de adiposidade no corpo. Mas, como muitos devem saber, a obesidade traz vários problemas para o corpo, com a diabetes e os danos cardiovasculares sendo os mais conhecidos. Porém, um outro efeito colateral maléfico da obesidade é ignorado pela maior parte da população: um aumento no risco de desenvolvimento e taxa de mortalidade em vários tipos de câncer!

          Um estudo publicado pelo Cancer Research UK nessa última semana trouxe um dado agravante: 3 em cada 4 pessoas desconheciam a ligação entre obesidade e câncer no Reino Unido (Ref.1). E olha que estamos falando de um dos blocos mais desenvolvidos do mundo, onde a população possui, na média, um alto nível educacional, um excelente sistema de saúde e ótimos veículos de divulgação científica. Agora imagine outros países, como o Brasil. Só no Reino Unido, são cerca de 18,1 mil casos de câncer por ano ligados ao sobrepeso ou obesidade. Nesse sentido, são 10 os tipos de câncer fortemente ligados ao excesso de peso. Entre eles, o câncer de mama (pós-menopausa), endométrio ( pós-menopausa), colorretal, rins e o adenocarconoma do esôfago e da cardia são os tipos mais intimamente associados. E essa associação não fica apenas no risco de desenvolvimento inicial desses tumores, mas na taxa de mortalidade dos pacientes, ou seja, para quem já está com esses cânceres, a expectativa de vida pode diminuir caso um excesso de peso esteja agindo em conjunto. No caso do câncer colorretal (CRC), por exemplo, é estimado que 11% de todas as pessoas com esse tipo de tumor o desenvolveram por causa da obesidade, com esta aumentando os riscos para o CRC entre 30 e 70% para os homens.

*Dados baseados na população britânica

          No geral, temos o câncer colorretal, o câncer de mama e o de endométrio como os mais bem estabelecidos na literatura científica como tendo o índice de massa corporal do indivíduo (em relação ao tecido adiposo, claro) como uma dos fatores de risco para o seu desenvolvimento. Mas ainda podemos citar como grandes representantes desse quadro os já mencionados câncer nos rins e o adenocarconoma do esôfago e da cardia, além de outros como aqueles que afetam a tireoide, próstata (maiores índices de tumores agressivos) e o ovário. Existem suspeitas também quanto o papel do excesso de gordura corporal nos cânceres de pescoço e cabeça (não causados pelo vírus HPV), e no pênis (1).

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           Mas qual seria a relação entre a porcentagem de gordura total do seu corpo e o desenvolvimento ou prognóstico do câncer? Os pesquisadores ainda não possuem uma resposta clara para isso, e pode ser que os fatores mudem bastante de um tipo de câncer para outro. Além disso, o tipo de distribuição de gordura pelo corpo, o sexo e a etnia podem também influenciar. Mas existem três principais teorias, em um espectro geral, as quais podem agir em conjunto ou não:

1. Níveis de estrógenos: Como eu já havia mencionado em um artigo anterior (2), as células adiposas (de gordura) não apenas servem para acumular calorias no corpo na forma de gordura. Na verdade, elas são verdadeiros órgãos para o corpo, liberando diversos hormônios e participando de vários processos metabólicos, direta e indiretamente. Em especial, é bem conhecido que as células adiposas promovem uma produção extra de estrógenos no corpo, por possuírem boas quantidades da enzima aromatase, esta a qual transforma os andrógenos  como a testosterona) em estrógenos (como o estradiol). Esse aumento de estrógenos leva a um maior risco de desenvolvimento de câncer no útero (incluindo o endométrio) e nas mamas, já que os mesmos levam a uma maior divisão e proliferação das células nesses tecidos, algo que estimula o surgimento ou o agravamento de um tumor nessas áreas. Por isso um dos principais tratamentos em mulheres com câncer de mama é o uso de medicamentos anti-aromáticos, para impedir a formação de mais estrógenos. Raros cânceres de mama em homens também são explicado pelo motivo acima.

2. Caos Metabólico: Como dito anteriormente, as células adiposas no corpo influenciam diversos processos metabólicos no organismo, os quais podem não ser nada bem vindos. No caso do câncer, um dos principais vilões associados é a insulina. Com a obesidade, o corpo tende a criar uma maior resistência a esse hormônio, especialmente devido ao aumento do número de ácidos graxos liberados pela célula adiposa no sangue. Com isso, o pâncreas é forçado a trabalhar mais para produzir mais insulina para tentar sensibilizar melhor as células do corpo. Além desse processo de exaustão pancreática poder levar a um quadro de diabetes tipo 2, uma maior quantidade de insulina circulando na corrente sanguínea leva a uma maior produção de fatores de crescimento e menor produção de SHBG (Globulina Ligadora de Hormônios Sexuais). Os fatores de crescimento induzem a um maior crescimento e proliferação das células, estimulando o surgimento de tumores. Já o SHBG leva a uma maior quantidade de estrógenos livres no sangue e, portanto, biologicamente mais disponíveis, algo que se junta à primeira teoria.

3. Processos inflamatórios: Quando a pessoa começa a ganhar mais massa de gordura no corpo, aumentando o número de células adiposas, existe também um aumento no número de células imunes chamadas de macrófagos. O número de macrófagos e células adiposas pode chegar a uma relação de 4 para cada 10, respectivamente. Isso provavelmente ocorre porque o corpo já se prepara para um maior número dessas células de gordura morrendo, acarretando em uma maior necessidade de faxineiros celulares para sua remoção (os macrófagos possuem o papel de limpeza celular, tirando células mortas do caminho, por exemplo). Só que durante essa grande faxina, os macrófagos também liberam um vasto número de substâncias chamadas de citocinas, as quais ajudam a sinalizar outras células a virem também em auxílio de limpeza, em um típico processo inflamatório. Quanto mais obesa a pessoa, mais macrófagos e mais células mortas para limpar, liberando ainda mais citocinas. Isso acaba levando a um quadro crônico de inflamação no corpo. Diversas doenças estão ligadas a uma situação de contínuo excesso inflamatório no corpo, incluindo o câncer. O processo inflamatório é bom para o corpo em momentos específicos porque induz à recuperação de alguma irritação, ataque de agentes externos (machucados parasitas, etc.), entre outros, mas um contínuo processo inflamatório não é nada desejável. Entre outros efeitos, a inflamação leva a uma maior divisão e proliferação celular (ora, cortou o dedo, por exemplo, é necessário crescer os tecidos de volta para a cura do machucado), sinalização essa que leva também a possíveis células tumorais a se dividirem em significativo grau para causar um câncer, caso exista uma inflamação crônica.

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          A obesidade é responsável por um mínimo de 2,8 milhões de mortes ao redor do mundo, sendo a quinta maior causa de aumento nos riscos gerais de mortalidade entre a população. Em relação ao câncer, em 2012 a OMS estimou 14 milhões de novos casos, com outras 8,2 milhões de mortes relacionadas. É estimado,  por ano, algo próximo de 600 mil deles ocorrendo aqui no Brasil. Entre os novos casos de câncer a nível global, cerca de 500 mil deles podem estar ligados à obesidade. Portanto, uma mudança no estilo de vida, focando em uma melhor dieta e prática constante de exercícios físicos causa impacto não somente na sua estética, mas na sua longevidade e bem-estar. E isso sem contar os riscos aumentados de câncer ligados à uma alimentação suspeita...

Câncer: O câncer é um amplo espectro de doenças relacionadas entre si, com todas elas possuindo uma característica comum: células no corpo que começam a se dividir sem parar e a se espalhar para outros tecidos ao redor. Essa invasão é altamente danosa, piorando ainda mais quando o tumor consegue viajar pela corrente sanguínea e atingir diversas outras áreas distantes do corpo. Causado por mudanças genéticas nas células, diversos são os fatores que podem iniciar o câncer ou alimentá-lo, como o fumo, excesso de raios ultravioletas, consumo alcoólico e a obesidade.

(1) É válido lembrar também que existe uma certa associação inversamente proporcional entre alguns tipos de câncer e o índice de massa corporal (BMI) do indivíduo, como tumores no pescoço e cabeça causados pelo vírus HPV, e nos casos de câncer de mama nas mulheres que ainda não chegaram na menopausa. Mas como a obesidade leva ao desenvolvimento de diversos outros cânceres e vários outros problemas de saúde, esse é um dado quase irrelevante.

(2) Artigo Mencionado: Gordinhos com reais mamas?

Artigo Recomendado: Bebidas alcoólicas e o câncer

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://scienceblog.cancerresearchuk.org/2016/09/09/the-public-dont-know-obesity-causes-cancer-and-thats-really-worrying/
  2. http://bmcbiol.biomedcentral.com/articles/10.1186/1741-7007-12-9
  3. http://link.springer.com/chapter/10.1007/978-1-4614-6819-6_4
  4. https://bmcurol.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12894-016-0161-7
  5. http://link.springer.com/article/10.1007/s10552-014-0490-3
  6. www.sciencedirect.com/science/article/pii/S014067360860269
  7. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1470204502008495
  8. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0095454309000293
  9. http://cancerres.aacrjournals.org/content/51/2/568.short
  10. http://gut.bmj.com/content/62/6/933.short
  11. http://europepmc.org/abstract/med/24170556
  12. http://annonc.oxfordjournals.org/content/early/2014/06/18/annonc.mdu042.short
  13. http://www.nature.com/ijo/journal/v37/n5/abs/ijo201294a.html
  14. http://stm.sciencemag.org/content/8/323/323ps3.abstract
  15. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/obr.12321/full
  16. http://link.springer.com/article/10.1007/s10549-012-2339-3
  17. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/obr.12028/full
  18. http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs297/en/
  19. http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/agencianoticias/site/home/noticias/2015/inca_estima_quase_600_mil_casos_novos_de_cancer_em_2016
  20. https://www.cancer.gov/about-cancer/understanding/what-is-cancer