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Deusas da Velocidade!



         É bem sabido que as cobras possuem um bote incrivelmente rápido, sendo quase impossível escapar da picada de uma caso o alvo esteja em seu raio de alcance. Um pesquisa publicada recentemente (1), em marco deste ano, quebrou um mito e mediu, com precisão, a velocidade de ataque desses répteis. É difícil de imaginar, mas o ataque da maior parte das cobras dura entre inacreditáveis 44 e 70 milissegundos! Para se ter uma ideia, durante o tempo que você leva para dar uma piscada, uma cobra agressiva poderia desferir 4 golpes indefensáveis!

        Quando eu disse que o estudo publicado quebrava um mito, era em relação à crença que se tinha de que somente as najas possuíam velocidades tão assustadoras. Na pesquisa, foi mostrado que grande parte das cobras possuem tal nível na velocidade de ataque, incluindo tanto as peçonhentas quanto as não-peçonhentas. Além disso, mostrou-se que as najas ( imagem acima) nem eram as mais rápidas. As Cobras-Ratos, por exemplo, espécies bem conhecidas por serem adotadas como animais de estimação por diversos colecionadores, possuem um bote significativamente mais veloz que as najas, mesmo não sendo tão agressivas.

As Cobras-Ratos são um dos seres vivos mais velozes quando a comparação é sobre sua investida de ataque

        Devido ao fato das cobras serem seres bem limitados em sua mobilidade e alcance espacial, durante a evolução elas tiveram que desenvolver certas características que dessem a elas vantagens na hora da caça. Alguns podem dizer que a principal adaptação evolutiva seria os poderosos venenos produzidos por esses animais, onde algumas podem matar um elefante adulto com apenas uma picada. Mas temos que lembrar que nem todas as cobras são venenosas. Nesse caso, fica claro que a velocidade de ataque é o mais preciso presente adaptativo que esses seres rastejantes carregam. Por isso a maioria das cobras preferem armar o bote e ficar, pacientemente esperando uma vítima desavisada. Por que eu iria querer voar, correr ou nadar com eficiência se uma presa ao meu alcance não conseguirá nem ter um reflexo de movimento antes do bote alcançá-la? Enquanto os grandes felinos na África correm feito loucos atrás das suas presas, a cobra descansa sossegada sabendo que ela terá seu almoço caso ele se aproxime (2). Somando-se a isso, essa alta velocidade também garante uma defesa mais eficiente para as peçonhentas, onde diversas picadas repletas de veneno poderiam incapacitar ou afugentar predadores antes mesmos deles atacarem. E olha que eu nem mencionei que muitas espécies possuem um órgão sensível à radiação infravermelha ( emitida, por exemplo, pelo calor dos corpos dos animais) chamado de fosseta loreal. Se não bastasse a velocidade, muitas ainda possuem um sensor de rastreamento!

        Sim, o pobre ratinho não saberá nem o que aconteceu no momento em que gigantescas presas estiverem atravessando o seu corpo. Mas o que gera essas velocidades absurdas? Entre as 3500 espécies conhecidas de cobras no mundo, existe algo entre 10 mil e 15 mil músculos constituindo o organismo desses animais. Em comparação, nós, humanos, possuímos apenas algo em torno de 750 músculos. Alguns pesquisadores acreditam que elas consigam unificar, energeticamente, essa imensa quantidade de músculos para o ataque, com cada um deles desempenhando um papel preciso para capturar o máximo de esforço muscular possível. Com a recompensa de caça, ou defesa, sendo quase certeira, o gasto energético e alto desenvolvimento muscular valeriam bastante a pena. Mas a questão ainda continua em aberto.

        Algum amante dos camaleões poderia vir aqui revoltado com essa adoração toda às cobras e citar que os seus peculiares répteis esbugalhados conseguem lançar sua grande língua pegajosa ao encontro de deliciosos insetos com acelerações iniciais de 0 a 100 km/h em menos de 1/100 ( um centésimo) de segundo! Ok, isso é uma verdadeira velocidade digna de Deuses! Sim, a propulsão da língua dos camaleões é considerada o movimento mais rápido entre animais vertebrados, seja qual for a parte do corpo analisada. Mas, nesse caso, o camaleão está acelerando apenas sua língua, sendo que o seu corpo fica paradinho esperando o inseto agarrado voltar para a sua boca. No caso das cobras, elas aceleram grande parte do corpo na sua investida, incluindo a cabeça e o frágil cérebro.

É... O camaleão possui uma língua rápida, mas ele não está usando o seu corpo para se movimentar, apenas arremessando sua língua como um projétil

        A aceleração imposta pela força muscular das cobras é maior do que 30 vezes a aceleração da gravidade ( 30G). Pilotos de caça bem treinados perdem o controle dos seus membros em acelerações próximas de 8G. Se a mesma ultrapassar 10G durante o voo os pilotos normalmente perdem a consciência. Isso ocorre porque o cérebro, uma estrutura extremamente delicada, ao sofrer tais acelerações acaba ficando sem um mínimo de oxigênio por causa da inércia sanguínea. Imagine que um ônibus cheio é o cérebro e as pessoas dentro dele sejam o sangue. Quando o ônibus acelera ou freia muito bruscamente, ele vai ou para de uma vez, mas as pessoas, como estão bem soltas dentro dele, tendem a continuar com o movimento original. Quando ele arranca, a tendência é todo mundo continuar parado e, sem se segurar direito, você pode acabar caindo para trás. Com o sangue é o mesmo. O piloto dentro da nave é acelerado para a frente, o que obriga o cérebro também a ser acelerado bruscamente para a frente, e o sangue, consequentemente, ´fica´ para trás no caminho para a cabeça, deixando o órgão momentaneamente sem oxigênio suficiente. Como o cérebro é bem rígido com suas demandas energéticas, ele acaba se desligando a qualquer sinal de falta de de combustível ( glicose, por exemplo) ou oxigênio. Qualquer animal, que não seja a cobra, desmaiaria caso sua cabeça fosse acelerada nessa magnitude. 

As cobras aguentam acelerações quase quatro vezes maiores do que aquelas suportadas por pilotos de caças antes destes desmaiarem

        Além disso, acelerações tão grandes podem danificar o cérebro, e outras estruturas da cabeça, no momento de impacto do ataque. De novo com o exemplo do ônibus, imagine que este seja a cabeça e que um passageiro dentro dele fosse o cérebro. Agora, acelere esse ônibus absurdamente, a velocidades de milhares de quilômetros por hora, e freie ele bruscamente. O que será que acontece com o ´cérebro´ lá dentro? Para explicar o porquê das cobras não sofrerem danos cerebrais, os pesquisadores apostam na estrutura diferenciada do crânio desses répteis. Esses animais possuem diversas estruturas móveis nessa região, as quais podem desempenhar um papel de amortecedor natural. Ao invés de pular de um prédio e bater com o corpo no concreto da rua, teria uma cama elástica lá embaixo te esperando. Já em relação à resistência aos desmaios, ninguém possui uma explicação ainda.

         Conhecer os mecanismos adaptativos desses animais que geram tais velocidades e que, ao mesmo tempo, protegem efetivamente seus corpos pode trazer grandes benefícios tecnológicos, especialmente aqueles relativos à segurança automotiva. E fica aqui, então, o reforço: caso aviste uma cobra, não dê uma de Tarzan e tente pegá-la. Chame o corpo de bombeiros ou o Superman...

(1) http://rsbl.royalsocietypublishing.org/content/12/3/20160011

(2) Certo, certo, essa comparação foi meio injusta. Isso porque existem cobras que conseguem ficar até 2 anos sem se alimentar na espera de uma presa. Os leões não têm essa mordomia metabólica e precisam ficar correndo feito loucos mesmo...:)

CURIOSIDADE:  A Titanoboa foi a maior cobra já descoberta em nosso planeta. Já extinta, ela viveu entre 60 e 80 milhões de anos atrás e suas dimensões eram assustadoras: um comprimento total que podia hegar aos 13 metros e peso que ficava em torno de 1,14 toneladas! Ela viveu nos trópicos da América do Sul e Sudeste da Ásia, onde as maiores temperaturas acabam favorecendo um maior crescimento de animais de sangue frio ( ectodérmicos, ou seja, não conseguem manter a temperatura corporal em um ideal e de forma constante), como os répteis.

No último ponto exposto, é interessante notar que existe uma discussão entre os especialistas sobre se a Titanoboa poderia servir como um bom "termômetro" para medir a temperatura média do clima nas regiões em torno dos trópicos na época em que ela viveu, no Palaeoceno. Segundo o cálculo de alguns cientistas, as temperaturas deviam ser entre 30 e 34°C na média anual, algo necessário para sustentar o gigantesco corpo da cobra, já que ela ficaria na dependência da temperatura ambiente para se aquecer bem e manter o corpo em bom funcionamento. Isso ainda reforça a hipótese que o Palaenoceno era bem quente e com grande quantidade de gás carbônico na atmosfera. Mas outros cientistas dizem que a Titanoboa não seria um bom termômetro por causa justamente do seu enorme corpo e massa, onde o metabolismo mínimo da mesma seria suficiente para já gerar boas quantidades de calor, e um clima quente demais iria super aquecer o seu organismo. Assim, ficaria incerto estimar um intervalo útil e confiável de temperatura.

Na imagem abaixo, podemos ver a representação artística de como ela teria sido e, no quadro destacado no canto superior direito, podemos ver a comparação entre uma vértebra de uma típica anaconda encontrada nos dias de hoje ( à esquerda) e a vértebra de uma Titanoboa ( à direita). (Ref.4, 5 e 6)
  


Artigo relacionado: Picada de cobra: descaso da saúde pública

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://rsbl.royalsocietypublishing.org/content/12/3/20160011
  2. http://www.nature.com/articles/srep18625
  3. http://www.bbc.com/earth/story/20160511-almost-all-snakes-have-the-same-mindboggling-superpower 
  4. http://www.nature.com/news/2009/090204/full/news.2009.80.html
  5. http://www.nature.com/nature/journal/v457/n7230/full/nature07671.html
  6. http://www.nature.com/nature/journal/v460/n7255/full/nature08224.html