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Por que os japoneses ficam vermelhos após o consumo alcoólico?



           É clássico vermos a representação de japoneses com a cara toda vermelha depois de consumirem bebidas alcoólicas. Mas existe algo por trás desse quadro? Sim e chama-se ´Alcohol Flush Reaction´ (´Reação de Coramento com o Álcool´, na tradução literal). Nessa anomalia, as pessoas tendem a sofrer um maior dano com o álcool e ter sua pele bem avermelhada como efeito colateral. E o mais curioso: ela está diretamente relacionada com o menor índice de alcoolismo em várias partes do Leste da Ásia.

Em indivíduos com a anomalia genética, o rosto, entre outras partes do corpo, fica bem vermelho após o consumo alcoólico  (à direita)

           Apesar da maioria achar que o problema é devido à dificuldade de metabolização do álcool (etanol), o mecanismo bioquímico é exatamente o oposto. Para entendermos melhor, vamos recapitular, rapidamente, o que acontece com o etanol ingerido pelo corpo. Quando você bebe uma cerveja, por exemplo, o álcool ali presente é absorvido com prontidão pelo seu intestino, indo parar no fígado para ser metabolizado. Nesse órgão, parte do etanol é oxidado para acetaldeído pela enzima dehidrogenase alcoólica, e parte segue para o sangue (gerando os sintomas de embriaguez). Enquanto o sangue cheio de etanol está circulando, cada vez mais o fígado o transforma em acetaldeído, este o qual é extremamente tóxico para o corpo, sendo até mesmo um agente cancerígeno. Assim, outra enzima entra em ação bem depressa: a dehidrogenase acetaldeída, a qual converterá (oxidando) o danoso acetaldeído no inofensivo ácido acético (sim, aquele do vinagre). Este último pode, então, ser manipulado sem maiores problemas pelo organismo.

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           Bem, devido a uma anomalia genética conjunta que atinge aproximadamente 36% da população no Leste Asiático (japoneses, chineses e coreanos, em sua maioria), existe uma desregulação na produção das duas enzimas citadas anteriormente. Cerca de 80% da população asiática em geral (com menor prevalência na Índia e Tailândia) possuem  uma variante de gene chamada ADH1B e quase todos os japoneses, chineses e coreanos possuem uma variante chamada de ADH1C, sendo que ambas produzem uma enzima dehidrogenase alcoólica muito mais eficiente do que aquelas normalmente encontradas no resto da população mundial. Com isso, ocorre uma maior produção de acetaldeído no fígado. Somando-se à essa peripécia genética, 50% dos asiáticos com a já alta produção de acetaldeído possuem uma outra variante de gene, chamada de ALDH2, a qual resulta em uma enzima dehidrogenase acetaldeída menos eficiente, algo que faz a degradação do acetaldeído diminuir e sua concentração no corpo aumentar. Como resultado global, temos um aumento gigantesco na quantidade do tóxico acetaldeído circulando na corrente sanguínea desses indivíduos, especialmente naqueles do Leste Asiático.

Na primeira etapa de metabolização, etanol é convertido em acetaldeído, sob a catálise da enzima desidrogenase alcoólica; na segunda etapa metabólica, acetaldeído é convertido para ácido acético, sob a catálise da enzima desidrogenase acetaldeída

           Portanto, é fácil compreender o que acontece com grande parte dos japoneses quando eles bebem. Comparando com um ocidental padrão, eles acumulam uma quantidade muito maior de uma substância prejudicial no corpo ao ingerirem álcool (etanol). Diversos efeitos colaterais surgem com isso, como a famosa pele vermelha, na forma de eritema. O vermelhidão pode atingir apenas algumas partes específicas do corpo, como o rosto, ou pode se alastrar por todo o corpo. Além disso, danos preocupantes começam a atingir o organismo, fazendo com que a experiência de consumir bebidas alcoólicas seja pouco agradável. E como o etanol está sendo convertido muito rapidamente em acetaldeído, os efeitos alcoólicos momentâneos de euforia, prazer e relaxamento diminuem, deixando mais espaço para os efeitos colaterais indesejáveis (os sintomas sentidos na ressaca são devidos, em sua grande parte, ao acetaldeído). Isso explica o menor índice de alcoólicos no Leste Asiático. Para muitos deles, beber não é a melhor opção do fim de semana.

            E ainda temos outro agravante. Os portadores do gene ALDH2 podem o ter na forma homozigótica ou heterozigótica. Na primeira, existem dois alelos para a produção da ezima dehidrogenase acetaldeída menos efetiva, enquanto na segunda, existe um alelo que coordena a produção normal da enzima e um alelo que induz à produção do anômalo. Os homozigotos acabam tendo efeitos bastante desagradáveis com bebidas alcoólicas se consumidas em considerável quantidade. Já os heterozigotos tendem a suportar melhor a ingestão de etanol. Estes últimos, portanto, irão ter uma maior quantidade de acetaldeído circulando no corpo, causando graves prejuízos à saúde. Já existe uma relação bem clara, por exemplo, entre o Alcohol Flush Reaction e o câncer de esôfago. Indivíduos que a possuem, mesmo bebendo pouco, possuem, no mínimo, 10 vezes mais chances de desenvolver um tumor maligno nessa área do corpo.  

Pessoas com Alcohol Flush Reaction possuem várias vezes mais chance de desenvolver um câncer no esôfago do que os indivíduos sem o problema

            Como essa anomalia genética é bem comum entre os asiáticos, acredita-se que ela tenha sido uma seleção natural de sobrevivência entre esses povos. Mesmo sendo apenas uma hipótese, estudos apontam que ter uma maior concentração de acetaldeído no corpo pode ter sido um fator de proteção contra certas infecções parasitárias, como as causadas pelo protozoário Entamoeba histolytica. O acetaldeído faz mais mal para outros seres do que para nós, podendo agir como um esterilizante no corpo. Seria como a relação entre anemia falciforme e malária em certos grupos africanos (ver artigo relacionado abaixo). Resumindo, o pessoal morria bem mais devagar com o acetaldeído do que com as infecções sem cura na época. É importante lembrar que todos nós, mesmo não consumindo bebidas alcoólicas, produzimos etanol durante a digestão dos alimentos, devido à fermentação das bactérias no nosso trato intestinal. O fígado está sempre processando etanol, mesmo que em baixa quantidade.

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             Caso você tenha essa anomalia genética, especialmente se for descendente de famílias do Leste Asiático, evite o consumo de bebidas alcoólicas. Pelo problema ser genético, não existe cura atualmente, sendo possível apenas prevenir os sintomas. Esse conselho serve, principalmente, para os jovens, os quais são induzidos a beberem devido ao círculo de amigos e tradição social. Se você se sentir desconfortável durante o consumo de álcool e/ou notar uma vermelhidão anormal na pele, faça um teste no hospital para identificar o problema. Por um simples bafômetro, é possível aferir as quantidades de acetaldeído sendo liberadas pelo corpo durante o consumo alcoólico. Se existir um excesso anormal dessa substância no seu sangue, é um sinal para você parar de beber e arranjar outro hobby para se entreter.

OBS.: Apesar de não ser muito comum, indivíduos da população ocidental também pode apresentar essa singularidade genética.

OBS 2.: Mas não é só porque você ficou com o rosto  vermelho depois de beber muito que automaticamente você possui o problema. Ora, se você beber feito um glutão, muito acetaldeído irá estar correndo pelo seu corpo, independentes se o fígado está com suas funções normais. Além disso, o etanol possui um efeito vaso dilatador, deixando certas veias mais visíveis na pele, especialmente no rosto, o que a torna mais ou menos ruborizada, dependendo da tonalidade da mesma. Já no povo atingido pelas tais variantes genéticas, qualquer consumo alcoólico levará a uma vermelhidão bem acentuada e a maiores efeitos colaterais indesejáveis.

Alelos: formas de um mesmo gene que expressam determinadas características no fenótipo do indivíduo (físico). Vamos supor que um certo gene B que determina a cor dos cabelos pode ser expresso por um alelo A (cor preta) e um alelo b (cor vermelha). Caso estejam juntos, e A for dominante, o indivíduos será heterozigoto para esse gene e terá cabelos pretos. O alelo b será, portanto, recessivo e determinará a cor vermelha apenas se estiver na forma de homozigoto, ou seja, ambos do par sejam b (iguais). Isso, claro, é uma explicação simplificada, existindo exceções e outros casos na regra, como alelos múltiplos.

Enzimas: são moléculas orgânicas, em sua maioria proteínas, que catalisam, ou seja, deixam mais rápido uma determinada reação química (no sentido de se atingir mais rapidamente o equilíbrio químico). Quase todo o metabolismo no nosso corpo é regulado por enzimas (depois faço um artigo explicando mais detalhadamente a natureza das enzimas).

Artigos relacionados:

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.nih.gov/news-events/news-releases/alcohol-flush-signals-increased-cancer-risk-among-east-asians
  2. http://bmcevolbiol.biomedcentral.com/articles/10.1186/1471-2148-10-15
  3. http://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1000050
  4. http://dujs.dartmouth.edu/2009/11/esophageal-cancer-and-the-%E2%80%98asian-glow%E2%80%99/#.VwAaQfqGN6k
  5. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/acer.12302/abstract?userIsAuthenticated=false&deniedAccessCustomisedMessage=
  6. http://journals.lww.com/jpharmacogenetics/Abstract/2014/12000/ALDH2_2_but_not_ADH1B_2_is_a_causative_variant.5.aspx
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC507646/
  8. http://aph.sagepub.com/content/25/5/409.short