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O que é a ressaca?

        
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         A ressaca atormenta a vida de boa parte dos aventureiros noturnos, e reflete, muitas vezes, graves problemas de saúde pública, como o alcoolismo, cânceres, doenças hepáticas e acidentes diretamente relacionados como o consumo de bebidas alcoólicas. Nos EUA o consumo excessivo de álcool custa, sozinho, algo em torno de 224 bilhões de dólares de despesas por ano (o que representa em torno de 1/9 do PIB Brasileiro!), distribuídos em quedas de produtividade no trabalho, despesas hospitalares por doenças provocadas pelo alcoolismo, criação de leis, e os prejuízos associados aos  acidentes automobilísticos.

A ressaca é o espelho do grande poder tóxico do etanol 

          A ressaca, propriamente dita, são os danos causados pela metabolização e exposição do álcool no organismo. Quando ingerido, o álcool é processado pelo fígado (como todo alimento e medicamento absorvido no trato intestinal) e, então, eliminado. Mas durante este processo, o álcool precisa ser oxidado duas vezes por enzimas específicas no fígado. Na primeira, o etanol (tipo  do álcool presente nas bebidas) é convertido em acetaldeído, um composto muito mais tóxico do que o seu precursor (ele é um carcinogênico, sendo o responsável pelas grandes lesões no fígado, as quais levam à cirrose crônica, caso exista um consumo exagerado), e este, então, trafega toda a circulação sanguínea, para depois retornar ao fígado e ser convertido em ácido acético, um composto inofensivo ao organismo (presente no vinagre, por exemplo). O fígado não consegue processar todo o álcool ingerido no decorrer destas duas etapas, e dependendo da quantidade ingerida pelo indivíduo, etanol e acetaldeído podem ficar circulando pelo corpo por horas, e essas duas substâncias atacam o cérebro, causando as tonturas clássicas. O acetaldeído, por ser bastante tóxico, ataca as células gerais do corpo, causando uma inflamação generalizada, as quais são traduzidas no mal estar e dores agressivas sentidas no dia seguinte.

          Além disso, o etanol induz à desidratação por impedir a síntese do ADH (hormônio antidiurético), responsável pela reabsorção de água pelos rins, durante as filtrações constantes do sangue por este órgão, fazendo com que uma grande quantidade de água seja perdida pelo corpo (por isso ficamos com vontade de urinar com constância quando estamos alcoolizados), condição esta que causa boca seca, irritação, etc. Um último efeito é a fraqueza, causada pela falta de glicose circulando pelo organismo, pois esta, em jejum, é reposta pelo fígado, porém as vias enzimáticas deste (responsáveis também pela produção de glicose a partir das reservas de glicogênio) estão ocupadas metabolizando o álcool. Ou seja, seu corpo fica, literalmente, ´ferrado´. Mas será que existe uma esperança para curar estes sintomas da bebedeira?

A ressaca pode ser também encarada como o grito de ´socorro´ dado pelo seu fígado

           Já é sabido que comer antes de beber ameniza os sintomas do álcool, pois diminui a absorção do mesmo pelo trato intestinal (com o estômago cheio, o esvaziamento gástrico é mais lento, barrando a bebida alcoólica de chegar rapidamente ao intestino) , principalmente alimentos com muito carboidrato e proteínas. Uma alternativa mais óbvia e mais do que recomendada (1) seria não beber, claro. De qualquer forma, diversos pesquisadores estão empenhados, atualmente, em desvendar todos o processos envolvidos e seus meticulosos detalhes, com o objetivo de descobrir uma maneira de se lidar com os transtornos da ressaca e efeitos destrutivos das bebidas alcoólicas. Eles já descobriram que o acetaldeído também causa cânceres não só no fígado, como em outras partes do corpo, como no intestino.

           Além disso, foi descoberto que o ácido acético em excesso não produz as dores de cabeça fortes (lembrando que ele não é tóxico), e sim os sais deste ácido, como o acetato de sódio presente no sangue em grandes quantidades depois da bebedeira. Outros importantes estudos relacionam outras substâncias presentes na bebida, as quais são formadas como subprodutos da fermentação na sua feitura, como acetonas, aminas, ésteres, etc. E essas são muito variáveis de bebida para bebida, onde um uísque pode ser muito mais agressivo do que a vodka, mas, ao mesmo tempo, pode apresentar compostos benéficos (como o butanol, o qual protege as mucosas do intestino) dos quais a vodka não possui. As variáveis são muitas.

O temível acetaldeído!
         Em relação à tentativas de ´curas´ para a ressaca, pesquisadores chineses relataram que certas bebidas de ervas feitas com sementes de cânhamo aumentam o nível da enzima responsável pela degradação do acetaldeído em acetato. Já chás verdes, mesmo sendo ricos em antioxidantes, podem dificultar o metabolismo do álcool, e os mesmos não são aconselháveis depois de um consumo excessivo de etanol. Outro tipo de bebida recomendável agora, para otimizar a recuperação, é o refrigerante com adição de taurina, como o Sprite, o qual otimiza a atividades das enzimas hepáticas na metabolização alcoólica. E, por fim, um copo de café com aspirina ajuda bastante também. Porém, as duas primeiras são apenas especulações de algumas poucas pesquisas isoladas. A aspirina e a cafeína do café podem até ajudar, mas cuidado: se o seu estômago for sensível, debilitado ou tiver sido apresentado a muito álcool, é melhor não arriscar, pois a cafeína e o ácido acetilsalicílico podem danificar ainda mais a parede estomacal. E, é claro, se você for alérgico ou tiver alguma doença, como a dengue, evite o medicamento. O ideal mesmo é você descansar bastante, manter-se bem hidratado (antes, durante, e depois de beber) e alimentar-se bem (para nutrir o corpo, e este ter melhores condições de fazer as reparações necessárias). E, para prevenir uma ressaca colossal no dia seguinte, coma alimentos sólidos antes da bebedeira para forrar o estômago e impedir que o etanol chegue muito rápido no seu intestino para ser absorvido pelo sangue, dando tempo para o fígado processar bem as quantidades reduzidas que vão chegando.

             Outro interessante estudo sendo realizado, na Universidade da Califórnia, Los Angeles, está usando nanotecnologia para imitar as enzimas produzidas pelo fígado. Cápsulas com enzimas são injetadas no corpo e estas ajudam o fígado com a degradação do álcool em excesso.


(1) IMPORTANTE: O consumo alcoólico é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de vários cânceres (a), e responsável diretamente por mais de 3,8 milhões de mortes anualmente ao redor do mundo. E não existem sólidas evidências científicas de que o consumo leve ou moderado de bebidas alcoólicas esteja relacionado com quaisquer benefícios à saúde. Para mais informações, acesse: A verdade por trás dos supostos benefícios à saúde oriundos do consumo alcoólico

(a) Leitura recomendada: Bebidas alcoólicas e o câncer


ATUALIZAÇÃO (16/02/16): Pesquisadores encontraram evidências de que o consumo exagerado de bebidas alcoólicas causam graves danos ao fígado, em parte, devido a mudanças na microbiota bacteriana do intestino. O álcool (etanol, no caso) impede que certos fatores limitantes de crescimento de várias bactérias na microbiota intestinal (relacionados ao nosso sistema imunológico) sejam produzidos em quantidade suficiente pelas paredes do intestino. Isso faz com que haja uma explosão na população bacteriana, estas as quais começam a passar do intestino para a corrente sanguínea. Quando param no fígado, causam prejuízos ao órgão. A pesquisa nessa área ainda está em progresso, e mais estudos serão necessários para quaisquer firmes conclusões. (Ref.6)


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.mineralmed.com.pt/documentos/pdf/b2067e6f-4a87-4647-a32e-0593821831a3.pdf
  2. http://www.scientificamerican.com/article/in-search-of-a-cure-for-the-dreaded-hangover/
  3. http://alcalc.oxfordjournals.org/content/43/2/124.short
  4. http://www.bbc.co.uk/guides/z3wkwmn
  5. http://www.bmj.com/content/331/7531/1515?eaf 
  6. http://www.scientificamerican.com/article/drinking-causes-gut-microbe-imbalance-linked-to-liver-disease/