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Marfim e o massacre dos elefantes



          E o governo do Quênia, em um ato que gerou polêmica, queimará quase todo o seu estoque de presas e esculturas de marfim apreendidas, algo em torno de 100 toneladas. Na verdade a queima já começou e será feita de forma progressiva. (Ref.6) O ato serviu para reforçar o comprometimento do país na luta contra a caça aos elefantes pelo seu valioso marfim. Já outros ativistas ambientais disseram que o ato foi imprudente, porque diminui a quantidade do produto no mercado e aumenta enormemente a demanda e o valor do marfim (as pilas sendo queimadas representam cerca de 5% do marfim circulando no comércio mundial).
 
São muitos os produtos feitos com marfim, os principais sendo esculturas
 
          O marfim é é um tecido calcificado branco formado, principalmente, por ´dentina´, uma substância constituída por 45% de material inorgânico ( hidroxilapatita, com o cálcio sendo parte da sua estrutura), 33% de material orgânico (colágeno, por exemplo) e 22% de água, sendo que essa composição pode variar na natureza. Apesar de muitos acharem que o marfim é representado apenas pelas presas de elefantes, esse material nada mais é do que um dos constituintes do dente. Sim, quaisquer presas e dentes de mamíferos são fontes de marfim. Portanto, você e elefantes são fornecedores desse material. Porém, na prática comercial, ´marfim´ significa uma presa ou dente grande o suficiente para permitir a lapidação de grandes quantidades de marfim e manufaturamento de esculturas, utensílios, ferramentas, entre diversos outros itens. Assim, as presas e dentes visados vêm, primariamente, de grandes mamíferos, como as baleias, elefantes, hipopótamos, mamutes (1), morsas, javalis selvagens e narval. Os elefantes são, de longe, os mais procurados pelo marfim, o que coloca um sério risco para esses animais.

O marfim não é, nem de longe, algo exclusivo dos elefantes, mas estes são as principais fontes comerciais

            Por causa da sua durabilidade, pureza, beleza, relativa raridade exploratória e excelente base para esculturas, o marfim é um produto de alto valor no mercado, e tem sido comercializado e usado por milênios na sociedade humana. Hoje, o preço da matéria prima pura chega a ser de 1000 dólares o quilo, enquanto o produto finalizado, especialmente esculturas, pode valer centenas de vezes mais. Bastante cobiçado na Ásia, o principal mercado consumidor de marfim no mundo é a China, onde em várias partes, como em Hong Kong, o comércio é liberado e enfrenta pouquíssima fiscalização. Em termos globais, o comércio do marfim é ilegal em vários países por causas conservacionistas. Todos os anos, cerca de 30 mil elefantes morrem na África por causa das suas presas. Com uma população estimada entre 450 e 500 mil, se a tendência de caça continuar na mesma crescente, em algumas décadas esses animais podem estar extintos no continente. Na Tanzânia, por exemplo, a população de elefantes teve uma queda de 65% e em Botswana a situação ficou tão crítica que o país liberou o ´atire para matar´ sobre qualquer caçador em atividade. Antes das ações de fiscalização e proteção aos elefantes, a população total dos mesmos caiu de 1,3 milhões para 600 mil no continente africano entre 1980 e 1990! Na China, Vietnã, Laos, Camboja e Indonésia, os elefantes estão quase extintos por causa da quase inexistente força de vontade governamental em impedir o comércio do marfim.

As populações de elefantes vêm tendo o seu número drasticamente diminuído por causa do marfim; um caçador consegue ganhar em média cerca de 3000 dólares para cada par de presas capturado, valor muito maior do que o salário anual de um trabalhador africano comum, fato este que atrai várias pessoas em desespero

           E não é só os elefantes que estão ameaçados. Os hipopótamos estão também em risco de extinção e, além da caça pela sua carne e perda territorial para grupos humanos, o comércio de marfim a partir dos seus grandes dentes caninos está aumentando bastante, em uma tentativa dos caçadores em substituir as presas de elefantes, as quais estão sendo mais protegidas pelos governos. As populações desses animais na África não passam, agora, dos 150 mil indivíduos, sendo necessário que os esforços conservacionistas também sejam voltados com peso para esses animais, cuja ameaça de existência é muito maior do que a dos elefantes.

Os grandes dentes do hipopótamo são também muito visados para o aproveitamento do marfim

             Em 2008, o eBay, antigo lar da maior parte das transações comerciais de marfim no mundo (90% no caso dos elefantes) baniu qualquer tipo de venda desse material do seu sistema. Teoricamente, seria legal vender marfim extraído das presas de animais mortos por causas naturais ou de peças históricas, mas como a procedência de matéria prima é impossível de ser controlada, a melhor medida é o banimento total do comércio para prevenir carnificinas. Muitos países signatários da CITES (Convenção Internacional do Comércio de Espécies Ameaçadas) já possuem tolerância zero contra o comércio de marfim. Ano passado, no meio Times Square, New York, 1 tonelada de produtos feitos com o material foram destruídas, para mostrar que os EUA abominam esse tipo de comércio e também foi o local escolhido pelos grupos ambientalistas para dar o maior holofote possível para o ato simbólico. Apesar das rígidas leis, o mercado norte-americano é o segundo maior do mundo para o marfim, perdendo apenas para a China, a qual detém próximo de 70% do fluxo comercial. 

Em um dia que ficou histórico e teve enorme peso para a causa ambiental, 1 tonelada de produtos feitos com marfim foram destruídos no meio da Times Square, em New York, na manhã de 19 de junho de 2015

           Se você testemunhar ou desconfiar de pessoas vendendo produtos de marfim, denuncie. E antes de comprar qualquer peça escultural ou utensílio, evitem as feitas por marfim. A caça não vai parar enquanto houver gente disposta a pagar caro por ele.

(1) Sim, o marfim de mamutes é comercializado até hoje a partir dos fósseis desses animais. Como são mais difíceis de serem obtidos, eles possuem os maiores preços no mercado. Só na Sibéria, Rússia, é estimado que existam mais de 10 milhões de mamutes enterrados.

Fósseis de mamutes são bem procurados por caçadores e contrabandistas

OBS.: Os chifres de rinocerontes, produtos ainda mais valiosos no mercado negro, não são feitos com a mesma composição química do marfim. Eles, são, na verdade, estruturas de queratina, a mesma proteína que forma nossas unhas e cabelo. No artigo relacionado abaixo eu explico melhor sobre o assunto.

ATUALIZAÇÃO (13/09): E um grande censo (Ref.9) feito nas populações de elefantes nas savanas africanas mostrou declínios pesados no número desses animais na última década, em uma taxa negativa de 8% ao ano! O estudo, chamado de Great Elephant Census (GEC) e financiado em grande parte pelos irmãos bilionários filantropos Paul G. Allen e Jody Allen ( injeção em torno de 8 milhões de dólares de investimento), durou cerca de 2 anos e estimou que, entre os anos de 2007 e 2014, 30% dos elefantes presentes em 15 países africanos dos 18 analisados pelo censo desapareceram, ou seja, uma baixa preocupante de 144 mil desses animais. O grande responsável por esse forte declínio é, como já dito no artigo acima, a caça ilegal.

No geral, 90 cientistas, 6 organizações não-governamentais e 2 parceiros de comunicação pública estavam envolvidos no censo, o qual englobou cerca de 93% dos elefantes de savana do continente.. Várias entidades e ativistas ambientais pedem urgência na resolução dos problemas de caça aos elefantes, os quais podem ser extintos em breve no ambiente selvagem caso a tendência atual de declínio populacional continue no mesmo ritmo. Hoje existem em torno de 350 mil elefantes distribuídos nas savanas africanas.

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ATUALIZAÇÃO (08/10/16): E no último encontro do CITIES ( Convenção Internacional de Espécies Ameaçaadas da Flora e Fauna Selvagem), o qual se estendeu do dia 24 de Setembro até o último dia 5 de Outubro, gerou grandes benefícios futuros para vários animais, mas os campeões na aquisição de ajuda ambiental foram os Elefantes, Pangolins e Papagaios-Cinzas-Africanos.

Pelos acordos, no caso dos elefantes, foi banido os mercados de marfim domésticos e legalizados, locais onde muitos caçadores poderiam estar lavando aos montes marfins ilegais. Também foi rejeitada a proposta de legalizar as vendas de marfim sob qualquer circunstância.

Os Pangolins são os mamíferos mais traficados do mundo por causa do uso da sua carne em caros pratos muito apreciados em restaurantes asiáticos e por causa do uso medicinal das suas escamas, estas as quais teriam supostos poderes na cura de doenças. Isso colocou esses animais em alto risco de extinção. Os acordos na CITIES baniram toda forma de comércio dos pangolins, independente da espécie. ( Saiba mais em: Qual é o mamífero mais traficado do mundo?)

Os Papagaios-Cinzas-Africanos são muito traficados por serem bastante apreciados como animais de estimação, algo que está destruindo a população desses animais em meio selvagem. Todo tipo de comércio com a espécie foi banido.

O encontro reuniu 152 representantes de governos, mais de 3500 pessoas e foi o maior até agora. Muitos disseram que o encontro foi um grande virar de maré para a causa ambiental. (Ref.7)


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ATUALIZAÇÃO (09/10/16): Durante o encontro da Cites, outro animal também ganhou proteções especiais. Conhecido como Calau-de-Capacete, e nativo da península de Malaca, ilhas de Sumatra e Bornéu, o marfim constituinte do seu bico, chamado de ´marfim vermelho´, é altamente valioso na China, e chega a valer mais de 5 vezes o marfim dos elefantes. Isso faz com que a caça à essa ave seja incessante, fazendo essa espécie de calau estar na lista dos mais ameaçados de extinção. Como são aves bem grandes, chegando a pesar 3 kg, elas são fáceis de serem alvejadas por tiros, facilitando a vida dos caçadores. Só em 2013, foi estimado que mais de 500 dessas aves foram mortas, por mês, no Oeste de Bornéu.

O marfim vermelho é mais fácil de ser trabalhado do que o marfim branco, fazendo com que esculturas bem complexas sejam feitas com eles, aumentando ainda mais o seu valor. Na imagem à direita, abaixo, vemos um caçador sendo preso pela caça ilegal dessas aves, onde também podemos ver os bicos que estavam sendo contrabandeados. (Ref.8)

O Calau-de-Capacete é outra vítima do tráfico ilegal de marfim
 
Artigo relacionado: Rinocerontes no precipício da extinção

REFERÊNCIAS
  1. https://www.cites.org
  2. http://www.bbc.co.uk/news/world-us-canada-33209655
  3. https://www.newscientist.com/article/dn4109-poaching-causes-hippo-population-crash#.U1vYUPldWz4
  4. http://www.uic.edu/classes/orla/orla312/BHDTwo.html
  5. http://www2.lbl.gov/ritchie/Library/PDF/Biomaterials%28transparent-dentin%29.pdf
  6. http://www.bbc.com/news/world-africa-36176756
  7. www.nature.com/news/pangolins-and-parrots-among-winners-at-largest-ever-meeting-on-wildlife-trade-1.20775 
  8. http://www.bbc.co.uk/news/science-environment-37483535
  9. https://peerj.com/articles/2354/