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Por que as cachalotes possuem dentes apenas na mandíbula?

Figura 1. Cachalote com a boca aberta mostrando presença de vários dentes bem desenvolvidos na mandíbula, mas ausentes ou pouco visíveis na maxila. No total, indivíduos exibem 18 a 28 pares de dentes cônicos mandibulares.

- Atualizado no dia 1 de janeiro de 2026 -

          Eternizada na obra Moby Dick (1851), a cachalote (Physeter macrocephalus) é um cetáceo da subordem Odontoceti ("baleias dentadas") que pode alcançar até 20 metros de comprimento e 45 toneladas de massa corporal. Diferente das baleias verdadeiras (subordem Mysticeti) que evoluíram barbatanas no lugar de dentes (alimentação via filtração), as cachalotes retêm dentes - e são os maiores predadores dentados conhecidos no planeta. Porém, as cachalotes trazem um estranho fenótipo: só possuem dentes bem desenvolvidos na mandíbula. Na maxila, os dentes são ausentes ou rudimentares.


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           Contrário ao senso comum, os numerosos dentes mandibulares na cachalote não são usados para mastigar ou processar o alimento ou mesmo morder, perfurar ou rasgar presas. Elas ingerem presas - em especial lulas - primariamente através de sucção. Os dentes inferiores são mais usados [de forma direta] para agarrar ou segurar presas e  interações sociais e/ou combate entre os machos. Na alimentação, os dentes cônicos na longa e estreita mandíbula se encaixam nos buracos cônicos na maxila, esta a qual geralmente não possui dentes visíveis (Fig.2). Esse arranjo é uma perfeita adaptação para sugar presas moles como lulas. A boca consegue abrir até quase 90° (Ref.13).


Figura 2. Com ausência ou pouco desenvolvimento de dentição superior, a cachalote depende de sucção para capturar e ingerir as presas.

Figura 3. (A-B) Dentes maxilares rudimentares em uma cachalote encontrada na Praia de Campina, no nordeste do Brasil. No caso, uma fêmea de ~9,5 m de comprimento. Em (A), visão ventral da maxila do espécime, mostrando os buracos maxilares e três dentes maxilares (círculos pretos) e localizações de prováveis dentes maxilares perdidos (x preto). Em destaque, visão da gengiva mostrando parte dos três dentes maxilares. Em (B), dentes maxilares do espécime após serem extraídos. Dentes maxilares rudimentares ou vestigiais emergem em até 50% das cachalotes e geralmente são maiores e mais numerosos nos machos do que nas fêmeas. Os dentes superiores quando aparecem podem ser curvados, mas não são superficialmente óbvios. Ref.9-10

           Aliás, enquanto a mandíbula das cachalotes pode alcançar 5 metros, a língua desses cetáceos possui apenas 1 metro, baixa mobilidade e fica na parte posterior da boca; além disso, é larga e espessa. Essa língua é especializada para ingestão por sucção, através de rápidos movimentos de retração (1). E essa sucção manda o alimento - no geral, cefalópodes e peixes - direto para a região orofaríngea ao invés da "cavidade bucal" (ausente nesses cetáceos no sentido tradicional do termo). 

Figura 4. A abertura orofaríngea redonda, o robusto aparato hioide e outras estruturas associadas à boca das cachalotes são idealmente situadas e otimizadas para retrair a língua e gerar pressões de sucção para sugar presas. A língua também exibe escassa musculatura lingual intrínseca e é submetida a mudanças principalmente posicionais ao invés da forma à medida que é retraída pelo osso hioide para gerar pressão intraoral negativa. Em (a), ilustração da localização atípica da língua da cachalote atrás das fileiras de dentes. Em (b) e em (c), mandíbulas de uma cachalote e de um golfinho da espécie Lagenorhynchus acutus, ambos pertencentes à subordem Odontoceti. (Barra de escala = 10 cm). Ref.2

Figura 5. Seta em (f) mostrando a língua da cachalote. Em (g), um filhote de cachalote se amamentando, onde podemos ver também uma "nuvem de leite". Após um período gestacional de 14 a 16 meses, a cachalote fêmea grávida dá à luz a um único filhote. Assim como outros mamíferos e cetáceos, o filhote de cachalote também suga o leite materno, secretado pelas fendas mamárias.. Ref.5 


Figura 6. Fêmea adulta em posições verticais enquanto um filhote suga o leite materno sendo secretado: (A) com a cabeça virada para o fundo do mar e (B) com a cabeça virada para a superfície do mar. Primeiro o filhote nada ao encontro da fêmea adulta e bate com a cabeça na fenda genital materna para sinalizar necessidade de amamentação e estimulá-la; em seguida abre sua boca no lado ventral da fêmea adulta, introduzindo a mandíbula na fenda genital e forçando a saída do mamilo da fenda mamária; o filhote usa sua língua ativamente e fortemente ao redor do mamilo, sugando o leite secretado; após a amamentação, o filhote remove sua mandíbula da fenda genital. Ref.3

          Quando as cachalote comem lulas e peixes, elas usam seus dentes inferiores apenas para agarrar a presa, não para mastigar ou rasgar. Os filhotes de cachalote nem sequer têm dentes visíveis até entrarem na puberdade, por volta dos oito ou nove anos de idade. E cachalotes adultas com mandíbulas deformadas ou sem dentes parecem caçar e se alimentar normalmente.

          Biólogos já observaram cachalotes fêmeas usando a mandíbula para se defenderem de orcas. Há também ampla evidência de marcas de arranhões na cabeça de cachalote mais velhas, o que sugere que a competição entre machos maduros envolve lutas "mandíbula-com-mandíbula", como cervos travando chifres ou elefantes lutando com suas presas. Machos desse cetáceo competem fisicamente por direitos reprodutivos. Isso pode ajudar a explicar o aumento relativo da mandíbula dos machos em relação ao comprimento do crânio com o crescimento do indivíduo e marcas de arranhões paralelas no corpo (Ref.11). As cachalotes parecem também usar a boca em brincadeiras ou demonstrações de afeto, já que um mergulhador-cientista descreveu, em 1991, duas ocasiões em que cachalote "foram observadas nadando barriga com barriga, com as mandíbulas ligeiramente abertas e se tocando". (Ref.12).

          Diferente das cachalotes modernas, antigas cachalotes gigantes possuíam dentes na mandíbula e também na maxila. Os poderosos maxilares provavelmente acompanhavam línguas longas e com grande mobilidade e funcionalidade para a caça [provável] de grandes tubarões e baleias. Nesse sentido, antigas cachalotes são pensadas de terem usado seus massivos dentes e robustos maxilares de forma direta na caça e processamento de presas, ocupando nichos ecológicos hoje ocupados em maior parte pelas orcas.

> A maior cachalote arcaica conhecida, espécie Livyatan melvillei, habitou os mares do Mioceno. Provavelmente era uma das poucas coisas que colocavam medo e rivalizavam com o Megalodon nesse período. Fica a sugestão de leitura sobre esses dois "monstros": Megalodon: A Máquina de Caça nos Mares Pré-Históricos

> Embora bem menos populares, a família das cachalotes (Kogiidae) engloba também cetáceos de porte muito menor do gênero Kogia, conhecidos como cachalotes-anãs. As cachalotes-anãs também se alimentam via sucção.

> E por que as cachalotes possuem uma cabeça, ou mais especificamente, um complexo nasal tão grande e retangular? Fica a sugestão de leitura: Por que a cabeça da Cachalote é tão grande? 

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Leitura complementar:


REFERÊNCIAS

  1. https://ocean.si.edu/ocean-life/invertebrates/inside-sperm-whales-mouth
  2. Werth, A. J. (2004). Functional Morphology of the Sperm Whale (Physeter macrocephalus) Tongue, with Reference to Suction Feeding. Aquatic Mammals 30(3), 405-418. https://doi.org/10.1578/AM.30.3.2004.405
  3. Johnson et al. (2010). Evidence that sperm whale (Physeter macrocephalus) calves suckle through their mouth. Marine Mammal Science, 26(4): 990–996. https://doi.org/10.1111/j.1748-7692.2010.00385.x
  4. Lambert et al. (2010). The giant bite of a new raptorial sperm whale from the Miocene epoch of Peru. Nature 466, 105–108. https://doi.org/10.1038/nature09067
  5. Lambert et al. (2014). Bony outgrowths on the jaws of an extinct sperm whale support macroraptorial feeding in several stem physeteroids. Naturwissenschaften 101, 517–521. https://doi.org/10.1007/s00114-014-1182-2
  6. Werth & Crompton (2023). Cetacean tongue mobility and function: A comparative review. Journal of Anatomy, Volume 243, Issue 3, Pages 343-373. https://doi.org/10.1111/joa.13876
  7. Werth & Beatty (2023). Osteological correlates of evolutionary transitions in cetacean feeding and related oropharyngeal functions. Frontiers in Ecology and Evolution, Volume 11. https://doi.org/10.3389/fevo.2023.1179804
  8. Serano et al. (2023). Nursing Behavior in Sperm Whales (Physeter macrocephalus). Animal Behavior and Cognition, 10(2):105-131. https://doi.org/10.26451/abc.10.02.02.2023
  9. Gibbs & Kirk (2001). Erupted upper teeth in a male sperm whale, Physeter macrocephalus. New Zealand Journal of Marine and Freshwater Research, Vol. 35: 325-327.  https://doi.org/10.1080/00288330.2001.9517002
  10. Toledo & Langguth (2015). Maxillary teeth in sperm whales, Physeter macrocephalus (Cetacea: Physeteridae). Journal of Morphological Scinces, vol. 32, no. 3, p. 212-215. http://dx.doi.org/10.4322/jms.082314
  11. Nakamura et al. (2013). Relative Skull Growth of the Sperm Whale,Physeter Macrocephalus, with a Note of Sexual Dimorphism. Mammal Study 38 (3), 177–186. https://doi.org/10.3106/041.038.0306
  12. https://seahistory.org/sea-history-for-kids/sperm-whales/
  13. Cantor et al. (2019). Sperm Whale: The Largest Toothed Creature on Earth. In Ethology and Behavioral Ecology of Marine Mammals; Springer International Publishing, pp. 261–280. https://doi.org/10.1007/978-3-030-16663-2_12