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Mulheres menstruadas são mais mais sensíveis à dor?

 
             Estudos até o momento publicados investigando a relação entre ciclo menstrual e percepção de dor têm gerado resultados conflitantes. Alguns encontram uma maior percepção de dor na fase lútea, outros encontram maior percepção de dor na fase folicular e alguns não encontram significativa diferença clínica ou estatística na percepção de dor ao longo das fases do ciclo (Ref.1).

            Se considerarmos as evidências acumuladas na literatura acadêmica, a maioria dos estudos sugerem que o ciclo menstrual influencia de forma significativa na sensibilidade à dor. Durante a fase lútea, os níveis hormonais de estrógeno diminuem e os níveis de progesterona aumentam (1). Para aqueles que suportam a narrativa de maior percepção de dor na fase folicular, é argumentado que os limites mínimos de dor (thresholds) são maiores na fase lútea: maior concentração de progesterona reduz a neurotransmissão sensorial considerando que o tom GABAérgico - sistema envolvido na regulação do afeto e do humor - é maior durante a fase lútea e declina previamente ao sangramento menstrual. O papel do sistema GAGAérgico envolve redução na excitabilidade do sistema nervoso e isso reduziria a capacidade de perceber dor (Ref.2). 

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> A fase folicular começa no primeiro dia da menstruação e acaba com a ovulação, quando um dos ovários liberam um oócito maduro.

> Para mais informações sobre o ciclo menstrual e a menstruação, ficam as sugestões de leitura: Três mitos esclarecidos: Ciclo menstrual de 28 dias, corrida dos espermatozoides e exclusividade masculina da próstata

(1) Essas variações hormonais também parecem impactar no ganho de massa muscular durante treinos de musculação. Entenda: Qual é o melhor período do ciclo menstrual para o treino de musculação e hipertrofia muscular?

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          Outros estudos, porém, apontam evidências clínicas e in vivo de que existe uma significativa correlação entre o aumento da percepção da dor, aumento dos níveis circulantes de progesterona e a redução nos níveis de estrógenos (Ref.3). Isso implicaria que dor é percebida com maior facilidade durante a fase lútea comparado com a fase folicular.

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           Em um estudo prospectivo observacional publicado em 2022 no periódico Egyptian Journal of Anaesthesia (Ref.4) 60 mulheres submetidas aleatoriamente ao procedimento de laparoscopia ginecológica na fase folicular ou na fase lútea, mostrou maior nível de dor pós-operatória percebida durante a fase folicular quando comparado com a fase lútea. Por outro lado, um estudo de 2018 analisando o mesmo cenário de intervenção ginecológica havia encontrado maior sensibilidade à dor na fase lútea (Ref.3). 

          Um estudo mais recente publicado no periódico BrJP (Ref.5) encontrou que indivíduos saudáveis do sexo feminino possuem maior tolerabilidade à dor mecânica e por pressão na região orofacial durante a fase lútea, embora nenhuma diferença clinicamente significativa tenha sido observada em indivíduos com desordens temporomandibulares. 

           Um estudo clínico publicado em 2022 no periódico Journal of Applied Physiology (Ref.6) encontrou que enquanto o status de hidratação influenciava na percepção da dor em mulheres saudáveis - com hipohidratação (estágio de escassez de água no corpo anterior à desidratação) aumentando a sensibilidade à dor -, as fases menstruais não mostraram ser um fator de significativa influência. Porém, o estudo foi de pequeno porte, incluindo apenas 14 voluntárias.

          Um estudo de 2020, analisando 1092 voluntários (79% do sexo feminino) que se submeteram a um procedimento de tatuagem, também não encontrou diferença estatisticamente significativa na influência de diferentes fases do ciclo menstrual na percepção da dor durante e após o procedimento (Ref.7). E cerca de 10% dos participantes, para a surpresa dos pesquisadores, também não reportaram nenhuma sensação de dor durante o procedimento. Além obviamente da área do corpo [ex.: pele mais ou menos fina] sendo tatuada, outros fatores encontrados que influenciavam significativamente na percepção de dor dos participantes incluíam nível prévio de estresse, presença de notável sangramento, tempo de tatuagem e uso de analgésicos. Curiosamente, o uso de analgésicos mostrou estar associado com um aumento na percepção de dor, talvez porque as pessoas usando tais medicamentos (33% do total) já possuíam uma maior sensibilidade à dor comparado com aquelas que escolheram não usá-los.

            Dor é um processo complexo que envolve a integração de informações sensoriais e emocionais, incluindo processos de transdução, transmissão e modulação de sinais neurais gerados em resposta a um estímulo nocivo externo (nocicepção) (2). A dor foi definida pela Associação Internacional para o Estudo da Dor em 2016 como "uma experiência angustiante associada a uma lesão tecidual atual ou potencial com componentes sensoriais, emocionais, cognitivos e sociais". Vários fatores podem influenciar na percepção da dor (ex.: efeitos placebo e nocebo) (3) ou ao longo dos caminhos de nocicepção, e existem significativas variações individuais de sensibilidade a esse fenômeno sensorial. 

           Resultados conflitantes nos estudos investigando a associação entre percepção de dor e ciclo menstrual podem ser causados por fatores não sendo levados em conta nas análises, como histórico de dores crônicas [dessensibilizando o indivíduo], presença ou não de tensão pré-menstrual (4) ou mesmo a natureza tipicamente volúvel dos ciclos menstruais (5). O tipo de dor e as áreas afetadas do corpo podem também tornar os níveis hormonais variantes menos ou mais relevantes na percepção da dor. E, de fato, os estudos publicados até o momento investigando a questão são ainda relativamente escassos e muito limitados. Estudos clínicos de alta qualidade e de grande porte são necessários para melhor esclarecer a questão, incluindo análises laboratoriais concomitantes de marcadores sanguíneos para confiáveis qualificação da fase menstrual e quantificação dos níveis hormonais nos participantes.


Para mais informações:


REFERÊNCIAS 

  1. Wang et al. (2019). Variations in pain perception during the menstrual cycle: implications for esthetic procedures. Clinics in Dermatology, 37(6), 689–691. https://doi.org/10.1016/j.clindermatol.2019.10.011
  2. Curiel-Montero et al. (2021). Has the Phase of the Menstrual Cycle Been Considered in Studies Investigating Pressure Pain Sensitivity in Migraine and Tension-Type Headache: A Scoping Review. Brain Sciences 11(9), 1251. https://doi.org/10.3390/brainsci11091251
  3. Piroli et al. (2018). Influence of the menstrual cycle phase on pain perception and analgesic requirements in young women undergoing gynecological laparoscopy. Pain Practice, Volume 19, Issue 2, Pages 140-148. https://doi.org/10.1111/papr.12727
  4. Samaan et al. (2022). A study of menstrual cycle effects on pain perception, haemodynamic response to laryngoscopy, and postoperative outcome in gynaecological laparoscopy. Egyptian Journal of Anaesthesia, Volume 38, Issue 1, Pages 680-693. https://doi.org/10.1080/11101849.2022.2147472
  5. Herreira-Ferreira et al. (2023). Experimental pain thresholds and psychosocial features across menstrual cycle in myofascial orofacial pain compared to healthy individuals: cross-sectional study. BrJP, 6(2). https://doi.org/10.5935/2595-0118.20230033-en
  6. Tan et al. (2022). Hypohydration but not menstrual phase influences pain perception in healthy women. Journal of Applied Physiology. https://doi.org/10.1152/japplphysiol.00402.2021
  7. Witkoś & Gender (2020). Differences in Subjective Pain Perception during and after Tattooing. International Journal fo Environmental Research and Public Health, 17(24), 9466. https://doi.org/10.3390/ijerph17249466
  8. https://land.icb.usp.br/pb/dor-e-nocicepcao/