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Aspartame é cancerígeno?

Figura 1. Fórmula e estrutura moleculares do aspartame.

 
          Está tendo muita repercussão o anúncio feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS) classificando o aspartame - um adoçante de baixa caloria - como possível carcinogênico humano. Porém, a evidência de suporte para essa classificação é muito limitada. No geral, com base em estudos envolvendo roedores e humanos, é sugerido em especial um aumento de risco para câncer de fígado (Ref.1).

- Continua após o anúncio -


          Até o momento, NÃO existe evidência convincente de que o aspartame possui efeitos adversos após ingestão dentro dos limites atualmente recomendados de consumo (40 mg por kg de massa corporal - equivalente a ~2800 mg/dia ou 9-14 latinhas de refrigerante diet para um típico adulto) (!). O aspartame é ainda aprovado como aditivo alimentar por várias agências regulatórias , incluindo a Administração de Drogas e Alimentos dos EUA (FDA-US) e a Autoridade de Segurança Alimentar Europeia (EFSA). Aliás, uma revisão sistemática e meta-análise conduzida pela própria OMS e publicada em 2022 não encontrou nenhuma associação entre adoçantes não-calóricos em geral - incluindo ciclamato, sacarina e sucralose - e cânceres (exceto por um aumento muito baixo no risco de câncer de bexiga relativo ao consumo de sacarina) (Ref.2). 

          Após o consumo, o aspartame é quebrado em três metabólitos no corpo: fenilalanina, ácido aspártico e metanol - esse último potencialmente carcinogênico já que é metabolizado em ácido fórmico, substância que pode danificar o DNA. No entanto, a quantidade de metanol produzida por um típico consumo de aspartame é ínfima, e vários outros alimentos também geram metanol durante o metabolismo no corpo após a ingestão.

          A nova classificação não deve ser considerada como indicativo de que o consumo de aspartame causa câncer ou algo nesse sentido. Apenas reforça a necessidade de mais estudos para esclarecer a questão.

           De fato, estudos clínicos continuam conflitantes nesse sentido. Por exemplo, um recente e robusto estudo observacional conduzido na Espanha, investigando a ligação entre consumo de adoçantes artificiais (incluindo o aspartame) e risco para múltiplos cânceres, não encontrou significativa associação entre esses adoçantes e desenvolvimento de cânceres (Ref.3). Por outro lado, os autores desse estudo encontraram uma associação entre alto consumo desses adoçantes e risco para certos tipos de cânceres em pacientes com diabetes.

          Um estudo de revisão também recente publicado no periódico Regulatory Toxicology and Pharmacology (Ref.4), analisando vários estudos epidemiológicos publicados nas últimas décadas, não encontrou nenhuma evidência associando consumo de adoçantes não-calóricos com um aumento no risco de câncer. Os pesquisadores concluíram que recomendação contra o consumo desses adoçantes não era necessária em termos de preocupação com efeitos carcinogênicos.

          No mesmo caminho desse último estudo, uma revisão Umbrella (Ref.5), analisando estudos de revisão sistemática publicados até maio de 2022 sobre o consumo de bebidas adoçadas artificialmente, não encontrou significativa associação entre consumo dessas bebidas e aumento no risco de cânceres.

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(!) Além de cânceres, existem outros estudos que associam o consumo de longo prazo de aspartame e outros adoçantes não-calóricos com problemas de saúde diversos, como possível aumento no risco de danos neurológicos e no microbioma intestinal, hipertensão, obesidade, diabetes tipo 2, doença cardiovascular e mortalidade  (Ref.2, 5-7). Porém, as evidências são também muito limitadas e/ou de baixa qualidade nesse sentido, sendo incerto se as associações são genuínas. Até que a questão seja melhor esclarecida, alguns pesquisadores sugerem que adultos sem diabetes restrinjam sempre que possível o consumo de adoçantes não-calóricos - mas evitando o consumo de adoçantes calóricos (Ref.8).

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   CLASSIFICAÇÃO DE AGENTES CARCINOGÊNICOS

          As agências internacionais de saúde classificam substâncias ou fatores físicos quanto ao potencial carcinogênico em humanos em cinco grupos (Ref.9-10):

- Grupo I: são comprovados carcinógenos humanos (existe suficiente evidência para concluir que a substância causa câncer em humanos).

- Grupo 2A: são prováveis carcinógenos humanos (existe forte evidência de que a substância pode causar câncer em humanos, mas ainda é inconclusiva).

- Grupo 2B: são possíveis carcinógenos humanos (existe alguma evidência que a substância pode causar câncer em humanos, mas é algo ainda longe de conclusivo).

- Grupo 3: não classificáveis em termos de carcinogenicidade a humanos (não existe evidência no momento de que a substância pode causar câncer em humanos).

- Grupo 4: provavelmente não-carcinogênicos em humanos (existe forte evidência de que a substância não causa câncer em humanos).

          Segundo a última atualização da OMS, o aspartame agora pertence ao Grupo 2B, ou seja, é um possível carcinógeno humano. Carne processada, consumo alcoólico (1), obesidade (2), vírus HPV (3) e radiações eletromagnéticas muito energéticas (UVB-C, raio-X, raio gama) são todos agentes carcinogênicos no Grupo I. Carne vermelha está atualmente no Grupo 2A, como provável agente carcinogênico.

Leitura recomendada:

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> Para uma lista completa dos atuais carcinogênicos humanos comprovados (Grupo I), acesse: Importante lista de carcinógenos agora soma 256 substâncias

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REFERÊNCIAS 

  1. https://www.nature.com/articles/d41586-023-02306-0
  2. https://www.who.int/publications/i/item/9789240046429
  3. Palomar-Cros et al. (2023). Consumption of aspartame and other artificial sweeteners and risk of cancer in the Spanish multicase-control study (MCC-Spain). International Journal of Cancer, Volume 153, Issue 5, Pages 979-993. https://doi.org/10.1002/ijc.34577
  4. Moretto et al. (2023). Non-sugar sweeteners and cancer: Toxicological and epidemiological evidence. Regulatory Toxicology and Pharmacology, Volume 139, 105369. https://doi.org/10.1016/j.yrtph.2023.105369
  5. Rey-Lopez et al. (2023). Artificially Sweetened Beverages and Health Outcomes: An Umbrella Review. Advances in Nutrition, Volume 14, Issue 4, Pages 710-717. https://doi.org/10.1016/j.advnut.2023.05.010
  6. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/1028415X.2023.2228561
  7. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fped.2023.1200990/full
  8. Singh et al. (2023). Non-sugar sweeteners and health outcomes in adults without diabetes: deciphering the WHO recommendations in the Indian context. Diabetes & Metabolic Syndrome: Clinical Research & Reviews, Volume 17, Issue 8, 102829. https://doi.org/10.1016/j.dsx.2023.102829
  9. https://monographs.iarc.who.int/agents-classified-by-the-iarc/
  10. https://ec.europa.eu/health/scientific_committees/opinions_layman/en/electromagnetic-fields/glossary/ghi/iarc-classification.htm