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Vacinação do HPV protege meninos e meninas também contra o câncer

              
- Atualizado no dia 5 de outubro de 2020 -

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          Só nos EUA, são cerca de 79 milhões de pessoas infectadas com o vírus HPV (papilomavírus humano), com quase 14 milhões de novos casos de infecção todos os anos. E, como muitos devem saber, a forma mais eficaz de prevenção é a vacinação. Porém, é amplamente e erroneamente assumido que apenas os indivíduos do sexo feminino precisam tomar essa vacina, onde é comumente pensado que esse vírus apenas causa câncer do colo do útero (também chamado de câncer cervical). A verdade é que essa vacina é recomendada não só para meninas entre 9 e 13 anos de idade, mas também para os meninos. O HPV é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo, e esse vírus além de ser um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento de câncer de útero, vagina e vulva nas mulheres, é também responsável por quatro cânceres nos homens. Por isso a importância da vacinação para ambos os sexos antes do início das atividades sexuais.

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   HPV E CÂNCER

           O HPV inclui uma família de vírus de DNA que infectam células epiteliais basais, causando lesões benignas e malignas na pele e nas mucosas do tratos anogenital e aero-digestivo superior. Apesar de cerca de 85-90% das infecções por HPV não causarem sintomas e serem resolvidas dentro de 1-2 anos, uma minoria dos infectados retêm o vírus (infecção persistente), o qual causa danos no DNA e engatilham tumores malignos em cerca de 1% dos infectados. Durante a replicação efetiva do vírus nas células infectadas, duas proteínas virais (E6 e E7) são produzidas, as quais se ligam a e degradam duas importantes proteínas humanas de supressão tumoral (p53 e pRB), diminuindo consequente a estabilidade genômica e aumentando os riscos de propagação de mutações cancerígenas. Além disso, a integração do genoma do HPV ao cromossomo do hospedeiro é outro fator que aumenta a instabilidade genômica. Os genótipos de HPV mais associados ao risco de desenvolvimento de câncer são o HPV16 e o HPV18.





         Todos os anos, nos EUA, mais de 9 mil homens são afetados por cânceres gerados pelo vírus HPV. Os tumores surgem na região do ânus, boca, garganta e no pênis. Entre as mulheres, aqui no Brasil, 15 mil casos de câncer cervical são registrados anualmente, com 5 mil mortes relacionadas; no mundo, são mais de 250 mil mortes. É estimado que mais de 70% dos casos de câncer de útero, aproximadamente 75% dos cânceres orofaríngeos e mais de 90% dos casos de verrugas anogenitais sejam causados pelo HPV. E as taxas de prevalência dessas doenças têm aumentado todos os anos. Vários dos cânceres causados pelo HPV, tanto em homens quanto em mulheres, seriam prevenidos pela vacinação. Nos meninos, a faixa etária para a recomendação da vacina é entre 11 e 12 anos. Existem dois motivos para, em ambos os sexos, a escolha dessa faixa etária:

1. É um período onde, geralmente, meninos e meninas ainda não iniciaram a vida sexual. Depois de contaminado com o vírus, a vacina não surte efeito. No Brasil, por exemplo, a faixa de idade até diminuiu para as meninas (a partir dos 9 anos), já que a vida sexual, infelizmente, está começando cada vez mais cedo;

2. Nessa faixa de idade, a produção de anticorpos é bem alta, onde a vacina contra o HPV produz uma resposta imune bastante eficaz.

           Isso não significa que, depois de passada essa faixa de idade, a vacina não possa ser administrada. A eficácia apenas diminui, porém, ainda é um método válido. E é bom lembrar que a vacina não cobre todas as cepas do HPV, mas já dá um jeito nas mais perigosas (1). E, claro, o uso da camisinha continua sendo item obrigatório, porque além de proteger das outras cepas, ajuda a impedir o contágio com outras DSTs. É importante também lembrar que as verrugas genitais produzidas pelo HPV são fontes de contágio, e a camisinha pode não cobri-las, dependendo da localização. 




         Um estudo publicado recentemente na JAMA Pediatrics (Ref.6), encontrou que 70% dos adultos nos EUA não sabem que o papilomavírus (HPV) causa cânceres anal, oral e peniano. Além disso, os homens eram menos prováveis do que as mulheres de saberem que a infecção por esse vírus estava associada com o risco de câncer. Só nos EUA, são 33500 casos/ano de câncer nos homens e nas mulheres devido ao HPV. No mundo, é estimado um total anual de 610-630 mil cânceres e 320 milhões de casos de verrugas anogenitais (Ref.12-13). A vacinação é um importante fator de prevenção contra esses cânceres.

          O câncer orofaríngeo, para ambos os sexos, está fortemente associado com o sexo oral - o qual é frequentemente feito de forma desprotegida - e o número de parceiros de sexo oral, devido ao maior risco de transmissão e infecção pelo HPV. Um aumento nas últimas décadas da incidência de câncer orofaríngeo nos EUA e em outros países tem sido ligado a mudanças nos comportamentos ligados ao sexo oral. Em um estudo publicado no periódico Cancer (Ref.11), analisando 163 indivíduos com e 345 indivíduos sem câncer orofaríngeo associado ao HPV, encontrou que ter mais de 10 parceiros de sexo oral previamente à manifestação do câncer estava associado com 4,3 vezes mais chance de ter o câncer orofaríngeo associado com o vírus. Maior tempo e intensidade do sexo oral, e sexo oral quando jovem com parceiros mais velhos, também mostraram-se associados com um maior risco nesse sentido.

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          Segundo o CDC (Centro de Controle e Doenças dos EUA), meninos e meninas com idades de 9 a 14 anos deveriam receber duas doses de imunização da vacina contra o HPV. E quanto mais cedo o indivíduo é vacinado, melhor é a resposta do sistema imune e também aumenta as chances da vacina ser aplicada antes de uma exposição ao vírus. Porém, inúmeros adolescentes ao redor do mundo continuam não recebendo a vacina por causa principalmente de desinformações e falta de conscientização. Nos EUA, EM 2017 a cobertura de vacinação atingia 48,6% da população, bem abaixo do mínimo de 80% estabelecido pelos órgãos de saúde como meta até 2020.

           Por outro lado, um estudo publicado no periódico Pediatrics (Ref.7) mostrou que essa situação vem melhorando entre os profissionais de saúde. Os pesquisadores encontraram que, nos EUA, os pediatras que fortemente recomendam as vacinas aumentaram de 60% em 2013 para 85% em 2018 para meninas de 11 ou 12 anos de idade, e de 52% para 83% para meninos de 11 a 12 anos de idade.

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          Aliás, e por que aqui no Brasil as campanhas até 2017 eram voltadas apenas para o público feminino? Bem, como ocorre com o PrEP (PeRP: prevenção da Aids), o custo é o fator decisivo. Cada dose dessa vacina chega a custar quase 500 reais na rede privada de saúde, sendo que são três as doses que precisam ser administradas. Historicamente, nosso país é o único que conseguiu negociar os melhores preços, e pagar o resto com o orçamento governamental para a distribuição pública, onde os preços praticados chegam ser de 30 reais a dose, totalizando 90 reais a vacinação completa. Por isso também, as campanhas visavam apenas as meninas, para os gastos serem reduzidos e possibilitar a gratuidade da vacinação. Vacinando as meninas, os meninos ganham também uma proteção extra. Mas o ideal é vacinar todo mundo. Nesse sentido, após muita pressão, desde o começo de 2017 o governo passou a disponibilizar a vacinação para os meninos. 


   QUANTO MAIS CEDO, MELHOR

          Um robusto estudo publicado agora no The New England Journal of Medicine (Ref.10) encontrou que a vacina contra o HPV reduz mais do que substancialmente os casos de câncer cervical invasivo.

          No estudo, os pesquisadores ao longo de 11 anos seguiram quase 1,7 milhões de mulheres entre as idades de 10 e 30 anos. Dessas mulheres, mais de 500 mil foram vacinadas contra o HPV, a maioria antes dos 17 anos de idade. Dezenove mulheres vacinadas foram diagnosticadas com câncer cervical invasivo comparado com 538 mulheres não vacinadas, correspondendo a 47 e 94 casos para cada 100 mil mulheres, respectivamente. 

          Ajustando para co-fatores de risco, os pesquisadores encontraram uma redução de 50% no risco de desenvolvimento de câncer cervical invasivo para as mulheres vacinadas entre 17 e 30 anos de idade. Já entre as mulheres vacinadas antes dos 17 anos de idade, a redução de risco observada foi de 88%.

          E reforçando pela milésima vez: Não existe significativo à saúde risco associado à vacinação contra o HPV ou a qualquer outra vacina aprovada pelos órgãos mundiais de saúde. Esse tipo de desinformação entre a população é extremamente perigosa. Para mais informações, acesse: Vacina: História, Conquistas e Mitos.

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HPV: O HPV é um vírus passado por meio do contato sexual, seja anal, vaginal e, de forma menos frequente, oral. Normalmente, o sistema imune das pessoas consegue combater a infecção e eliminar o vírus, mas cerca de 1% dos indivíduos acabam ficando infectados por longos períodos. Se não tratada, a infecção provavelmente irá levar a um câncer após alguns anos. Além da vacinação, é importante sempre fazer sexo de forma segura, conhecendo bem seu parceiro ou usando medidas de proteção como a camisinha.
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(1) Existem vários tipos de HPV, os quais são divididos pelas áreas de atuação: cutânea ou genital. No nível cutâneo, eles causam as famosas verrugas e geralmente não causam complicações maiores. Na região genital, eles também causam verrugas, mas alguns podem causar complicações graves como o câncer. A vacinação cobre os tipos 6, 11, 16 e 18.

OBSERVAÇÃO: As campanhas gratuitas de vacinação aqui no Brasil incluem apenas as meninas entre 9 e 13 anos. Depois dessa idade, é preciso pagar pelas caras vacinas da rede privada. Por isso, fique atento/a com as datas de vacinação para imunizar, sem custos, sua filha.

Verrugas típicas causadas pelo HPV

Artigo Recomendado: Posso prevenir a Aids depois de uma relação desprotegida?

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ATUALIZAÇÃO (29/08/16): A vacinação contra o HPV está sendo um sucesso (2). Nos últimos anos, os números de cânceres cervical (principal efeito colateral da infecção pelo vírus), boca e garganta, todos relacionados com o vírus, caíram vertiginosamente em 130 países onde foi administrada a vacina. Na Austrália, onde a vacina teve seu primeiro percurso há 10 anos, o número de infecções pelo vírus diminui em 90%! Segundo os especialistas, se a tendência continuar e as campanhas de vacinação continuarem firmes, é esperado que os cânceres causados pelo HPV sejam eliminados nos próximos 40 anos, já que o vírus apenas infecta os humanos.

(2) Reportagem de referência: BBC

Para mais informações e atualizações: PAHO

ATUALIZAÇÃO (24/01/17): O governo passou a disponibilizar, a vacinação do HPV para os meninos. No caso dos meninos, a faixa de idade será de 12 a 13 anos. Os postos de saúde também vacinarão jovens de 9 a 26 anos vivendo com HIV/Aids, totalizando 4767 pessoas de ambos os sexos. Nesses casos, serão três doses, com intervalo de dois e seis meses após a primeira dose. Além disso, as meninas de 10 a 14 anos que não se vacinaram ou tomaram apenas a primeira dose em 2016 também devem procurar os postos. (Ref.5) 

 

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.cdc.gov/Features/hpvvaccineboys/
  2. http://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/hpv/ 
  3. http://drauziovarella.com.br/mulher-2/a-seguranca-da-vacina-contra-hpv/ 
  4. http://www.brasil.gov.br/saude/2015/09/saude-da-inicio-a-vacinacao-da-segunda-dose-contra-hpv
  5. http://portal.saude.pe.gov.br/noticias/secretaria-executiva-de-atencao-saude/meninos-podem-se-vacinar-contra-o-hpv 
  6. https://www.cuanschutztoday.org/news/physicians-report-high-refusal-rates-for-the-hpv-vaccine-and-need-for-improvement
  7. https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/2749340
  8. https://acsjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/cncr.32652
  9. https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs10900-019-00784-w
  10. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1917338
  11. https://acsjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/cncr.33346
  12. https://www.nature.com/articles/nrclinonc.2015.146
  13. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ijc.30716%4010.1002/%28ISSN%291097-0215.world_cancer_congress2018
  14. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08830185.2020.1811859