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Por que o frio causa dor nos dentes? Cientistas finalmente revelam a causa


          Dentes são compostos de vários tecidos, cobertos por um esmalte obdurado. Ao contrário da maioria dos outros tecidos no corpo, os dentes se tornam extremamente sensíveis ao frio quando inflamados, e os mecanismos dessa dolorosa sensação de frio não são entendidos. Agora, em um estudo publicado no periódico Science Advances (Ref.1), pesquisadores revelaram e descreveram os componentes moleculares e celulares do sistema dental de sensibilidade ao frio, demonstrando que a transdução sensorial do estímulo de frio nos dentes requer odontoblastos e uma proteína mediadora conhecida como TRCP5. 

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   FRIO, DOR E DENTE 

          Insultos à dentina dos dentes – tecido formados por células chamadas de odontoblastos, e que fica sob o esmalte do dente cobrindo o tecido macio da polpa dental (contendo nervos e vasos sanguíneos) – produzem inflamação, mais comumente durante processos de cáries dentais. A cárie dental é uma doença crônica na qual um biofilme bacteriano sobre a superfície do dente, em combinação com substratos de carboidratos fermentáveis (ex.: sacarose/açúcar comum), causa desmineralização e eventualmente degradação do dente. Ao redor do mundo, 2,4 bilhões de pessoas possuem cárie não tratada em dentes permanentes. 


 

          Dentes inflamados são extremamente sensíveis ao frio, levando a uma dor curta, afiada e neurálgica. No geral, dores nos dentes associadas à exposição ao frio podem ocorrer em várias circunstâncias. Muitas pessoas têm experienciado intensa dor após exposição a baixas temperaturas quando existe um buraco no dente de uma cavidade não tratada, por exemplo. Mas os dentes podem se tornar muito sensíveis ao frio por causa de erosão da gengiva associada com o avanço de idade. Alguns pacientes com câncer tratados com quimioterápicos platina-baseados possuem extrema sensibilidade ao frio em todo o corpo, e uma pequena brisa no rosto é experienciada como uma extrema dor nos dentes, levando alguns pacientes a inclusive parar com a terapia. 

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    ODONTOBLASTOS E TRCP5 

           No novo estudo, pesquisadores realizaram experimentos com ratos para investigar o papel de uma proteína codificada pelo gene TRCP5 – expressa em nervos de várias partes do corpo, incluindo nos dentes –, a qual tinha mostrado em um estudo prévio mediar sensações de dor associadas ao frio. Parte dos ratos analisados foram geneticamente modificados no sentido de perda do gene TRCP5. Os pesquisadores encontraram que os ratos modificados e apresentando danos nos dentes – que em condições normais causariam forte sensibilidade ao frio – não expressaram mudanças comportamentais ligadas a sensações dolorosas quando expostos ao frio. 

          Análises subsequentes confirmaram que o sensor de temperatura TRCP5-mediado está presente na dentina humana e transmite sensação de frio através dos odontoblastos – em parceria com o canal de íons TRPA1, uma proteína da família de receptores transitentes de potencial (TRP) envolvida nas sensações de dor, frio e coceira – e engatilha a atividade de nervos, criando dor e hipersensibilidade ao frio. O TRPA1, em específico, é engatilhado por temperaturas abaixo de 17°C. 

          A camada celular de odontoblastos é localizada na zona mais externa da polpa dental, tornando-a uma barreira natural entre os tecidos mineralizados duros e a polpa macia. Cada odontoblasto possui um processo de protuberância no túbulo dentinal onde é imerso em fluído dentinal. O corpo celular dessa camada é cercado por nervos sensoriais com ausência de mielina dentro dos primeiros 100 micrômetros de espessura da borda odontoblasto-pré-dentina. Esse arranjo hierárquico único fornece a base estrutural para a codificação da dor térmica. 

           Especificamente, em resposta ao frio, a proteína TRCP5 abre canais na membrana dos odontoblastos, permitindo que outras moléculas e íons, como cálcio (Ca2+), entrem e interajam com a célula. Se a polpa do dente está inflamada a partir de uma cavidade profunda, por exemplo, a proteína TRCP5 é expressa em excesso nos axônios sensoriais, causando uma elevação na sinalização elétrica através dos nervos emergindo da raiz do dente e indo para o cérebro, onde o sinal de dor é processado. Quando as gengivas recuam devido ao avanço da idade, os dentes se tornam mais hipersensitivos porque os odontoblastos estão sentindo o frio em uma nova região exposta do dente. 

          A maioria das células e tecidos desaceleram o metabolismo na presença de baixas temperaturas, e esse é o motivo do porquê órgãos doados são colocados no gelo (diminuindo a atividade celular e reduzindo processos danosos). Porém, a proteína TRPC5 torna as células mais ativas no frio, permitindo que os odontoblastos, por exemplo, sejam capazes de sinalizar de forma mais intensa quando expostos a baixas temperaturas. 

            Os achados do estudo corroboram em parte um estudo de 2018 publicado no periódico Scientific Reports (Ref.3) onde os pesquisadores concluíram que a atividade isolada dos receptores TRPM8 e TRPA1 não contribuem para a sensibilidade ao frio da polpa dental. De fato, a sensibilidade dental ao frio é primariamente dependente do receptor TRPC5, apesar de existir, sim, contribuição do receptor TRPA1. 

           Em termos evolutivos, os pesquisadores propuseram que essa maior sensibilidade ao frio pode ser um meio do corpo de proteger o dente de mais lesões, alertando-nos de danos dentais através de objetos extracorpóreos de mais baixa temperatura do que o ambiente oral (a maior parte deles, considerando uma temperatura ambiente comum entre 0 e 25°C). 

           Por séculos, óleos de cravo (planta aromática da espécie Syzygium aromaticum) têm sido usados como remédio para aliviar a dor nos dentes, trazendo o composto eugenol como agente ativo. Os pesquisadores mostraram que o eugenol é capaz de bloquear o TRCP5, explicando porque esses óleos são eficazes. O entendimento molecular da sensação de dor frio-induzida pode agora ser usado para o desenvolvimento de fármacos ainda mais eficazes. 

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          É ainda incerto, porém, como exatamente ocorre a interação entre as proteínas TRPA1, TRPC5 e os odontoblastos. É sabido que o esmalte do dente não apenas conduz bem mudanças de temperatura mas também se expande e contrai quando sujeito a mudanças de temperatura. Nesse sentido, processos termomecânicos podem causar deformações nos odontoblastos e na proteína TRPC5, engatilhando respostas neurais. Detalhes desse processo precisam ser esclarecidos em estudos futuros. 


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. https://advances.sciencemag.org/content/7/13/eabf5567
  2. https://www.tannlegetidende.no/i/2016/1/d2e198
  3. https://www.nature.com/articles/s41598-018-31487-2