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O que causa, como é gerado e para que serve o mau cheiro nas axilas?


- Atualizado no dia 24 de maio de 2023 -

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          Os mamíferos em geral produzem compostos odoríferos voláteis que possuem diversas finalidades, especialmente reconhecimento e função de feromônio. Nos humanos modernos (Homo sapiens) esses compostos desprendidos são conhecidos como odor corporal, cujo principal componente é o tioálcool 3-metil-3-sulfanilhexan-1-ol (3M3SH). O 3M3SH é produzido debaixo do braço, nas axilas, via atividade microbiana específica, gerando o tão famoso e desagradável "cecê". Nesse sentido, dois recentes estudos - um publicado no periódico eLife (Ref.1) e o outro no periódico Scientific Reports (Ref.2) - vieram para esclarecer com mais detalhes como esse mau-cheiro é gerado, o que pode inclusive possibilitar o desenvolvimento de inibidores específicos de combate a esse odor, ao invés da ação generalizada e muitas vezes limitadas dos desodorantes e dos antitranspirantes.

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   MECANISMO ODORÍFERO

          Na nossa espécie (H. sapiens), a pele das axilas (debaixo dos braços) fornece um ambiente único e bastante favorável a bactérias diversas. Através das secreções de várias glândulas - estas as quais abrem na pele ou dentro dos folículos capilares e formam um denso sistema glandular - esse ambiente se torna rico em nutrientes e hospeda uma rica comunidade microbiana. Ácidos graxos esterificados e outros lipídios são secretados pela glândula sebácea, enquanto as glândulas écrinas produzem uma solução salgada diluída com lactato e outros solutos orgânicos sendo excretados pela pele. Uma terceira glândula exócrina, a apócrina, a qual é mais especializada e encontrada somente nas axilas, auréola, genitália e no meato auditório externo (vulgo canal auditivo), começa a secretar uma secreção viscosa e rica em lipídios a partir da puberdade. Mas ao contrário da glândula écrina, essa secreção não está envolvida na termorregulação, e, nos mamíferos possui provavelmente um papel específico na geração de odores.


          A microbiota das axilas é dominada principalmente por bactérias dos gêneros Staphulococcus, Corynebacterium e Propionibacterium. Várias moléculas produzidas nas axilas têm sido ligadas ao mau-cheiro dessa região - também conhecido como cecê, catinga, CC, bodum e sovaqueira -, incluindo esteroides 16-androsteno e, ácidos graxos voláteis de cadeias curtas (C2-C5), e, principalmente, de cadeias médias (C6-C10) produzidos pela microbiota via várias rotas metabólicas. E mais recentemente, outro importante componente foi identificado: uma classe de moléculas que engloba os tioalcoóis (sulfanilalcanóis), estes os quais são particularmente mau-cheirosos e podem ser detectados a níveis de pg/l, uma ordem de magnitude mais baixa do que outros compostos voláteis sendo emitidos da pele. E o mais abundante e o mais mal-cheiroso desses tioalcoóis é o 3-metil-3-metil-3-sulfanilhexan-1-ol (3M3SH), o qual já foi demonstrado ser a causa molecular primária do mau-cheiro axilar oriundo do odor corporal.

          Para a produção do 3M3SH, o dipeptídeo cisteiniglicina-3-metil-3-sulfanilhexan-1-ol (S-Cis-Gli-3M3SH) é consumido e metabolizado por um altamente limitado espectro de bactérias do gênero Staphylococcus: S. hominis, S. haemolyticus e S. lugdunensis. Após produzido, o 3M3SH é liberado da célula bacteriana. Nos humanos, a S. hominis é a mais fortemente associada com esse processo.

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   MECANISMO DETALHADO

          No novo estudo publicado na eLife, os pesquisadores detalharam melhor o metabolismo realizado pela S. hominis para a produção do 3M3SH, fornecendo base teórica para o desenvolvimento de inibidores que possam livrar as pessoas do forte odor corporal, mas afetando especificamente essa espécie bacteriana.


          E mais recentemente, no estudo publicado no periódico Scientific Reports, os pesquisadores identificaram que a enzima liase cisteína-tiol (C-T liase) é essencial para a liberação de 3M3SH - especificamente visando o percursor Cis-3M3SH. Expressando o gene responsável por essa enzima em outra bactéria Stahlococcus não produtora de compostos odoríferos, eles mostraram que essa enzima era tanto necessária quanto suficiente para a formação do tioálcool. Ou seja, estratégias terapêuticas ainda mais específicas visando essa enzima podem ser ainda mais promissoras.

          A maior vantagem do uso de uma terapia mais específica é que os métodos de prevenção ao excesso de odor corporal não impactariam a microbiota axilar como um todo, apenas o agente causador do mau-cheiro. Isso conservaria um equilíbrio microbiótico saudável na região, minimizando efeitos colaterais negativos a longo prazo. Os antitranspirantes, por exemplo, agem neutralizando o odor corporal ao reduzirem a produção de suor através de sais de alumínio.  Esses sais, como o cloridrato de alumínio, formam precipitados com os eletrólitos do suor que fisicamente bloqueiam as glândulas sudoríparas; esse processo reduz os recursos disponíveis para o crescimento da microbiota como um todo. Nesse sentido, todas a comunidade bacteriana é prejudicada. Já os desodorantes, apesar de não interferirem na produção de suor, agem reduzindo as populações bacterianas via bactericidas diversos, como etanol e triclosan.

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OBS.: Existe um rumor já antigo que corre pelas internet de que os antitranspirantes podem aumentar o risco de câncer de mama. Isso não é verdade. Não existe mínima evidência ou plausibilidade científica para tal alegação. Dois importantes fatores para o aumento de risco para o câncer de mama, e que são amplamente ignorados, é o consumo alcoólico (I) e a obesidade (II).

Leitura recomenda: 

Aproveitando a deixa, uma dica importante: não use desodorantes e antitranspirantes na região íntima. Componentes nesses produtos podem irritar ou danificar a sensível pele dos órgãos genitais. Para aliviar odores desagradáveis nessa área, busque intensificar a higiene íntima ou busque uma consulta com um médico especialista caso o problema não seja apenas questão de higienização.
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   POR QUE GERAMOS ODOR CORPORAL?

          A produção de odores corporais pelos humanos é um antigo processo olfativo evolucionário que provavelmente estava envolvido na seleção sexual e nos processos evolucionários baseados em sinalizações químicas (reconhecimento dos pais pela prole, por exemplo). Outros animais como raposas, gatos, veados e besouros também parecem realizar sinalizações químicas via intermédio de bactérias (não diretamente pelo corpo, como na maioria dos outros animais). Apesar de hoje esse processo olfativo ser - aparentemente - apenas um vestígio evolutivo nos humanos modernos, no passado acasalamentos podiam ser decididos dependendo do odor corporal diferenciado emitido por machos e fêmeas, especialmente via compostos voláteis facilmente detectáveis, como o 3M3SH.

            Aliás, entre os ácidos orgânicos relacionados com odores corporais e produzidos nas axilas, temos em destaque o ácido 3 meti-2-hexenoico (3M2H) e o quantitativamente dominante ácido 3-hidróxi-3-metil-hexanoico (HMHA). Esses dois ácidos carboxílicos, até o momento, não foram descritos em outras espécies de animais e, portanto, podem ser específicos de humanos modernos.


           O estudo de 2018 na eLife, além de descrever como a bactéria S. hominis metaboliza e libera o principal composto volátil de mau-cheiro, também mostrou que as bactérias que não geram esse composto - ou quaisquer outros compostos ligados ao odor corporal - podem também ingerir o percursor dipeptídeo através do mesmo processo metabólico. Isso sugere que a produção do forte odor é um processo único que ocorre uma vez que o dipeptídeo está dentro da S. hominis, implicando que os humanos e essa bactéria provavelmente evoluíram juntos.

          No estudo citado da Scientific Reports, os pesquisadores usaram filogenética, bioquímica e biologia estrutural para demonstrar que a enzima C-T liase se moveu horizontalmente em um grupo monofilético do gênero Staphylococcus há cerca de 60 milhões de anos, subsequentemente adaptando sua função enzimática para percursores tioalcoóis humano-derivados. Esse processo evolutivo ocorreu através de mudanças no local de ligação para criar uma região hidrofóbica que é seletiva para ligantes ramificados alifáticos tioalcoóis. Essas evidências sugerem fortemente que a produção de odor corporal em humanos modernos é um processo muito antigo, provavelmente emergindo em ancestrais primatas não-humanos muito antes da emergência da nossa espécie, com a enzima C-T liase continuando a coevoluir especificamente com os humanos.

          Nesse último caso, a presença de uma enzima bacteriana específica para a produção de 3M3SH sugere fortemente pressão seletiva para a produção de odor ao longo de um estendido período de tempo evolucionário. Ou seja, a presença dessa enzima parece, de fato, fornecer vantagens para o hospedeiro (primata) que ativamente produz precursores para o odor que aparentemente não possui outras razões fisiológicas a não ser 'alimentar' a microbiota odorífera.

          Em outros mamíferos que dependem das bactérias para a produção de odores corporais específicos, a produção de cheiros é ligada à liberação de feromônios - substâncias voláteis envolvidas na comunicação e na seleção de parceiros sexuais. Como já mencionado, não é claro se o mesmo se aplica aos humanos. Mas a persistência de substancial quantidade de longos pelos na região das axilas - especialmente nos homens - é um forte indicativo da importância desses odores para a sinalização. Com a cabeleira debaixo dos braços, fica bem mais fácil dispersar os cheiros ali sendo produzidos (facilita a evaporação de maiores quantidades de suor). O mesmo ocorre com a região genital, onde as glândulas apócrinas também ocorrem em meio a uma maior concentração de pelos longos em ambos os sexos.      

          Evidência científica tem apontado que o odor corporal pode fornecer informação sobre heterozigosidade (diversidade de alelos/variantes genéticas), estabilidade de desenvolvimento, hormônios sexuais e saúde (Ref.8). Odores específicos para cada indivíduo são geneticamente determinados e estáveis (Ref.3). Os odores corporais humanos também são alterados com mudanças no estado emocional e exposição a diferentes odores "emocionais" podem afetar a fisiologia e o comportamento de pessoas - indicando potencialmente um papel de comunicação social via sinalização química (Ref.9).

         Em especial, esses compostos voláteis - diferentes tipos ou níveis - podem acusar cargas genéticas distintas entre os humanos através do olfato, com a liberação diferenciada desses compostos por cada indivíduo fomentando a união (acasalamento) entre pessoas não relacionadas por parentesco. Isso garantiria maior variabilidade genética e potencial adaptativo, evitando também problemas genéticos comuns causados por genes recessivos. Hoje isso pode não parecer algo importante, mas em um passado distante onde os grupos humanos eram bem menores e mais isolados essas pistas químicas captadas pelo olfato podem ter sido essenciais, explicando nossa coevolução com a microbiota odorífera.

   EXTREMO ORIENTE

            Uma significativa parte da população no Extremo Oriente - a zona Asiática mais ao leste, incluindo a China, Coreias, Japão e Mongólia - produz uma cera de ouvido branca e seca, em oposição à cera de ouvido úmida e amarela dominante no resto da população global*. Ao mesmo tempo, indivíduos com esse fenótipo também são reportados exibir níveis muito baixos do típico odor axilar, ou seja, não produzem significativo "mau-cheiro" nas axilas (Ref.3,10). Esse fenótipo é causado pelo polimorfismo nucleotídico (SNP) 538G → A no gene ABCC11 - e de forma homozigótica (!). Esse gene codifica uma proteína que catalisa precursores de odor nas vesículas secretórias nas axilas, e parece estar diretamente envolvido na secreção de precursores de odor nas glândulas apócrinas. Essa mutação no gene ABCC11 parece ter ocorrido uma vez e então se espalhado rápido na população do Extremo Oriente, alcançando quase 100% de prevalência em certas populações e indicando uma forte pressão seletiva positiva.

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(!) Indivíduos que apresentam uma variante íntegra do gene (G) - forma heterozigótica (A/G) - exibem apenas uma redução significativa do típico odor axilar; quase ausência desse odor é observada apenas quando o alelo mutante (A) é expresso de forma homozigótica (A/A). No Leste Asiático, a nível populacional, prevalência do genótipo A/A reportada é de 80-95%, enquanto o fenótipo é raro entre populações Europeias e Africanas (0-3%).
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            Como essa mutação afeta a composição de secreções apócrinas nos ouvidos, na axila e também do colostro no início da lactação**, é incerto qual é o exato fator que fomentou a rápida fixação do genótipo ABCC11 538G → A em populações humanas do Leste Asiático. É possível especular que um fenótipo com quase ausência de odor axilar ("sem cecê") tenha se tornado um atributo de preferência social em antigas culturas Asiáticas e, portanto, conferindo vantagem na seleção de parceiros sexuais. Além disso, a alta prevalência do genótipo A/A claramente realça que os odores axilares perderam seu potencial de vantagem adaptativa em interações sociais nas culturas onde o alelo mutante se tornou prevalente.


          Indivíduos homozigóticos para a mutação ABCC11 538G → A são muito menos prováveis de adotar certos hábitos de higiene, como o uso de desodorante para combater o odor axilar, comparado com aqueles que carregam pelo menos um alelo funcional do gene (alelo G) - e é sugerido que usem tais produtos para benefícios alternativos (ex.: controle de suor). No Reino Unido, esses indivíduos são 5 vezes menos prováveis de usar desodorante do que aqueles carregando um alelo G (Ref.11).

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   CONCLUSÃO

          Assim como no nosso intestino, a pele humana abriga uma grande diversidade de microrganismos em equilíbrio saudável com o nosso corpo, entre bactérias, fungos, Archaeans e bacteriófagos. Nas axilas, devido a fatores evolutivos de provável sinalização química, esses microrganismos produzem fortes cheiros que muitas vezes incomodam bastante. Sabendo melhor como o mecanismo bioquímico de formação desses odores corporais ocorre, novos produtos de higiene pessoal futuramente poderão ser mais eficientes e específicos, de forma a combater o mau-cheiro mas sem trazer prejuízos para a microbiota.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. Thomas et al. (2018). Structural basis of malodour precursor transport in the human axilla. eLife 7:e34995. https://doi.org/10.7554/eLife.34995
  2. Rudden et al. (2020). The molecular basis of thioalcohol production in human body odour. Scientific Reports 10, 12500. https://doi.org/10.1038/s41598-020-68860-z
  3. Natsch & Emter (2020). The specific biochemistry of human axilla odour formation viewed in an evolutionary context. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 375(1800), 20190269. https://doi.org/10.1098/rstb.2019.0269
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4741080/
  5. https://www.cancer.org/cancer/cancer-causes/antiperspirants-and-breast-cancer-risk.html
  6. https://scienceline.ucsb.edu/getkey.php?key=2333
  7. https://goaskalice.columbia.edu/answered-questions/deodorant-down-below
  8. Třebický et al. (2023). (Cross-modal associations of human body odour attractiveness with facial and vocal attractiveness provide little support for the backup signals hypothesis: A systematic review and meta-analysis. Evolution and Human Behavior, Volume 44, Issue 1, Pages 19-29. https://doi.org/10.1016/j.evolhumbehav.2022.11.001 
  9. Roberts et al. (2022). Emotional expression in human odour. Evolutionary Human Sciences, 4, E44. https://doi.org/10.1017/ehs.2022.44
  10. Martin et al. (2010). A Functional ABCC11 Allele Is Essential in the Biochemical Formation of Human Axillary Odor. Journal of Investigative Dermatology, Volume 130, Issue 2, Pages 529-540. https://doi.org/10.1038/jid.2009.254
  11. Harker et al. (2014). Functional characterisation of a SNP in the ABCC11 allele—Effects on axillary skin metabolism, odour generation and associated behaviours. Journal of Dermatological Science, 73(1), 23–30. https://doi.org/10.1016/j.jdermsci.2013.08.016