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O que causa e como é gerado o mau-cheiro nas axilas?


- Artigo atualizado no dia 31 de julho de 2020 -

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          Os mamíferos em geral produzem compostos odoríferos voláteis que possuem diversas finalidades, especialmente reconhecimento e função de feromônio. Nos humanos modernos (Homo sapiens) esses compostos desprendidos são conhecidos como odor corporal, cujo principal componente é o tioálcool 3-metil-3-sulfanilhexan-1-ol (3M3SH). O 3M3SH é produzido debaixo do braço, nas axilas, via atividade microbiana específica, gerando o tão famoso e desagradável "cecê". Nesse sentido, dois recentes estudos - um publicado no periódico eLife (Ref.1) e o outro no periódico Scientific Reports (Ref.2) - vieram para esclarecer com mais detalhes como esse mau-cheiro é gerado, o que pode possibilitar o desenvolvimento de inibidores específicos de combate a esse odor, ao invés da ação generalizada e muitas vezes limitadas dos desodorantes e dos antitranspirantes.

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   MECANISMO

          Na nossa espécie (H. sapiens), a pele das axilas (debaixo dos braços) fornece um ambiente único e bastante favorável a bactérias diversas. Através das secreções de várias glândulas - estas as quais abrem na pele ou dentro dos folículos capilares - esse ambiente se torna rico em nutrientes e hospeda uma rica comunidade microbiana. Ácidos graxos esterificados e outros lipídios são secretados pela glândula sebácea, enquanto as glândulas écrinas produzem uma solução salgada diluída com lactato e outros solutos orgânicos sendo excretados pela pele. Uma terceira glândula exócrina, a apócrina, a qual é mais especializada e encontrada somente nas axilas, auréola, genitália e no meato auditório externo (vulgo canal auditivo), começa a secretar uma secreção viscosa e rica em lipídios a partir da puberdade. Mas ao contrário da glândula écrina, essa secreção não está envolvida na termorregulação, e, nos mamíferos possui provavelmente um papel específico na geração de odores.


          A microbiota das axilas é dominada principalmente por bactérias dos gêneros Staphulococcus, Corynebacterium e Propionibacterium. Várias moléculas produzidas nas axilas têm sido ligadas ao mau-cheiro dessa região - também conhecido como cecê, catinga, CC, bodum e sovaqueira -, incluindo esteroides 16-androsteno e, ácidos graxos voláteis de cadeias curtas (C2-C5), e, principalmente, de cadeias médias (C6-C10) produzidos pela microbiota via várias rotas metabólicas. E mais recentemente, outro importante componente foi identificado: uma classe de moléculas que engloba os tioalcoóis (sulfanilalcanóis), estes os quais são particularmente mau-cheirosos e podem ser detectados a níveis de pg/l, uma ordem de magnitude mais baixa do que outros compostos voláteis sendo emitidos da pele. E o mais abundante e o mais mal-cheiroso desses tioalcoóis é o 3-metil-3-metil-3-sulfanilhexan-1-ol (3M3SH), o qual já foi demonstrado ser a causa molecular primária do mau-cheiro axilar oriundo do odor corporal.

          Para a produção do 3M3SH, o dipeptídeo cisteiniglicina-3-metil-3-sulfanilhexan-1-ol (S-Cis-Gli-3M3SH) é consumido e metabolizado por um altamente limitado espectro de bactérias do gênero Staphylococcus: S. hominis, S. haemolyticus e S. lugdunensis. Após produzido, o 3M3SH é liberado da célula bacteriana. Nos humanos, a S. hominis é a mais fortemente associada com esse processo.

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   MECANISMO DETALHADO

          No novo estudo publicado na eLife, os pesquisadores detalharam melhor o metabolismo realizado pela S. hominis para a produção do 3M3SH, fornecendo base teórica para o desenvolvimento de inibidores que possam livrar as pessoas do forte odor corporal, mas afetando especificamente essa espécie bacteriana.


          E mais recentemente, no estudo publicado no periódico Scientific Reports, os pesquisadores identificaram que a enzima liase cisteína-tiol (C-T liase) é essencial para a liberação de 3M3SH - especificamente visando o percursor Cis-3M3SH. Expressando o gene responsável por essa enzima em outra bactéria Stahlococcus não produtora de compostos odoríferos, eles mostraram que essa enzima era tanto necessária quanto suficiente para a formação do tioálcool. Ou seja, estratégias terapêuticas ainda mais específicas visando essa enzima podem ser ainda mais promissoras.

          A maior vantagem do uso de uma terapia mais específica é que os métodos de prevenção ao excesso de odor corporal não impactariam a microbiota axilar como um todo, apenas o agente causador do mau-cheiro. Isso conservaria um equilíbrio microbiótico saudável na região, minimizando efeitos colaterais negativos a longo prazo. Os antitranspirantes, por exemplo, agem neutralizando o odor corporal ao reduzirem a produção de suor através de sais de alumínio.  Esses sais, como o cloridrato de alumínio, formam precipitados com os eletrólitos do suor que fisicamente bloqueiam as glândulas sudoríparas; esse processo reduz os recursos disponíveis para o crescimento da microbiota como um todo. Nesse sentido, todas a comunidade bacteriana é prejudicada. Já os desodorantes, apesar de não interferirem na produção de suor, agem reduzindo as populações bacterianas via bactericidas diversos, como etanol e triclosan.

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OBS.: Existe um rumor já antigo que corre pelas internet de que os anti-transpirantes podem aumentar o risco de câncer de mama. Isso não é verdade. Não existe mínima evidência ou plausibilidade científica para tal alegação. Dois importantes fatores para o aumento de risco para o câncer de mama, e que são amplamente ignorados, é o consumo alcoólico (I) e a obesidade (II).


Aproveitando a deixa, uma dica importante: não use desodorantes e antitranspirantes na região íntima. Componentes nesses produtos podem irritar ou danificar a sensível pele dos órgãos genitais. Para aliviar odores desagradáveis nessa área, busque intensificar a higiene íntima ou busque uma consulta com um médico especialista caso o problema não seja apenas questão de higienização.
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   POR QUE GERAMOS ODOR CORPORAL?

          A produção de odores corporais pelos humanos é um antigo processo olfativo evolucionário que provavelmente estava envolvido na seleção sexual e nos processos evolucionários baseados em sinalizações químicas (reconhecimento dos pais pela prole, por exemplo). Outros animais como raposas, gatos, veados e besouros também parecem realizar sinalizações químicas via intermédio de bactérias (não diretamente pelo corpo, como na maioria dos outros animais). Apesar de hoje esse processo olfativo ser - aparentemente - apenas um vestígio evolutivo nos humanos modernos, no passado acasalamentos podiam ser decididos dependendo do odor corporal diferenciado emitido por machos e fêmeas, especialmente via compostos voláteis facilmente detectáveis, como o 3M3SH.

          Aliás, o estudo na eLife, além de descrever como a bactéria S. hominis metaboliza e libera o principal composto volátil de mau-cheiro, também mostrou que as bactérias que não geram esse composto - ou quaisquer outros compostos ligados ao odor corporal - podem também ingerir o percursor dipeptídeo através do mesmo processo metabólico. Isso sugere que a produção do forte odor é um processo único que ocorre uma vez que o dipeptídeo está dentro da S. hominis, implicando que os humanos e essa bactéria provavelmente evoluíram juntos.

          No estudo citado da Scientific Reports, os pesquisadores usaram filogenética, bioquímica e biologia estrutural para demonstrar que a enzima C-T liase se moveu horizontalmente em um grupo monofilético do gênero Staphylococcus há cerca de 60 milhões de anos, subsequentemente adaptando sua função enzimática para percursores tioalcoóis humano-derivados. Esse processo evolutivo ocorreu através de mudanças no local de ligação para criar uma região hidrofóbica que é seletiva para ligantes ramificados alifáticos tioalcoóis. Essas evidências sugerem fortemente que a produção de odor corporal em humanos modernos é um processo muito antigo, provavelmente emergindo em ancestrais primatas não-humanos muito antes da emergência da nossa espécie, com a enzima C-T liase continuando a co-evoluir especificamente com os humanos.

          Nesse último caso, a presença de uma enzima bacteriana específica para a produção de 3M3SH sugere fortemente pressão seletiva para a produção de odor ao longo de um estendido período de tempo evolucionário. Ou seja, a presença dessa enzima parece, de fato, fornecer vantagens para o hospedeiro (primata) que ativamente produz precursores para o odor que aparentemente não possui outras razões fisiológicas a não ser 'alimentar' a microbiota odorífera.

          Em outros mamíferos que dependem das bactérias para a produção de odores corporais específicos, a produção de cheiros é ligada à liberação de feromônios - substâncias voláteis envolvidas na comunicação e na seleção de parceiros sexuais. Como já mencionado, não é claro se o mesmo se aplica aos humanos. Mas a persistência de substancial quantidade de longos pelos na região das axilas - especialmente nos homens - é um forte indicativo da importância desses odores para a sinalização. Com a cabeleira debaixo dos braços, fica bem mais fácil dispersar os cheiros ali sendo produzidos (facilita a evaporação de maiores quantidades de suor). O mesmo ocorre com a região genital, onde as glândulas apócrinas também ocorrem em meio a uma maior concentração de pelos longos em ambos os sexos.      

         Já foi sugerido, inclusive, que esses compostos voláteis - diferentes tipos ou níveis - podem acusar cargas genéticas distintas entre os humanos através do olfato, com a liberação diferenciada desses compostos por cada indivíduo fomentando a união (acasalamento) entre pessoas não relacionadas por parentesco. Isso garantiria maior variabilidade genética e potencial adaptativo, evitando também problemas genéticos comuns causados por genes recessivos. Hoje isso pode não parecer algo importante, mas em um passado distante onde os grupos humanos eram bem menores e mais isolados essas pistas químicas captadas pelo olfato podem ter sido essenciais, explicando nossa co-evolução com a microbiota odorífera.

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   CONCLUSÃO

          Assim como no nosso intestino, a pele humana abriga uma grande diversidade de microrganismos em equilíbrio saudável com o nosso corpo, entre bactérias, fungos, Archaeans e bacteriófagos. Nas axilas, devido a fatores evolutivos de provável sinalização química, esses microrganismos produzem fortes cheiros que muitas vezes incomodam bastante. Sabendo melhor como o mecanismo bioquímico de formação desses odores corporais ocorre, novos produtos de higiene pessoal futuramente poderão ser mais eficientes e específicos, de forma a combater o mau-cheiro mas sem trazer prejuízos para a microbiota.



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://elifesciences.org/articles/34995
  2. https://www.nature.com/articles/s41598-020-68860-z
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4741080/
  4. https://www.cancer.org/cancer/cancer-causes/antiperspirants-and-breast-cancer-risk.html
  5. https://scienceline.ucsb.edu/getkey.php?key=2333
  6. https://goaskalice.columbia.edu/answered-questions/deodorant-down-below