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Devo me preocupar com a cafeína?


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          A cafeína é a droga psicoativa mais consumida no mundo devido ao grande consumo de café e crescente consumo de bebidas energéticas, e alguns dos seus efeitos no comportamento de um indivíduo (como um maior ânimo) podem lembrar aqueles produzidos pela cocaína, anfetaminas e outros estimulantes. Aliás, os efeitos estimulantes da cafeína no sistema nervoso central são conhecidos há séculos, sendo usada para esse fim como uma droga - a partir do café - já no século XV, na região do Oriente Médio. A fama do café como um estimulante tornou a bebida bastante popular na Europa a partir do final do século XVII.

          A cafeína pode ser parte de uma dieta saudável para a maioria das pessoas, mas muita cafeína pode impor um perigo para a saúde humana. Dependendo de fatores como massa corporal, uso concomitante de medicamentos, e sensibilidade individual, um consumo 'excessivo' dessa substância pode variar de pessoa para pessoa.

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   CAFEÍNA

          A cafeína (1,3,7-trimetilxantina) é um composto orgânico alcaloide amargo que ocorre naturalmente em mais de 60 plantas incluindo nos grãos de café, nas folhas de chá, sementes de Cola e sementes de cacau. A hipótese mais aceita é que a cafeína era originalmente um nutriente não-essencial para as plantas, mas extremamente útil como um pesticida, e, por esse motivo, acabou sendo selecionada positivamente durante os processos evolutivos. De fato, a cafeína é tóxica para vários insetos e animais, especialmente herbívoros. Através da cafeína, a planta pode defender a si mesma e possui uma melhor chance de sobrevivência. Nesse sentido, essa substância pode ser considerada um agente protetor metabólico que co-evoluiu com as plantas. A cafeína também pode ser sintética (produzida artificialmente), sendo adicionada em alguns medicamentos, alimentos e bebidas.




          A cafeína é absorvida no estômago e no intestino delgado, e, então, distribuída através do corpo. A quantidade máxima circulando no organismo é alcançada após 30-45 minutos depois de ingerida e somente pequenas quantidades ficam em circulação entre 8 e 10 horas depois. A concentração da substância diminui à medida que ela é metabolizada pelo fígado - principalmente pelo sistema enzimático associado ao citocromo P450 oxidase, em particular pela enzima CYP1A2 -, e outros compostos podem interferir na velocidade desse metabolismo, como os canabinoides/maconha (acelera) e hormônios esteroides (desaceleram) - os contraceptivos orais tendem a dobrar a meia-vida da cafeína no organismo. A taxa de metabolismo também varia de pessoa para pessoa, o que explica as diferentes sensibilidades individuais frente aos efeitos da cafeína. Nesse sentido, entram fatores como variações no gene CYP1A2 e o ritmo circadiano (o qual regula o citocromo P450)

         No cérebro, a cafeína parece ter múltiplos alvos, mas o principal provavelmente são os receptores de adenosina. Ali, a substância dispara uma cadeia de eventos que afeta a atividade da dopamina, um importante mediador cerebral, e de áreas do cérebro envolvidas com a estimulação, prazer e pensamento. Ao estimular o sistema nervoso central, a cafeína pode fazer você se sentir mais acordado e dar a você uma maior energia. Ao agir nos receptores de adenosina, a cafeína também atua afetando o sistema cardiovascular.

           Nesse sentido, existem evidências clínicas de que a cafeína pode ajudar a diminuir o progresso de doenças, como o Parkison, ao agir em diferentes regiões do cérebro, e também atuar de forma protetora contra doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Por outro lado, também pode desencadear problemas de hipertensão (ao aumentar a pressão sanguínea), enrijecimento de artérias, e aumento no nível de colesterol e insulina, ao interferir com funções em outras partes do corpo a partir de um excesso. Além disso, a cafeína pode interferir com a absorção de cálcio no corpo e age também aumentando a liberação de ácido clorídrico no estômago, o que pode levar a uma irritação estomacal ou queimação.

             Nas unidades tratamento intensivo neonatal (UTINs), bebês prematuros nascidos com menos de 29 semanas recebem doses diárias de cafeína (terapia de cafeína) para ajudar a assegurar um desenvolvimento cerebral apropriado. Aliás, a cafeína é a droga mais comumente usada no NICU depois dos antibióticos. E estudos recentes (Ref.11) mostram que quanto mais cedo essa substância é administrada nos bebês prematuros, melhores os resultados, incluindo benefícios para a função respiratória, melhor cognição e menores riscos de danos a funções sensoriais, como a audição.


           O conteúdo de cafeína varia bastante nas bebidas de café, dependendo da matéria-prima e forma de preparo, com 240 ml podendo possuir de 60 a 200 mg desse composto. Em geral, assume-se que 240 ml fornece cerca de 100 mg de cafeína na média, mas é preciso ficar atento com os tipos de café sendo consumidos. Em outros produtos ricos em cafeína, como energéticos, o rótulo das embalagens geralmente vem trazendo a quantidade dessa substância. Na tabela abaixo, quantidades estimadas de cafeína presentes em diferentes bebidas.


          É preciso ficar atento também quando um chá ou café se dizem 'descafeinados'. Isso não significa que essas bebidas estão livres de cafeína, apenas que elas possuem menos cafeína do que as versões tradicionais. Por exemplo, cafés descafeinados tipicamente geram bebidas com cerca de 2-15 mg de cafeína para cada 200 ml. Caso você seja muito sensível à cafeína, é recomendado evitar também as versões descafeinadas.


          Nesse sentido, as recomendações relativas ao consumo diário de cafeína pelas agências de saúde variaram bastante ao longo das décadas. Estudos mais recentes sugerem que 400 mg diários é um limite seguro para a maioria das pessoas, enquanto alguns alertas internacionais mais conservadores colocam um máximo entre 200 e 300 mg diários. Porém, diferentes pessoas podem apresentar diferentes sensibilidades à cafeína, e o consumo seguro para um pode ser tóxico para outro. A dose letal de cafeína no corpo humano situa-se entre 150 e 200 mg/kg, o que em um adulto de 75 kg equivale a algo entre 11,25 e 15 g.

          No geral, consumidores leves de cafeína ingerem menos do que 200 mg/dia da substância, consumidores moderados entre 200 e 400 mg/dia e consumidores pesados acima de 400 mg/dia. A Academia Norte-Americana de Pediatria desencoraja o consumo de cafeína e de outros estimulantes para crianças e adolescentes. Crianças, em especial, possuem uma massa corporal bem menor do que adultos, e pequenas quantidades de cafeína podem se tornar relativamente grandes para elas. Grávidas e mães amamentando devem evitar consumir grandes quantidades de bebidas cafeinadas, já que pequenas quantidades de cafeína conseguem atravessar a placenta e também são eliminadas junto com o leite materno.

          Pacientes com problemas mentais também devem estar atentos ao consumo de cafeína, porque esta pode atuar de forma negativa no sistema nervoso desses indivíduos (apesar das escassas evidências clínicas para quaisquer conclusões). Interação da cafeína com os medicamentos administrados a esses pacientes também é outra preocupação. Um estudo publicado em 2017, no periódico Clinical Neuropharmacology (Ref.10), reportou prejuízos em um paciente com transtorno bipolar decorrentes do consumo muito excessivo de café (1300-2000 mg/dia de cafeína), principalmente via interferência na biodisponibilidade de lítio dos medicamentos prescritos.

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   CAFEÍNA DESIDRATA O CORPO?

          Apesar da cafeína possuir efeitos diuréticos no corpo humano, o consumo normal de bebidas cafeinadas não leva a uma perda excessiva de fluídos ou está associado a quadros de desidratação. Evidências clínicas acumuladas nas últimas décadas mostram que um pequeno maior estímulo de produção urinária ocorre se o indivíduo consumir grandes doses agudas de cafeína (no mínimo 250-300 mg de uma só vez) e apenas no caso dele não estar consumindo cafeína por um período de dias ou semanas. Uma profunda tolerância aos efeitos diuréticos e outros associados à cafeína emergem com o consumo regular de bebidas cafeinadas.

          Doses de cafeína equivalentes à quantidade normalmente encontrada em porções padrão de café e chá não possuem ação diurética perceptível. Ou seja, não existe problema algum, por exemplo, beber um copo de café antes de uma longa corrida. Nesse sentido, bebidas cafeinadas - caso não possuam concentrações muito altas de cafeína - são hidratantes como um copo de suco ou uma água mineral. A crença contrária é apenas um mito.

          Para uma discussão mais aprofundada sobre o assunto, acesse: Cafés e chás nos desidratam?


   COMO SABER SE ESTOU CONSUMINDO UM EXCESSO DE CAFEÍNA?

          O consumo excessivo de cafeína pode causar insônia, nervosismo, ansiedade, batimentos cardíacos acelerados, irritação no estômago, náusea, dor de cabeça, e um sentimento de infelicidade (disforia).

          Agências de saúde estimam que efeitos tóxicos, como ataques súbitos, podem ser observados com o rápido consumo de cerca de 1200 mg de cafeína. Nesse sentido, produtos com concentrações de cafeína muito altas representam um sério risco à saúde, com casos já registrados de mortes. Frequentemente esses produtos são rotulados como suplementos alimentares, e se apresentam em versões líquidas ou em pó, com alguns deles trazendo a cafeína de forma pura. Uma colher de chá de um produto desses contendo cafeína pura pode equivaler a 30 copos de 200 ml de café ingeridos de uma só vez.

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   BEBER MUITO CAFÉ É UM SUBSTITUTO PARA O SONO?

          Não! Cafeína é um estimulante, o que pode fazer o indivíduo ficar mais alerta e acordado, mas isso não substitui o sono, este o qual garante vitais benefícios para o corpo longe de serem alcançados pela simples ação da cafeína. Aliás, como leva de 4 a 6 horas para o corpo humano metabolizar metade da cafeína consumida, o consumo de bebidas cafeinadas próximo da hora de dormir pode prejudicar o sono e consequentemente causar prejuízos à saúde.


   COMO CORTAR O CONSUMO DE CAFÉ SEM EFEITOS ADVERSOS?

          Se você ingere diariamente bebidas contendo cafeína, e quer cortar o consumo, o melhor é fazer isso de forma gradual. Parar de forma abrupta pode causar sintomas de abstinência, como dores de cabeça, ansiedade e nervosismo. Porém, diferente de drogas como os opioides e o etanol (bebidas alcoólicas), os sintomas de abstinência de cafeína não são considerados perigosos, mas podem ser desagradáveis.

          A cafeína, como outras substâncias psicoativas, pode induzir a abusos e dependência. O uso da cafeína é legalizado, como as bebidas alcoólicas e o tabaco, mas ao contrário desses dois últimos, sua venda na forma de bebidas ou suplementos alimentares altamente concentrados não é controlada ou restrita, algo que deveria começar a ser questionado.

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   CONCLUSÃO

          As evidências científicas até o momento acumuladas sugerem que a ingestão de cafeína é relativamente segura em doses tipicamente encontradas em alimentos e bebidas comercializados. Porém, suplementos alimentares e energéticos com altas concentrações de cafeína podem impor substanciais riscos à saúde. Existem também algumas populações, como grávidas, crianças e indivíduos com doenças mentais, que são potencialmente mais vulneráveis aos efeitos da cafeína, sendo aconselhável uma orientação médica sobre o consumo dessa substância ou, no mínimo, seguir um consumo leve ou, no máximo, moderado.




REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm350570.htm 
  2. https://medlineplus.gov/caffeine.html 
  3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4462044/
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430790/
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5445139/
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26677204
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19774754
  8. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24235903
  9. https://journals.lww.com/acsm-essr/Fulltext/2007/07000/Caffeine,_Fluid_Electrolyte_Balance,_Temperature.8.aspx
  10. https://journals.lww.com/clinicalneuropharm/Abstract/2017/07000/Effect_of_Excessive_Coffee_Consumption_on_the.2.aspx
  11. https://pediatrics.aappublications.org/content/143/1/e20181348