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A ozonioterapia é eficaz e cura doenças?


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          Nos últimos anos, a comunidade médica tem visto um aumento expressivo no número de praticantes da assim chamada 'ozonioterapia', uma medicina alternativa que utiliza o tóxico e famoso gás que nos protege dos perigosos raios ultravioletas do Sol (1). Apesar de alguns profissionais de saúde - muitas vezes de forma anti-ética - afirmarem que essa terapia é muito eficaz para o tratamento de um variado espectro de condições e doenças, existe muito pouca evidência científica de suporte - e nenhuma conclusiva - na literatura médica. Quem vende essa terapia como uma cura garantida de doenças indo de câncer até a Aids está sendo desonesto e potencialmente cometendo um crime.

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   OZÔNIO NA MEDICINA

         O gás ozônio (O3) foi descoberto na década de 1840 e não demorou muito para fomentar o interesse da comunidade médica tanto em relação à sua toxicidade quanto aos potenciais benefícios do seu uso. A molécula desse gás é altamente solúvel em água e consiste em três átomos de oxigênio covalentemente ligados, mas de forma bastante instável por causa da natureza do seu estado mesomérico. Isso o torna difícil de ser obtido em grandes concentrações e altamente reativo (oxidante), com esse composto geralmente experienciando reações transientes intrínsecas e extrínsecas. Sua meia-vida varia com a temperatura: a 20°C sua meia-vida é de 40 minutos e, a 0°C, é em torno de 140 minutos. No século XIX, tais propriedade fizeram com que fosse difícil estudá-lo e utilizá-lo para fins diversos.

          No começo, descobriu-se que esse gás era um excelente germicida, eficaz para desinfetar águas contaminadas e esterilizar instrumentos médicos. No final do século XIX e no início do século XX, passou a ser testado para o tratamento de algumas doenças e na desinfecção de feridas, gerando resultados negativos. Eventualmente, também se descobriu que, apesar de ser essencial na estratosfera (especificamente na camada de ozônio) para proteger a vida no planeta da radiação UV mais energética, ele é altamente danoso para o tecido pulmonar ao ser inalado, ou seja, quando presente como poluente na troposfera. Como poluente, esse gás é geralmente formado quando produtos da combustão de combustíveis em carros, fábricas  e outras fontes reagem com a luz solar, sendo o principal componente do smog (mistura de neblina com gases/partículas poluentes nos centros urbanos). Ao ser inalado, o ozônio pode causar tosse, irritação na garganta, piora da asma, bronquite e enfisema. Também pode levar a danos permanentes no pulmão caso a exposição seja crônica.

          A produção de ozônio para fins médicos geralmente é feita usando equipamentos chamados de 'Geradores de Ozônio', os quais usam tubos de alta voltagem (4000-14000 V) que agem sobre um fluxo de gás oxigênio via lâmpadas de UV, plasma frio ou descargas de corona.

          Segundo o FDA (Agência de Drogas e Alimentos dos EUA), o ozônio é um "gás tóxico sem aplicação médica útil em terapia específica, adjunta, ou preventiva. Em ordem para o ozônio ser efetivo como um germicida, ele precisa ser utilizado em uma concentração muito maior do que aquela que pode ser seguramente tolerada por humanos e outros animais. O ozônio não deve ser utilizado em nenhuma condição médica porque não existe prova científica da sua segurança e efetividade." (Ref.3)

          Independentemente disso, muitos profissionais e não-profissionais de saúde promovem a terapia de ozônio, defendendo que quantidades limitadas e controladas dessa substância podem ser benéficas ao corpo através de certas vias e alvos terapêuticos. De acordo com a Federação Mundial de Terapia de Ozônio (WFOT), o uso medicinal de ozônio está atualmente presente em mais de 50 países e praticado por mais de 26 mil profissionais de saúde. Hoje, o uso prevalente da ozonioterapia encontra-se na área odontológica, para o tratamento de doenças da mandíbula.

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   TERAPIA E MECANISMOS

          A ozonioterapia consiste na introdução de ozônio no corpo do paciente através de vários veículos de entrega, geralmente envolvendo a mistura desse gás com oxigênio (O2) e líquidos (como solução salina) antes da aplicação, com potenciais rotas incluindo a vagina, o ânus, intramuscular, subcutânea ou intravenosa. O ozônio também pode ser introduzido via auto-hemoterapia (2), onde o sangue é retirado do paciente, exposto ao ozônio e re-injetado no paciente. Aliás, via auto-hemoterapia é a prática mais popular de se introduzir o ozônio. A concentração terapêutica pode variar bastante, normalmente englobando 10-80 μg/ml de gás no caso de sangue ou outras soluções injetáveis.
          Supostamente, via cascatas de reações bioquímicas ainda não muito bem esclarecidas, o ozônio aumentaria a capacidade antioxidante do corpo, agindo de forma a melhorar as defesas do organismo contra os radicais livres e super-óxidos (espécies altamente reativas que geram danos em tecidos diversos). Nesse sentido, o estresse oxidativo moderado que as pequenas quantidades de ozônio gerariam no corpo atuariam de forma a estimular o potencial antioxidante desse último, algo similar ao que é alegado em relação à exposição do corpo a pequenas doses de radioatividade (3). O estresse oxidativo gerado também seria responsável por estimular o sistema imune do paciente, principalmente a partir do peróxido de hidrogênio (H2O2) produzido quando o ozônio reage com biomoléculas no corpo, como lipídios.
          Além disso, alega-se que o ozônio é um estimulador do fluxo de oxigênio na transmembrana, tornando os níveis de oxigênio dentro das células maior e, consequentemente, fazendo com que a cadeia respiratória mitocondrial fique mais eficiente. Nas células vermelhas em específico, isso aumentaria a taxa glicolítica, levando a uma otimização nas funções dessas células no transporte e na liberação de oxigênio, o que, por sua vez, traria grandes benefícios para tecidos isquêmicos e para o corpo em geral.

          Outro mecanismo de ação seria através da já conhecida capacidade germicida do ozônio in vitro. Dentro do corpo (in vivo), mesmo em quantidades pequenas, o ozônio seria capaz de desestabilizar as superfícies de proteção de microrganismos invasores (parede celular de bactérias e cápsulas de vírus, por exemplo), facilitando o tratamento em conjunto com outras vias terapêuticas tradicionais.

          Todos esses mecanismos, em conjunto ou isoladamente, atuariam para tratar ou mesmo curar diversas condições e doenças, incluindo artrite, problemas cardiovasculares, cânceres, AIDS, diabetes, hérnia de disco, problemas neurológicos, dores nas costas, entre vários outros. É até mesmo utilizado por alguns atletas para uma suposta melhora na performance esportiva.

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   BASE CIENTÍFICA

          Como já deixado claro pelo FDA e pelas agências de saúde em geral, a ozonioterapia é uma medicina alternativa sem um bom suporte científico mínimo de eficácia. Indo na direção contrária, o Ministério da Saúde aqui no Brasil permite o uso da ozonoterapia - utilizado principalmente na odontologia, neurologia e oncologia - e até liberou sua oferta para o SUS recentemente (Ref.6) a partir do Projeto de Lei do Senado n° 227/2017, o qual autoriza a prescrição dessa terapia no país.

          Já o Conselho Federal de Medicina (CFM) não recomenda a terapia por inexistir estudos de alta qualidade suportando sua eficácia, e repudiou a lei que autorizou sua prescrição no Brasil, citando que os parlamentares aprovam leis na área de saúde pública de forma irresponsável e incompetente, como ocorreu no recente caso da fosfoetanolamina (a qual mais tarde foi barrada pelo Supremo Tribunal Federal por falta de lastro científico). E, há poucos dias, o CFM publicou a Resolução n° 2181/2018 (Ref.8), a qual define a ozonioterapia como um procedimento que só deve ser realizado em caráter experimental. Isso implica que tratamentos médicos baseados nessa abordagem devem ser realizados apenas no escopo de estudos que observam critérios definidos pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Segundo o Conselho, a entrada em vigor dessa Resolução reforça a proibição aos médicos de prescreverem procedimentos desse tipo fora dos padrões estabelecidos pelo CFM. O desrespeito à norma pode levar à abertura de sindicâncias e de processos éticos-profissionais contra os infratores.



          Na literatura acadêmica, existe uma limitada quantidade de trabalhos sobre o uso, segurança e efetividade da ozonioterapia, não existindo nenhuma evidência conclusiva de que ela realmente traz benefícios ao paciente ou muito menos a cura de doenças graves, como cânceres e a AIDS. Estudos na maior parte dos casos são apenas sugestivos ou utilizam metodologias de baixa qualidade, sem procedimentos randomizados controlados ou duplo-cegos, e com pequenos grupos de participantes.

          Neste ano, duas revisões sistemáticas da literatura médica foram publicadas avaliando a efetividade da ozonioterapia para o tratamento de feridas crônicas e de dores nas costas e hérnia de disco. No caso de feridas crônicas, o estudo foi publicado na International Wound Journal (Ref.9), e concluiu que mesmo existindo evidências favoráveis para a aplicação de ozônio como um tratamento para essa condição, não existe evidência conclusiva de que essa via terapêutica seja melhor do que os tratamentos convencionais e cientificamente comprovados. Além disso, apesar de poder promover uma melhora dessas feridas durante um curto intervalo de tempo, é incerto se os efeitos são consistentes também a longo prazo. Já para a segunda revisão sistemática - uma monografia de mestrado na área de ortopedia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Ref.10) -, os pesquisadores afirmaram que existe apenas um pequeno número de estudos de baixa qualidade sobre os efeitos do ozônio em relação ao tratamento de dores nas costas e de hérnia de disco, e que estudos de alta qualidade precisam ser feitos para que quaisquer conclusões sejam feitas.

          Somando-se a isso, não existe ainda uma robusta meta-análise publicada avaliando a literatura médica sobre a ozonoterapia, com o maior trabalho estatístico e de revisão até o momento sobre o assunto tendo sido realizado pelo CFM.

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   RISCOS

          Com pouco suporte de pesquisas clínicas, a ozonioterapia além de mostrar-se incerta quanto à sua efetividade, acaba ainda não tendo um protocolo padronizado sobre quais as concentrações ótimas (dosagens) e melhores formas de aplicação da terapia para cada doença ou condição visada. Sem isso para garantir um bom balanço de riscos e benefícios, os pacientes podem acabar sendo prejudicados, no máximo servindo de cobaias. Isso é agravado considerando que o ozônio é uma substância bastante tóxica dependendo da concentração.

          Recentemente, uma reportagem denúncia do Fantástico (programa brasileiro da Rede Globo) mostrou médicos ofertando a ozonoterapia para pacientes, prometendo a cura de doenças graves como câncer, AIDS e hepatite C, além de cobrarem valores exorbitantes para o tratamento sem comprovações científicas de eficácia (Ref.12). Um dos médicos abordados até mente quando perguntado sobre o absurdo valor que estava cobrando pela ozonioterapia. Outro médico, além de inventar mecanismos biológicos sem sentido para a ação do ozônio no corpo, ainda chama a quimioterapia de "idiotice" e afirma que é perda de tempo se basear na literatura médica para prescrever uma estratégia de tratamento. Portanto, não são apenas falsos médicos agindo de forma anti-ética na promoção da ozonioterapia.

          Pacientes enganados pelos alegados poderes milagrosos do ozônio podem acabar abandonando tratamentos eficazes e cientificamente comprovados. É preciso tomar cuidado: muito dinheiro rola tanto nos tratamentos tradicionais quanto nos tratamentos alternativos. Independentemente se é 'alternativo' ou 'tradicional', o que importa é se eles são ou não cientificamente suportados. Medicina não é religião ou seita, é ciência.

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   CONCLUSÃO

          O uso das medicinas alternativas vem crescendo cada vez mais no Brasil e no mundo, ignorando a medicina baseada em evidências científicas de eficácia e de segurança. Políticos brasileiros pressionados acabam também aprovando leis que dão suporte para essas práticas alternativas, e não surpreende que o Ministério da Saúde, em março deste ano, anunciou o incremento de mais de dez das chamadas Práticas Integrativas e Complementares no SUS sem nem ao menos levar em conta o peso das evidências científicas corroborando a eficácia dessas terapias. Algumas delas, como os florais, possuem mecanismos baseados, literalmente, em forças místicas (4).
         Além dos problemas da falta de comprovação científica e do gasto inútil de recursos públicos, a prescrição e o uso de procedimento e terapêuticas alternativos, sem reconhecimento científico, são proibidos aos médicos brasileiros, conforme prevê o Código de Ética Médica. Pacientes podem acabar prejudicados ao optarem por uma via duvidosa de terapia sendo que podiam estar sendo tratados por uma via que funciona, ou mesmo sofrerem prejuízos ao utilizarem concomitantemente ambas as vias.

          Não há evidências científicas conclusivas de suporte para a ozonioterapia. Caso você insista em utilizá-la, faça-o sabendo dos riscos e limitações, e apenas de forma complementar, não abandonando os tratamentos cientificamente comprovados.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5674660/
  2. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352003516300260
  3. https://www.accessdata.fda.gov/scripts/cdrh/cfdocs/cfcfr/CFRSearch.cfm?fr=801.415
  4. https://medlineplus.gov/ozone.html
  5. https://www.wfoot.org/
  6. http://portalms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/42737-ministerio-da-saude-inclui-10-novas-praticas-integrativas-no-sus
  7. https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27338:2017-12-15-18-29-39&catid=3
  8. http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27716:2018-07-09-15-34-31&catid=3
  9. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/iwj.12907
  10. https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/112682/2/272132.pdf
  11. http://www.xn--revistaespaoladeozonoterapia-7xc.es/index.php/reo/article/view/126
  12. http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2018/07/questionada-pela-ciencia-terapia-com-ozonio-ganha-espaco-em-consultorios.html