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Tubarão com 400 anos de idade! Quais os peixes com maior longevidade?

- Atualizado no dia 4 de abril de 2026 -

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         Quando pensamos em grande longevidade entre os vertebrados (répteis, mamíferos, pássaros e anfíbios), logo lembramos dos quelônios terrestres como os jabutis gigantes encontrados nas ilhas de Galápagos, os quais costumam alcançar os 150 anos de idade. Porém, o recordista até o momento conhecido não se encontra no ambiente terrestre. Um estudo publicado em 2016 na Science (Ref.1) revelou que o Tubarão-da-Groenlândia é capaz de alcançar ~400 anos de idade! Outros peixes com grande longevidade estimada são o Tubarão-Baleia (Rhincodon typus)os Celocantos (Latimeria) e membros do gênero Ictiobus.


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        Utilizando a técnica de datação de carbono-14 (1) em 28 fêmeas de Tubarão-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus), os cientistas descobriram que o grupo de animais analisados possuía uma média de idade de 272 anos e que a mais velha dessas fêmeas possuía cerca de 400 anos! Como a datação de carbono não produz resultados exatos, e, sim estimativas, essa fêmea em específico pode ser tão jovem quanto 272 anos ou tão velha quanto 512 anos, mas é mais provável que tenha algo em torno de 400 anos.

Tubarões-da-Groelândia são um dos tubarões mais lentos do oceano. Apesar da natureza lenta, os tubarões-da-Groenlândia são alimentadores oportunistas, consumindo uma variedade de presas, desde peixes e lulas até focas e grandes carniças, como carcaças de baleias. No geral, a alimentação é baseada principalmente de focas (pinípedes) e peixes epibentônicos. Podem alcançar um comprimento corporal máximo de pelo menos 5,5 m e estão entre os maiores tubarões do mundo e um dos principais predadores do ecossistema marinho Ártico. Ref.9

          Os peixes cartilaginosos (Chondrichthyes) divergiram da linhagem evolutiva levando aos vertebrados ósseos (Osteichthyes) há cerca de 450 milhões de anos. Uma das características mais notáveis distinguindo os dois grupos é que os peixes cartilaginosos possuem endoesqueletos constituídos de tecido cartilaginoso - provavelmente devido à ausência de genes SCPP (Ref.7) -, enquanto os vertebrados ósseos - incluindo os peixes ósseos - possuem endoesqueletos mineralizados. Nesse sentido, determinar a real idade de tubarões e de raias é algo muito difícil porque esses animais não possuem estruturas ósseas chamadas de otólitos. Os otólitos são concreções de carbonato de cálcio presentes dentro de câmaras no aparelho vestibular do ouvido interno dos vertebrados e que têm a função de controlar a posição do corpo do animal, ou seja, manter o equilíbrio postural. Em peixes ósseos, estimativas de idade são geralmente obtidas da contagem do crescimento anual das bandas formadas dentro dos otólitos. É também possível a análise de tecidos calcificados em certos tubarões, como o tubarão-branco (Carcharodon carcharias). 

           Mas diferente do tubarão-branco, o tubarão-da-Groenlândia não possuía parâmetros confiáveis de datação até o momento, por ter um corpo muito macio em quase toda sua extensão, e muitos acreditavam ser impossível calcular a idade de indivíduos adultos sem acompanhar passo a passo o seu desenvolvimento. Mas um meio muito inteligente foi encontrado para resolver esse problema. Para a datação desse tubarão, foi usado o núcleo da sua lente ocular, porque esta possui um material proteico que não é degradado pelo seu corpo, ou seja, é um metabólito inerte. Em outras palavras, essas proteínas ficarão preservadas desde o nascimento desse animal, e, assim, os átomos de carbono da sua estrutura permanecerão ali por toda a sua vida, ficando confiável analisar os isótopos com massa 14 entre eles. Por isso a técnica do carbono-14 foi utilizada.

        Antes dessa descoberta, o vertebrado com maior longevidade era outro companheiro da Groenlândia, a baleia-da-Groenlândia (Balaena mysticetus), a qual pode alcançar 211 anos de idade. Entre os invertebrados, os moluscos marinhos bivalves costumam ter as mais longas longevidades entre os animais. Em 2007, um desses moluscos, chamado de Ming, teve sua idade estimada entre 405 e 410 anos. O termo 'Ming' é em homenagem à dinastia chinesa de mesmo nome, a qual estava no poder quando esse molusco nasceu. E, mesmo assim, o tubarão-da-Groenlândia encontrado quase alcança essa idade, podendo existir indivíduos ainda mais velhos no mar.

 
Baleias-da-Groelândia podem alcançar18 metros de comprimento e uma massa de 75 toneladas.
 
        Os tubarões-da-Groenlândia podem potencialmente alcançar 7 metros de comprimento e uma massa superior a 1400 kg, apesar da média ficar em torno de 5 metros e pouco menos de 1000 kg. Considerando que a idade desses tubarões acompanha o crescimento do corpo, tem sido estimado que a maturidade sexual nas fêmeas só seja alcançada aos >100 anos de idade! Essa estimativa teórica preocupa os ambientalistas, já que isso pode dificultar a proteção da espécie devido à fraca capacidade de reprodução caso exista um declínio extremo a nível populacional. São ainda incertos os mecanismos fisiológicos, celulares e moleculares responsáveis pela grande longevidade do tubarão-da-Groenlândia, mas existe evidência sugestiva de um papel mitocondrial relevante nesse sentido (Ref.10).

          A espécie habita regiões desde o Atlântico Norte temperado até as águas gélidas do Oceano Ártico, suportando temperaturas tão baixas quanto 1,1 °C negativo e profundidades que se aproximam de 3000 metros. Nas águas ao redor da Groenlândia, seus olhos são frequentemente parasitados por crustáceos copépodes da espécie Ommatokoita elongata, sendo pensado que esses parasitas obscurecerem a visão ao se fixarem à córnea. Esses fatores têm levado por muito tempo os cientistas a supor que esses animais poderiam ser funcionalmente cegos. 

          Mas um estudo recente analisando o globo ocular desses tubarões em laboratório - obtidos de indivíduos adultos com mais de 100 anos e um deles excedendo 130 anos de idade - aponta que é justamente o contrário: os tubarões parecem manter a visão ao longo dos séculos sem sinais de degeneração da retina - talvez graças a um mecanismo de reparo do DNA nessa estrutura  (Ref.13). Esse achado pode inclusive oferecer pistas para o tratamento da perda de visão relacionada ao avanço de idade em humanos. O estudo também mostrou que a visão da espécie é adaptada para ambientes de baixa iluminação: genes da visão para baixa luminosidade (baseados em bastonetes) mostraram-se intactos e expressos de forma robusta, enquanto muitos genes da visão em alta luminosidade (baseados em cones) tornaram-se pseudogenizados e/ou deixaram de ser expressos.

          De fato, existe observação - em vídeos gravados no fundo do mar - de movimento dos olhos desses tubarões aparentemente acompanhando fontes luminosas (Ref.14).

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> Na maioria das espécies de vertebrados, a visão depende de dois tipos de fotorreceptores da retina: bastonetes, altamente sensíveis e otimizados para a visão em baixa luminosidade (escotópica), e cones, especializados para a visão em alta luminosidade (fotópica). Espécies noturnas e de águas profundas frequentemente exibem retinas dominadas por bastonetes, às vezes com exclusão completa de cones, como em certos répteis noturnos e peixes teleósteos e tubarões de águas profundas. Em casos extremos, pode existir completa perda de visão (ex.: peixes-cegos).

> A ausência de sinais óbvios de degeneração da retina é notável, visto que, mesmo no envelhecimento saudável, as retinas dos vertebrados - incluindo humanos - sofrem perda progressiva de fotorreceptores e danos ao DNA ao longo do tempo. Na nossa espécie, a taxa estimada de perda é de 0,2-0,6% por ano.
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   TUBARÃO-BALEIA

           Mais recentemente, os pesquisadores descobriram um método similar - também usando isótopos de carbono-14 - para para determinar a idade do maior peixe do mundo: o tubarão-baleia (Rhincodon typus). O achado foi descrito no periódico frontriers in Marine Science (Ref.6).

           Para peixes de longa vida sem otólitos, geralmente usa-se padrões de crescimento das vértebras para se estimar a idade. Porém esse método não havia sido validado de forma convincente até o momento. Nesse sentido, os pesquisadores no novo estudo usaram os efeitos colaterais dos vários testes de bombas termonucleares realizados nas décadas de 1950 e de 1960 durante a Guerra Fria (Leitura recomendada: O que é uma bomba de hidrogênio?).

          Esses testes nucleares liberavam massivas quantidades de nêutrons na atmosfera, fazendo com que a razão de carbono-14/carbono-12 na atmosfera aumentasse bem acima dos níveis normais. O isótopo de carbono-14, nessa época, passou a ser assimilado em maior quantidade na cadeia alimentar, aumentando sua concentração nos tecidos vivos. Assim, a validade do método cronológico via deposição de bandas na estrutura vertebral pode ser feita analisando a composição atômica variante de isótopos de carbono nessa estrutura ao longo das décadas para tubarões de longa longevidade.




          Analisando 92 amostras de vértebras de tubarões-baleias com base no padrão das bandas de crescimento e na comparação dos valores de carbono-14, os pesquisadores encontraram que o mais velho espécime analisado viveu até 50 anos de idade. Segundo os autores, isso pode dar suporte a modelos prévios sugerindo que os maiores indivíduos dessa espécie podem alcançar até 100 anos de idade.


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   CELOCANTOS

          Em um estudo publicado no periódico Current Biology (Ref.8), pesquisadores reportaram que o famoso peixe Latimeria chalumnae - raríssimo peixe celacanto ovovíparo que mudou muito pouco em termos anatômicos nas últimas dezenas de milhões de anos (por isso o apelido comum de "fóssil vivo") - é capaz de viver até 100 anos. Para essa conclusão, os pesquisadores analisaram estruturas anelares de cálcio nas escamas de 27 celacantos preservados em um museu da França. Eles descobriram que, assim como anéis no tronco de árvores, cada anel calcificado nas escamas correspondiam a um ano do peixe. E, ao contar os anéis nas escamas dos espécimes analisados, foi descoberto um espécime com 84 anos de idade, sugerindo também que alguns indivíduos maiores podem alcançar até 100 anos de idade.




          Somando-se a isso, os pesquisadores também encontraram que os celacantos envelhecem muito lentamente (acompanhando um lento metabolismo típico de tubarões habitantes de águas profundas), não alcançam a maturidade sexual até os cerca de 40-60 anos de idade (seria o mesmo que humanos alcançando a puberdade na meia-idade) e possuem um período de gestão em torno de 5 anos. Esses últimos achados podem explicar o porquê desses peixes serem tão raros nos oceanos, já que a probabilidade de indivíduos morrerem antes de efetiva reprodução é muito alta. No contexto de pesca predatória e disrupção de habitats pela ação humana, os celacantos (gênero Latimeria) podem estar mais ameaçados de conservação do que antes suposto.

> Os celacantos são peixes que podem alcançar 2 metros de comprimento e até 105 kg, e têm fornecido aos cientistas importantes pistas sobre como ocorreu a transição evolutiva de peixes para tetrápodes terrestres (incluindo eventualmente humanos). Para mais informações, acesse: "Fóssil vivo" forneceu mais detalhes sobre a transição evolutiva peixes-tetrápodes terrestres


   PEIXES ICTIOBUS

          Em um recente estudo publicado no periódico Scientific Reports (Ref.12), pesquisadores reportaram a descoberta de novos animais campeões de longevidade. No caso, todas as espécies de peixes do gênero Ictiobus (I. cyprinellus, I. bubalus e I. niger) nos EUA mostraram ser capazes de viver por mais de 100 anos! Os pesquisadores encontraram evidência direta de longevidade variando de 101 até 108 anos de idade para esses peixes. Antes do estudo, existiam aproximadamente 35 espécies de animais conhecidas com longevidade acima de 100 anos. As novas espécies reveladas trazem novos modelos valiosos de estudo sobre fatores que prolongam a vida em animais. 

 
Exemplo de peixe centenário do gênero Ictiobus, no Lago Apache, Arizona (Foto: University of Minnesota Duluth).


Artigo Relacionado: Qual é o maior felino do mundo?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://science.sciencemag.org/content/353/6300/702
  2. http://www.bbc.com/news/science-environment-37047168
  3. http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/7066389.stm
  4. http://web.archive.org/web/20121011051852/http://www.geerg.ca/gshark1.htm
  5. http://www.afsc.noaa.gov/nmml/education/cetaceans/bowhead.php
  6. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fmars.2020.00188/full
  7. https://www.nature.com/articles/nature12826
  8. https://www.cell.com/curre.../fulltext/S0960-9822(21)00752-1
  9. Ona & Nielsen (2022). Acoustic detection of the Greenland shark (Somniosus microcephalus) using multifrequency split beam echosounder in Svalbard waters. Progress in Oceanography, Volume 206, 102842. https://doi.org/10.1016/j.pocean.2022.102842
  10. https://research.manchester.ac.uk/en/publications/mitochondrial-form-and-function-in-the-heart-of-the-worlds-longes
  11. Lackmann et al. (2023). Centenarian lifespans of three freshwater fish species in Arizona reveal the exceptional longevity of the buffalofishes (Ictiobus). Scientific Reports 13, 17401. https://doi.org/10.1038/s41598-023-44328-8
  12. Lackmann, A.R., Black, S.A., Bielak-Lackmann, E.S. et al. Centenarian lifespans of three freshwater fish species in Arizona reveal the exceptional longevity of the buffalofishes (Ictiobus). Sci Rep 13, 17401 (2023). https://doi.org/10.1038/s41598-023-44328-8
  13. Fogg et al. (2026). The visual system of the longest-living vertebrate, the Greenland shark. Nat Commun 17, 39 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-025-67429-6
  14. https://news.uci.edu/2026/01/05/eye-opening-research/