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Qual é a eficácia do Coito Interrompido?


- Artigo atualizado no dia 20 de novembro de 2020 -

           IMPORTANTE: O coito interrompido NÃO previne a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. Nesse caso, a camisinha é o método mais prático e seguro de prevenção.

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          Na antiguidade e atravessando o período medieval, quando camisinhas e pílulas estavam longe da realidade, o coito interrompido era uma das únicas maneiras efetivas de se prevenir uma gravidez indesejada. A técnica é simples: na hora em que o homem percebe que irá ejacular, o pênis é retirado da vagina para impedir que o esperma atinja o canal vaginal, prevenindo a fecundação do óvulo com espermatozoides viáveis. Depois que as camisinhas e pílulas começaram a se tornar mais populares, esse método foi sendo deixado mais de lado, especialmente quando sua eficácia começou a ser bastante questionada e as doenças sexualmente transmissíveis mais visíveis. Porém, ainda hoje o método ainda é muito presente na nossa sociedade, especialmente entre os jovens e casais estáveis.

           Algumas mulheres que usam pílula pedem que o parceiro retire o pênis antes da ejaculação por não confiarem totalmente no medicamento. Alguns que usam camisinha, com ou sem pílula, durante o sexo, também fazem o coito interrompido por motivos de insegurança. Muitas mulheres que não se sentem bem usando as pílulas (efeitos colaterais) ou homens que perdem sensibilidade no pênis com as camisinhas também tendem a optar pelo coito interrompido. Muitos casais mais estáveis possuem uma grande tendência a usarem o método, pelo fato de descartarem o medo das doenças sexualmente transmissíveis e/ou por não se importarem muito caso exista uma gravidez. E, como último exemplo, muitos jovens usam esse método porque todos sabem que nessa fase o desejo fala mais alto do que a responsabilidade e quando vão ver já estão no meio do ato sexual sem estarem usando medida preventiva nenhuma. Assim, a pergunta que fica no final é: esse é um método efetivo para a prevenção da gravidez, caso seja executado da maneira correta?


            A principal polêmica do coito interrompido reside em uma questão carregada de muito desentendimento, até mesmo entre os profissionais da área: existe espermatozoide viável no líquido pré-ejaculatório? (1) Sim, esse é o principal problema que ronda esse método contraceptivo. Muitas agências de saúde e profissionais afirmam, com convicção, que existem dezenas de milhões de espermatozoides ativos já nesse líquido, mesmo (pasmem!..) não existindo evidências científicas para essa afirmação! Na verdade, isso chega a ser quase um mito científico! Bem, primeiro de tudo vamos entender o que é esse líquido.

             Antes de ejacular, o corpo masculino, através das glândulas de Cowper e Littre, produzem um fluído alcalino incolor e levemente viscoso formado por muco e diferentes enzimas, em uma composição química parecida com a do sêmen. Esse fluído possui a finalidade de neutralizar a acidez do canal urinário criada pela urina, além de poder também ter alguma função em diminuir uma pequena parte da acidez do canal vaginal para uma maior taxa de sobrevivência dos espermatozoides liberados posteriormente na ejaculação. A produção do líquido é iniciada com o estímulo sexual durante a ereção, e é liberado em uma quantidade média de 4 mililitros (mas existem raros casos em que o homem não produz o fluído). E esse fluído é a única coisa que é liberada antes da ejaculação. Portanto, para o método do coito interrompido funcionar é preciso não existir espermatozoides ativos nesse fluído.



    ESTUDOS SOBRE O ASSUNTO

              Nos poucos estudos que exploram essa questão, podemos dividi-los em 'antes de 2011' e 'depois de 2011'. Antes de 2011, alguns poucos trabalhos científicos podem ser encontrados sobre o assunto (Ref.6, por exemplo) e surpresa: nenhum deles conseguiu encontrar espermatozoide algum no fluído pré-ejaculatório! Ou seja, até o fatídico ano, não havia evidência científica suportando que o método do coito interrompido era falho por existir liberação de significativas quantidades de espermatozoides antes da ejaculação. Só que um estudo de 2011 (Ref.1), analisando 27 homens, descobriu que 11 deles liberavam espermatozoides junto ao líquido pré-ejaculatório, sendo que 10 produziram razoáveis quantidades ativas dessas células. Os outros 16 voluntários produziram o fluído com total ausência de espermatozoides.

            Aliás, é válido mencionar que os pesquisadores envolvidos nesse estudo admitiram que dois dos voluntários que produziram espermatozoides antes da ejaculação podem ter colocado o próprio líquido ejaculatório nas amostras a serem analisadas por possível 'vergonha' de não terem produzido fluído pré-ejaculatório algum (algo não previsto pelos cientistas). Além disso, a quantidade de espermatozoides no fluído de cada um dos 10 participantes era muito baixa, deixando os pesquisadores em dúvida quanto ao real risco de gravidez caso o líquido pré-ejaculatório entrasse em contato com o canal vaginal. De qualquer forma, o risco não é nulo e o uso de outros métodos anticoncepcionais seria recomendado para aumentar a segurança.

             Um estudo publicado em 2016 no periódico Journal of the Medical Association of Thailand (Ref.17), analisando amostras do líquido pré-ejaculatório de 42 homens Tailandeses saudáveis, encontrou espermatozoides ativos em 16,7% das amostras (7 dos 42 voluntários), corroborando os resultados do estudo de 2011.

            O porquê de alguns pacientes liberarem espermatozoides enquanto a maioria não, é algo ainda pouco compreendido, considerando que todos urinaram diversas vezes antes de fazerem o teste (para se ter certeza que não haveriam espermatozoides vivos ou mortos no canal urinário). 

            Por outro lado, é válido mencionar um estudo mais recente publicado no periódico Obstetrics & Gynecology (Ref.19) apontou que os estudos avaliando a existência ou não de espermatozoides no fluído pré-ejaculatório são muito escassos e limitados, e envolvendo pequenos grupos de voluntários. Os pesquisadores no estudo concluíram que não é possível aferir firmes conclusões a partir desses estudos.

              De qualquer forma, analisando os poucos trabalhos científicos que lidam com o assunto, as evidências acumuladas justificam porque esse método foi usado por milhares de anos e quebra esse mito entre profissionais de saúde e população geral de que o fluído pré-ejaculatório sempre conterá espermatozoide. Na verdade, a tendência é o contrário. Somando-se a isso, temos alguns estudos, como um publicado em 2009 (Ref.2) que mostra que o uso do coito possui apenas uma leve menor eficiência do que o uso da camisinha em relação à prevenção da gravidez, quando estatísticas de censos são analisadas. O fato desse método preventivo ser tão cercado de desinformações na área médica é bem difícil de se entender. Não se sabe ao certo, por exemplo, de onde partiu o mito de que todo fluído pré-ejaculatório contém altas quantidades de espermatozoides. Especula-se que seja devido a um estudo de 1966, do famoso time Masters & Johnson (Ref.3), no qual é dito que o líquido pré-ejaculatório pode conter espermatozoides, mesmo sem base em estudos clínicos prévios para tal afirmação. 

          No geral, estudos concordam que a taxa estimada de falha para o coito interrompido caso efetuado de forma correta é de 4% comparado com o valor de 3% associado às camisinhas (Ref.20-21). De forma similar, no primeiro ano de uso, 18% dos casais que utilizam o método irão experienciar uma gravidez, comparado com com uma taxa de 17% dos casais que usam camisinha (no caso, não é necessariamente falha da camisinha, mas no seu uso correto e regular).




          Porém, contudo, todavia, muitos especialistas argumentam contra a promoção do coito interrompido como um método contraceptivo válido, por causa dos riscos associados com doenças sexualmente transmissíveis - especialmente entre adolescentes - e indivíduos que podem ter menor controle no ato de retirada do pênis da vagina (Ref.22). De fato, movimentos profundos de penetração são involuntariamente engatilhados em vários homens que estão a ponto de ejacular. E caso o casal não seja capaz de se comunicar efetivamente durante o ato sexual, as posições sexuais podem ser limitadas para um efetivo coito interrompido (homem em uma posição superior ou pelo menos em uma posição controlada pelo homem). Por fim, o ato de retirar o pênis - ou ficar ansioso pensando na hora certa de retirá-lo - pode trazer orgasmos menos intensos e frustrações de clímax para ambos (homem e mulher), especialmente para o homem. 


    CONCLUSÃO

           Aqui na conclusão é válido mais uma vez reforçar que o coito interrompido, mesmo sendo um método aparentemente eficiente para a prevenção da gravidez, apresenta importantes limitações na prática:

1. É preciso que o homem tenha total confiança e habilidade em sempre retirar o pênis antes da ejaculação, algo que pode ser bem difícil em certos momentos de excitação ou quando esquecido (no caso desse não ser um método frequente na sua rotina). E, claro, o método não é recomendado para homens que possuem ejaculação precoce;

2. Esse método NÃO previne doenças sexualmente transmissíveis. Apesar disso, pode existir redução no risco de algumas infecções (ex.: vírus HIV) quando consideramos um homem infectado tendo relação sexual com uma mulher não infectada. Isso se deve ao fato de menos fluídos contaminados entrarem em contato com o canal vaginal, já que não haveria ejaculação nessa região. Porém, o vírus pode ser encontrado também no fluído pré-ejaculatório, além da transmissão poder ocorrer através de feridas no pênis. Além disso, obviamente, se a ejaculação ocorrer na boca ou no ânus, o risco de infecção volta a ser muito elevado;

3. Mesmo estudos clínicos sugerindo que a maior parte dos homens não apresentam espermatozoides no líquido pré-ejaculatório, parte considerável da população pode tê-los em pequena quantidade, o que já impõe um risco de gravidez acima de zero, mesmo o coito interrompido sendo feito de forma correta.

4. Depois da primeira ejaculação com o coito interrompido, se uma segunda relação sexual com penetração for feita logo em seguida, esperma remanescente no canal urinário contendo enormes quantidades de espermatozoide pode cair no canal vaginal, anulando tanto o primeiro coito interrompido quanto o segundo. É recomendado que o homem urine depois do coito interrompido caso ele planeje se engajar em uma segunda penetração, para ´lavar´ o esperma restante no canal urinário. Mesmo assim, corre-se o risco de uma parte considerável deles ainda sobreviver por algum tempo. Depois da primeira interrupção do coito, portanto, é melhor ou usar um método de barreira, como a camisinha, ou fazer outras atividades sexuais com o parceiro sem ser a penetração, ou parar o sexo ali.

             Considerando esses pontos, vale a pena investir em outros métodos anticoncepcionais (pílulas e DIU, por exemplo) e de prevenção às DSTs (como a camisinha) em concomitância com o coito interrompido, caso você opte por utilizá-lo. Se você apenas quer evitar a gravidez por possuir uma relação estável e de confiança com seu parceiro, tente investir, pelo menos, em um método anticoncepcional efetivo extra. E converse com o seu médico para uma melhor avaliação das opções e balanço dos riscos e benefícios.


(1) Estamos desconsiderando aqui uma prévia ejaculação recente antes do método do coito interrompido. O esperma remanescente dentro do canal urinário costuma não sobreviver por períodos de poucas horas após a ejaculação, especialmente se o homem urinar depois (além de varrer o esperma para fora do pênis, a urina deixa o ambiente ácido, criando um ambiente totalmente desfavorável à sobrevivência dos espermatozoides). Porém, se você ejaculou antes de fazer sexo e nem mesmo urinou após isso, é grande as chances do fluído pré-ejaculatório carregar esperma com ele, ou o próprio esperma dentro da uretra cair na vagina por conta própria.

REFORÇANDO NOVAMENTE: PÍLULAS ANTICONCEPCIONAIS E DIU NÃO PREVINEM DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS! O MELHOR MÉTODO PARA ISSO É O USO DAS CAMISINHAS!



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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3564677/
  2. https://www.guttmacher.org/sites/default/files/pdfs/pubs/journals/reprints/Contraception79-407-410.pdf  
  3. Masters, W.H. (1966). Johnson, V.E. Boston, MA: Little, Brown and Company. p. 211.
  4. http://www.ajol.info/index.php/ijmbr/article/view/102501
  5. http://www.jstor.org/stable/2137833
  6. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12762415
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12286905
  8. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15811067
  9. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1363/4210210/full
  10. http://onlinelibrary.wiley.com/enhanced/doi/10.1111/jsm.12375/
  11. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0010782414007926
  12. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S001078241400208X
  13. http://www.statemaster.com/encyclopedia/Birth-control
  14.  https://www.plannedparenthood.org/learn/birth-control/withdrawal-pull-out-method
  15. http://americanpregnancy.org/getting-pregnant/can-you-get-pregnant-with-precum/
  16. Gupta, S., & Kumar, A. (2017). The Human Semen. Basics of Human Andrology, 163–170.
  17. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27266214/
  18. https://www.cdc.gov/reproductivehealth/contraception/mmwr/mec/appendixh.html
  19. https://journals.lww.com/greenjournal/Abstract/2020/05001/Is_There_Sperm_in_Pre_ejaculate__How_to_Study.340.aspx 
  20. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4254803/
  21. https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-030-46391-5_12
  22. https://journals.lww.com/stdjournal/fulltext/2011/04000/coitus_interruptus_is_not_contraception.22.aspx