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Chocolate pode fazer bem à saúde?


- Artigo atualizado no dia 21 de julho de 2018 -

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          Nos últimos anos, criou-se um consenso entre a população de que o consumo moderado de chocolate traz benefícios significativos para a saúde. Porém, as pesquisas científicas que germinaram esse consenso não visavam o chocolate em si, mas a um dos seus ingredientes: o cacau.

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   PANO DE FUNDO

         A ideia que o chocolate pode ser bom para sua saúde surgiu a partir de estudos analisando os indígenas Kuna, os quais vivem em ilhas na costa do Panamá. Esses nativos possuem um baixo risco de doenças cardiovasculares ou hipertensão, mesmo quando levando em conta o consumo de cloreto de sódio e composição corporal. No entanto, os pesquisadores logo perceberam que fatores genéticos não estavam protegendo os indivíduos desse povo, porque aqueles que se moveram para longe das ilhas Kuna passaram a desenvolver com mais frequência hipertensão e doenças cardíacas. Ou seja, algo nas ilhas parecia estar garantindo um fator extra de proteção à saúde.

Mulher do povo Kuna preparando sementes de cacau para o consumo

         Nesse sentido, os pesquisadores também notaram a enorme quantidade de cacau que esse povo consumia, algo cerca de 10 vezes mais o consumo de cacau típico da população Norte-Americana. Como outros fatores ambientais e no estilo de vida desses nativos não parecia explicar o perfil cardiovascular bastante saudável, isso sugeriu aos pesquisadores que o consumo de cacau parece fazer muito bem à saúde.

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   CACAU E SAÚDE

          As sementes e polpa do cacau de interesse comercial são oriundas de uma árvore de pequeno porte da espécie Theobroma cacao, nativa das regiões tropicais das Américas (1). O chocolate em específico vem do processamento da semente, a qual possui cerca de 40-50% de gordura na forma de manteiga de cacau. Já a polpa do fruto que engloba as sementes é utilizada em alguns países para preparar bebidas - alcoólicas quando fermentadas -, geleias, entre outras receitas. As sementes do cacau são muito amargas se consumidas puras (por isso os chocolates 'amargos' possuem aquele gosto característicos, por serem menos processados).
          O cacau, assim como outras fontes vegetais, possui uma grande quantidade de flavonoides, moléculas orgânicas que fazem parte do grupo dos polifenóis. Os flavonoides são metabólitos produzidos pelas plantas que cumprem um amplo espectros de funções nesses seres, indo desde a pigmentação até a fixação de nitrogênio pelas leguminosas. A ingestão desses compostos por humanos, segundo indicam diversos estudos, pode trazer muitos benefícios para a saúde, incluindo atividades anticancerígenas, anti-inflamatórias e, principalmente, funções antioxidantes. Portanto, o chocolate, por ser feito à base de cacau, supostamente deveria conter boas quantidades de flavonoides e, desse modo, trazer possíveis benefícios à saúde. Só que existem três grandes problemas nessa história.

O cacau PURO ou muito pouco processado é bem saudável

           O primeiro problema é que, durante o processamento industrial do chocolate, o aquecimento e outros métodos de refinamento destroem quase todos os flavonoides e outros nutrientes saudáveis existentes no cacau, deixando quantidades ínfimas dessas substâncias no produto final. Mesmo nos chocolates amargos, os quais possuem maiores porcentagens de cacau, as quantidades de flavonoides não são grandes naqueles geralmente mais tolerados pela população em geral, principalmente porque eles retiram, propositalmente, uma parte considerável desses compostos por causa do gosto extremamente amargo que eles carregam, algo que compromete a qualidade gustativa desses produtos. Aliás, a maioria das pessoas apenas tolera o chocolate se este for, no máximo, levemente amargo.   

         O segundo problema é que a maior parte dos chocolates é feita com quantidades pequenas de cacau e os chocolates brancos não contêm quase nada do conteúdo presente nas sementes, sendo, basicamente, uma mistura de leite, gordura pouco saudável e açúcar. Coloque o fator 'processamento' em cima disso, e não teremos nada de flavonoides. De fato, existem alguns trabalhos científicos recentes (Ref.11) que não acham associação alguma entre o consumo de chocolate e melhor qualidade de vida. Já o terceiro problema são as próprias pesquisas que embasam o poder dos flavonoides. Muitos dos efeitos que supostamente são atribuídos a essas substâncias ainda estão em fase de estudo e testes, não podendo ser completamente corroboradas como certos (apesar de existirem outras substâncias benéficas no cacau que podem estar sendo sub-analisadas).

          Os nativos de Kuna, por exemplo, consomem as sementes do cacau com muito pouco processamento. Eles fazem uma bebida com as sementes secas e moídas junto com uma quantidade muito pequena de adoçantes naturais. Desse modo, sim, você consegue retirar potenciais benefícios à saúde do cacau.

Pouco cacau, muito açúcar e gordura
          A indústria do chocolate movimenta, todos os anos, mais de 60 bilhões de dólares. Por isso, a maior parte desses estudos em cima do cacau são financiados, pesadamente, pelas grandes empresas de chocolate. Mesmo sem existir o conflito de interesses interferindo nesses estudos, os resultados desses últimos muitas vezes são divulgados como sendo algo intrínseco aos chocolates - algo mais do que anti-ético e caracterizando propaganda enganosa. Ou seja, tudo que sai de bom do cacau puro é atribuído também ao doce. Em 2014, uma matéria do The New York Times foi campeã de compartilhamentos e visualizações. Com o título de ´To improve a memory, consider chocolate´ ('Para melhorar a memória, considere chocolate'), a matéria dizia que o consumo de chocolate promoveria uma otimização no desempenho da memória das pessoas, mas os estudos por traz dessa afirmação visavam, em específico, o cacau puro! Vários especialistas e organizações de saúde criticaram muito a reportagem por ela estar induzindo a um maior consumo desses doces pela população de forma insensata. E isso é mais do que perigoso, ainda mais considerando a atual crise de obesidade pela qual o mundo vem atravessando E quem será que estava por trás dessa reportagem?  Filantropia é que não era. 

           Chocolates populares, especialmente o branco, são apenas massas calóricas e açucaradas, muitas vezes com bastante gordura saturada adicionada, e vão contribuir para a obesidade, diabetes, e outros problemas relacionados, se o seu consumo não for rigidamente controlado. Não vale a pena consumi-los apenas para obter pequenas quantidades de flavonoides. Se você quer ingerir essas potenciais substâncias benéficas, considere incluir mais verduras, frutas, sementes e legumes nas suas refeições. Você irá conseguir altas quantidades de flavonoides, além de diversos outros nutrientes essenciais ao bom funcionamento do seu corpo. Mas, infelizmente, isso não vira matéria de capa.

       
Alimentos com grande quantidade de Flavonoides: Casca vermelha dos amendoins; cacau puro; frutas cítricas, como a laranja e tangerina; chá preto (mas, claro, não o consuma com muito açúcar comum ou outros adoçantes calóricos); salsa; e arando.

Estrutura orgânica básica de um flavonoide


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   CONCLUSÃO 

          Se você não come chocolate ou não gosta muito desse produto, não comece a comer mais dele por causa de supostos benefícios à saúde. A maior parte deles são apenas massas de calorias vazias, e mesmo os amargos mais tolerados pela população em geral contém pouca quantidade de cacau para gerarem efeitos significativos à saúde e, de fato, não existem estudos que corroborem reais benefícios à saúde atrelados ao consumo de qualquer tipo de chocolate tradicional vendido no mercado. Mas se você já consome chocolate, algumas dicas de saúde:

- Coma chocolates o mais escuros e amargos possíveis, porque isso significa maior quantidade de cacau e menor quantidade de açúcar e processamento. Infelizmente, são poucos os que toleram o gosto desse tipo de chocolate.

- Evite os chocolates brancos e de leite, e também os chocolates de preenchimento, como as trufas.

- Faça chocolate quente com cacau não-adoçado, água e leite desnatado, e com pouco açúcar adicionado.

- Escolha chocolate amargo/escuro ao invés de doces menos saudáveis, como sorvetes e balas açucaradas.

- Fique de olho, porque quaisquer chocolates possuem bastante caloria. Caso esteja com problemas de excesso de massa adiposa no corpo, evite o consumo desses alimentos.                      


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Artigo recomendado: Alimentos tóxicos aos cães (sim, incluem principalmente o chocolate)
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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0002822302000329
  2. http://ajcn.nutrition.org/content/95/3/740.short
  3.  http://www.chiroaccess.com/Articles/Chocolate-and-Your-Health.aspx?id=0000373
  4.  http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0963996900000697
  5. http://nutritionreviews.oxfordjournals.org/content/64/3/109.abstract 
  6. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0891584904004551
  7. http://online.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/ars.2010.3697
  8. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/mnfr.201200595/abstract?userIsAuthenticated=false&deniedAccessCustomisedMessage=
  9. http://ajcn.nutrition.org/content/early/2014/11/26/ajcn.114.092221.short
  10. http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/10408398.2012.657921
  11. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0123161
  12. https://newsinhealth.nih.gov/2011/08/claims-about-cocoa