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Urutaus são representados por quantas espécies de aves?

Figura 1. Urutau-gigante pousado em um galho. Essa espécie se alimenta de grandes insetos voadores e, ocasionalmente, de morcegos, capturados em voo. Durante o período diurno, fica pousado imóvel, imitando galhos quebrados de árvores.

          Os urutaus (Nyctibius sp. e Phyllaemulor bracteatus) - também conhecidos como "aves fantasmas" ou "mães-da-lua" - são aves noturnas que exibem camuflagem e vocalização únicas entre os táxons aviários descritos. Carismáticas, sedentárias e nativas das Américas Central e Sul, são animais essencialmente insetívoros e muito importantes para o equilíbrio ecológico ao controlar populações de insetos. Pertencem à enigmática família Nyctibiidae, a qual compreende dois gêneros e 7 espécies ainda vivas e cuja maior diversidade é concentrada na Amazônia (Ref.1). O porte dessas aves varia de forma significativa entre as espécies, com comprimento corporal indo de 21-25 cm (P. bractatus) até 48-60 cm (N. grandis). 

Figura 2. (A) Relações filogenéticas na família Nyctibiidae (ordem Caprimulgiformes). Urutaus compreendem 6 espécies descritas dentro do gênero Nyctibius, restritas aos neotrópicos. Todos os membros desse gênero são insetívoros e famosos pela plumagem críptica e postura ereta imóvel em árvores durante o dia, fazendo com que se assemelhem a um galho ou toco. (B) Até poucos anos atrás, o urutau-ferrugem (Phyllaemulor bracteatus) era incluído no gênero Nyctibius, mas estudos demonstraram divergências anatômica e genética suficiente para uma revisão taxonômica. O urutau-ferrugem parece cantar exclusivamente nos períodos de lua cheia e é a menor espécie da família, com massa corporal de 46 a 58 g quando adulto. Ref.1-2


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          Os nictibídeos são caracterizados por passar as horas do dia quase imóveis em posição vertical nos galhos das árvores, com a imobilidade e a plumagem crípticas tornando-os quase invisíveis e muito difíceis de serem observados durante o período diurno. A camuflagem dessa aves é reforçada pela adoção de uma posição ereta que se assemelha ao topo de um toco ou a um galho seco em espécies de Nyctibius (Fig.3), ou pela execução de um movimento de balanço na espécie P. bracteatus (urutau-ferrugem) que lembra uma folha morta presa em algum substrato florestal. Duas pequenas fendas na parte superior das pálpebras dos nictibídeos permitem visão sem que precisem abrir os olhos - traço conhecido como "olho mágico" e que auxilia na camuflagem efetiva. 

 
Figura 3. Urutau-comum pousado em um tronco e camuflado. O "olho mágico" permite que a ave observe seus arredores sem precisar abrir os olhos.

          As espécies Nyctibius grandis (urutau-gigante) e Nyctibius griseus (urutau-comum) são aquelas mais amplamente distribuídas. Ambas as espécies habitam áreas de floresta tropical, bem como florestas secas, cerrados e florestas secundárias altas. O urutau-comum é o mais abundante da família Nyctibiidae e tem ampla distribuição no sul da América Central e nas partes norte e central da América do Sul, enquanto o urutau-grande tem distribuição por toda a América Central e do Sul.

          O urutau-comum habita uma variedade de habitats florestais, desde manguezais e matas ciliares até florestas primárias, e geralmente é encontrado em estratos intermediários e no dossel em bordas de florestas perto da água. No entanto, também pode residir em habitats modificados pelo homem com vegetação arbórea, incluindo ambientes rurais e parques urbanos.

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> Atualmente, duas subespécies de urutau-comum são reconhecidas: N. g. panamensis, que pode ser encontrada na Nicarágua até o norte da América do Sul, a oeste dos Andes, e a N. g. griseus, que ocorre na América do Sul a leste dos Andes, da Colômbia e Venezuela até o norte da Argentina e Uruguai. São aves parcialmente migratórias. 

> O urutau-comum se alimenta principalmente de cupins alados, besouros e grandes mariposas, capturados durante o voo com a enorme boca. Quando não está em voo, o urutau-comum nunca pousa no chão.

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          A atividade de canto do urutau-gigante e do urutau-comum é máxima entre 1 e 5 a.m., sendo essas espécies comumente identificadas em uma região pela estranha vocalização noturna (vídeo abaixo). O urutau-grande parece exibir maior atividade vocal durante noites com lua alta. O uratau-comum possui uma vocalização melancólica, dando origem inclusive a lendas populares de uma criança chorando por sua mãe ou da filha de um chefe indígena lamentando o assassinato do seu pretendente (Ref.4). 

Figura 4. Padrão de vocalização diária do urutau-comum (círculos laranja) e do urutau-grande (quadrados azuis) no Pantanal do Mato Grosso, Brasil, durante os meses de junho até maio. Ambas as espécies apenas cantam durante a noite, cessando essa atividade vocal entre 5 a.m. e 6 p.m. A atividade de canto do urutau-comum é máxima em setembro, enquanto o urutau-grande é mais vocal em outubro. Ref.2 

          


REFERÊNCIAS

  1. Costa et al. (2021). Phylogenetic Analysis of the Nocturnal Avian Family Nyctibiidae (Caprimulgiformes) Inferred from Osteological Characters. Zoologischer Anzeiger, 291, 113–122. https://doi.org/10.1016/j.jcz.2021.01.003
  2. Pérez-Granados & Schuchmann (2020). Monitoring the annual vocal activity of two enigmatic nocturnal Neotropical birds: the Common Potoo (Nyctibius griseus) and the Great Potoo (Nyctibius grandis). Journal of Ornithology 161, 1129–1141. https://doi.org/10.1007/s10336-020-01795-4
  3. DeGroote et al. (2020). Citizen Science Data Reveals the Cryptic Migration of the Common Potoo Nyctibius Griseus in Brazil. Ibis 163 (2), 380–389. https://doi.org/10.1111/ibi.12904
  4. Nieto et al. (2012). Karyotype morphology suggests that the Nyctibius griseus (Gmelin, 1789) carries an ancestral ZW-chromosome pair to the order Caprimulgiformes (Aves). Comparative Cytogenetics, 30;6(4):379-387. https://doi.org/10.3897/CompCytogen.v6i4.3422
  5. https://birdsoftheworld.org/bow/species/grepot1/cur/introduction
  6. https://birdsoftheworld.org/bow/species/rufpot1/cur/introduction