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Pioneiro nas pesquisas do autismo cooperou com os Nazistas no assassinato sistemático de várias crianças


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       Segundo um impactante estudo publicado esta semana no periódico Molecular Autism (Ref.1), o famoso e consagrado médico Austríaco, Hans Asperger, cooperou de forma terrível com o regime Nazista, estando envolvido com o envio de dezenas de crianças para a morte. E um trabalho investigativo paralelo realizado pela historiadora Edith Sheffer corroboram as alegações (Ref.3). E o mais irônico e revoltante: Asperger por décadas era tido como um herói  que lutou contra o programa de extermínio Nazista.

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   SÍNDROME DE ASPERGER

          A Síndrome de Asperger (SA) é um transtorno de desenvolvimento incluído no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) (1), este o qual engloba condições neurológicas caracterizadas por um menor ou maior prejuízo nas habilidades de comunicação e de linguagem, assim como padrões repetitivos ou restritivos de pensamento e comportamento. Além do SA, compõem o TEA: clássico, autismo, síndrome de Rett, transtorno infantil desintegrativo e transtorno de desenvolvimento pervasrsivo não especificado (PDD-NOS, na sigla em inglês).

        Ao contrário de crianças com autismo, crianças com AS retêm suas habilidades iniciais de linguagem. Nesse sentido, o mais distinto sintoma da SA é o interesse obsessivo da criança em um único objeto  ou tópico em exclusão de quaisquer outras coisas. A criança com SA quer saber tudo sobre seus tópicos de interesse, e suas conversas com as outras pessoas terá pouca referência a outros assuntos. Aliás, o alto nível de conhecimento sobre o tópico, alto nível de vocabulário e padrões formais de discurso farão a criança parecer como um pequeno professor.

         Outras características da SA incluem rotinas ou rituais repetitivos; peculiaridades na fala e na linguagem; comportamentos sociais e emocionais inapropriados, e a inabilidade de interagir bem com potenciais amigos; problemas com comunicação não-verbal; e movimentos motores desajeitados e descoordenados.

         O diagnóstico desse transtorno é geralmente feito por um time de profissionais multi-disciplinar, frequentemente incluindo um terapista em fala e linguagem, pediatra, psiquiatra e/ou psicólogo. Como a SA varia bastante de pessoa para pessoa, fazer o diagnóstico pode ser uma tarefa difícil.

        O tratamento da SA envolve várias estratégias, as quais visam principalmente os três sintomas núcleos do transtorno: baixas habilidades de comunicação, rotinas repetitivas ou obsessivas, e movimentos corporais desajeitados. E quanto mais cedo a intervenção profissional, melhor o prognóstico.

       Com um tratamento efetivo, crianças com AS podem aprender a conviver com o transtorno, mas podem ainda continuar encontrando situações e relações pessoais mais desafiadoras do que o normal. Muitos adultos com AS são capazes de trabalhar com sucesso em empregos diversos, apesar de ainda poderem necessitar vez ou outra de suporte moral e encorajamento para manter uma vida independente.


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   HANS ASPERGER E O NAZISMO

         O médico pediatra Hans Asperger (1906–1980) foi um dos primeiros pesquisadores a descreverem o autismo, e décadas de trabalho com crianças mais tarde levaram à criação do conceito de 'espectro do autismo'. Em 1938, o pediatra primeiro definiu distintas características psicológicas como 'psicopatias autísticas', vários anos antes do famoso artigo de Leo Kanner sobre o autismo, publicado em 1943. Em 1944, Asperger publicou um estudo compreensivo sobre o tópico (submetido à Universidade de Viena em 1942 como sua tese de pós-doutorado), o qual encontrou importante reconhecimento internacional apenas na década de 1980.


         Porém, de acordo com o novo reporte no Molecular Autism e o trabalho de investigação realizado pela historiadora Edith Sheffer - o qual será detalhado no livro Asperger’s Children: The Origins of Autism in Nazi Vienna, com lançamento para maio deste ano -, o antes venerado pesquisador provavelmente estava associado com o Partido Nazista em seus esforços de eutanasiar crianças com certas condições de saúde ou deficiências - com o horrível objetivo de realizar uma "limpeza" dentro do povo Germânico. As evidências são gritantes e praticamente conclusivas.

        Segundo as fortes evidências e relatos encontradas pelos pesquisadores, Asperger encaminhou dezenas de crianças para uma clínica chamada Am Spiegelgrund, em Viena, onde médicos realizavam experimentos nelas ou as matavam. Quase 800 crianças, muitas das quais deficientes ou doentes, foram mortas lá. Os funcionários da clínica também administravam arbitrariamente e descontroladamente barbiturato - sal originado do ácido barbitúrico, usado na preparação de droga anestésica - nessas crianças, algo que frequentemente levavam às suas mortes por pneumonia.


         Asperger nunca foi um membro oficial do Partido Nazista, e, por décadas, livros e artigos acadêmicos o descreviam, ironicamente, como uma figura benevolente que salvou crianças com autismo de centros Nazistas de extermínio.

          As suspeitas contra Asperger começaram a aflorar em 2003, quando o pesquisador Helmut Gröger reportou que Herta Schreiber - uma menina de 3 anos de idade com deficiências mentais - estava em arquivos onde o nome de Asperger aparecia três vezes; Schreiber foi enviada para Spiegelgrund e morreu lá 2 meses depois. Já em 2005, um médico e historiador chamado Michael Hubenstorf revelou que Asperger manteve uma relação próxima com o notável médico Nazista Franz Hamburger. Somando-se a isso, no livro de 2015, titulado Neutribes: The Legacy of Autism and the Future of Neurodiversity, o jornalista Steve Silverman também ligou Asperger a Hamburger, mas sem encontrar uma ligação direta com o programa de eugenia do Partido Nazista.

          Essas evidências iniciais só foram amplificadas e corroboradas bem recentemente, com a revelação dos registros clínicos de Asperger recuperados por historiadores que cobriam seus trabalhos científicos do ano de 1928 até 1944.

         A clínica infantil onde Asperger trabalhava tinha sido bombardeada pelas forças Aliadas durante a Segunda Guerra Mundial, e, por décadas, muitos acreditavam que os registros da clínica tinham sido destruídos. Porém, em 2009, Herwig Czech - um médico e historiador da Universidade Médica de Viena e autor do novo estudo - foi convidado a discursar em um simpósio de 2010 comemorando a morte de Asperger. Isso inspirou o pesquisador a explorar mais profundamente os arquivos de Viena por detalhes sobre o médico. Como resultado das investigações, Czech acabou encontrando registros muito bem preservados que denunciavam arquivos do Partido Nazista que atestavam a lealdade de Asperger, mesmo ele não sendo um membro oficial. Além disso, os registros também traziam várias casos médicos e notas pertencentes ao médico.

         Dois anos após essa preocupante descoberta, a historiadora Edith Sheffer - acadêmica da Universidade da Califórnia, no Instituto para Estudos Europeus de Berkeley - visitou os mesmos registros em Viena. Sheffer tinham um filho com autismo e sempre esteve muito interessada nos trabalhos de Asperger, o qual era reconhecido mundialmente como um herói.

       Segundo as investigações de Sheffer, ficou claro desde o início que Asperger estava associado com o programa Nazista que levou à morte de inúmeras crianças com deficiências e problemas de saúde.


         Autora do novo livro sobre o caso, Sheffer mostrou que Asperger descrevia o comportamento das crianças com autismo como sendo o oposto dos valores sustentados pelo Partido Nazista. Em um exemplo, o médico escrevia que uma típica criança interagia com outras como um "membro integrado da sua comunidade", mas que aquelas com autismo seguiam seus próprios interesses "sem considerar restrições ou prescrições impostas pela sociedade."

         Além disso, os arquivos clínicos de Asperger descreviam crianças com deficiências e condições psiquiátricas de forma muito mais negativa do que seus colegas faziam. Em outro exemplo, médicos do Am Spiegelgrund descreveram um garoto chamado Leo como uma criança "muito bem desenvolvida em todos os aspectos". Já Asperger descreveu Leo como um "garoto psicopático e muito difícil, de um tipo que não é frequente entre crianças pequenas."

        Ainda segundo Sheffer, todas as evidências fortemente indicam os colegas e mentores mais próximos de Asperger como os arquitetos dos programas eugênicos de Am Spiegelgrund, implicando que o respeitado médico era mais do que um seguidor passivo.


         E em muitos diagnósticos tendenciosos, Asperger claramente ignorava outros fatores externos, como maus tratos e abuso, especialmente o medo e pressões impostas em pacientes Judeus vítimas de perseguição. No caso específico de abusos sexuais de menores, o médico frequentemente culpava as vítimas, taxando meninas de 14-15 anos estupradas de serem "depravadas" por não oferecerem suficiente resistência e muitas vezes recomendava que fossem internadas. Também afirmava que crianças e adolescentes saudáveis não sofreriam com traumas de guerra, com tais sintomas indicando problemas mentais anteriores. Em ambos os casos, Asperger dava seus diagnósticos com ênfase na 'inferioridade' que tais pacientes representavam, seguindo uma linha Nazista de raciocínio.

        Czech, em seu estudo, encontrou fortes evidências sugerindo que Asperger pessoalmente transferiu, no mínimo, duas crianças para Am Spiegelgrund, e que também serviu em um comitê que enviava dezenas de outras para lá com o objetivo de serem exterminadas. E mais: não existem evidências de que Asperger salvava crianças da clínica. Pelo contrário, o médico chegou a defender a lei de esterilização, apesar de reforçar que ela precisava ser "implantada com responsabilidade" e considerando que os impactos dessa lei foram bem menos extensivos na Áustria do que na Alemanha.



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   ASCENSÃO PARA O LADO NEGRO

        Traçando uma linha do tempo a partir das informações obtidas nos arquivos revelados, em 1937, pouco antes da Segunda Guerra Mundial ter início, Asperger estava seguindo um protocolo de prudência ao classificar as crianças sendo por ele estudadas. Porém, já poucos meses após a anexação da Áustria pela Alemanha em 1938, o médico começou a descrever as crianças com autismo como um "grupo de crianças bem caracterizado". Dentro de 3 anos, Asperger começou a descrevê-las como "crianças anormais". Em 1944, as descrições passaram a descrevê-las como indivíduos fora "do grande organismo" visado pelo ideal Nazista.


        Sheffer sugere que a evolução negativa dos registros clínicos de Asperger objetivavam uma promoção dentro do Partido Nazista. À medida que seus colegas Judeus eram removidos das suas posições, o médico começou a subir nos cargos. Em 1938, o Reitor da Escola de Medicina removeu mais da metade dos membros da faculdade, na maioria médicos/pesquisadores Judeus. Já Hans Asperger, aos 28 anos de idade, subitamente ganhou uma promoção prematura para ocupar o cargo de Diretor da Clínica de Educação Curativa, mesmo com um currículo acadêmico ainda relativamente insuficiente.


        Já após a guerra, Asperger começou a descrever a si mesmo em entrevistas - especialmente uma que ocorreu via rádio em 1974 - como um severo opositor da ideologia Nazista e chamava o programa de eutanásia como algo "totalmente inumano", obviamente para escapar de perseguições. De fato, grande parte das bases que o glorificavam como um herói tanto no meio acadêmico quanto no meio popular encontravam sustentação nessas entrevistas de auto-promoção, com pouco sendo conhecido a respeito do médico e sua carreira durante o período Nazista.

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   REAÇÕES NO MEIO ACADÊMICO

        Quando o novo estudo foi publicado, muitos especialistas demandaram que o termo 'Síndrome de Asperger' fosse abolido, algo que inclusive entraria em concordância com o DSM-5 ('5°' Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Transtornos Mentais, no significado da sigla em inglês), este o qual já tinha dispensado o termo por razões acadêmicas ligadas à redefinições dentro do espectro do autismo - apesar de ser ainda muito utilizado para se referir a alguém com sintomas característicos e específicos dentro do espectro do autismo. Sheffer concorda com a ideia.

      Soma-se a esse pedido a falta de reconhecimento das contribuições do médico Georg Frankl e da psicóloga Anni Weiss, também Austríacos, para o entendimento do autismo antes mesmo de Asperger - ambos eram inclusive judeus e tiveram que deixar a Áustria após a imposição do regime


          Por outro lado, alguns outros especialistas - incluindo Czech - não acham correto apagar da memória as contribuições científicas de Asperger, independentemente das ações por ele praticadas no passado. Uma das justificativas é a de que manter viva a memória nos faz lembrar dos erros históricos cometidos e que não devem ser repetidos.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. https://molecularautism.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13229-018-0208-6
  2. https://molecularautism.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13229-018-0209-5
  3. http://www.sciencemag.org/news/2018/04/pioneering-autism-researcher-cooperated-nazis-new-evidence-suggests
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmedhealth/PMHT0024670/
  5. https://www.ninds.nih.gov/Disorders/All-Disorders/Asperger-Syndrome-Information-Page
  6. https://medlineplus.gov/ency/article/001549.htm
  7. http://www.autism.org.uk/about/what-is/asperger.aspx