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Bebidas alcoólicas e o câncer



           De acordo com um recente relatório do Cancer Research UK (Ref.1 e 2), o consumo alcoólico irá causar um total de cerca de 135 mil mortes por câncer entre 2015 e 2035 só no Reino Unido. Isso acarretará em um custo extra de 2 bilhões de libras para o NHS (Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido) e cerca de 1,2 milhão de admissões nos hospitais. Esses números são baseados na tendência dos últimos 40 anos em termos de consumo alcoólico. Outro dado mais do que óbvio para você, que provavelmente deve estar surpreendido com a associação entre consumo alcoólico e câncer, é que cerca de 9 entre cada 10 pessoas não sabiam dessa associação segundo uma pesquisa feita também recentemente pelo Cancer Research UK dentro da população britânica. Se em um bloco de 1° mundo o desconhecimento do público para esse problema está neste nível, imagina em países menos desenvolvidos.

          Segundo estatísticas globais, apenas em 2012 cerca de 14,1 milhões de novos casos de câncer foram diagnosticados e 8,2 milhões morreram da doença. Nos EUA, para este ano, estima-se que 1 685 210 novos casos serão diagnosticados e que 595 690 pessoas irão morrer. A partir de 2025 é previsto que 19,3 milhões de novos casos de câncer passarão a ser diagnosticados a cada ano. E o pior disso tudo é que nos últimos 45 anos, conseguimos diminuir a taxa de mortalidade pela doença em apenas 10%, tornando-se mais do que necessário medidas para melhor preveni-la e tratá-la, algo que fica ainda mais complicado com o grande espectro de tipos de tumores que podem se desenvolver no corpo. E uma das medidas mais eficazes para combatermos o câncer é a máxima disseminação de informações ao público sobre os fatores de risco que aumentam as chances de um indivíduo desenvolver a doença. Infelizmente, a conscientização da população no mundo em relação aos tópicos de saúde ainda é bastante deficiente e a desinformação se alastra como um vírus, aprofundando ainda mais os danos ao público. Na questão específica do câncer, as pessoas costumam associar apenas o fumo, a radioatividade, o excesso de Sol e produtos químicos industriais como os únicos culpados. Mas, como eu já explorei em um artigo anterior, a obesidade entra como outro grande fator (1) e, neste artigo, exploraremos nosso outro grande culpado negligenciado: o consumo alcoólico.   


           As bebidas alcoólicas são formadas pela fermentação alcoólica de açúcares e amidos por leveduras (um tipo de fungo) agindo em algum tipo de extrato vegetal. No caso da cerveja, é a cevada, no vinho, a uva. O produto fermentado pode ser destilado para a formação de bebidas como a pinga. A substância principal produzida nessa fermentação é o etanol, popularmente chamado de ´álcool´ (2). Virtualmente, todos os efeitos causados pelo consumo alcoólico é devido, direta e indiretamente, ao etanol, incluindo a tontura, o vício e a ressaca. Bem, além do que já descobrimos, ou seja, que as bebidas alcoólicas são um forte fator de risco para o câncer, o consumo exagerado de etanol causa diversos danos no corpo (especialmente no fígado), danos a terceiros (acidentes de trânsito e comportamento agressivo) e grandes prejuízos sociais. O alcoolismo, portanto, é um preocupante problema no mundo, por afetar inúmeras pessoas e alcançar cada vez mais vítimas com o passar dos anos. Entre as bebidas, podemos estimar o conteúdo quantitativo de álcool/etanol como:

1. Cervejas e cidras: entre 3 e 7%
2. Vinhos e saquê: entre 9 e 15%
3. Vinhos fortificados com destilados, como o do porto: entre 16 e 20%
4. Destilados, como a vodka, pinga e rum: normalmente entre 35 e 40%, podendo ser maior em vários casos

        Segundo várias agências de saúde, um consumo alcoólico moderado representa  em torno de 1 drink (14 gramas de puro álcool) por dia para as mulheres e em torno de 2 drinks por dia para os homens. Um consumo pesado é a ingestão de mais de 3 drinks em qualquer dia ou mais de 7 por semana para as mulheres e mais de 4 drinks em qualquer dia ou  mais de 14 drinks por semana para os homens. Para termos uma noção de quanto 1 drink representa, seria o mesmo que consumir qualquer uma das quatro opções abaixo:

1. Cerca de 282 ml de cerveja;
2. Cerca de 188 ml de uma cerveja com alta porcentagem de álcool;
3. Cerca de 118 ml de vinho;
4. Cerca de 35 ml de um destilado 40%.

        Bem, os riscos para o desenvolvimento de câncer no organismo é cada vez maior quanto maior for o consumo alcoólico, especialmente em quantidades que vão de moderadas à pesadas. Mas os estudos mais recentes mostram que existe um aumento significativo de risco mesmo com o consumo alcoólico leve, e que não existe evidência de um limiar de completa segurança. Isso sem contar que como cerca de 25% do consumo alcoólico no mundo não é registrado, o álcool pode ser um fator de risco para o câncer ainda maior do que o observado nas pesquisas. No geral, cerca de 3,6% dos casos de câncer e entre 3,5 e 5% das mortalidades da doença no mundo estão comprovadamente ligados ao álcool,  onde os homens são os mais afetados por beberem mais do que as mulheres. Entre os cânceres que estão comprovadamente ou com fortes evidências de associação com a ingestão alcoólica estão:

1. Câncer de pescoço e cabeça: A ingestão de álcool é um grande fator de risco para certos tipos de câncer nessas áreas do corpo, como a cavidade oral, faringe e laringe. Estimativas de vários estudos mostram que pessoas que consomem 50 gramas ou mais álcool puro (cerca de 3,5 ou mais drinks por dia) possuem, no mínimo, 2 a 3 vezes maiores riscos de desenvolver cânceres do que pessoas que não bebem. E os homens são os mais afetados, onde a incidência de câncer nessas regiões são três vezes maiores neles do que nas mulheres.

2. Câncer de esôfago: A ingestão de álcool é especialmente um grande fator de risco para o desenvolvimento de um câncer chamado carcinoma de células escamosas do esôfago. O risco aumenta mais ainda em pessoas possuem deficiência em enzimas que metabolizam o álcool.

3. Câncer do fígado: Além do vírus da hepatite B e do vírus da hepatite C, o álcool é um fator de risco isolado para o câncer no fígado, e uma causa primária. A cirrose, aliás, causada pelo excesso do consumo alcoólico, é um passo inicial para o surgimento de tumores malignos nesse órgão e a infecção virótica causada pela hepatite C é exacerbada pelo consumo de álcool (aumenta os danos no fígado, o que facilita o ataque desse vírus).

4. Câncer de mama: Diversos estudos mostram que mulheres que ingerem mais de 45 gramas de álcool puro por dia possuem uma chance 1,5 vezes maior de desenvolver um câncer nas mamas. E o risco, segundo vários outras observações científicas, ainda continua com o consumo de doses pequenas. Para cada 10 gramas de álcool puro por dia, por exemplo, poderiam aumentar entre 7 e 12% os riscos de um câncer de mama. E o álcool entra como fator de risco tanto antes quanto depois da menopausa.

5. Câncer colorretal: o consumo alcoólico aumenta modestamente os riscos do surgimento do câncer no reto e no cólon. Estimativas colocar que a ingestão de 50 gramas ou mais de álcool por dia aumenta em cerca de 1,5 vezes as chances de um câncer nessas regiões. Para cada 10 gramas de álcool puro, parece existir um pequeno aumento ( em torno de 7%) no risco de câncer. Nos homens essa relação já é comprovada. Nas mulheres é provável.

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          Existem outros cânceres que podem estar associados com o consumo alcoólico, mas as evidências são ainda inconsistentes. Nesse grupo, podemos incluir o câncer de pâncreas, ovário, próstata, estômago, útero e bexiga, onde o de pâncreas é o que parece possuir mais fortes evidências (4). E para os casos já cientificamente estabelecidos, os riscos aumentam ainda mais quando outros fatores de risco são misturados, especialmente o fumo do tabaco. O fumo, aliás, se misturado com o álcool, aumenta os riscos mais do que cada um desses fatores isolados para o câncer na região oral e na faringe, além de possíveis outros. Uma pessoa obesa que fuma e consome frequentemente bebidas alcoólicas, por exemplo, fica em um sério risco de desenvolver câncer. E o tipo de bebida alcoólica não importa, porque o maior agente de indução ao câncer é o etanol, sendo que os danos vão se acumulando com o tempo junto com o aumento do risco cancerígeno. E, neste último caso, como é um acúmulo, o maior risco para o desenvolvimento de tumores malignos pode demorar anos para abandonar a pessoa mesmo que esta tenha parado de consumir álcool. Mas o que estaria por trás da associação entre o álcool e o câncer? Bem, temos alguns mecanismos propostos:

1. Acetaldeído: O acetaldeído é o produto tóxico formado durante a metabolização da etanol/álcool no corpo, e que causa grande parte dos danos associado com o consumo alcoólico. O acetaldeído pode danificar o DNA e as proteínas do corpo, além de poder causar um estresse oxidativo, processos inflamatórios (1) e ativação de sinalizadores que ajudam a promover a proliferação de tumores malignos. Somando-se a isso, essa substância faz com que as células do fígado crescerem mais rápido do que o normal, o que pode fazer com que elas esbarrem mais facilmente em genes no seu interior relacionados com o câncer. Aqui vale ressaltar que uma grande parte da população asiática podem ter um risco maior de desenvolver câncer a partir do acetaldeído por causa de certas mutações genéticas. Em um primeiro caso, vários chineses, coreanos e, principalmente, japoneses possuem uma variação no gene responsável pela enzima ADH (álcool dehidrogenase), esta a qual é responsável pelo metabolismo do álcool e formação do acetaldeído. Essa variação faz com que a enzima fique super ativa, produzindo grandes quantidades de acetaldeído com o álcool ingerido pela pessoa em um pequeno espaço de tempo, algo que aumenta os danos do acetaldeído. Já no leste asiático, é comum que várias pessoas possuam uma mutação no gene responsável pela enzima ALDH2 (aldeído desidrogenase 2), a qual é responsável por metabolizar o acetaldeído em um substâncias não tóxicas, que a deixa defeituosa. Isso faz com que o acetaldeído produzido no corpo durante o consumo alcoólico fique por mais tempo circulando na corrente sanguínea, causando ainda mais danos. E pessoas que possuem algum ou ambos os problemas, e que consomem muita bebida alcoólica, estão em um grande risco de desenvolver cânceres.

2. Danos oxidativos: O consumo alcoólico gera uma maior quantidade de espécies reativas oxigenadas, as quais podem causar danos no DNA, proteínas e lipídios a partir de reações de oxidação, algo que pode criar condições ideais para o surgimento e proliferação de células cancerígenas.

3. Deficiência nutricional: O consumo alcoólico pode dificultar os processo do corpo em digerir e absorver nutrientes que podem estar associados à prevenção do desenvolvimento de um câncer no corpo, como ácido fólico, vitamina C, vitamina D, vitamina E e carotenoides. A metilação do DNA, por exemplo, pode ficar comprometida com a deficiência de ácido fólico e ação direta tanto do álcool quanto do acetaldeído, algo que pode levar a defeitos no material genético e possível criação de tumores.

4. Estrógenos: O consumo alcoólico pode aumentar o nível de estrógenos ( principais hormônios sexuais femininos, como o estradiol) na circulação sanguínea da mulher. Um dos mecanismos propostos para esse efeito é que o já mencionado ADH leva à oxidação do etanol, o que aumenta o estado redox do tecido hepático e, isto, inibe o catabolismo dos esteroides sexuais ( incluindo os estrógenos), fazendo a concentração destes aumentar no sangue. E o aumento de estrógenos é especialmente importante no desenvolvimento do câncer de mama (1).

5. Doenças: Células compondo um tecido vivo controlam a própria proliferação entre elas. Vários fatores, como infecções e inflamações, facilitam a proliferação de células malignas, já que danos ao micro-ambiente dos tecidos ou morte massiva de células podem impedir que as células tumorais sejam reconhecidas como inimigos, sendo deixadas se proliferando à vontade ( o corpo compensa a morte de muitas, por exemplo, deixando o máximo possível das restantes se proliferarem). Além disso, desorganizações no tecido causadas por doenças também podem deixar que células nocivas escapem do controle, podendo deixá-las livres para se proliferarem. Como exemplo, podemos citar que a cirrose ( causada pelo excesso do consumo alcoólico, em danos deflagrados pelo acetaldeído) no fígado e a fibrose no pulmão aumentam consideravelmente os riscos de desenvolvimento de cânceres nesses órgãos.

6. Solvente: O álcool/etanol é um excelente solvente orgânico e pode facilitar a absorção pelo corpo de compostos cancerígenos, os quais poderiam ter sido eliminados ou quebrados pelo trato digestivo caso esse solvente não estivesse presente. Isso provavelmente explica porque associar o fumo com o consumo alcoólico aumenta bastante os riscos de desenvolvimento de um ou outro câncer no corpo, já que substâncias cancerígenas sendo depositadas no trato digestivo superior pela fumaça estariam entrando no organismo mais facilmente com a ajuda do etanol.

7. Contaminantes: Durante o processo de produção dessas bebidas, várias substâncias podem acabar se misturando a elas, como nitrosaminas, fibras de asbestos, fenóis, e certos hidrocarbonetos. Mas estes contaminantes seriam um fator de risco bem mais fraco do que o etanol, por estarem em quantidades muito diminutas.

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           Claro, muitos devem estar, neste ponto, se lembrando que várias pesquisas já mostraram que o consumo leve-moderado de bebidas alcoólicas pode fazer bem à saúde em uma limitada extensão, como melhorar um pouco o condicionamento cardíaco e até mesmo fornecer possíveis substâncias anti-cancerígenas (em especial, o resveratrol), no caso do vinho (apesar dessa última afirmação não ser comprovada). Mas, isso não tira o fato do álcool ser um fator de risco isolado para o câncer. Os efeitos benéficos podem até falar mais alto em um consumo leve, mas se juntarmos outros fatores, como pré-disposição genética, fumo, obesidade, ambientes insalubres de trabalho, entre outros, o acúmulo de riscos para o desenvolvimento de tumores malignos pode fazer qualquer consumo alcoólico mais danoso do que benigno. Além disso, muitas pessoas, mesmo querendo se tornar consumidores leves ou moderados de álcool podem acabar indo para um nível pesado de ingestão alcoólica por causa do vício ou falta de controle em festas e finais de semana. O ideal é nunca começar a beber, mas como isso é quase impossível para muitas pessoas inseridas na nossa atual sociedade, é preciso ficar bem atento a outros fatores de risco para o câncer e eliminá-los o máximo possível e sempre tentar manter um consumo que não ultrapasse o moderado. Fumar junto, então, nem pensar.

Câncer: É uma coleção de doenças caracterizadas por um incontrolável crescimento e disseminação de células anormais. É a segunda causa mais comum de morte no mundo e engloba mais de 100 distintas doenças baseadas nas diferenças entre seus tecidos de origem e tipos de células envolvidas.

Aviso nas embalagens: Agências e profissionais de saúde sugerem que é necessário colocar avisos em todas as embalagens de bebidas alcoólicas informando os riscos à saúde que o consumo do álcool pode trazer para a saúde, assim como é feito para os produtos de tabaco. O alerta é ainda mais grave para as grávidas (Álcool e gravidez: Nunca!)

(1) O assunto foi explorado no artigo A obesidade causa câncer!

(2) O termo ´álcool´, na química, é utilizado para nomear um grupo de substâncias orgânicas que possuem uma ou mais funções hidroxilas (OH-) na sua estrutura, como o próprio etanol.

(4) É curioso observar que alguns estudos mostram que o câncer nos rins e o linfoma não-Hodgkin têm sua incidência diminuída com o consumo alcoólico. Não se sabe ainda os mecanismos por trás disso.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.cancerresearchuk.org/about-cancer/causes-of-cancer/alcohol-and-cancer
  2.  https://www.eurekalert.org/pub_releases/2016-11/cru-1ac111716.php
  3. https://www.cancer.gov/about-cancer/understanding/statistics
  4. http://www.cdc.gov/cancer/international/statistics.htm
  5. https://www.cancer.gov/about-cancer/causes-prevention/risk/alcohol/alcohol-fact-sheet
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4322512/ 
  7. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0749379713006466
  8. http://jnci.oxfordjournals.org/content/early/2013/08/24/jnci.djt213.short
  9. http://www.nature.com/bjc/journal/v112/n3/abs/bjc2014579a.html 
  10. http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/arh25-4/263-270.htm 
  11. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1470204506705770 
  12. http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/arh25-4/245-254.htm 
  13. https://www.michigan.gov/documents/mdch/Cancer__Alcohol_Use_Fact_Sheet-_Final_467895_7_479793_7.pdf 
  14. http://annonc.oxfordjournals.org/content/24/2/301.short
  15. http://alcalc.oxfordjournals.org/content/47/3/204.short
  16. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24512927
  17. http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/arcr351/25-35.htm 
  18. http://annonc.oxfordjournals.org/content/24/3/807.short
  19. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1530-0277.2012.01888.x/full
  20. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/mc.22538/full
  21. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3767845/
  22. http://journals.lww.com/eurjcancerprev/Abstract/2013/07000/Alcohol_and_dietary_folate_intake_and_the_risk_of.11.aspx 
  23. http://www.cancer.org/cancer/cancercauses/dietandphysicalactivity/alcohol-use-and-cancer
  24. Câncer e Álcool