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Bebidas alcoólicas e Gravidez: Tolerância zero!



- Artigo atualizado no dia 14 de maio de 2020 -

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          Muitas pessoas infelizmente desconhecem esse alerta, mas o consumo de bebidas alcoólicas durante a gravidez pode ser extremamente prejudicial em qualquer estágio de desenvolvimento fetal, não importando a  quantidade ingerida e a frequência.  A recomendação dos órgãos internacionais de saúde é cortar completamente o consumo de álcool pelas mulheres grávidas.

         Entre diversos danos que o consumo alcoólico pode causar para o embrião/feto destaca-se o FASD (Espectro de Desordens Alcoólicas no Feto, na sigla em inglês). O FASD engloba diversos sintomas que incluem problemas físicos, comportamentais e prejuízos intelectuais que duram o resto da vida. Além disso, existe um risco aumentado para o aborto espontâneo, nascimento prematuro, morte no nascimento e SIDS (Síndrome da Morte Infantil Súbita, na sigla em inglês). É sugerido também que indivíduos do sexo masculino com essa síndrome são 29% mais prováveis de reportarem sérias tentativas de suicídio (Ref.2). E qualquer quantidade de etanol (o álcool presente nas bebidas) pode passas pela placenta e representa um grande risco para o desenvolvimento do feto. Nos EUA, é estimado que até 5% das crianças são afetadas pelo FASD (Ref.3).



          Um estudo realizado pela Universidade de Binghamton, no Estado de New York, e publicado em 2017 no periódico frontiers in Behavioral Neuroscience (Ref.2), reforçou o consenso médico de que qualquer quantidade de bebidas alcoólicas, não importando se é uma única vez ou não, pode causar danos no feto durante a gravidez. A partir de testes com ratos fêmeas na 12° dia de gestação - onde a exposição foi feita com vapores de etanol durante apenas 6 horas e uma única vez - os pesquisadores determinaram que mesmo uma pequena ou moderada quantidade de álcool produz uma significativa quantidade de mudanças negativas no cérebro ligadas à ansiedade nos filhotes, a qual persiste na adolescência e na idade adulta. .

          E mais recentemente, um grupo internacional de pesquisadores encontrou que adolescentes que foram expostos ao etanol enquanto estavam no útero possuem conexões cerebrais alteradas consistentes com uma performance cognitiva deficiente (Ref.4). Foi a primeira vez que cientistas têm sido capazes de quantificar os efeitos da exposição alcoólica no cérebro em desenvolvimento. Foram analisados 19 pacientes com FASD e 21 participantes sem FASD, através da complexa técnica de magnetoencefalografia (MEG) e aplicação da teoria do caos. A robusta análise computacional revelou várias áreas do cérebro com falhas de conectividade entre o grupo com FASD. Os resultados do estudo reforçaram mais uma vez que não existe quantidade segura de consumo alcoólico durante a gravidez.

            O consumo alcoólico pelas grávidas também podem alterar os genes do feto e também da grávida. Um estudo publicado no Alcoholism: Clinical and Experimental Research (Ref.5), analisando 359 crianças e 30 mulheres grávidas, reportou mudanças (metilação no DNA) em dois genes com o consumo moderado a elevado de bebidas alcoólicas durante a gravidez: POMC - o qual regula o sistema de resposta ao estresse - e o PER2 - o qual influencia o relógio biológico do corpo.

          Todas essas evidências acumuladas foram inclusive corroboradas por um robusto estudo de revisão sistemática analisando tanto estudos observacionais quanto testes clínicos randomizados (incluindo 9 randomizações Mendelianas). Publicado no International Journal of Epidemiology (Ref.8), o estudo encontrou que o consumo alcoólico durante a gravidez afeta negativamente as habilidades cognitivas futuras da criança, e pode também levar a um baixo peso no nascimento. Não existe dúvida: o consumo alcoólico deve ser zerado em todos os trimestres da gravidez.

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ATUALIZAÇÃO (14/05/20): Em um estudo publicado no periódico Proceedings of National Academy of Sciences (Ref.9), pesquisadores mostraram diretamente os danos no tecido cerebral do feto de um primata não-humano devido à ingestão de etanol (álcool de bebidas alcoólicas) pela mãe. Via imagem por ressonância magnética, os danos ficaram visíveis no cérebro em desenvolvimento durante o terceiro trimestre de gravidez, mesmo com o feto sendo exposto ao etanol apenas durante o primeiro trimestre. O estudo analisou um total de 28 macacos Rhesus fêmeas grávidas, onde metade consumiu uma quantidade de 1,5g/kg de etanol ao longo de 60 dias (período total de gestação de 168 dias). No segundo semestre, danos não foram observados, mas a partir do 135° dia de gestão, os efeitos adversos emergiram nas regiões cerebrais associadas com o controle motor, incluindo volume reduzido na haste do cérebro e do cerebelo..
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           O grande problema nas medidas de prevenção aos danos causado pelas bebidas alcoólica às grávidas é que cerca da metade das gravidezes não são planejadas, e, mesmo se planejadas, grande parte das mulheres não percebem que estão grávidas até períodos entre 4 e 6 semanas de gravidez. Com isso, o consumo alcoólico pode estar elevado durante o período inicial da gravidez, escalando muitos danos irreversíveis. Por isso é importante o investimento em métodos preventivos de gravidez, como pílulas anticoncepcionais, DIU e camisinhas (especialmente aqui no Brasil, onde o aborto é ilegal em quase todas as situações) e parar completamente de beber quaisquer preparados alcoólicos se você estiver tentando engravidar.

          Aliás, um estudo recente publicado no periódico Development (Ref.3) encontrou que mesmo exposições às bebidas alcoólicas pouco antes da fertilização (entre 4 dias antes e 4 dias depois) causa danos à placenta ao restringir seu crescimento e funções. A bebida alcoólica em torno do tempo de concepção reduz a formação de vasos sanguíneos na placenta, levando a insuficiências na entrega de nutrientes para o embrião. A placenta de embriões do sexo feminino foram os que mais expressaram danos no estudo, com redução de até 17% no tamanho e 32% menos formação de vasos.

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ATENÇÃO: E não são apenas as mulheres que precisam evitar o consumo alcoólico antes de tentarem engravidar. Um estudo de revisão sistemática e meta-análise encontrou que os prejuízos para a estrutura cardíaca do feto pode ser maiores para o consumo alcoólico paterno do que o materno. Os pesquisadores desse estudo recomendaram que os homens que pretendem ser pais fiquem pelo menos 6 meses prévios à concepção sem consumir bebidas alcoólicas. Para saber mais, acesse: Homens querendo ser pais devem evitar bebidas alcoólicas seis meses antes da concepção
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           Caso você enfrente problemas com o alcoolismo e esteja querendo engravidar, procure urgentemente ajuda profissional para parar e peça para as pessoas ao seu redor a não te incentivarem a beber durante o período de gravidez ou de busca da gravidez. O consumo deve ser zerado, sem exceções.


Artigo recomendado: A verdade por trás dos supostos benefícios à saúde oriundos do consumo alcoólico


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.cdc.gov/vitalsigns/fasd/index.html 
  2. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/bdr2.1465
  3. https://www.nih.gov/news-events/news-releases/study-first-graders-shows-fetal-alcohol-spectrum-disorders-prevalent-us-communities
  4. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnbeh.2017.00183/full 
  5. https://dev.biologists.org/content/146/11/dev172205
  6. https://aip.scitation.org/doi/10.1063/1.5089527
  7. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/acer.14148
  8. https://academic.oup.com/ije/advance-article/doi/10.1093/ije/dyz272/5716483
  9. https://www.pnas.org/content/117/18/10035