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Causas e tratamento do ronco



            O ronco é um dos fenômenos do sono mais classicamente retratados na nossa sociedade. Apesar de ser intimamente ligado ao ato natural de dormir e geralmente não gerar maior preocupação nas pessoas do que o incômodo sonoro, diversos problemas estão ligados, direta e indiretamente, a esse distúrbio sonoro. Existindo tratamentos disponíveis para o ronco, é preciso ficar atento, porém, a falsos ou inapropriados produtos que garantem a cura de qualquer forma de ronco, sem nem ao menos considerar a individualidade do paciente.

           O barulho do ronco surge quando as partes moles da garganta, como a faringe e o palato mole, vibram com maior intensidade durante a passagem do ar. Normalmente, vários pequenos músculos mantêm a faringe aberta, mas, quando você vai dormir, os mesmos ficam bem mais relaxados, junto com a musculatura do palato mole. Quando isso acontece, fica mais fácil para a faringe vibrar - devido à maior resistência à passagem do ar - e ficar mais estreita. E quanto mais estreita, maior a vibração e mais alto o barulho produzido. Apesar de poder atingir todas as idades, o ronco é mais comumente observado em adultos de meia idade e mais velhos. A partir dessa idade, entre 10 e 20% das mulheres e entre 29 e 39% dos homens roncam habitualmente. Na população em geral, é estimado que 15% das pessoas roncam como um hábito.

           O problema de roncar não acaba apenas no barulho. Grande parte das pessoas atingidas pelo ronco também possuem uma condição conhecida como síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), a qual é uma desordem caracterizada pela dificuldade ou total impedimento na inspiração do ar, em intervalos e frequências que dependerão da gravidade na obstrução das vias aéreas. Vários estudos mostram que esses constantes bloqueios na respiração podem aumentar os riscos de problemas cardiovasculares, surgimento de síndromes metabólicas, hipertensão, diabetes tipo 2, além de privar o indivíduo de uma boa noite de sono, o que pode acarretar em menor capacidade de raciocínio e forte sonolência durante o dia (neste último caso, acidentes diversos podem ficar mais frequentes, especialmente com veículos automotivos). E apesar de mais de um terço das pessoas que roncam não possuírem apneia em grau significativo, alguns estudos também sugerem que danos no corpo possam estar relacionados com o simples ato de roncar (apesar das evidências não serem fortes). Somando-se a isso, o ronco, por si só, pode ainda continuar incomodando o sono das pessoas ao seu redor.

           Além do avanço da idade, diversos são os fatores de risco para o surgimento ou agravamento do ronco, entre eles podendo ser citado:

1. Estar acima do peso ou obeso: isso significa que existirá mais gordura ao redor do seu pescoço, o que fará a estrutura da sua garganta estreitar ainda mais e, consequentemente, vibrar mais.

2. Consumo de bebidas alcoólicas: o álcool (etanol, no caso) relaxa a musculatura na sua garganta. Deve-se evitar o consumo alcoólico, pelo menos, antes de ir dormir.

3. Respirar pela boca: se um hábito individual ou obstrução do nariz por algum motivo (gripe, por exemplo) forçar a respiração pela boca, isso facilitará o ronco. O motivo é que as paredes de passagem do ar atrás da boca vibram mais facilmente do que aquelas atrás do nariz. Além disso, a obstrução no nariz pode criar um vácuo na região da faringe, fazendo com que as paredes da garganta se estreitem ainda mais.

4. Dormir de costas: nessa posição, durante o sono, a língua pode cair para trás, dificultando a saída de ar e piorando o ronco. De fato, o ronco, na maioria das vezes, piora bastante quando a pessoa dorme de costas, especialmente se a língua for maior do que o normal. O ideal é dormir de lado.

5. Doenças, alergias, fumo e outras condições podem causar inflamação na garganta, diminuindo o espaço de passagem do ar.

6. Pequena passagem de ar: algumas pessoas nascem com a passagem de ar na garganta mais estreita do que o normal, tendo, obviamente, uma maior chance de ter roncos frequentes.

7. A gravidez é um grande fator de risco para o ronco, muito provavelmente por causa do ganho de peso, edemas e congestões nasais nesse período. Os ronco costuma sumir ou diminuir bastante após alguns meses depois do parto.


   TRATAMENTOS

           E aqui que entra o mais importante. O ronco não precisa ser algo que o persiga durante toda a vida. Existem vários tratamentos válidos para, se não curar, amenizar significativamente o problema. Mas é preciso lembrar que em todos os tratamentos, alguns funcionarão para alguns e não para outros, ou pode ter mais efeito em um do que em outro. Assim, podemos citar:

1. Com implantes removíveis especiais de peças entre os dentes, é possível empurrar a mandíbula para a frente, permitindo uma maior abertura para a passagem de ar na região da garganta. Só que esses implantes devem ser ajustados para cada tipo de arcada dentária, não bastando comprar um modelo qualquer e sair usando. Um grande problema desse tratamento é o desconforto que muitos podem sentir ao usar as peças dentárias, além da falta de eficiência em muitos casos. Na imagem ao lado, alguns exemplos desses implantes.

2. Através de cirurgias, e outros procedimentos mais invasivos, é possível modificar diversas estruturas relacionadas com o trato respiratório, ajudando a desobstruir a passagem do ar. Mas as cirurgias não resolvem todos os casos.

3. Treinar a adoção de uma posição na hora de dormir que evite você ficar deitado de costas. O problema é que, em grande parte das vezes, é quase impossível controlar os movimentos involuntários no meio do sono.

4. No caso específico de roncos leves e moderados, exercícios de musculação com a língua e outras partes da boca podem ser úteis para impedir o relaxamento excessivo da musculatura. Só que esse tipo de tratamento possui eficácia muito limitada e não deve ser considerado como primeira via em caso de roncos mais fortes, especialmente se envolvem uma significativa apneia.

5. O uso de uma máquina ventilatória, conhecida como CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas, na tradução literal do inglês) traz excelentes resultados em situações mais graves de ronco e, principalmente, de fortes apneias associadas. Basicamente, o paciente coloca uma máscara no ronco durante o sono e um motor injeta ar com uma moderada pressão extra, forçando uma expansão na sua via respiratória. Isso diminui a resistência da passagem do ar, diminuindo os roncos e outros problemas relacionados com as obstruções respiratórias.


6. Tratamentos com certos tipos de ervas, enzimas e medicamentos só funcionarão caso exista alergia envolvida ou outras doenças afetando as vias aéreas. Fora isso, não existem pílulas ou suplementos milagrosos que curam ou tratam o ronco.

7. No caso de obstrução nasal, pode-se usar dilatadores nasais (um tipo de anel de plástico) para desbloquear seu nariz. Porém, usá-los como medida única terá pouco efeito na minimização do ronco.

8. Se você está acima do peso, emagrecer ajuda bastante na amenização do ronco.

9. Existe um produto circulando por toda a internet brasileira (como o da imagem ao lado), especialmente nas redes sociais, com o nome de ´Faixa Anti-Ronco´ prometendo acabar com o ronco. O objetivo dessa faixa é segurar o queixo e impedir que a boca abra durante a noite. Só que isso não acabará com o ronco e, sim, pode apenas minimizá-lo em parte dos casos. E como outras técnicas, nem todas as pessoas se sentem confortáveis com esse estratégia "anti-ronco". Além disso, essas faixas podem mascarar outros problemas mais sérios, como a apneia, já que apenas segurar a boca fechada não terá efeito sobre a abertura da passagem de ar na região da faringe, independente se o barulho do ronco diminuiu ou não. Como mostrado acima, são diversos os fatores para induzir ou agravar o ronco e as obstruções respiratórias, com a ´boca aberta´ sendo apenas mais um deles. Essas faixas são apenas propagandas enganosas quando dizem que solucionam de uma vez por todas os roncos e problemas relacionados. Aliás, um estudo de 2014 não mostrou eficácia alguma dessas faixas tanto no ronco quanto na apneia (Ref.19) e esse tipo de produto nem ao menos é registrado em agências reguladoras, como o FDA.

           Caso você perceba que está roncando, ou alguém ao seu redor dê o alerta, não ignore o fato. E se o ronco for muito forte e estiver associado com paradas respiratórias momentâneas, procure a ajuda de um especialista. Você pode estar prejudicando sua qualidade de vida sem necessidade. E esqueça curas milagrosas na internet, como pílulas mágicas e outros produtos que prometem tratamento generalizado para o ronco. São grande as chances de serem completamente inefetivos ou, no máximo, amenizarem o problema apenas para algumas pessoas.

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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                                                                           Anúncio