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Cuidado com a aspirina!



        O ácido acetilsalicílico, nossa famosa aspirina, é um fármaco englobado no grupo dos anti-inflamatórios não-esteroides ( AINE), atuando como anti-inflamatório, antipirético, analgésico e antiplaquetário. Entre seus usos mais conhecidos, podemos citar a amenização da febre, dores, inchaços, riscos de ataques cardíacos e coágulos sanguíneos. Só que esta última ação há anos causa polêmica por causa do abundante uso desse medicamento dentro da população. Devido ao seu efeito de diminuir a coagulação sanguínea geral e de inibir a ciclooxigenase em específico, a aspirina está associada com um maior risco de sangramentos, especialmente nos sistemas gastrointestinal e intracraniano. O uso de antiácidos contendo aspirina e medidas de prevenção primária contra problemas cardíacos também usando aspirina são contraindicados pelas recomendações médicas internacionais caso não exista um estudo detalhado do paciente antes.

           A aspirina, sem sombra de dúvidas, é um dos medicamentos mais disseminados do mundo, com um consumo anual em torno de 40 mil toneladas. Além de tratar os sintomas de mal estar em doenças comuns, como a gripe, e dores de cabeça, a aspirina é uma poderosa droga usada no tratamento de vários tipos de artrite reumatoide e como medida de prevenção secundária de eventos cardiovasculares, sendo considerada como medicamento essencial pela Organização Mundial de Saúde ( OMS). Porém, existe um grande problema. O caráter inofensivo e familiar dessa droga, não sendo nem necessário prescrição médica para usá-la, deixa as pessoas despreocupadas com qualquer tipo de efeito colateral que possa estar associado. Abusos de aspirina são bem comuns, e vários antiácidos, também de uso comum para tratar irritação/queimação no estômago ( acidez estomacal), possuem ela como ingrediente. Só que a aspirina possui, entre vários outras reações adversas, uma bem perigosa: risco aumentado de sangramentos.
Nunca use aspirina sem antes consultar um médico
  
           Esse risco associado é tão grande que todos devem conhecer a famosa e importante recomendação de nunca usar aspirina em caso de suspeita de dengue. Ora, como uma das formas dessa doença (dengue hemorrágica) promove sangramentos internos, usar a aspirina pode piorar ainda mais a situação. Em geral, o efeito da aspirina em dificultar a coagulação sanguínea é até bem vindo em algumas ocasiões, especialmente em eventos cardíacos iminentes, considerando que coágulos sanguíneos são uma das principais causas/ajudantes para o infarto. Por isso, uma das terapias preventivas mais eficientes nesse cenário é o uso contínuo de baixas doses diárias de aspirina em pacientes que possuem um alto risco para desenvolver problemas cardiovasculares (múltiplos riscos conjuntos como hipertensão, diabetes, dislipidemia, obesidade e histórico familiar de doença cardíaca), naqueles que possuem doenças arteriais e naqueles que já tiveram algum episódio de ataque cardiovascular. Para esses casos, sob supervisão e orientação médica, o uso terapêutico da aspirina resulta em excelentes resultados e diminui, significativamente, as taxas de morte. Porém, caso as pessoas usem essa droga como forma de prevenção primária (ou seja, antes do surgimento das doenças visadas) ou na falta de riscos muito altos associados, o impacto do efeito colateral de possíveis sangramentos causados pela aspirina se torna preocupante, ou seja, o risco-benefício pode não compensar.

          E o agravante nessa história é que os sangramentos podem variar muito em grau de uma pessoa para outra, dependendo do seu estado de saúde. Algumas podem ter sangramentos mínimos no intestino enquanto outras podem ter sérios sangramentos no cérebro. Por isso, novas recomendações estão querendo colocar os diabéticos (os quais possuem dificuldade de coagulação sanguínea devido à maior quantidade de glicose no sangue) fora das terapias com aspirina. E mesmo pessoas em alto risco de doenças cardiovasculares deveriam receber uma análise médica individual e cautelosa antes de receberem a orientação ou permissão de tomarem diariamente aspirina, mesmo que esta esteja em baixas doses. Outro fator que aumenta o potencial risco de sangramento dessa droga é quando a mesma está associada com formulações de antiácidos, especialmente na parede do estômago, a qual se torna desestabilizada pela inibição da enzima ciclooxigenase (COX, um dos alvos de atividade bioquímica do ácido acetilsalicílico no corpo). Em relação ao consumo de antiácidos que contêm aspirina, estão em maior risco de desenvolverem sangramentos pessoas:

1. Com 60 anos ou mais;

2. Com histórico de úlceras estomacais ou problemas de sangramento;

3. Que tomam outras drogas anticoagulantes; 

4. Quem usam esteroides anti-inflamatórios;

5. Que usam medicamentos não-esteroides anti-inflamatórios;

6. Que consomem, diariamente, quantidades moderadas ou altas de álcool;

         Sangramentos no corpo podem ser fatais, especialmente se estiverem ocorrendo no cérebro, e são difíceis de serem notados a tempo na maior parte das vezes. Quando eles atingem o sistema gastrointestinal, sintomas comuns podem incluir fraqueza inexplicada, vômito com sangue, dores abdominais e fezes negras ou sanguinolentas (1). Além desse efeito colateral, outra complicação gerada pelo uso incorreto da aspirina é a rara Síndrome de Reye. Essa síndrome afeta, na maioria das vezes, crianças e adolescentes, sendo que a aspirina está associada com o seu desenvolvimento quando administrada para tratar doenças virais nessa faixa de idade. Não se sabe o mecanismo por trás, mas estudos epidemiológicos confirmam a associação, e existindo teorias plausíveis de ataque às mitocôndrias celulares (uma das possíveis causas da síndrome) causadas com a ajuda do ácido acetilsalicílico. A Síndrome de Reye é bastante grave e danifica o cérebro, podendo resultar em morte ou sérias complicações. As organizações de saúde não recomendam que se administre aspirina à jovens menores de 16 anos (algumas colocam o limite em 19) em caso de doenças que gerem febre, especialmente quando consideramos infecções com a dengue. O ideal seria não administrar esse medicamento para os indivíduos nessa idade, exceto se realmente necessário.
         
           Embora, no geral, os efeitos colaterais do uso constante de aspirina acarretem em riscos à saúde relativamente baixos, eles existem e podem ser bem graves dependendo do organismo de cada um. Apenas use aspirina quando realmente necessário, sobretudo sob orientação médica. Dores de cabeça, febre e dores no corpo, sintomas bem comuns de diversas doenças, acabam não precisando de serem remediados com medicamentos na maioria das vezes (2), ou podem ser amenizados com outros procedimentos. Evite também comprar antiácidos contendo aspirina, principalmente se você faz uso frequente desses medicamentos. Existem várias versões sem aspirina. E caso você queira prevenir doenças cardiovasculares, não use aspirina sem uma avaliação médica e balanço entre riscos e benefícios. O melhor remédio de prevenção, em grande parte dos casos, é ter uma alimentação saudável, praticar exercícios físicos com maior frequência, abandonar o fumo e sempre tentar fazer um check-up médico de rotina.

(1) Um sangramento que ocorra no seu sistema digestivo pode ser de fácil identificação pela análise visual das fezes, sendo possível até saber onde mais ou menos está o sangramento. Se as fezes estiverem bem escurecidas, praticamente pretas, é porque provavelmente ocorreu um sangramento na região superior do trato intestinal, como no duodeno ou estômago. Isso ocorre porque o seu sangue acaba sendo digerido como se fosse um alimento qualquer, só que resultando em resíduos enegrecidos. Caso as fezes estejam vermelhas, é porque o sangramento deve ter ocorrido na porção final do intestino grosso, como no próprio ânus. É válido dizer que muitos alimentos também tingem as fezes, como a beterraba, sendo necessário levá-los em conta.

(2) Artigo recomendado: É sempre benéfico procurar baixar a febre?

Obs.: Existem também estudos que mostram a aspirina como uma ferramenta moderadamente efetiva em prevenir o câncer colorretal. Porém, os efeitos colaterais apontados no texto inviabilizam a segurança dessa via preventiva.


Artigo complementar: Anti-inflamatórios não esteroides: seguros?

Artigo relacionado:  Pílulas anticoncepcionais e Trombose


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm505110.htm
  2. https://www.nlm.nih.gov/medlineplus/druginfo/meds/a682878.html
  3. http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=2530006
  4. http://link.springer.com/article/10.1007/s40264-016-0421-1
  5. http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1172042
  6. http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1172021
  7. http://annals.org/article.aspx?articleid=2513175
  8. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1538-7836.2012.04635.x/full
  9. http://www.ninds.nih.gov/disorders/reyes_syndrome/reyes_syndrome.htm
  10. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-05/imc-lau050517.php
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