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Cuidado com a aspirina!


- Artigo atualizado no dia 7 de junho de 2019 -

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        O ácido acetilsalicílico, nossa famosa aspirina, é um fármaco englobado no grupo dos anti-inflamatórios não-esteroides (AINE), atuando como anti-inflamatório, antipirético, analgésico e antiplaquetário. Entre seus usos mais conhecidos, podemos citar a amenização da febre, de dores e de inchaços, e a redução de coágulos sanguíneos (com potencial redução nos riscos de ataques cardíacos a partir do consumo desse fármaco a longo prazo). Só que essa última ação há anos é motivo de muita controvérsia. Devido ao seu efeito em diminuir a coagulação sanguínea em geral e de inibir a ciclooxigenase em específico, a aspirina está associada com um maior risco de graves sangramentos, especialmente nos sistemas gastrointestinal e intracraniano. O uso de antiácidos contendo aspirina e medidas de prevenção primária contra problemas cardíacos também usando aspirina são hoje contraindicados pelas agências de saúde internacionais caso não exista um estudo prévio e detalhado do paciente.

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   ASPIRINA E SANGRAMENTOS

           A aspirina, sem sombra de dúvidas, é um dos medicamentos mais disseminados do mundo, com um consumo anual em torno de 40 mil toneladas. Além de tratar os sintomas de mal estar em doenças comuns, como a gripe, e dores de cabeça, a aspirina é uma poderosa droga usada no tratamento de vários tipos de artrite reumatoide e como medida de prevenção secundária de eventos cardiovasculares, sendo considerada como medicamento essencial pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Porém, existe um grande problema. O caráter inofensivo e familiar dessa droga, não sendo nem necessário prescrição médica para usá-la, deixa as pessoas despreocupadas com qualquer tipo de efeito colateral que possa estar associado. Abusos de aspirina são bem comuns, e vários antiácidos, também de uso comum para tratar irritação/queimação no estômago (acidez estomacal), possuem ela como ingrediente. Só que a aspirina possui, entre vários outras reações adversas, uma bem perigosa: risco aumentado de sangramentos.
Nunca use aspirina sem antes consultar um médico

          Nesse sentido, todos devem conhecer a famosa e importante recomendação de nunca usar aspirina em caso de suspeita de dengue. Ora, como uma das formas dessa doença (dengue hemorrágica) promove sangramentos internos, usar a aspirina pode piorar ainda mais a situação. Em geral, o efeito da aspirina em dificultar a coagulação sanguínea é até bem vindo em algumas ocasiões, especialmente em eventos cardíacos iminentes, considerando que coágulos sanguíneos são uma das principais causas/ajudantes para o infarto. Por isso, uma das terapias preventivas mais eficientes nesse cenário é o uso contínuo de baixas doses diárias de aspirina em pacientes que possuem um alto risco para desenvolver problemas cardiovasculares (múltiplos riscos conjuntos como hipertensão, diabetes, dislipidemia, obesidade e histórico familiar de doença cardíaca), naqueles que possuem doenças arteriais e naqueles que já tiveram algum episódio de ataque cardiovascular.

            Para esses casos de prevenção secundária, sob supervisão e orientação médica, o uso terapêutico da aspirina resulta em excelentes resultados e diminui, significativamente, as taxas de mortalidade. Porém, caso as pessoas usem essa droga como forma de prevenção primária (ou seja, antes do surgimento das doenças visadas) ou na falta de elevados fatores de risco associados, o impacto do efeito colateral de possíveis graves sangramentos causados pela aspirina se torna preocupante, ou seja, o risco-benefício pode não compensar.

          Uma revisão sistemática e meta-análise publicada recentemente no periódico JAMA (Ref.11), investigando 13 estudos clínicos de alta qualidade (randomizados e placebos como controle) envolvendo 164225 participantes sem doenças cardiovasculares, mostrou que o uso diário de aspirina estava associado com um risco 11% menor de eventos cardiovasculares mas com um risco 43%  maior de graves sangramentos, incluindo sérios sangramentos intracranianos e gastrointestinais. Nesse sentido, os autores concluíram  que existe evidência insuficiente para recomendar o uso rotineiro de aspirina para a prevenção de ataques cardíacos, derrames e mortes cardiovasculares em pessoas sem doenças cardiovasculares (prevenção primária), e que o uso desse medicamento deve ser discutido com o médico do paciente para o balanço de riscos e benefícios.

          E o agravante nessa história é que os sangramentos podem variar muito em grau de uma pessoa para outra, dependendo do seu estado de saúde. Algumas podem ter sangramentos mínimos no intestino enquanto outras podem ter sérios sangramentos no cérebro. Por isso, novas recomendações estão querendo colocar os diabéticos (os quais possuem dificuldade de coagulação sanguínea devido à maior quantidade de glicose no sangue) fora das terapias com aspirina. E mesmo pessoas em alto risco de doenças cardiovasculares deveriam receber uma análise médica individual e cautelosa antes de receberem a orientação ou permissão de tomarem diariamente aspirina, mesmo que esta esteja em baixas doses. Outro fator que aumenta o potencial risco de sangramento dessa droga é quando a aspirina está associada com formulações de antiácidos, especialmente na parede do estômago, a qual se torna desestabilizada pela inibição da enzima ciclooxigenase (COX, um dos alvos de atividade bioquímica do ácido acetilsalicílico no corpo). Em relação ao consumo de antiácidos que contêm aspirina, estão em maior risco de desenvolverem sangramentos indivíduos:

1. Com 60 anos ou mais;

2. Com histórico de úlceras estomacais ou problemas de sangramento;

3. Que tomam outras drogas anticoagulantes; 

4. Quem usam esteroides anti-inflamatórios;

5. Que usam medicamentos não-esteroides anti-inflamatórios;

6. Que consomem, diariamente, quantidades moderadas ou altas de álcool;

         Sangramentos no corpo podem ser fatais, especialmente se estiverem ocorrendo no cérebro, e são difíceis de serem notados a tempo na maior parte das vezes. Quando eles atingem o sistema gastrointestinal, sintomas comuns podem incluir fraqueza inexplicada, vômito com sangue, dores abdominais e fezes negras ou sanguinolentas (1).

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   SÍNDROME DE REYE

          Além desse efeito colateral adverso, outra complicação gerada pelo uso abusivo e/ou indiscriminado da aspirina é a rara Síndrome de Reye. Essa síndrome afeta, na maioria das vezes, crianças e adolescentes, sendo que a aspirina está associada com o seu desenvolvimento quando administrada para tratar doenças virais nessa faixa de idade. Não se sabe o mecanismo por trás, mas estudos epidemiológicos confirmam a associação, e existindo mecanismos teóricos plausíveis de ataque às mitocôndrias celulares (uma das possíveis causas da síndrome) causadas via intermédio do ácido acetilsalicílico. A Síndrome de Reye é bastante grave e danifica o cérebro, podendo resultar em morte ou sérias complicações. As organizações de saúde não recomendam que se administre aspirina a jovens menores de 16 anos (algumas colocam o limite em 19) em caso de doenças que gerem febre, especialmente quando consideramos infecções com a dengue. O ideal seria não administrar esse medicamento para os indivíduos nessa idade, exceto se realmente necessário.

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   CONCLUSÃO

          O papel da aspirina para a prevenção secundária de derrames e infarto do miocárdio já é bem estabelecido, porém seu uso na prevenção primária não é recomendado com base nas atuais evidências clínicas. De fato, nos últimos 5-10 anos, os médicos vêm prescrevendo cada vez menos aspirina para a prevenção primária de eventos cardiovasculares, e um grande estudo publicado em 2018 no New England Journal of Medicine (Ref.12) encontrou que tomar baixas doses diárias de aspirina diariamente não prolonga a vida de indivíduos saudáveis. Esse último estudo visou analisar os riscos e benefícios do consumo diário de aspirina (100 mg/dia) em 19114 idosos saudáveis com mais de 70 anos, incluindo Australianos e Norte-Americanos, e teve início em 2010. Os participantes foram divididos em dois grupos (um sob aspirina e o outro sob placebo), e seguiram o estudo clínico até 2014. Além do maior risco de sangramentos no grupo da aspirina (+1,1%), os pesquisadores apontaram um pequeno maior número de mortes nesse grupo ao final do estudo (+0,7%), apesar do número de eventos cardiovasculares ter sido levemente reduzido (-0,12%).

          Isso reforça a recomendação de apenas usar a aspirina quando realmente necessário, sobretudo sob orientação médica. Dores de cabeça, febre e dores no corpo, sintomas bem comuns de diversas doenças, na maioria das vezes acabam não precisando de serem remediados com medicamentos (2), ou podem ser amenizados com outros procedimentos. Evite também comprar antiácidos contendo aspirina, principalmente se você faz uso frequente desses medicamentos. Existem várias versões sem aspirina. E caso você queira prevenir doenças cardiovasculares, não use aspirina sem uma avaliação médica e balanço entre riscos e benefícios. E lembrando que o melhor método de prevenção para doenças cardiovasculares, em grande parte dos casos, é ter uma alimentação saudável, praticar exercícios físicos com maior frequência, abandonar o fumo e sempre tentar fazer um check-up médico de rotina.


(1) Um sangramento que ocorra no seu sistema digestivo pode ser de fácil identificação pela análise visual das fezes, sendo possível até saber onde mais ou menos está o sangramento. Se as fezes estiverem bem escurecidas, praticamente pretas, é porque provavelmente ocorreu um sangramento na região superior do trato intestinal, como no duodeno ou estômago. Isso ocorre porque o seu sangue acaba sendo digerido como se fosse um alimento qualquer, só que resultando em resíduos enegrecidos. Caso as fezes estejam vermelhas, é porque o sangramento deve ter ocorrido na porção final do intestino grosso, como no próprio ânus. É válido dizer que muitos alimentos também tingem as fezes, como a beterraba, sendo necessário levá-los em conta.

(2) Artigo recomendado: É sempre benéfico procurar baixar a febre?

Obs.: Existem também estudos que mostram a aspirina como uma ferramenta moderadamente efetiva em prevenir o câncer colorretal. Porém, os efeitos colaterais apontados no texto inviabilizam a segurança dessa via preventiva.


Artigo complementar: Anti-inflamatórios não esteroides: seguros?

Artigo relacionado:  Pílulas anticoncepcionais e Trombose


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm505110.htm
  2. https://www.nlm.nih.gov/medlineplus/druginfo/meds/a682878.html
  3. http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=2530006
  4. http://link.springer.com/article/10.1007/s40264-016-0421-1
  5. http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1172042
  6. http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1172021
  7. http://annals.org/article.aspx?articleid=2513175
  8. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1538-7836.2012.04635.x/full
  9. http://www.ninds.nih.gov/disorders/reyes_syndrome/reyes_syndrome.htm
  10. https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-05/imc-lau050517.php
  11. https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2721178
  12. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1800722