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Lamber a ferida realmente ajuda a curá-la?



        Depois de um machucado, é um instinto natural molharmos com saliva a ferida. Se a lesão foi na extensão do braço, alcançável com a boca, temos o impulso de chupá-la ou lambê-la. Se é em outra parte, tendemos a passar a saliva com o dedo por cima da ferida. Existe uma explicação lógica nisso? Sim, faz parte do nosso instinto selvagem de cura, mas, no nosso caso, existem alguns poréns.
         
          Cães, gatos, roedores, primatas. Grande parte dos animais lambem suas feridas. E é um fato: a mucosa oral é curada mais rapidamente do que a pele. Ou seja, a saliva realmente possui propriedades curativas, entre compostos antibacterianos/antivirais e fatores de crescimento celular. Como exemplo de fatores de crescimento, podemos citar  a molécula do fator de crescimento epidérmico, VEGF, TGF-β1, leptina, IGF-I, ácido lisofosfátidico, hialuronano e NGF. Alguns bactericidas são as enzimas lisozime, defensinas, cistatinas e o anticorpo IgA. Antivirais temos a Trombospondina, por exemplo. Os outros animais costumam ter bem mais desses ´curativos´ do que nós.

Lamber as feridas, na meio selvagem, é algo muito comum

         Além disso, a saliva também contêm um analgésico chamado opiorfina. Ele foi descoberto há alguns anos atrás e possui poder analgésico três vezes maior do que a morfina (1)! Ou seja, uma lambida também pode ajudar a aliviar a dor. Lamber também retira detritos e outros contaminantes da ferida. Muitos animais costumam até fazer lambidas ´grupais´, para ajudar na cicatrização de machucados entre os membros de um grupo. Ratos de laboratório que têm suas glândulas salivares removidas, passam a ter muito mais dificuldade em curar suas feridas.

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          Mas, apesar dessa maravilha salivar toda, lamber a ferida ou passar cuspe nela pode ter mais efeitos negativos em nós do que nos outros animais. Nossa boca contém uma quantidade gigantesca de bactérias, as quais são inofensivas na cavidade bucal, porém podem causar sérios danos quando introduzidas no tecido exposto de outras partes do corpo. Já houve diversos casos de complicações graves por causa disso, até mesmo amputamentos. Os animais aguentam muito mais as bactérias presentes em suas bocas, mas podem sofrer efeitos colaterais também. Lambida em excesso pode piorar bastante a ferida neles, especialmente se esta for grande. Por isso existe aquele Colar de Elizabeth (também conhecido como E-Colar), para impedir que o cão ou gato fiquem lambendo um machucado recém tratado. Cavalos também costumam receber um acessório parecido, já que sua saliva pode carregar um parasita estomacal, Habronema, que pode entrar em seu corpo a partir das feridas. Também acredita-se que o vírus da raiva é transmitido via lambidas grupais entre diversos animais selvagens, como os antílopes. Contudo, como eles não possuem muitas opções, como nossos medicamentos, no meio selvagem, os riscos valem a pena.

Um E-Colar, à esquerda, e uma ferida que sofreu complicações por causa de lambidas excessivas feitas pelo cão

         Portanto, entre nós, humanos, não é um bom hábito passarmos saliva nos machucados. Entre os outros animais, pequenas feridas são beneficiadas bastante com uma lambida, mas essa não tende a ser uma boa escolha para grandes machucados mesmo entre eles. Existem pessoas que deixam seus cães, ou até mesmo gatos, lamberem suas feridas, para uma cura mais rápida, o que é uma irresponsabilidade inacreditável (sim, você entendeu certo: cães lambendo feridas de pessoas, propositalmente!). Vírus (como o da Raiva), bactérias e outros parasitas podem entrar em grande quantidade no seu corpo. Para limpar nossas feridas, caso não sejam preocupantes, basta usar água e sabão, deixando ela em paz até a cicatrização completa.  Em caso de feridas mais graves, procure um hospital imediatamente.

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(1) A opiorfina ainda está em processamento laboratorial para ser distribuída comercialmente. Ela possui três vezes mais poder analgésico do que a morfina e não causa dependência! Mas a sua molécula precisa ser modificada para não sofrer rápida degradação no intestino humano e poder ser capaz de penetrar a barreira entre a circulação sanguínea e o cérebro (penetração no tecido cerebral através dos vasos sanguíneos). Ou seja, no sentido de ser um medicamento eficaz, a morfina ainda não tem rivais à altura no mercado.


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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1.  http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/003193849090332X
  2. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305417904000816
  3. http://archderm.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=549848
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305417910002111
  5. http://www.scientificamerican.com/article/a-proteins-healing-powers/?print=true
  6. http://jdr.sagepub.com/content/82/8/621.full.pdf
  7.  http://www.bloodjournal.org/content/117/11/3172?sso-checked=true
  8. http://www.bloodjournal.org/content/117/11/2989
  9. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003986105002870
  10. http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00795-003-0225-0
  11. http://cro.sagepub.com/content/6/2/161.abstract
  12. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1601-0825.2006.01265.x/abstract
  13. http://www.pnas.org/content/103/47/17979
  14. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/003193849090332X
  15. http://www.nature.com/nm/journal/v6/n10/full/nm1000_1147.html
  16. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/053155659190047P
  17. http://link.springer.com/article/10.1007%2FBF02735201
  18. http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM200204253461721
  19. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23025205