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A homeopatia funciona?

      

          Hipnose, quiropraxia, efeito lunar, astrologia, alquimia e diversas outras pseudociências fazem parte forte do nosso cotidiano atual, mesmo não possuindo base científica nenhuma. São metodologias criadas séculos atrás, quando a medicina era bem primitiva e grande parte da realidade corporal, química, física e biológica eram desconhecidas ou mal interpretadas. Mesmo assim, como ocorre com a maior parte das crenças populares, elas sobreviveram e alimentam a esperança de pessoas que não acham respostas satisfatórias nas metodologias científicas. Quando algo é apenas parte da fé das pessoas, não influenciando negativamente a sua vida e a de terceiros, passa a ser aceitável. Mas quando uma prática se disfarça de ciência séria, ela passa a não ser mais tolerável. E isso é também aplicável à homeopatia, ou talvez melhor dizendo, à ´homeofarsa´.

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     O QUE É A HOMEOPATIA?

          A homeopatia é uma pseudociência que foi criada há mais de 200 anos, quando a medicina era ainda algo obscuro. Seu método baseia-se na diluição e suposta ´memória da água´. A diluição pode ocorrer em diferentes solventes, especialmente a água. Quando o soluto não é solúvel em nenhum líquido seguro para o consumo, ele é, então, preparado por outros meios, como a manufatura de pílulas usando outros sólidos como solvente (moendo soluto e solvente sólidos). Existem duas vias da homeopatia: a clássica e a moderna. Na clássica, a diluição é tão alta, que não sobra quase nenhuma partícula do principio ativo na solução. Na moderna, a diluição é menor, deixando quantidades relativamente significativas do soluto na solução. Mas o que é esse soluto/princípio ativo?

Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia em 1796; como diversas outras medicinas alternativas, a homeopatia foi apenas mais um passo em direção ao desenvolvimento da real medicina; é apenas um vestígio do processo evolutivo da ciência, que deveria ter sido aposentado faz tempo

          Bem, a questionável lógica da homeopatia começa na suposição de que se uma substância qualquer causa os mesmos efeitos físicos de uma real doença, se diluirmos essa substância e dar a solução final para o paciente, seu próprio corpo irá reconhecer ´algo´ de similaridade, ajudando-o a combater os males que o atingem. Assim, os medicamentos homeopáticos seriam capazes de estimular uma resposta auto-regulatória de cura nos pacientes. Basicamente, a homeopatia engloba-se em três principais tipos atualmente:

1. Homeopatia Individualizada: Aqui, um único medicamento homeopático é selecionado com base no ´quadro geral do paciente´, incluindo suas características mentais, constitucionais e gerais.

2. Homeopatia Clínica: Aqui, um ou mais medicamentos homeopáticos são administrados baseando-se em situações clínicas padrões ou em diagnósticos convencionais. Quando mais de um medicamento é utilizado no tratamento, este é chamado de ´combinação´ ou ´medicina homeopática complexa´.

3. Isopatia: Aqui, usa-se diluições homeopáticas do próprio agente causador da doença (alergênicos ou organismos patológicos), ou de um produto dessa doença no corpo, para tratar a mesma. É prescrita de acordo com variações na metodologia ´individualizada´.

 
   DILUIÇÕES

           Para diminuir a toxicidade das substâncias de fontes diversas utilizadas para a preparação dos medicamentos homeopáticos, intercala-se sucessivas diluições e fortes agitações na mistura. Na diluição clássica, quase nem sequer existe mais a substância na solução no final do preparo. Aí vem a história de que, por exemplo, a água ´guarda´ a memória do soluto, produzindo um poderoso efeito no corpo. Isso vai contra toda a lógica científica do comportamento fundamental da matéria. Ou seja, é, praticamente, "magia".

           Em certas diluições mais modernas, a substância ainda encontra-se um pouco acima do quase indetectável dentro da solução, podendo até causar algum efeito no corpo. Mas, dizer que só porque algo causa o mesmo sintoma de uma doença no corpo, não quer dizer que aquilo vai curá-la. Não faz sentido biológico nenhum. Para vocês entenderem a loucura, é como se eu pegasse extrato de Bico-de-Papagaio (uma planta venenosa), diluísse bastante, e desse para um paciente tomar, dizendo que seu problema intestinal será curado simplesmente porque a ingestão do Bico-de-Papagaio causa problemas intestinais! Não, eu não estou brincando, isso resume fielmente a homeopatia.

            Além disso, não só são substâncias sólidas que são administradas hoje em dia como soluto. Até água banhada em luz solar e raios X estão sendo oferecidas aos pacientes como se fossem remédios! E como, no geral, as diluições são altíssimas, tanto na via clássica como na moderna, fica também grande a implausibilidade relativa a efeitos biológicos diversos.

Os produtos homeopáticos são sempre vendidos sob alusões com a natureza, tentando induzir ao público que são saudáveis e consoantes com o meio natural, mas isso não faz deles mais ou menos efetivos; e mais: eles não tem nada de ´natural´!
   

     EFICÁCIA...?

          Uma infinidade de estudos sérios já mostraram que, se um método homeopático funciona, é devido ao simples efeito placebo. Existem diversas revisões sistemáticas e meta-análises já feitas ao longo dos anos buscando evidências, e os resultados, no máximo, entregam incertezas.

        O mais engraçado é que todas as doenças ditas ´curadas´ pela homeopatia são quase inofensivas, como um resfriado, do qual o próprio corpo, se dado repouso e boa alimentação, se recuperaria em dois tempos. Na maioria dos casos é o típico ´Vai melhorar em 7 dias com a homeopatia; se você deixar somente o seu corpo dar um jeito na doença, vai demorar 1 semana para curar´.  Aí vem o povo: "Ah, mas se melhora alguma coisa, mesmo como efeito placebo, qual o mal em tomar?". Mal nenhum. Nesse ponto, a maior parte dos remédios homeopáticos não fazem nenhum efeito pior do que tomar um copo com água. E é aí também que mora o perigo: o efeito é apenas de um copo com água. Doenças sérias que deveriam estar sendo tratadas pela medicina séria acabam recebendo tratamento muito tardio porque estavam sendo "tratadas" com métodos homeopáticos. E, dependendo da doença, esse atraso pode ser fatal.

          Aliás, o governo norte-americano, no final do ano passado (Ref.30), publicou, através do Federal Trade Comission (FTC), a imposição de que todos os medicamentos homeopáticos de venda livre devem vir, de forma explícita, com os seguintes avisos para o consumidor:

1. Não existe evidência científica de que o produto funciona;

2. As reivindicações de efetividade do produto são baseadas apenas em "teorias" da homeopatia formuladas no século XVIII e que não são aceitas pela maior parte dos especialistas modernos de medicina.

         Já o governo australiano, através do National Health and Medical Research Council (NHMRC), publicou um recente relatório para o público (Ref.32) mostrando que, após uma rigorosa revisão das evidências relativas à homeopatia, não existe condições de saúde para a qual exista evidências confiáveis de que essa medicina alternativa é efetiva. O NHMRC também afirma que a homeopatia não deveria ser usada para tratar condições de saúde que são crônicas, sérias ou que podem ficar sérias, e que pessoas que escolhem a homeopatia podem estar colocando suas vidas em risco caso rejeitem ou atrasem tratamentos comprovadamente seguros e efetivos da medicina moderna.  

         Do mesmo modo, no Reino Unido, o governo, através do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) e pelo National Health Service (NHS), deixa claro que não existem evidências científicas de qualidade suportando qualquer eficácia no tratamento ou prevenção de doenças a partir da homeopatia, e que qualquer melhora superficial que possa ser sentida pelo paciente limita-se ao efeito placebo. Além disso, tanto o NICE quanto o NHS afirmam que não existe plausibilidade científica alguma na suposta ação de medicamentos homeopáticos na prevenção de doenças, algo frequentemente alegado por homeopatas (Ref.33 e 34)

         
Além de não serem mais do que placebos, será totalmente seguro consumir qualquer produto homeopático?

           E apesar da aparente fachada de segurança e propagandas de "natural", muitas vezes não existe uma fiscalização mínima sobre os produtos homeopáticos, mesmo a quantidade deles tendo crescido assustadoramente nos últimos anos. Isso significa que muitas soluções espalhadas por aí podem não ser tão inofensivas quanto parecem.


    EFEITO PLACEBO

           Efeito placebo é quando o corpo acha que vai melhorar porque está tomando algo qualquer e acaba mostrando reais sinais de melhora em seus SINTOMAS. Mas se o remédio não estiver surtindo real efeito na doença, ela continuará se proliferando sob a falsa fantasia de melhora expressada pelo paciente. E isso é muito perigoso. O placebo cura você, e não a doença. E quando a fantasia cai, a doença ´volta´ com força. Por isso todos os medicamentos passam por fase de testes, para saber se estão produzindo efeitos placebos ou se realmente estão combatendo a doença. Claro, fazer o paciente acreditar que ele está sendo curado, deixa ele mais feliz e otimista, o que causa um efeito positivo em seu sistema imunológico. Isso também é importante, e pode até ajudar a curar mais rápido certas doenças, onde o corpo só estava precisando de um empurrãozinho para derrotá-la. Mas em doenças mais sérias, esse otimismo ajuda, mas deve ser acompanhado de reais medicamentos, ou a única coisa que irá acontecer será uma morte mais feliz (excesso de humor negro? Não, realidade).

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    HOMEOPATIA E SAÚDE PÚBLICA

           O absurdo é que, mesmo com falta de evidências científicas de real eficácia, a homeopatia  é considerada algo medicinal sério em vários países. Aqui no Brasil, por exemplo, a homeopatia é tida como especialidade médica desde 1980, sendo reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. E mais: ela é também incluída no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2006! Em alguns países desenvolvidos, como Reino Unido, Itália, França, Suíça e Alemanha, onde ela também faz parte do sistema de saúde pública, existem diversos órgãos internos de saúde travando batalhas para tornar isso ilegal. Os  governos estão pagando por uma medicina mais do que questionável e pode dar mais prejuízos para os cofres públicos quando a doença piorar e o paciente precisar de tratamentos bem caros, e reais, para se recuperar. A OMS (Organização Mundial da Saúde) condena a homeopatia para tratamento de doenças graves como diarreia infantil, tuberculose, Aids, gripe, malária, etc., por causa da falta de eficácia clínica comprovada.

          Como já dito anteriormente, placebo é apenas para te deixar mais feliz e otimista, AJUDANDO a combater doenças. Porém, o placebo não precisa estar fantasiado em uma medicina específica para ser um placebo. E é preciso tomar cuidado, porque mesmo doenças menos sérias podem ter um alto potencial de gravidade dependendo do paciente. Um bom conselho? Não arrisquem suas vidas e dinheiro. Se você está doente, procure um tratamento comprovado e que realmente funcione. Isso aqui não é um debate ideológico, é um debate pela sua vida. Não acredite em um homeopático, ou qualquer outro tipo de medicina disfarçada, só porque ele está vestindo de branco e falando bonito. O nosso governo está cheio de políticos trajados em ternos e falando bonito, mas arrancando o seu suado dinheiro pelas suas costas.

         Concluindo: durmam felizes sabendo que o seu dinheiro de imposto está sendo investido em fé enfeitada de ciência. E quem sai no lucro, obviamente? A multimilionária indústria homeopática.


ATUALIZAÇÃO ( 23/02/16): Mais um estudo, dessa vez australiano, conduzido pelo pesquisador Paul Glasziou (Ref.20), não conseguiu mostrar efetividade nenhuma para os remédios homeopáticos. O estudo foi publicado na BMJ, e foi um artigo de revisão que analisou 57 trabalhos, envolvendo 68 doenças e 176 pacientes, que utilizaram tratamentos de homeopatia. Em todos os casos, os máximos efeitos ´terapêuticos´ observados não puderam ser diferenciados de placebo.

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          E é bom deixar algo claro aqui: muita gente confunde ´tratamento homeopático´ com ´tratamento fitoterápico´. A Fitoterapia não tem nada a ver com homeopatia.

        Usar as plantas medicinais para tratar certas doenças e sintomas, como o chá de boldo (para ´dor de barriga´), é Fitoterapia. Usar os princípios ativos, e outras substâncias, das plantas, por via farmacêutica, para combater doenças, constitui a base de preparação de medicamentos fitoterápicos, os quais são também diferentes da Fitoterapia tradicional (uso de chás caseiros e afins). Em ambas as situações, existe base científica consensual de suporte e são medicamentos parecidos com qualquer outro da medicina tradicional (alopatia). Mas é bom deixar claro que a eficácia da Fitoterapia é, no geral, muito baixa, e, às vezes, inexistente, frente à medicina tradicional.

         Já a Homeopatia, desculpa o termo, é apenas uma lorota (e não sou eu que falo, e, sim, o consenso científico). Alguns estão se aproveitando da confusão popular com a Fitoterapia, e vendendo medicamentos que são, em sua maioria, apenas água (ou seja, homeopáticos).

          Homeopatia não tem nada a ver com plantas medicinais, ou seria Fitoterapia, algo completamente diferente.

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ATUALIZAÇÃO (10/03/17): Aliás, falando nos perigos dos medicamentos homeopáticos não fiscalizados, um criança muito nova foi levada às pressas para o hospital depois de sofrer convulsão por cerca de 25 minutos (Ref.25). A causa? Um tablete homeopático para mastigação que ela estava usando, o qual se descobriu ter, como ingrediente ativo, uma planta venenosa conhecida como beladona. E esse só foi mais um caso. Nos últimos 6 anos, 400 casos do tipo, atingindo crianças e bebês foram reportados ao FDA (Agência de Drogas e Alimentos norte-americana), incluindo 10 onde houve morte. Por causa disso, a agência em 2010 e em 2016 emitiu alertas para a população sobre os riscos em usar tabletes e géis homeopáticos para tratar crianças, recomendando que esses produtos sejam descartados pelos pais caso em posse dos mesmos. (Ref.26).

ATUALIZAÇÃO (05/04/17): Uma rigorosa revisão sistemática e meta-análise da literatura científica, publicada no final de março deste ano (Ref.22), não encontrou evidências científicas suficientes para rejeitar a acusação de que a homeopatia não possui maior eficiência clínica do que um placebo. No geral, a qualidade do corpo de evidências encontrado foi considerada baixa e os pesquisadores recomendam que revisões ainda mais rigorosas sejam feitas para melhores conclusões. Ou seja, ainda estamos caçando arduamente evidências que comprovem qualquer eficiência da homeopatia. Até quando? Além disso, outras duas revisões sistemáticas e meta-análises também deste ano não encontram evidências científicas - ou apenas incertezas - que justificassem o uso da homeopatia no tratamento de rinite alérgica (Ref.23) e asma (Ref.24). Aliás, nesta última revisão, incluiu-se um amplo espectro de medicinas alternativas e complementares, com nenhuma delas apresentando uma mínima quantidade de evidências que comprovassem eficácia mínima.

Artigo relacionado: A dieta alcalina possui alguma base científica?

ATUALIZADO (07/09/17)

REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
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  2. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1874503/
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  6. http://jme.bmj.com/content/36/3/130
  7. http://thorax.bmj.com/content/58/4/317.short 
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  20. http://blogs.bmj.com/bmj/2016/02/16/paul-glasziou-still-no-evidence-for-homeopathy/
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  31. https://www.betterhealth.vic.gov.au/health/conditionsandtreatments/homeopathy
  32. https://www.nhmrc.gov.au/guidelines-publications/cam02
  33. http://www.nhs.uk/conditions/homeopathy/Pages/Introduction.aspx
  34. https://www.nice.org.uk/search?q=homeopathy