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Aplicativos para a saúde mental são confiáveis?



         Hoje existem aplicativos para tudo. Desde redes sociais até serviços de transporte, parece que não existe nada não coberto pelos programas desenhados para os smartphones. Em média, um usuário de smartphone checa seu aparelho tão frequentemente quanto 150 vezes ao dia e cerca de 83% dos mesmos não saem de casa sem ele, criando um ambiente ideal para a promoção de tais programas. E, há alguns anos, outra tendência de aplicativos vem só crescendo: os aplicativos de saúde. E, ainda mais recente, temos em alta os aplicativos de saúde que visam os transtornos mentais. Basta digitar ´depressão/depression´ na Loja de Aplicativos da Apple para uma lista com no mínimo centenas de programas aparecerem na tela. Nessa lista, temos desde ferramentas de diagnóstico até tratamento. Mas será que valem a pena?


   POTENCIAL

         Estimativas colocam que cerca de 29% das pessoas ao redor do mundo irão experienciar um transtorno mental em algum momento das suas vidas. E dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) mostram que, dessas pessoas, a maioria - acima de 55% nos países desenvolvidos e 85% nos países em desenvolvimento - não está recebendo o tratamento necessário. Nesse sentido, os aplicativos de saúde nessa área podem preencher essas lacunas de ajuda profissional, onde especialistas podem alcançar pessoas antes inacessíveis.



           Estudos recentes indicam que os aplicativos podem ser de grande valia para essas situações (Ref.10). Depressão durante a gravidez, por exemplo, afeta 38% das mulheres, e entre 6 e 19% - dependendo do país de referência - das mães sofrem de condições depressivas após o parto. Porém, por causa de fatores econômicos ou de negação dos sintomas, menos da metade delas procuram tratamento profissional. Uma meta-análise publicada este mês (Ref.13), mostrou que uma intervenção psicológica via smartphone pode melhorar significativamente quadros de ansiedade a partir de aplicativos bem desenvolvidos para esse fim.


     PREOCUPAÇÕES E ALERTA

        Apesar de possuírem um imenso potencial, e alguns deles serem desenvolvidos por excelentes equipes médicas, muitos são mais farsa medicinal do que qualquer outra coisa, e podem causar mais mal do que bem. Para se ter uma ideia, em 2013, um estudo publicado na revista científica ´JMIR mHealth uHealth´ encontrou que apenas 5 aplicativos, entre dezenas, que visavam o tratamento da depressão, ansiedade e abuso de substâncias (vício) tinham passado por testes clínicos de efetividade! Em novembro de 2015, outro estudo constatou que a situação não tinha mudado muito: apenas 10 aplicativos para depressão e 4 para transtornos bipolares tinham passado por estudos de revisão e testes clínicos. E, mesmo assim, muitos estudos específicos estavam faltando nas avaliações.

           Outro estudo de revisão publicado em 2016 também reforça o apelo para que o grande potencial desses aplicativos seja melhor trabalhado e que exista estudos clínicos teóricos e práticos efetivos antes que os mesmos sejam oferecidos ao público. Nesse estudo, os autores reúnem 16 recomendações que deveriam ser atendidas nos aplicativos de saúde mental e, como seria praticamente impossível reuni-las em um único aplicativo, o ideal seria a construção de mais de aplicativos que visem diferentes focos de um transtorno específico, com o conjunto dos mesmo oferecendo amplo suporte para o paciente (Ref.11). Já um estudo de revisão sistemática publicado em maio deste ano mostrou que os aplicativos para saúde mental que visam o público infantil, pré-adolescente e adolescente - onde cerca de 20% até os 18 anos possuem um problema de saúde mental diagnosticável - estão em crescente e descontrolado número mas com insuficiente evidências de efetividade, sendo necessário mais pesquisas robustas para avaliar a segurança e nível de real eficácia dos mesmos (Ref.12).

           Mesmo listas de aplicativos autorizados por órgãos governamentais contêm problemas. Em março de 2013, o NHS britânico (´National Health Service´, na tradução ´Serviço Nacional de Saúde´) criou uma biblioteca de aplicativos voltados para essa área da saúde. Em setembro do mesmo ano, pesquisadores da Imperial College London encontraram que alguns desses aplicativos estavam vazando os dados pessoais dos "pacientes"! E no final de 2015, um estudo feito pela University of Liverpool reportou que entre 14 aplicativos para ansiedade e depressão recomendados pelo NHS, apenas 4 deles tinham algum real estudo por trás e apenas 2 foram feitos usando-se testes e ferramentas válidas para certificar sua efetividade! E olha que isso estava acontecendo em aplicativos garantidos pelo governo britânico, um dos mais rígidos em relação à saúde da população. Com isso, também no mês passado, o NHS retirou sua biblioteca do ar, admitindo falhas (1). Os EUA também estão querendo criar uma biblioteca do tipo, mas estão trabalhando pesado para conseguirem um plano ideal objetivando regular os aplicativos de saúde mental sendo lançados no mercado. E eles também admitem estar sendo algo bastante complicado.

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            A grande preocupação é que hoje é muito fácil fazer um aplicativo e camuflá-lo como algo profissional. Enquanto remédios e tratamentos clínicos tradicionais demoram anos para serem lançados, um aplicativo da mesma natureza leva, às vezes, pouco mais de 6 meses para ser criado. E como são muitos, é difícil fazer um controle rígido em cima deles. É só lançar, e, em breve, milhões já estarão baixando e usando. E não é só falta de testes clínicos de efetividade e vazamentos de dados os únicos problemas. Alguns aplicativos estão piorando a saúde dos usuários e não oferecem nenhuma forma de avaliar as pessoas sendo tratadas com eles. Voltando aos aplicativos ´mentais´, uma recente investigação nos EUA mostrou que um certo aplicativo criado para diminuir o uso de bebidas alcoólicas entre estudantes universitários, na verdade aumentou o consumo desse tipo de bebida entre os homens que o usavam. Outros aplicativos usados para o mesmo fim, avaliados pelo estudo, não surtiram efeito nenhum.

Com as pessoas cada vez mais ligadas aos aparelhos de smartphone, é um ótima estratégia trazer serviços de utilidade pública através deles para a população, mas isso deve ser feito de forma responsável, ou os possíveis benefícios podem se transformar em trágicos danos

            E como mencionado, surgem dois gigantescos problemas enfrentados por todos esses aplicativos: acompanhamento do tratamento e escolha dos aplicativos em detrimento dos métodos tradicionais. O primeiro é bem óbvio: como conseguir acompanhar a evolução clínica dos usuários se não se sabe nem ao certo quem são eles? Quais são os horários de uso, qual é a opinião do paciente, onde ele usa o aplicativo? Isso talvez, só seria possível se houvesse um especialista orientando os passos do paciente junto com o aplicativo, mas aí surge o segundo problema.

           Muitos, com vergonha da sua condição ou fragilidade em procurar ajuda profissional (usuários de drogas, depressão, distúrbios mentais diversos, etc.), podem acabar colocando suas esperanças em aplicativos que podem nem ter sido alvos de estudos/testes responsáveis. Ao invés de pedir ajuda especializada, comprovada cientificamente e onde haverá contato humano (talvez o fator mais importante de todos), as pessoas sofrendo com esses males acabam ficando reclusas, trancadas com aplicativos suspeitos. E, é claro, o diagnóstico tenderá a piorar exponencialmente. E outra: se no momento que o paciente mais estiver precisando do aplicativo (pré-início de uma crise de esquizofrenia, por exemplo), a bateria do smartphone acabar, o que fazer? Parece bobo, mas é um problema prático que deve ser levado em conta.


  CONCLUSÃO

           Por enquanto, qual é o conselho dos especialistas? Não confiem totalmente nos aplicativos voltados para a área da saúde. Procure ajuda profissional antes e converse com um responsável sobre um aplicativo que tenha lhe chamado a atenção. Com um acompanhamento médico, a escolha de um bom aplicativo pode até ajudar muito na recuperação do paciente. Mas não vire as costas para os métodos tradicionais e seguros. O objetivo dos criadores de aplicativos, na maioria das vezes, é exclusivamente o ganho de lucro e não o seu bem estar, e, por isso, é bom ficar sempre em alerta.

*Como os aplicativos para a saúde mental são os mais controversos atualmente, eu foquei o texto neles. Mas o conselho final é válido para todos os aplicativos voltados para a área da saúde, inclusive os aplicativos para dietas.

(1) Biblioteca retirada pela NHS:  HealthAppsLibrary

Artigo relacionado:  A homeopatia funciona?

 REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24985342
  2. http://www.scientificamerican.com/article/should-you-take-an-app-for-that/
  3. http://www.psychiatrictimes.com/telepsychiatry/evolving-potential-mobile-psychiatry-current-barriers-and-future-solutions
  4. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S027273581200027X
  5. http://ebmh.bmj.com/content/early/2015/09/16/eb-2015-102203.full#ref-26
  6. http://schizophreniabulletin.oxfordjournals.org/content/early/2014/03/07/schbul.sbu033
  7. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2214782915000135
  8. http://www.jmir.org/2013/11/e247/
  9. Anthes, Emily. "Pocket psychiatry: mobile mental-health apps have exploded onto the market, but few have been thoroughly tested." Nature, vol. 532, no. 7597, 2016, p. 20
  10. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0180867
  11. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4795320/
  12. https://www.jmir.org/2017/5/e176/
  13. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0165032717300150
  14. http://psycnet.apa.org/record/2017-07848-001