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O covarde mercado das barbatanas

                                         
   
           O cinema é famoso por trazer animais como protagonistas. Mas, infelizmente, muitos deles são retratados como monstros assassinos, criados pelo mal apenas para fazer o mal. Isso acabou gerando uma imagem muito negativa das pessoas em cima de várias espécies, incluindo, por exemplo, cobras e tubarões. E esse terror exagerado acaba culminando em milhões de mortes desnecessárias. Os tubarões, em especial,  estão sendo bastante prejudicados por isso, onde pescadores aproveitam dessa má fama e dos lucros gerados pelo comércio ilegal de barbatanas para efetuarem um verdadeiro massacre em alto mar. E, o mais contraditório, é que esse massacre não vem dos tubarões, como sempre reportado pela mídia sensacionalista, e, sim, das supostas vítimas inocentes: os humanos.

          A sopa de barbatana de tubarão é um prato muito apreciado no mercado asiático. O preço do quilo de barbatana chega a valer 600 euros (algo em torno de 2000 reais) no mercado negro e isso encoraja grande parte dos navios pesqueiros a perseguirem os tubarões. Estudos feitos pela FAO (Organização das Nações Unidas sobre a Agricultura e a Alimentação) e por organizações de conservação ambiental independentes apontam que todo ano são capturados e mortos entre 100 milhões e 150 milhões de tubarões. Além das barbatanas, as partes comercializadas do corpo desses peixes são usadas na medicina chinesa (a qual não possui base científica nenhuma para suportar o uso dos tubarões) e sua cartilagem em produtos farmacêuticos.

Dezenas de tubarões morreram apenas para encher esta pequena mesa no mercado de Hong Kong.

           O principal alvo são as barbatanas, devido ao seu alto preço no mercado. Um prato de sopa de barbatana é uma fina iguaria asiática e  chega a valer 100 dólares (em torno de 320 reais). Para piorar, muitos países, na maioria asiáticos, permitem a prática de cortar essas partes do corpo dos tubarões - contando que não os matem. Outros mais sensatos proibiram totalmente o ato de crueldade, e podemos citar toda a União Europeia como exemplo (e mesmo o bloco europeu só lançou essa proibição recentemente).  O problema maior é que tirar as barbatanas dos tubarões, mesmo se apenas algumas, praticamente os entrega para a morte certa. Sem a integridade do conjunto de barbatanas, esses grandes peixes ficam impossibilitados de nadar direito, fazendo deles alvo fácil de outros predadores, além de interferir com sua capacidade de caça. Ferimentos também, consequentes do corte da barbatana, levam estes animais a adquirirem infecções letais. E apesar do corte de barbatanas ser ilegal em vários países, manter parte dos tubarões pegos sem querer durante a pesca para servir como isca ainda é permitido para a grande maioria das espécies. E como eu explico abaixo, isso se torna bem preocupante.

As barbatanas visadas para corte (destacadas em marrom)

            As embarcações de atum são as que mais conduzem a operação, legal ou não. Mesmo não mirando a pesca dos tubarões, estes peixes acabam somando, normalmente, mais do que 25% do peso de pescado em cada rede lançada, às vezes chegando à 50%. Eles são atraídos pela grande quantidade de atuns nas redes e acabam presos junto a eles. Assim, a tentação em ganhar dinheiro fácil leva a um verdadeiro festival de carnificina, e a parte que pode ser usada como ´isca´ acaba quase sempre ultrapassando os limites legais. Os esquemas de tráfico de barbatanas são múltiplos, com a carga do produto passando de navio para navio, ou para barcos menores. Quando alguém vai verificar a carga de uma embarcação suspeita, nada é encontrado, especialmente porque as barbatanas residuais são fáceis de serem escondidas entre o pescado, principalmente no meio de toneladas de atum (outro peixe ameaçado de extinção pela pesca predatória). Como os tubarões são peixes bem grandes, o resto do corpo destes animas são descartadas, tendo em vista o valor bem menor frente às valiosas barbatanas, o que ainda gera mais espaço nos compartimentos das embarcações para outros pescados. Ou seja, por causa de algo que não chega a ser nem 5% do corpo destes animais, eles são mortos sem piedade. O vídeo abaixo, de 2012, mostra a existência da prática covarde aqui no Brasil.

                           

           Hoje, aproximadamente, um terço dos tubarões de mar aberto estão ameaçados por causa da caça excessiva e muitas outras espécies de tubarão podem, em breve, ser extintas se nada mudar. Entre elas, algumas já diminuíram a população em quase 90%. Há leis que protegem integralmente certas espécies mais vulneráveis, como o tubarão-branco. O problema é que a fiscalização em alto-mar é muito difícil de ser feita, mesmo com a ajuda de ambientalistas voluntários. Soma-se a isso a ajuda escondida de diversos governos asiáticos por causa dos imensos lucros gerados. E ainda temos o fator ´rejeição popular´. Como eu disse no início, as pessoas tendem a temer excessivamente os tubarões por causa dos produtos de entretenimento. Se é um fofo panda, o povo corre para apoiar a sua preservação. Mas se o "monstro" é um tubarão, o mesmo povo o ignora, e muitos acham que os pescadores estão fazendo um serviço benevolente para a humanidade, livrando-nos desse "perigo marinho". Se as pessoas soubessem do desastre ecológico causado pelo desaparecimento gradual dos tubarões, mudariam rápido de pensamento.

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              Além de estarem no topo da cadeia alimentar marinha e, portanto, controlar de forma saudável as populações de outros animais, eles ainda fazem um serviço de limpeza ambiental, eliminando os seres fracos e doentes do sistema (suas presas prioritárias), contribuindo para a saúde de milhares de espécies oceânicas. Sem eles, animais doentes poderiam infestar muitos outros, levando à mortes em massa. E outra: das 400 espécies de tubarões conhecidas, apenas 33 atacam os seres humanos, mais para se defenderem, ou quando nos confundem com uma foca, do que qualquer outra coisa. Aliás, todas as praias do mundo são obrigadas a informar se existe aparições frequentes de tubarões, para manter os banhistas afastados. Foi lá é porque quis. E para você ter uma ideia: por ano, apenas em torno de 10 pessoas morrem vítimas de ataques relacionados a tubarões no mundo inteiro. Enquanto isso, matamos mais de 100 milhões deles no mesmo período direta e indiretamente.

Por que arriscar? Por que aumentar a má fama desses animais sem necessidade?

        Com um crescimento corporal lento e maturação sexual bem tardia, o declínio da população de tubarões pela ação humana torna-se quase irreversível. Para tentarmos salvar o que restou, é preciso força conjunta e não julgar as coisas pela capa (ou filme do Spilberg). Denuncie sempre que puder e diga não às sopas de barbatanas se for surpreendido com uma.

Um sabor momentâneo vale a extinção de uma espécie inteira?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.fao.org/ipoa-sharks/tools/software/isharkfin/en/
  2. http://www.state.gov/e/oes/ocns/fish/bycatch/shark/
  3. http://wwf.panda.org/wwf_news/?210550/Hong-Kong-Government-Issues-Shark-Fin-and-Bluefin-Tuna-Ban
  4. http://www.marineconservation.org.au/pages/shark-finning.html
  5. http://www.nmfs.noaa.gov/stories/2012/08/08_13_12new_shark_week_splash_page.html
  6. http://www.greenpeace.org.au/blog/shark-attack/#.WXULctTyvIU