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O que pode acontecer se você comer muita comida em um curto espaço de tempo?

Fig.1. Famoso nos EUA, Joey Chestnut ganhou uma competição de Speed Eating em 2016 ao comer 70 cachorros-quentes em 10 minutos. 

          Um homem de 30 anos de idade apresentou-se ao departamento de emergência de um hospital com dor e distensões abdominais 8 horas após um evento competitivo do tipo "quem come mais em menos tempo vence", onde o paciente em questão consumiu um hambúrguer de 3,2 quilos em 30 minutos. O quadro do paciente estava associado com vômito sem sangue e não-bilioso, englobando alimentos não-digeridos. Exame clínico revelou um abdômen tenso e distendido, mas nenhum pneumoperitônio (presença de ar na cavidade abdominal) foi observado na radiografia inicial do peito (Fig.2A). Análise sanguínea mostrou elevada contagem de glóbulos brancos (25 x 109/L), elevada creatinina no soro (15 μmol/L) e elevada amilase no soro (500 U/L). O paciente também exibia acidose metabólica com uma concentração de lactato de 5 mmol/L e um excesso negativo de base de 6 mmol/L.


Fig.2. Imagens de radiografia do paciente. Lim et al., 2017

          Uma tomografia computacional do abdômen e da pélvis foi realizada, a qual mostrou o estômago e o duodeno proximal fortemente distendidos com material alimentar (Fig.2B) e uma abrupta mudança no calibre na terceira parte do duodeno (Fig.2C). O pâncreas estava comprimido e o intestino tinha sido empurrado para a fossa ilíaca esquerda. O paciente foi monitorado departamento geral do hospital e lavagens gástricas regulares através de tubo nasogástrico foram realizadas em uma tentativa de descomprimir o estômago distendido. 

          Apesar das lavagens, os sintomas do paciente persistiram. Planos para uma gastrotomia cirúrgica (acesso ao estômago através de uma abertura abdominal) para evacuar as partículas de alimento não digeridas foram abandonados quando o paciente produziu uma longa flatulência ('peidou') com subsequente resolução da acidose metabólica e do quadro de elevada contagem de glóbulos brancos. Eventualmente, o paciente recuperou os movimentos intestinais e foi liberado após 5 dias de hospitalização. 

          O paciente foi diagnosticado com obstrução da passagem gástrica com efeito de massa causando pancreatite aguda e lesão renal. O caso foi reportado e descrito em 2017 no periódico Gastroenterology (Ref.1).

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           Participantes em competições alimentares são conhecidos de serem capazes de acomodar grandes quantidades de partículas alimentares dentro do saco estomacal flácido, este o qual é condicionado por repetida rápida distensão da parede gástrica durante os episódios de excessos alimentares. Nesse sentido, o estômago desses competidores parece ter propriedades únicas, incluindo a habilidade de expandir de forma anômala. Porém, mesmo com essas adaptações estomacais, esses indivíduos estão em risco de gastroparesia, pneumonia por aspiração, perfuração gástrica, rasgo Mallory-Weiss (ruptura do tecido no esôfago inferior), síndrome de Boerhaave (ruptura longitudinal transmural espontânea do esôfago) e obesidade mórbida (devido à perda da habilidade de sentir saciedade). A distensão repetitiva do estômago pode também danificar seus músculos.

           Outro importante risco para indivíduos participando de competições desse tipo é o engasgo. E podemos citar alguns episódios fatais e notáveis nesse sentido (Ref.2): em 2002, um menino de 14 anos de idade no Japão engasgou até a morte durante uma competição entre amigos na sua escola; em 2004, um homem de 36 anos de idade no Canadá engasgou até a morte após um concurso premiando que come mais asas de galinha em menor tempo, em Regina, Saskatchewan; no final de 2012, um homem na Flórida engasgou e morreu seguindo um concurso premiando que come mais hambúrguer em menor tempo. A presença de plateia parece incentivar os homens a comerem ainda mais durante os eventos (Ref.3), potencialmente aumentando o risco para engasgos e outros sérios efeitos adversos.

           Além das competições em si, os treinos para essas competições podem ser ainda mais perigosos. Por exemplo, alguns indivíduos tentam alargar o estômago via consumo habitual de grandes volumes de água, um forte fator de risco para morte via dramático desbalanço eletrolítico do corpo (com o cérebro sendo o órgão mais vulnerável nesse sentido) (1).

(1) Leitura recomendada: Cãibras por esforço físico ocorrem devido à desidratação e perda de sais minerais?

           Rápida e grosseira distensão gástrica devido ao consumo de alimento em excesso que não foi adequadamente mastigado resulta em grandes pedaços de partículas alimentares sólidas se acumulando no estômago, prevenindo o bolo alimentar de entrar no duodeno. O efeito de massa do estômago estendido piora a condição ao comprimir o duodeno ainda mais. Esse efeito pode ter resultado na pancreatite aguda e na lesão renal observados no paciente do relato de caso.

          Lavagem gástrica frequente realizada dentro de 24 horas do início dos sintomas pode ser um tratamento efetivo para descomprimir o saco estomacal distendido, como evidente no relato de caso, ao fornecer um meio de quebrar os pedaços de comida em partículas menores. No entanto, se os sintomas pioram ou investigações bioquímicas mostrarem piora da acidose metabólica, uma gastrostomia com evacuação das partículas de alimento pode ser necessária porque prolongada distensão da parede gástrica pode induzir micro-isquemia e aumentar o risco de visco perfurado.

> IMPORTANTE realçar que os estudos na literatura médica investigando os efeitos na saúde humana de sucessivos episódios de excessiva glutonia tipicamente observados nas competições alimentares são escassos e limitados. Efeitos a longo prazo são desconhecidos e especialistas não apoiam esse tipo de competição ou hábito.


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Lim et al. (2017). "The Perils of Competitive Speed Eating!" Gastroenterology, Volume 154, Issue 8, P2030-2032. https://doi.org/10.1053/j.gastro.2017.08.060
  2. Collier, R. (2013). "Competitive consumption: Ten minutes. 20 000 calories. Long-term trouble?" CMAJ, 185(4): 291–292. https://doi.org/10.1503%2Fcmaj.109-4397
  3. Wansink & Kniffin (2016). Exhibitionist Eating: Who Wins Eating Competitions? Front Nutr. 2016 Nov 24;3:51. https://doi.org/10.3389%2Ffnut.2016.00051