YouTube

Artigos Recentes

Arroz venenoso?

       

         O arroz é um dos alimentos mais consumidos do mundo, alimentando mais da metade da população do planeta. Sua planta é o terceiro cereal (1) mais produzido do mundo, ficando atrás apenas do milho e do trigo. Na dieta asiática, é um prato muito comum e essencial para a sustentação da população, especialmente na China. Aqui no Brasil, a combinação ´arroz e feijão´ é algo marcante na nossa cultura. Mas existe um grande mal presente nos grãos e pouco conhecido pelas pessoas.

           Quando visitamos o Vietnã ou a China, é fácil encontrar vastos campos alagados sendo cultivados com arroz. A planta deste grão desenvolve-se bem apenas se estiver em ambientes inundados de água e esta é a forma padrão de sua produção. Este também é um dos motivos pelo qual o arroz acaba acumulando dez vezes mais arsênio inorgânico do que qualquer outro alimento! O arsênio é um elemento muito tóxico para os humanos. Quando associado com grupos químicos orgânicos, sua toxicidade é diminuída, mas quando na forma inorgânica (  seus cátions ligados a ametais, sendo o com carga 3+ o mais tóxico) ele é bastante venenoso. Para se ter uma ideia, a ingestão de apenas 140 miligramas é capaz de matar um ser humano adulto em questão de horas ou dias. Grande parte das formas inorgânicas deste elemento são solúveis em água e acabam sendo arrastados do solo e absorvidas pela planta do arroz, a qual é inclinada, naturalmente, a assimilar e acumular arsênio. Quando existem áreas de mineração perto das águas de irrigação, a contaminação com o arsênio é aumentada exponencialmente. E não existe diferença na absorção de arsênio entre o arroz plantado de forma orgânica ou tradicional. Diferenças existirão entre os tipo de arroz plantados, do solo e, em menor escala, das técnicas usadas para a plantação. (2)

Plantações de arroz alagadas

        Em uma recente investigação na Inglaterra, conduzida pelo programa Channel 4´s Dispatches, foi constatado que mais do que 58% dos produtos contendo arroz excediam os limites estabelecidos na Europa para níveis seguros de arsênio. Outros estudos mostraram que esse número foi um tanto exagerado, mas pode ser preocupante em países subdesenvolvidos, onde a fiscalização alimentar é mínima. O arsênio, principalmente na forma inorgânica, pode causar câncer da bexiga e pulmões, além de danos ao sistema nervoso e outros problema de saúde. Os efeitos são ainda piores em bebês e crianças pequenas, sendo aconselhado não alimentá-las com derivados de arroz antes do 4 anos, ou pelo menos variar bem nos preparados de cereais e grãos. Grávidas também deveriam ficar atentas, evitando excessos no consumo de arroz. Para crianças mais velhas, adolescentes e adultos, não existe muita preocupação se o consumo for limitado a algo próximo de  três vezes por semana, ou se o consumo diário é moderado. Caso o consumo seja diário e mais de uma vez ao dia, é preciso ficar preocupado, especialmente se esse cereal é consumido em largas quantidades por porção. Mas existe um método de eliminar uma grande quantidade do arsênio contido no arroz, mas que talvez não seja a melhor das soluções.

- Continua após o anúncio -



.            A recomendação para uma grande redução no nível desse elemento tóxico seria que se fervesse o arroz em bastante água por um tempo e filtrasse o mesmo em algum filtro comum, dispensando aquela água (a qual poderia ser usada para outros fins, exceto para alimentação, óbvio). Se o processo é repetido, a eficiência de retirada do arsênio aumenta. Assim você garantiria que grande parte do arsênio seja solubilizado para fora do arroz, tornando o alimento mais seguro. E não adianta somente lavar o arroz com água corrente. A água precisa estar bem quente (ebulindo) para conseguir penetrar no arroz e interagir bem com os compostos de arsênio, considerando o tempo curto no qual o processo ocorreria. E isso tudo apenas se você consome muito o arroz, de forma diária. O FDA (Administração de Drogas e Alimentos dos EUA) já mostrou também que cozinhar o arroz em excesso de água (cerca de 6-10 partes de água para 1 parte de arroz) e depois drenar esse excesso, diminui em cerca de 40-60% a concentração de arsênio no arroz. O problema é que grande parte de importantes nutrientes do alimento também são perdidos nessa estratégia. O ideal mesmo seria moderar no consumo de arroz, diversificando mais sua dieta.

Áreas em laranja são as mais afetas pela contaminação de arsênio nas águas usadas para alimentação da população

          O arsênio é um problema mundial, e o arroz só preocupa na esfera da alimentação. Como muitos dos seus compostos são solúveis em água, o perigo é enorme de que as fontes aquíferas da população sejam contaminadas, como acontece constantemente em diversas partes do mundo. Bangladesh, por exemplo, vem sofrendo bastante com isso. O país asiático resolveu mudar, nos anos 80, a fonte de água para abastecer a população, trocando os rios contaminados com diversas bactérias nocivas pelas águas subterrâneas dos poços. Mas esses últimos acabaram se mostrando bastante perigosos por estarem altamente contaminados com o elemento arsênio e, até hoje, as consequentes complicações de saúde são frequentes. Um estudo médico no país sugere que 1 em cada 5 mortes é causada por envenenamento arsênico. No âmbito mundial, pesquisadores estimam que uma grande parte dos problemas de saúde no mundo sejam agravados pelos compostos de arsênio, cuja abundância no planeta é enorme, sendo o 20° elemento mais comum na crosta terrestre.

         Um estudo de 2007, realizado para a  Royal Geographic Society Arsenic Conference, encontrou que mais de 137 milhões de pessoas em mais de 70 países são provavelmente afetadas por águas com excessivo teor de arsênio. Aqui no Brasil, não existe um risco grande para a contaminação de águas com esse elemento, sendo o arroz uma das principais preocupações. Trabalhadores em ambientes que manipulem produtos contendo arsênio podem também sofrer sérias contaminações, dependendo das condições de trabalho. Crianças também devem ser fiscalizadas quanto ao hábito de comer terra ( algo comum em certas faixas de idade), já que o solo contém grandes quantidades desse elemento, podendo as concentrações serem bem altas em certas regiões.

O símbolo atômico do elemento, à direita; uma amostra pura do mesmo, no meio; e uma das formas solúveis.

               Portanto, tome cuidado se você é um amante do arroz. Lave bastante com água fervente antes de consumi-lo. Os vegetarianos e os intolerantes ao glúten são os mais suscetíveis à contaminação por tenderem a consumir mais do cereal. Você pode até não perceber danos explícitos no seu corpo, mas sua qualidade de vida pode estar diminuindo aos poucos, com resultados negativos significativos no futuro. E se bem preparado, limpo e em quantidades moderadas, o arroz é uma excelente fonte nutricional.

Se você gosta de comer muito arroz, diariamente, leve esse assunto a sério

(1) Uma curiosidade linguística, a qual gera muita confusão, é a diferença entre grãos, sementes e cereais. Cereal é a planta que produz os grãos. Portanto, arroz é o grão produzido por um cereal. Já o grupo das sementes engloba todos os grãos e a parte embrionária cultivável de todas as outras plantas, podendo o fruto estar fundido ou não com ela (feijão, nozes, ´sementes´ das frutas, milho, arroz, etc).

(2) O arsênio está presente em tudo, incluindo ar e água, por ser um elemento bastante comum na superfície terrestre. Por isso, todos os seres e alimentos apresentarão certos níveis de arsênio em sua composição. Aliás, o arroz é o que mais possui arsênico na forma inorgânica, mas os frutos do mar, como peixes, são os que mais possuem arsênio de forma geral, porém esse estará na forma orgânica, bem menos perigosa. Por isso o alerta de arsênio relativo aos alimentos é focado no arroz. 

- Continua após o anúncio -



ATUALIZAÇÃO ( 12/07/16): Dois novos estudos publicados este ano (um em janeiro e outro em junho) reforçam o aviso para que exista maior fiscalização na quantidade de arsênio nos alimentos preparados a base de arroz para bebês e crianças pequenas, principalmente em países subdesenvolvidos. Os dados dos dois estudos mostraram, claramente, que a quantidade de arsênio aumentava no corpo infantil à medida que o consumo de arroz aumentava. A recomendação continua sendo em não deixar como exclusivo os cereais de arroz para essa faixa de idade, dando também preferência para outros cereais e grãos. E reforçando novamente: não é para a população parar de comer arroz, e, sim, moderar o seu consumo. Esse alimento é muito nutritivo e alergias derivadas dele são muito raras, tornando-o uma excelente escolha na mesa das pessoas. (Ref.13 e 14)

ATUALIZAÇÃO (14/02/17):  E mais um importante aviso para as pessoas que escolhem uma dieta ´Glúten Free´. Um estudo realizado na Universidade de Illinois (Ref.15), em Chicago, EUA, mostrou que as pessoas consumindo apenas alimentos livres de glúten estão sob um maior risco de serem expostos a uma maior quantidade de arsênio e mercúrio, dois tóxicos metais que podem levar ao desenvolvimento de problemas cardíacos, câncer e danos neurológicos.

Isso é consequência da maior quantidade de outros alimentos consumidos para compensar a retirada daqueles que contêm glúten. Em especial, essa dieta restritiva leva ao aumento do consumo de arroz (incluindo os alimentos embalados ´glúten-free´ que tendem a ser ricos em farinha de arroz em substituição à farinha de trigo).E o arroz, como já discutido acima, é um forte bioacumulador de arsênio, e, também, de mercúrio.

No estudo, mostrou-se que pessoas submetidas à dieta glúten-free tinham a concentração de arsênio no sangue quase duas vezes maior e, de mercúrio, 70% maior.

Só nos EUA, em 2015, 1 em cada 4 pessoas reportaram que tinham abandonado o consumo de alimentos com glúten, um aumento de 67% em relação ao ano de 2013, e algo que preocupa os especialistas. Portanto, é preciso ficar bem alerta no que se está consumindo quando se está nessa dieta, para não ter a saúde prejudicada.

E lembrando: o glúten só é prejudicial para quem tem alergia a ele. Não seja levado por modinhas alimentares sem base científica. Artigo recomendado: Cortar o glúten da dieta traz benefícios?


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S026974911400342X
  2. https://www.researchgate.net/profile/X_Chris_Le/publication/273835121_Rice_Reducing_arsenic_content_by_controlling_water_irrigation/links/55218b2c0cf2f9c130528374.pdf
  3. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S026974911300064X
  4. http://pubs.rsc.org/en/content/articlelanding/2014/ja/c4ja00069b#!divAbstract
  5. http://pubs.sciepub.com/env/1/3/2/
  6. http://pubs.sciepub.com/env/1/3/2/
  7. http://search.informit.com.au/documentSummary;dn=464859497365305;res=IELENG
  8. http://link.springer.com/article/10.1007/s10333-013-0392-0#/page-1
  9. http://file.scirp.org/Html/5-3000802_48431.htm
  10. http://idosi.org/wasj/wasj29%282%2914/3.pdf
  11. http://www.jpeds.com/article/S0022-3476%2815%2900718-0/pdf 
  12. http://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm493677.htm 
  13. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S030881461401807X
  14. http://archpedi.jamanetwork.com/article.aspx?articleID=2514074 
  15. https://news.uic.edu/gluten-free-diet-may-increase-risk-of-arsenic-mercury-exposure