Existem vertebrados terrestres sem pulmões?
Os pulmões são essenciais para muitos vertebrados e um traço quase universal entre os tetrápodes, incluindo os humanos. Esse órgão evoluiu provavelmente a partir da bexiga natatória de peixes ósseos ancestrais, permitindo a transição dos vertebrados da água para o ambiente terrestre (Ref.2-3). No entanto, alguns grupos de anfíbios viventes eliminaram de forma independente a respiração pulmonar e não possuem pulmões, respirando principalmente através da pele úmida (respiração cutânea). A perda de pulmões ocorreu de forma independente pelo menos quatro vezes entre os anfíbios, e existem outros casos de redução ou perda pulmonar tanto em anfíbios quanto em alguns outros vertebrados. As possíveis vantagens adaptativas ou fatores ecológicos em geral relacionados a essa perda permanecem pouco esclarecidos.
Um exemplo notável de perda desse órgão na base de uma importante radiação adaptativa é observado na família de salamandras Plethodontidae (Fig.2). Essa é a família de salamandras com maior número de espécies (>500), representando mais de dois terços da diversidade atual de salamandras. E todos os pletodontídeos adultos não possuem pulmões; eles respiram inteiramente por meio de tecidos não pulmonares, principalmente a pele e a mucosa bucofaríngea. Por outro lado, estruturas pulmonares rudimentares chegam a se desenvolver nos embriões de pletodontídeos - apontando caminhos genéticos conservados do ancestral comum pulmonado -, mas são regredidas e desaparecem através de apoptose antes desses anfíbios eclodirem dos ovos (Ref.4).
Além dos pletodontídeos, todas as 12 espécies de salamandras do gênero Onychodactylus (Hynobiidae), uma espécie de salamandra do gênero Euproctus (Salamandridae) e duas espécies bem distintas de cecília (Atretochoana eiselti e Caecilita iwokramae) também não possuem pulmões (Ref.8).
A perda de pulmão impacta drasticamente a configuração do sistema circulatório e é interessante observar que as salamandras sem pulmões evoluíram de forma convergente redução do septo atrial - a parede muscular que divide as duas câmaras (átrios) superiores do coração (Ref.9). De fato, há pouca necessidade de um septo atrial em salamandras desprovidas de pulmões, devido à ausência de veias pulmonares e à presença de uma fonte única de sangue misto fluindo para o coração. Portanto, pressão seletiva para a manutenção dessa estrutura é enfraquecida ou ausente, favorecendo processos evolutivos de redução ou perda.
Nos vertebrados terrestres, o coração e os pulmões funcionam como um sistema integrado. A septação cardíaca completa, incluindo o desenvolvimento dos septos ventricular e atrial, evoluiu de forma convergente duas vezes, proporcionando, em ambas as ocasiões, a separação entre sangue oxigenado e desoxigenado e uma troca gasosa eficiente. Septação cardíaca completa, resultando em um coração com quatro câmaras, é encontrada apenas entre mamíferos e arcossauros (ex.: aves e crocodilianos). Anfíbios tipicamente possuem um coração com três câmaras: ventrículo, átrio direito e átrio esquerdo. Nas salamandras e outros anfíbios pulmonados, sangue oxigenado e sangue desoxigenado é misturado apenas na câmara ventricular.
Válido também mencionar que existem várias espécies de cecílias e salamandras com sistemas pulmonares reduzidos, incluindo a redução ou perda completa de um dos pulmões. Várias espécies de anuros (rãs) apresentam pulmões reduzidos ou modificados (ex.: gêneros Ascaphus, Trichobatrachus e Telmatobius). E, historicamente, era alegado que pelo menos uma espécie de rã (Barbourula kalimantanensis) não possuía pulmões. Essa alegação, porém, foi derrubada por um estudo de 2024 que mostrou a presença de uma glote, traqueia e pulmões simplificados e relativamente pequenos nessa espécie (Ref.10). Por outro lado, em várias espécies de anuros, girinos não exibem pulmões - com o desenvolvimento do órgão ocorrendo durante a metamorfose para a fase adulta (Ref.11)
Até o momento, tetrápodes sem pulmões possuem representantes conhecidos e descritos apenas entre os anfíbios.
> Os pletodontídeos divergiram de outras famílias de salamandras há mais de 100 milhões de anos. Essas salamandras não possuem ausência completa de tecidos pulmonares: estruturas pulmonares rudimentares são desenvolvidas nos embriões, mas regridem antes da eclosão dos ovos. Um fenômeno semelhante é observado no celacanto da espécie Latimeria chalumnae, no qual um pulmão bem desenvolvido e potencialmente funcional se forma no embrião, mas é reduzido a um pulmão vestigial e não funcional no adulto. Esse vestígio, no entanto, está intimamente associado a um órgão de flutuabilidade singular nesse peixe, o "órgão adiposo", cujo desenvolvimento inicial pode exigir a presença de um pulmão. Ref.12
> A redução ou perda de um pulmão ocorreu repetidamente em muitos, embora não em todos, os tetrápodes ápodes. Em muitas serpentes, nos gimnofionos e na maioria dos lagartos ápodes, observa-se uma redução do pulmão esquerdo; contudo, nos anfisbenídeos, o pulmão direito é menor do que o esquerdo. Em alguns animais, o pulmão seguiu um caminho oposto à redução observada nos tetrápodes ápodes, expandindo-se para além da cavidade toracoabdominal e penetrando nos ossos do esqueleto axial e até mesmo do apendicular. Um dos exemplos mais notáveis desse fenômeno, conhecido como pneumatização, é observado no peixe-borboleta (Pantodon buchholzi), mas ele também é comum nas aves. Ref.12
> A função central do pulmão é a troca gasosa entre ar e o sangue. Mas é relevante apontar que esse é um dos órgãos mais diversos entre os vertebrados, variando enormemente em termos estruturais, posição topográfica, mecanismos de ventilação, integração estrutural ao aparelho locomotor, volume relativo ao corpo e as inter-relações com o modo de seu desenvolvimento ontogenético. Para uma revisão detalhada sobre o tema, acesse a Ref.12
> A maioria dos vertebrados terrestres, incluindo os humanos, possui dois pulmões situados em ambos os lados do tórax. Evidência recente aponta que os pulmões dos vertebrados surgiram inicialmente como um órgão único, tornando-se verdadeiramente pares mais tarde na evolução, à medida que os vertebrados começaram a desenvolver membros. Essa mudança anatômica aumentou a área de superfície disponível para as trocas de oxigênio e dióxido de carbono, permitindo que os vertebrados respirassem com mais facilidade em terra firme. Ref.13
> As salamandras estão entre os animais com os maiores genomas conhecidos, variando de 8 GB até 130 GB. Para comparação, o tamanho genômico humano é de ~3,1 GB. Notavelmente, espécies de pletodontídeos do gênero Desmognathus possuem alguns dos menores genomas entre as salamandras (~13 a 16 GB), talvez como resultado do estilo de vida bifásico (metamorfose com larvas aquáticas) nesse grupo. Ref.14
Línguas Balísticas e Pletodontídeos
Línguas balísticas são línguas especializadas, projetadas rapidamente, e utilizadas por predadores terrestres de movimentos lentos para capturar presas distantes (ex.: insetos). Elas são encontradas em três clados de vertebrados: camaleões (família Chamaeleonidae), salamandras sem pulmões (Plethodontidae) e anuros (ordem Anura). São rápidas, movendo-se tipicamente a velocidades médias de 1 a 3 m/s e alcançando a presa em cerca de 200 milissegundos. Em camaleões e pletodontídeos, esse traço evoluiu de forma convergente, e o desempenho balístico envolve uma haste esquelética longa e de extremidade romba, que desliza livremente no interior de um músculo compressor potente (Ref.15).
As línguas de alguns táxons de pletodontídeos exibem as acelerações mais rápidas entre os vertebrados: até 5740 m/s2.
Membros das linhagens de pletodontídeos que evoluíram a projeção balística da língua a longa distância oferecem exemplos de desempenho extremo: a Hydromantes consegue projetar a língua a uma distância de até 80% do comprimento de seu corpo em milissegundos e a uma temperatura corporal de 2 °C; a minúscula Thorius (Fig. 5, vídeo) pode acelerar a língua a 600 G; e a Bolitoglossa consegue amplificar em 100 vezes a potência da musculatura de sua língua. Esses extremos incluem a maior aceleração e a maior potência (ex.: taxa de liberação de energia) observadas em qualquer movimento de vertebrados, a projeção de língua de maior alcance entre os anfíbios e uma independência térmica total do desempenho (Ref.16).
Leitura recomendada:
- O que são arcossauros?
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- Camaleões mudam instantaneamente a cor do corpo para camuflagem?
REFERÊNCIAS
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