Paciente com um garfo na uretra
Um homem de 70 anos de idade apresentou-se ao departamento de emergência de um hospital com hematúria (presença de sangue na urina) macroscópica, mas sem outros sintomas urinários. A anamnese detalhada revelou que ele havia inserido um garfo de aço de 10 cm em sua uretra 12 horas antes, para estimulação autoerótica. Não havia histórico formal de transtornos psiquiátricos; no entanto, o paciente tinha histórico de infecção do trato urinário por bactérias do gênero Morganella e carcinoma prostático concomitante, para o qual recusou tratamento radical e optou por observação vigilante.
Ao exame médico, o garfo não era visível, mas palpável dentro da uretra peniana (1). Radiografia pélvica (Fig.1A) e a tomografia computadorizada confirmaram a posição do garfo, dentro de uma uretra pendular e bulbar não perfurada, com o cabo orientado proximalmente.
(1) Fotos sem censuras: acesse aqui.
A extração do garfo através do meato uretral foi realizada com sucesso sob anestesia geral e uso de grande quantidade de lubrificante, e com o auxílio de gel de lidocaína e pinça de Rampley (Fig.1B). Não foi necessária excisão cirúrgica aberta. A uretrocistoscopia identificou abrasões na mucosa da uretra peniana e bulbar. Não foi inserido cateter uretral.
Após o procedimento o paciente mostrou ser capaz de urinar normalmente e recebeu alta.
O caso foi reportado e descrito em 2013 no periódico International Journal of Surgery Case Reports (Ref.1)
Autoinserção de Objetos na Uretra
Corpos estranhos uretrais autoinseridos são emergências raras que cirurgiões urológicos e gerais podem enfrentar. A inserção deliberada de corpos estranhos na uretra é uma prática comumente referida na literatura acadêmica como poliembolocoilamania uretral (Ref.2-3), na qual qualquer objeto imaginável pode estar envolvido. Poliembolocoilamania é um termo derivado do grego que se refere ao fenômeno comportamental de inserir objetos estranhos em orifícios corporais, frequentemente de forma repetitiva.
Nos casos envolvendo a uretra, o fenômeno é predominantemente - mas não exclusivamente - masculino e pode ocorrer por razões diversas, comumente objetivando gratificação sexual autoerótica (Ref.4). No geral, pode ser motivada por transtornos mentais (ex.: esquizofrenia e transtorno parafílico), estados de confusão induzidos por drogas (ex.: álcool) ou simplesmente por curiosidade sexual. Existem alguns relatos onde a prática foi motivada para alívio de sintomas (Ref.5-7).
Embora a prevalência exata do comportamento seja desconhecida, os relatos na literatura têm aumentado (Ref.8-9).
A gama relatada de objetos inseridos na uretra inclui fios de grampo de cabelo, anzóis, canetas, lápis, escovas dentais, sementes, esferas metálicas, dispositivos intrauterinos contraceptivos, gaze cirúrgica, partes quebradas de instrumentos endoscópicos, elásticos, bolas de cabelo, hastes metálicas, cabos telefônicos, pós, antenas, parafusos ortopédicos, baterias domésticas, galhos, entre outros (Fig.2-6).
As queixas frequentes relatadas por esses pacientes incluem disúria, retenção urinária, dor na parte inferior do abdômen, hematúria, secreção uretral e febre. Objetos menores e menos impactantes podem levar a sintomas crônicos persistentes, como infecções do trato urinário (ITU) recorrentes. A poliembolocoilamania uretral está associada a um risco aumentado de infecção do trato urinário, retenção urinária, abscesso, lacerações da mucosa, divertículo uretral, fístula uretral, estenoses uretrais e com o aprisionamento de corpos estranhos na uretra ou bexiga, que podem exigir remoção cirúrgica. Cálculos urinários e urosepse podem surgir ocasionalmente.
A vergonha de procurar atendimento médico - ou mesmo esquecimento da prática devido a problemas mentais ou intoxicação com drogas recreativas - pode levar a sérias complicações locais e sistêmicas e geralmente os pacientes são internados tardiamente. E a recusa de pacientes com sintomas geniturinários em relatar a prática de inserção de objetos na uretra durante o atendimento médico pode inclusive levar a tratamentos inadequados (Ref.13).
Corpos estranhos no trato urinário inferior podem ser removidos por diferentes técnicas cirúrgicas ou através de procedimento endoscópico. Isso vai depender do caso apresentado e do objeto envolvido. A remoção endoscópica com fórceps ou outros instrumentos (ex.: cateter de Foley) é minimamente invasiva e é preferida quando apropriado, mas pode se mostrar difícil ou insegura dependendo do tipo de objeto inserido.
Por exemplo, no caso da Fig.2 onde o paciente inseriu um termômetro de mercúrio através da uretra, cirurgia aberta foi a opção escolhida. Isso porque a quebra acidental do termômetro dentro do paciente poderia ter resultado em fragmentos de vidro na bexiga e/ou uretra com consequente dano ou perfuração da mucosa, e possivelmente intoxicação por mercúrio.
Podem ocorrer também complicações de curto a longo prazo mesmo após a remoção médica do objeto, incluindo infecção do trato urinário, sepse, falso trajeto uretral, laceração e estenose (Ref.14). Essas possíveis complicações vão depender da profundidade da inserção inicial, da repetição da inserção do corpo estranho e do método de extração necessário para a remoção (Ref.15).
> Urologistas recomendam nunca inserir objetos na uretra fora de um contexto hospitalar ou clínico, devido ao risco de sérias complicações.
> A pessoa que inseriu o objeto agarrado não deve tentar removê-lo por conta própria. É preciso buscar atendimento urológico imediato.
REFERÊNCIAS
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