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A cauda dos cangurus funciona como um membro extra?

Figura 1. Ilustração da estrutura esquelética de um canguru-vermelho (Macropus rufus).

          Os cangurus (marsupiais da família Macropodidae) possuem uma cauda muito poderosa, capaz inclusive de sustentar o corpo. Aliás, cientistas consideram essa cauda como uma quinta perna nesses marsupiais (Ref.1), a qual é usada como suporte e propulsor de movimento, realizando tanto trabalho quanto nós (humanos) usando cada uma das pernas. A cauda nesses animais possui mais de 20 vértebras (Fig.1) - cujas funções se assimilam àquelas dos ossos do nosso pé, panturrilha e da coxa - e quando os cangurus se movimentam a baixas velocidades, suas caudas interagem com o solo de forma sequencial em relação aos seus membros dianteiros e traseiros e contribuindo com ~22% do trabalho mecânico positivo associado - caracterizando uma locomoção pentapedal (como mostrado no vídeo abaixo).

            

           Todos os cangurus modernos usam locomoção quadrúpede durante movimentação mais lenta, a qual se manifesta como locomoção pentapedal nas espécies de maior porte, como o canguru-vermelho (Macropus rufus) e o canguru-cinzento (Macropus giganteus).

           Essa natureza de 'membro extra' da cauda faz sentido evolucionário: os ancestrais dos cangurus modernos eram arborícolas e, portanto, provavelmente usavam as caudas para agarrar e realizar movimentos de balanço. E, biomecanicamente, um quinto membro extra faz sentido nos cangurus, devido à anatomia profundamente desigual (assimétrica) entre os membros posteriores e anteriores - traço anatômico que torna uma típica locomoção quadrúpede bastante limitada e ainda favorece quedas para trás durante as passadas. Além disso, a poderosa cauda permite - ou melhor, estabiliza - outros movimentos com os quatro membros, como durante a briga entre machos onde chutes com as duas pernas são também muito empregados.

> Papagaios são os únicos vertebrados conhecidos com três membros locomotórios, com o bico [e cabeça-pescoço] funcionando biomecanicamente como uma terceira "perna" (trípede) e não apenas uma estrutura auxiliar de locomoção. Entenda: Papagaios quebram regra biológica do 'número par de membros', conclui estudo

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CURIOSIDADE: Um estudo de revisão publicado no periódico Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology (Ref.2) concluiu que antigos cangurus hoje extintos nem sempre saltavam como principal ou frequente meio de locomoção como os cangurus modernos. Espécies "gigantes" (>100 kg) no Mioceno Tardio provavelmente adotavam outras posturas, como passadas bípedes alternadas ou locomoção quadrúpede. Os cangurus modernos de grande porte possuem massa máxima inferior a 100 kg - a maioria com massa inferior a 70 kg - e são os únicos que empregam locomoção a longa distância com saltos; estima-se que o pico de massa corporal para esse atípico modo de locomoção é de ~50-90 kg (!). Até 50% da energia gasta é armazenada nos tendões extensores dos membros inferiores desses animais e usados para sustentar sucessivos saltos. 

(!) Locomoção com saltos é atípica entre mamíferos mas evoluiu de forma independente pelo menos 8 vezes, incluindo cangurus e roedores das famílias  Dipodidae, Heteromyidae, Muridae e Pedetidae. São incertas as pressões seletivas fomentando a evolução do salto como meio preferencial de locomoção. Cientistas sugerem que um ambiente árido e pressão predatória favorecem esse tipo de locomoção.

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> Leitura recomendada: Existem marsupiais apenas na Austrália?


REFERÊNCIAS

  1. Donelan et al. (2014). The kangaroo's tail propels and powers pentapedal locomotion. Biology Letters, Volume 10, Issue 7. https://doi.org/10.1098/rsbl.2014.0381
  2. Janis et al. (2023). Myth of the QANTAS leap: perspectives on the evolution of kangaroo locomotion. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology. https://doi.org/10.1080/03115518.2023.2195895