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A cauda dos cangurus funciona como um membro extra?

Figura 1. Ilustração da estrutura esquelética de um canguru-vermelho (Macropus rufus).

- Atualizado no dia 25 de janeiro de 2026 -

          Os cangurus (marsupiais da família Macropodidae) possuem uma cauda muito poderosa, capaz inclusive de sustentar o corpo. Aliás, cientistas consideram essa cauda como uma quinta perna nesses marsupiais (Ref.1), a qual é usada como suporte e propulsor de movimento, realizando tanto trabalho quanto nós (humanos) usando cada uma das pernas. A cauda nesses animais possui mais de 20 vértebras (Fig.1) - cujas funções se assimilam àquelas dos ossos do nosso pé, panturrilha e da coxa - e quando os cangurus se movimentam a baixas velocidades, suas caudas interagem com o solo de forma sequencial em relação aos seus membros dianteiros e traseiros e contribuindo com ~22% do trabalho mecânico positivo associado - caracterizando uma locomoção pentapedal (como mostrado no vídeo abaixo).

            

           Todos os cangurus modernos usam locomoção quadrúpede durante movimentação mais lenta, a qual se manifesta como locomoção pentapedal nas espécies de maior porte, como o canguru-vermelho (Macropus rufus) e o canguru-cinzento (Macropus giganteus).

           Essa natureza de 'membro extra' da cauda faz sentido evolucionário: os ancestrais dos cangurus modernos eram arborícolas e, portanto, provavelmente usavam as caudas para agarrar e realizar movimentos de balanço. E, biomecanicamente, um quinto membro extra faz sentido nos cangurus, devido à anatomia profundamente desigual (assimétrica) entre os membros posteriores e anteriores - traço anatômico que torna uma típica locomoção quadrúpede bastante limitada e ainda favorece quedas para trás durante as passadas. Além disso, a poderosa cauda permite - ou melhor, estabiliza - outros movimentos com os quatro membros, como durante a briga entre machos onde chutes com as duas pernas são também muito empregados.

> Papagaios são os únicos vertebrados conhecidos com três membros locomotórios, com o bico [e cabeça-pescoço] funcionando biomecanicamente como uma terceira "perna" (trípede) e não apenas uma estrutura auxiliar de locomoção. Entenda: Papagaios quebram regra biológica do 'número par de membros', conclui estudo

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CURIOSIDADE: Um estudo de revisão publicado em 2023 no periódico Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology (Ref.2) concluiu que antigos cangurus - hoje extintos - nem sempre saltavam como principal ou frequente meio de locomoção como os cangurus modernos. Espécies "gigantes" (>100 kg) no Mioceno Tardio provavelmente adotavam outras posturas, como passadas bípedes alternadas ou locomoção quadrúpede. Porém, um estudo mais recente Os cangurus modernos de grande porte possuem massa máxima inferior a 100 kg - a maioria com massa inferior a 70 kg - e são os únicos que empregam locomoção a longa distância com saltos; estima-se que o pico de massa corporal para esse atípico modo de locomoção é de ~50-90 kg (!). Até 50% da energia gasta é armazenada nos tendões extensores dos membros inferiores desses animais e usados para sustentar sucessivos saltos.  

Figura 2. Esqueleto (A) e reconstrução artística (B) de cangurus gigantes da família Sthenurinae. Na arte, espécie Sthenurus stirlingi. Durante a última Era do Gelo, cangurus de algumas espécies podiam crescer até 250 kg. Tradicionalmente, é sugerida impossibilidade de salto para cangurus com mais de ~140-160 kg. Mas análise biomecânica mais recente - incluindo dados de fósseis - aponta que saltos eram possíveis mesmo nos maiores cangurus extintos, provavelmente como forma secundária de locomoção. Ref.3

(!) Locomoção com saltos é atípica entre mamíferos mas evoluiu de forma independente pelo menos 8 vezes, incluindo cangurus e roedores das famílias  Dipodidae, Heteromyidae, Muridae e Pedetidae. São incertas as pressões seletivas fomentando a evolução do salto como meio preferencial de locomoção. Cientistas sugerem que um ambiente árido e pressão predatória favorecem esse tipo de locomoção.

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REFERÊNCIAS

  1. Donelan et al. (2014). The kangaroo's tail propels and powers pentapedal locomotion. Biology Letters, Volume 10, Issue 7. https://doi.org/10.1098/rsbl.2014.0381
  2. Janis et al. (2023). Myth of the QANTAS leap: perspectives on the evolution of kangaroo locomotion. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology. https://doi.org/10.1080/03115518.2023.2195895
  3. Jones et al. (2026). Biomechanical limits of hopping in the hindlimbs of giant extinct kangaroos. Scientific Reports 16, 1309. https://doi.org/10.1038/s41598-025-29939-7