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Canibalismo entre louvas-a-deus ocorre apenas durante o acasalamento?

Figura 1. Fêmea de louva-a-deus devorando um macho. 

           Popularmente conhecidos como louva-a-deus, a Ordem Mantodea (do grego mantis = profeta, referindo-se às pernas dianteiras posicionadas como se estivessem em oração) engloba aproximadamente 2500 espécies descritas, das quais cerca de 273 ocorrem no Brasil. São insetos hemimetábolos, predadores, terrestres e distribuídos em quase todo o mundo, especialmente nas regiões tropicais, com exceção da Antártica. São encontrados principalmente na vegetação, mas como apresentam grande capacidade de camuflagem com folhas, galhos e flores, não são facilmente visualizados na natureza, característica vantajosa tanto para captura de presas quanto para evitar predação, especialmente por aves. São predadores de outros insetos e de aranhas (!), e o canibalismo é comum na maioria das espécies.

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          O canibalismo, apesar de ser popularmente associado ao acasalamento (fêmeas devorando o macho), é mais frequentemente observado entre ninfas (e também entre machos). O canibalismo pode ocorrer tanto em cópula quanto em não cópula; durante a cópula, existe evidência de que esse comportamento é mais frequente com fêmeas pouco alimentadas do que aquelas bem alimentadas (Ref.3-4), e machos adotam certas estratégias para evitar serem devorados na cópula, como se aproximar da fêmea por trás (Ref.5). Na espécie Miomantis caffra, em mais de 50% das interações entre os sexos, as fêmeas atacam e consomem os machos exclusivamente sem acasalamento - um fenômeno conhecido como canibalismo não-copulatório; em resposta, os machos evoluíram uma contra-estratégia para evitar o canibalismo e conseguir efetiva cópula: atacam violentamente as fêmeas antes da tentativa de acasalamento, às vezes resultando em perfuração do abdômen da fêmea (Ref.6-7). 


Figura 2. Fêmea de M. caffra com uma cicatriz escura abdominal resultante de violenta interação com um macho durante a interação sexual. É incerto se existe algum benefício adaptativo no canibalismo pré-copulatório exibido por essa espécie. Referência: Burke & Holwell, 2022

          É também curioso apontar que as fêmeas de louva-a-deus da espécie Pseudomantis albofimbriata, quando estão sob escassez de recursos alimentares, liberam uma quantidade maior de feromônios, atraindo bem mais machos do que o normal - mesmo sob baixa produção de ovos. As fêmeas parecem tratar os machos como presas fáceis para ganhar benefícios nutricionais e potencialmente produzir mais ovos (Ref.8). Aliás, essa espécie foi a primeira a fornecer evidência empírica de suporte para a Hipótese Femme Fatale - a qual descreve fêmeas que exploram machos como recurso alimentar através de armadilhas diversas. No vídeo abaixo, registro de uma fêmea de P. albofimbriata devorando um macho.

            

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(!) Apesar da dieta dos louvas-a-deus predominantemente ser representada por invertebrados, esses predadores também podem se alimentar, oportunisticamente, de pequenos vertebrados. Em um paper publicado em 2022 no periódico Ecology and Evolution (Ref.9), pesquisadores registraram dois desses raros eventos: fêmeas de louva-a-deus da espécie Mantis religiosa invadindo ninhos e se alimentando de filhotes de pássaros das espécies Cinnyris asiaticus e Galerida cristata (Fig.3).

Figura 3. Fêmea de louva-a-deus M. religiosa invadindo um ninho e predando um filhote de C. asiaticus recém eclodido de um ovo. O evento ocorreu na Província de Kerman, no sul do Irã. Referência: Panter et al., 2022 

> Canibalismo é comportamento muito comum em várias populações de animais, e engatilhado frequentemente como uma resposta à escassez de recursos nutricionais no ambiente. Louvas-a-deus tendem a se transformar em vorazes canibais em resposta à fome e independentemente do acasalamento. É um importante mecanismo de autorregulação populacional visando aumentar as taxas de sobrevivência e reprodutivas (Ref.10).

> Leitura recomendadaQual é a espécie de louva-a-deus similar a uma flor de orquídea?

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REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. https://www.embrapa.br/cerrados/colecao-entomologica/mantodea
  2. Battiston, R. (2008). Mating behavior of the mantid Ameles decolor (Insecta, Mantodea): courtship and cannibalism. Journal of Orthoptera Research, 17(1):29-33. https://doi.org/10.1665/1082-6467(2008)17[29:MBOTMA]2.0.CO;2 
  3. https://resjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/j.1365-2311.2010.01239.x
  4. Observations on the Life cycle, Mating and Cannibalism of Mantis religiosa religiosa Linnaeus, 1758 (Insecta: Mantodea: Mantidae). Raut GA and Gaikwad SM. Journal of Entomology and Zoology Studies 2016; 4(6): 478-482
  5. https://brill.com/view/journals/beh/136/2/article-p205_4.xml
  6. Burke & Holwell (2022). Costs and benefits of polyandry in a sexually cannibalistic mantis. Journal of Evolutionary Biology, Volume 36, Issue 2, Pages 412-423. https://doi.org/10.1111/jeb.14135
  7. Burke & Holwell (2023). "Should females cannibalize with or without mating in the facultatively parthenogenetic springbok mantis?" Animal Behaviour, Volume 197, Pages 113-121. https://doi.org/10.1016/j.anbehav.2023.01.007
  8. Barry, K. L. (2015). Sexual deception in a cannibalistic mating system? Testing the Femme Fatale hypothesis. Proceedings of the Royal Society B, Volume 282, Issue 1800. https://doi.org/10.1098/rspb.2014.1428 
  9. Panter et al. (2022). Opportunistic depredation of songbird nestlings by female praying mantids (Mantodea: Mantidae). Ecology and Evolution, Volume 12, Issue 12, e9643. https://doi.org/10.1002/ece3.9643
  10. Rosenheim & Schreiber (2022). Pathways to the density-dependent expression of cannibalism, and consequences for regulated population dynamics. Ecology, Volume 103, Issue 10, e3785. https://doi.org/10.1002/ecy.3785