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Todos os "pelos" [cerdas] da lagarta-cachorrinho queimam a pele?

          Popularmente conhecida como lagarta-cachorrinho ou taturana-ursinho, a estranha lagarta na Fig.1 não deve ser tocada, devido à presença de toxinas nas cerdas do seu corpo que causam forte sensação de queimação, dor e inchaço na pele. Essa lagarta pertence à espécie Podalia orsilochus e à família Megalopygidae, esta a qual engloba várias lagartas urticantes e de importância médica. No geral, lagartas do gênero Podalia e Megalopyge são popularmente conhecidas como "taturana-gatinho" ou "taturana-cachorrinho", e são os principais clados de interesse médico nesse contexto. Porém, nem todas as cerdas ("pelos") no corpo desses insetos queimam.

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            As lagartas da família Megalopygidae possuem longas cerdas não urticantes, com densidade variável, e estruturas urticantes, denominadas espinhos, daí os nomes populares de "lagartas cabeludas", "lagartas-de-fogo" ou "taturanas" (de origem tupi-guarani que significa "aquilo que arde como fogo"). Conforme a disposição das cerdas, estas lagartas podem ser divididas em dois grupos: as arctiidiformes, com cerdas curtas, robustas e eretas (ex.: Megalopyge urens) (Fig.2) e as "lagartas gatinho" (puss caterpillars, no inglês) com cerdas longas, macias, sedosas e coloridas, como a lagarta-cachorrinho.


Fig.2. Lagarta da espécie Podalia orsilochusFoto: Paulina Cerruti/ecoregistros.org 


Fig.3. Mariposa [fase adulta] da espécie Podalia orsilochus.

           A maioria das cerdas longas e sedosas, que se assemelha a pelos, é inofensiva e esconde os espinhos, que são estruturas produtoras e inoculadoras de compostos químicos com ação urticante. Esses espinhos são preenchidos por uma solução urticante secretada por células situadas em glândulas de veneno na base dessas estruturas, denominadas células tricógenas. Quando a cerda penetra na pele e se quebra, a solução provoca ação irritante. Vários estudos sobre a importância médica das lagartas de Megalopygidae citam lesões cutâneas causadas pelo contato com espinhos irritantes de um número de espécies (erucismo). A maior parte dos acidentes por erucismo é provocada por lagartas do clado Megalopygidae.


   ERUCISMO

          Erucismo é o termo usado para o envenenamento causado pelo contato dérmico com as cerdas urticantes de formas larvais de mariposas (ordem Lepidoptera). Erucismo é frequente em várias regiões do mundo, especialmente em zonas climáticas tropicais e temperadas, incluindo o Brasil. No nosso país, lagartas das famílias Megalopygidae, Saturniidae e Arctiidae são as principais causas de erucismo, com ~3700 casos reportados anualmente ao sistema SINAN do Ministério da Saúde. Parte dos casos são relacionados ao envenenamento causado por lagartas do gênero Lonomia (lonomismo), principalmente no sul do Brasil. O lonomismo pode evoluir com coagulopatia severa e hemorragia sistêmica grave. Relevante mencionar que, em testes sobre pele de ratos, as toxinas da espécie P. orsilochus causa proeminente necrose, infiltração inflamatória e hemorragia no local de aplicação, e o antídoto contra o veneno da espécie Lonomia obliqua (!) reconhece razoavelmente bem as toxinas da lagarta-cachorrinho (Ref.3).

          Além do lonomismo, as manifestações clínicas de erucismo em humanos são predominantemente locais, incluindo dor de queimação, edema e eritema (machas vermelhas na pele). Dor local de variável intensidade - o mais comum sintoma de erucismo causado por lagartas Megalopygidae - começa logo após o contato dérmico com as cerdas urticantes e pode durar horas. Dor radiante severa ou excruciante, como reportado após contato com a lagarta Norte-Americana Megalopygidae opercularis, tem sido descrita por alguns pacientes como similar a "ter carvão quente colocado sobre a pele", "ser acertado no braço com um taco de baseball", "quebrar um osso" ou "cólica renal devido a pedras renais". Várias proteínas, enzimas e outras substâncias já foram identificadas nas toxinas liberadas pelas cerdas urticantes dessas lagartas, mas ainda é incerto se a intensa dor gerada está associada com respostas pró-inflamatórias no tecido subcutâneo da vítima ou se as toxinas em si exercem um efeito estimulante direto sobre os neurônios periféricos sensoriais (Ref.4).


Fig.4. Lagarta da espécie Megalopygidae opercularis.

Fig.5. Referências: Branco et al., 2018 e Peichoto et al., 2019.

           Para alívio de dores muito intensas, anestesia local com analgésicos em ambiente hospitalar é procedimento ideal a ser seguido. Irrigação (limpeza de ferimentos usando jatos de solução fisiológica) e remoção das cerdas urticantes com fita adesiva também podem reduzir a dor e é uma prática caseira recomendada após o acidente.

           Sintomas atípicos e sérios também são reportados após contato com essas lagartas. Em 2011, no periódico Journal of Tropical Pathology (Ref.5), foi descrito o caso de um menino de 11 anos de idade, morador de Uberlândia, Minas Gerais, que desenvolveu edema, eritema, dor intensa na mão e no segundo quirodáctilo esquerdo e sonolência, após pegar em uma lagarta da espécie Megalopyge lanata (Fig.4) que havia caído nas suas costas. Hospitalizado, o paciente evoluiu com taquicardia e taquipneia, náuseas, dor local e hiperemia da mão esquerda, eventualmente desenvolvendo bradicardia sinusal acentuada no pronto socorro pediátrico.  


Fig.6. Megalopyge lanata é uma espécie que ocorre exclusivamente na América Latina. No Brasil, é registrada nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Bahia, Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais. É uma praga que afeta inúmeras espécies de vegetais como cafeeiro, abacateiro, pessegueiro, algodoeiro, goiabeira, jabuticabeira e plantas cítricas. Suas lagartas, quando completamente desenvolvidas, medem de 60 a 70 mm de comprimento e 14 a 18  mm  de  largura  máxima.

          Mudanças de cor [na pele] no local de contato com as cerdas urticantes podem durar meses em alguns casos de erucismo. Relato de caso nesse sentido foi reportado recentemente para um acidente envolvendo a espécie Norape ovina (Ref.6).


   (!LAGARTA MAIS PERIGOSA

          O Instituto Butantan é o único produtor no mundo do antídoto/soro contra o veneno da L. obliqua - também conhecida como "taturana oblíqua" -, que pode ser obtido gratuitamente no Brasil por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Acidentes com essa lagarta são potencialmente muito perigosos. No Brasil, entre 2007 e 2017, foram mais de 42 mil acidentes envolvendo a L. obliqua, sendo 248 casos graves e cinco mortes (Ref.7). 



          No momento do contato com as cerdas da taturana oblíqua, o veneno causa uma lesão na pele semelhante à queimadura, com dor, inchaço e bolhas na região. O indivíduo pode apresentar dor de cabeça, ansiedade, náusea, vômito e, menos frequentemente, dor abdominal, hipotermia e pressão baixa. Dependendo da extensão da lesão e da quantidade de veneno inoculada, algumas pessoas podem manifestar sintomas mais graves, como alteração na coagulação e hemorragia nas gengivas, urina ou outras partes do corpo. 

          A principal complicação é a insuficiência renal aguda (falha nos rins), que pode ocorrer em até 12% dos casos e é mais frequente em indivíduos com mais de 45 anos. Inicialmente os pacientes graves eram tratados com antifibrinolíticos – classe de fármacos utilizada para impedir a perda excessiva de sangue – associados com plasma fresco congelado. No entanto, em vez de reverter os sintomas, essa abordagem piorava o quadro. 

          Atualmente, o tratamento é baseado na administração do soro antilonômico, que é obtido a partir do plasma de cavalos imunizados com o extrato de cerdas de Lonomia obliqua. Os anticorpos produzidos são capazes de neutralizar o veneno em circulação no sangue, normalizando os parâmetros de coagulação e evitando complicações graves. Para obter um resultado mais eficiente, é necessário que o material seja administrado até 12 horas após o contato com as cerdas da lagarta. Cada mL do soro neutraliza no mínimo 0,35 mg de veneno de L. obliqua, no total de no mínimo 3,5 mg de veneno por frasco-ampola com 10 mL (Ref.8).


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Diniz & Teston (2022). Diversidade e Sazonalidade de Megalopydidae (Lepidoptera, Zygaenoidea) na Floresta Nacional do Tapajós. Revista Biodiversidade, v. 21, n. 2.
  2. https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/13104/5/2012_CintiaLepesqueurGon%C3%A7alves.pdf
  3. Peichoto et al. (2019). Understanding toxicological implications of accidents with caterpillars Megalopyge lanata and Podalia orsilochus (Lepidoptera: Megalopygidae). Comparative Biochemistry and Physiology Part C: Toxicology & Pharmacology, Volume 216, Pages 110-119. https://doi.org/10.1016/j.cbpc.2018.11.011
  4. Branco et al. (2018). Management of severe pain after dermal contact with caterpillars (erucism): a prospective case series. Clinical Toxicology, 1–5. https://doi.org/10.1080/15563650.2018.1520998
  5. Silva et al. (2012). ACIDENTE HUMANO POR Megalopyge lanata (LEPIDOPTERA: MEGALOPYGIDAE) EM ÁREA URBANA DO MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA, MG, BRASIL. Revista de Patologia Tropical / Journal of Tropical Pathology, Goiânia, v. 40, n. 4, p. 362–366. https://doi.org/10.5216/rpt.v40i4.16752
  6. Michienzi et al. (2022). The Sting of a White Flannel Moth Caterpillar (Norape ovina). Wilderness & Environmental Medicine, Volume 33, Issue 3, Pages 329-331. https://doi.org/10.1016/j.wem.2022.03.011
  7. Alvarez-Flores et al. (2021). Lonomia obliqua Envenoming and Innovative Research Toxins 13(12), 832. https://doi.org/10.3390/toxins13120832
  8. https://butantan.gov.br/assets/arquivos/soros-e-vacinas/soros/Soro%20antilon%C3%B4mico.pdf