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Por que o besouro-rinoceronte-Japonês é tão popular no Japão?

          O Besouro-Rinoceronte-Japonês (Allomyrina dichotoma), ou kabutomushi (nome Japonês), é amplamente distribuído na China, Japão, Península Coreana, Vietnã, Myanmar, Laos, Índia e Tailândia. É tipicamente encontrado em florestas situadas em habitats montanhosos tropicais e subtropicais. Com um comprimento corporal de até 9,17 cm, os machos da espécie apresentam notáveis chifres exagerados na cabeça e nas regiões protorácicas, enquanto as fêmeas não exibem chifres. Os chifres da cabeça podem se estender em mais de dois terços o comprimento corporal do macho e é bifurcado duas vezes na sua extremidade externa. Evidências acumuladas sugerem que o tamanho do chifre é um fator determinante na luta entre machos, com chifres maiores favoráveis nesse sentido e sexualmente selecionados (Ref.3-4). De fato, os chifres são armas importantes na disputa por territórios visitados pelas fêmeas. As batalhas ocorrem tipicamente sobre troncos de árvores, com os machos inserindo os chifres da cabeça sob o protórax de um oponente e tentando removê-lo para fora do tronco. Um chifre maior também parece favorecer os machos no acasalamento independentemente dos resultados de lutas (Ref.4).


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          Englobando 10 subespécies descritas, o A. dichotoma é usado na medicina tradicional Chinesa há quase 2 mil anos, e, devido ao seu grande tamanho e formato corporal único, se tornou um inseto de estimação em vários países do Leste Asiático, alcançando alta popularidade entre os Japoneses.

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          No Japão, a coleta e criação do besouro-rinoceronte-Japonês é um hobby bastante popular entre os garotos. Quase todos os meninos Japoneses passam pela fase de brincar com os kabutomushi, estes os quais são coletados em campos ou comprados em pet shops e criados em casa. Aliás, uma grande seção em pet shops no país é tipicamente devotada a livros, dietas, contêineres e itens necessários para procriar e manter esses besouros. E em alguns pet shops, uma pequena arena de sumo (luta) é construída para as crianças encorajarem os kabutomushi a disputarem o espaço entre si (tipicamente um tentando derrubar o outro de uma elevação). 

          Historicamente muito presentes na cultura e no cotidiano dos Japoneses - incluindo games, filmes e animes -, o kabutomushi (mushi = inseto) possui também uma íntima relação com os famosos samurais, os quais representaram uma importante classe administrativa e militar no Japão. O termo Kabuto no nome do besouro significa 'elmo de samurai', e faz referência ao fato do chifre do A. dichotoma ser parecido com a crista frontal (maedate) desse tipo de elmo (Fig. de capa).

          No início (a partir do Período Heian, século X d.C.), os elmos de samurais não possuíam cristas frontais, mas, eventualmente, essas estruturas foram anexadas na parte frontal do elmo para indicar a posição do líder de um clã no campo de batalha. A crista frontal se tornou ainda mais importante após as armas de fogo serem introduzidas nas batalhas; quando a fumaça produzida pelos tiros obscureciam a visibilidade nos campos de batalha, uma grande e brilhante crista frontal tornava possível mostrar a posição de uma força aliada (Ref.7). As cristas frontais eram às vezes feitas de ferro, mas mais frequentemente combinavam materiais delicados como couro, papel-mâché ou madeira laqueada, e podiam ser folhadas com ouro.

           Apesar da associação com os besouros, as cristas frontais dos elmos de samurais assumiram várias formas dependendo do contexto, e insetos continuaram temas populares. Uma libélula, também conhecida como kachimushi (inseto da vitória), frequentemente adornava um elmo de samurai por causa da sua agressividade. Alguns designs de libélulas eram explícitos e ameaçadores, mas outros eram mais sutis e elegantes. Outros artrópodes predatórios e agressivos favorecidos pelos samurais incluíam o louva-a-deus e a centopeia. Esses elmos em específico eram tipicamente manufaturados no período Edo, e não foram usados em combate. 


          O período Edo (1603-1837) começou quando Tokugawa Ieyasu finalizou o período Sengoku ("era das batalhas") e unificou o Japão pelo estabelecimento do Xogunato Tokugawa. A paz perdurou por mais de 250 anos durante o período Edo, e a classe samurai, apesar de representar ainda a elite da sociedade, tinha pouca coisa a fazer. O tamanho e os designs extravagantes das cristas frontais nesse período sugerem que os elmos com essas decorações não possuíam mais uso prático em batalha. Ao invés disso, decoravam as salas de estar de famílias samurais e serviam mais como peças para "puxar assunto". Ironicamente, a falta de utilidade prática refletia seus donos - a classe samurai, cujas habilidades marciais não tinham mais uso prático, pelo menos por 250 anos.


REFERÊNCIAS

  1. Yang et al. (2021). Phylogeny and biogeography of the Japanese rhinoceros beetle, Trypoxylus dichotomus (Coleoptera: Scarabaeidae) based on SNP markers. Ecology and Evolution, Volume 11, Issue 1, Pages 153-173. https://doi.org/10.1002/ece3.6982
  2. Morita et al. (2022). The draft genome sequence of Japanese rhinoceros beetle Trypoxylus dichotomus. [Preprint] https://doi.org/10.1101/2022.01.10.475740
  3. Karino et al. (2005). Horn Length Is the Determining Factor in the Outcomes of Escalated Fights Among Male Japanese Horned Beetles, Allomyrina dichotoma L. (Coleoptera: Scarabaeidae). Journal of Insect Behavior, 18(6), 805–815.
  4. Del Sol et al. (2020). Population differences in the strength of sexual selection match relative weapon size in the Japanese rhinoceros beetle, Trypoxylus dichotomus (Coleoptera: Scarabaeidae)†. Evolution, 75(2), 394–413.
  5. Niimi et al. (2022). Recent advances in understanding horn formation in the Japanese rhinoceros beetle Trypoxylus dichotomus using next-generation sequencing technology. Current Opinion in Insect Science, Volume 51, 100901. https://doi.org/10.1016/j.cois.2022.100901
  6. Adachi et al. (2021).' Pivot burrowing of scarab beetle (Trypoxylus dichotomus) larva. Scientific Reports 11, 14594. https://doi.org/10.1038/s41598-021-93915-0
  7. Su, Nan-Yao (2022). Insects in Japanese Culture, and One That Saved the Country. American Entomologist, Volume 68, Issue 1, Pages 52–58. https://doi.org/10.1093/ae/tmac010
  8. https://www.thewintershow.org/artworkdetails/455/samurai-maedate
  9. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/24118