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Por que o besouro-rinoceronte-Japonês é tão popular no Japão?

- Atualizado no dia 9 de julho de 2026 -

          O Besouro-Rinoceronte-Japonês (Trypoxylus dichotomus), ou kabutomushi (nome popular japonês), é amplamente distribuído na China, Japão, Península Coreana, Vietnã, Myanmar, Laos, Índia e Tailândia. É tipicamente encontrado em florestas situadas em habitats montanhosos tropicais e subtropicais. Com um comprimento corporal de até ~9 cm, os machos da espécie apresentam notáveis chifres exagerados na cabeça e nas regiões protorácicas, enquanto as fêmeas não exibem chifres. Os chifres da cabeça podem se estender em mais de dois terços o comprimento corporal do macho e é bifurcado duas vezes na sua extremidade externa. Evidências acumuladas sugerem que o tamanho do chifre é um fator determinante na luta entre machos, com chifres maiores favoráveis nesse sentido e sexualmente selecionados (Ref.3-4). De fato, os chifres são armas importantes na disputa por territórios visitados pelas fêmeas. As batalhas ocorrem tipicamente sobre troncos de árvores, com os machos inserindo os chifres da cabeça sob o protórax de um oponente e tentando removê-lo para fora do tronco. Um chifre maior também parece favorecer os machos no acasalamento independentemente dos resultados de lutas (Ref.4).


          Machos de menor porte dessa espécie geralmente evitam interagir com machos de maior porte. Machos de grande porte frequentemente entram em combate durante encontros, exibindo uma série de comportamentos estereotipados. Essas batalhas tipicamente ocorrem nos troncos de árvores hospedeiras

          Ao primeiro contato no tronco de uma árvore, ambos os machos se encaram, expondo assim a parte frontal fortemente blindada de seus corpos ao oponente. É iniciada uma série de breves disputas, durante as quais os grandes chifres cefálicos se tocam e pressionam mutuamente. Caso o encontro se estenda, é iniciada uma fase potencialmente prolongada de combate corpo a corpo, na qual cada macho tenta inserir seu chifre cefálico sob o protórax do oponente e desalojar o rival da superfície vertical da árvore (Fig.1). Um dos machos em disputa acaba por se retirar ou é derrubado [lançado] da árvore, caindo no solo abaixo. A queda pode resultar em sérios danos no corpo do macho perdedor, incluindo perda de chifres e quebra dos élitros.

            Uma segunda forma de combate é o ataque lateral. O macho atacante aproxima-se do oponente pela lateral e o prende entre a cabeça e o chifre protorácico (Fig.2). Nessa situação, o besouro capturado se solta do substrato e cai no chão. Durante ataques desse tipo, duas perfurações nítidas são observadas no exoesqueleto do perdedor pelos chifres protorácicos extremamente afiados. Tais perfurações podem dar origem a rasgos nos élitros e na asa subjacente - danos que provavelmente comprometeriam seriamente a capacidade de voo do macho. 

Figura 1. Machos de grande porte lutando na superfície de uma árvore. (A) O macho posicionado mais abaixo consegue inserir o chifre cefálico sob o macho posicionado mais acima; no entanto, este último realiza um movimento rápido para se afastar da árvore, conforme indicado pelas linhas pontilhadas. (B) Isso faz com que a tentativa de arremesso do macho inferior falhe e, simultaneamente, expõe a parte ventral de seu corpo. O macho superior aproxima-se, insere o chifre cefálico e (C) arremessa o macho inferior. A posição na árvore não influencia o desfecho. Ref.10

Figura 2. Ataque lateral. (A) O macho sombreado agarrou com sucesso o macho "branco" em um ataque lateral. O "branco" soltou-se do substrato. (B) Um exemplo dos danos causados em um ataque lateral típico: duas perfurações nítidas no exoesqueleto (das quais escorre hemolinfa por algumas horas). Ref.10

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:: A espécie (Trypoxylus dichotomus, Coleoptera: Scarabaeidae: Dynastini) habita várias regiões no Leste Asiático, incluindo Japão, China, Tibete, Taiwan, Península Coreana, Nordeste da Índia, Tailândia, Vietnã, Laos e Myanmar. O chifre cefálico dos machos pode se estender por mais de 1/3 do comprimento corporal do inseto, sendo bifurcado duas vezes na ponta distal. O chifre protorácico é mais curto e bifurcado apenas uma vez na ponta distal. Ambos os chifres são usados como armas em combates entre machos por territórios de alimentação visitados por fêmeas. O gene doublesex (dsx) é crucial no dimorfismo sexual entre machos e fêmeas, controlando o desenvolvimento dos chifres cefálicos e protorácicos. Os adultos possuem uma longevidade de ~3 meses. Ref.11-12

:: Os besouros-rinoceronte (dinastíneos) machos possuem chifres cefálicos robustos e proeminentes, utilizados tanto na competição intraespecífica por oportunidades reprodutivas quanto na competição interespecífica (a exemplo de membros da família Lucanidae) por território e recursos. As formas e os tamanhos dos chifres variam consideravelmente, mesmo entre espécies estreitamente relacionadas e, por vezes, entre populações de besouros, o que sugere a atuação de pressões seletivas diferenciadas sobre essas estruturas em diferentes linhagens.

:: O T. dichotomus é um inseto univoltino, ou seja, produz apenas uma geração por ano. As larvas alimentam-se e crescem em solo rico em húmus ou em madeira em decomposição, do outono à primavera. Durante o estágio de pré-pupa, elas constroem uma câmara pupal utilizando uma mistura de pelotas fecais e húmus para realizar a pupação no subsolo. No início do verão, os adultos surgem em florestas de folha larga para ingerir seiva, e machos e fêmeas acasalam-se em árvores próximas aos locais de alimentação. Após o acasalamento, a fêmea deposita os ovos no húmus. Os adultos têm uma expectativa de vida de ~3 meses e não sobrevivem ao inverno. Ref.12

> Leitura recomendada:  Qual é o maior inseto do mundo? 

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          Englobando 10 subespécies descritas ao longo da Ásia, o T. dichotomus é usado na medicina tradicional Chinesa há quase 2 mil anos, e, devido ao seu grande tamanho e formato corporal único, se tornou um inseto de estimação em vários países do Leste Asiático, alcançando alta popularidade entre os Japoneses. Para mais informações acadêmicas sobre as diferentes subespécies desse besouro: acesse aqui.


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          No Japão, a coleta e criação do besouro-rinoceronte-Japonês é um hobby muito popular entre os garotos. Quase todos os meninos Japoneses passam pela fase de brincar com os kabutomushi, estes os quais são coletados em campos ou comprados em pet shops e criados em casa. Aliás, uma grande seção em pet shops no país é tipicamente devotada a livros, dietas, contêineres e itens necessários para procriar e manter esses besouros. E em alguns pet shops, uma pequena arena de sumo (luta) é construída para as crianças encorajarem os kabutomushi a disputarem o espaço entre si (tipicamente um tentando derrubar o outro de uma elevação). Mas duelos entre esses besouros são disputados em qualquer lugar e são eventos bem comuns nas ruas do país.

          Historicamente muito presentes na cultura e no cotidiano dos Japoneses - incluindo games, filmes e animes -, o kabutomushi (mushi = inseto) possui também uma íntima relação com os famosos samurais, os quais representaram uma importante classe administrativa e militar no Japão. O termo Kabuto no nome do besouro significa 'elmo de samurai', e faz referência ao fato do chifre do A. dichotoma ser parecido com a crista frontal (maedate) desse tipo de elmo (Fig. de capa).

          No início (a partir do Período Heian, século X d.C.), os elmos de samurais não possuíam cristas frontais, mas, eventualmente, essas estruturas foram anexadas na parte frontal do elmo para indicar a posição do líder de um clã no campo de batalha. A crista frontal se tornou ainda mais importante após as armas de fogo serem introduzidas nas batalhas; quando a fumaça produzida pelos tiros obscureciam a visibilidade nos campos de batalha, uma grande e brilhante crista frontal tornava possível mostrar a posição de uma força aliada (Ref.7). As cristas frontais eram às vezes feitas de ferro, mas mais frequentemente combinavam materiais delicados como couro, papel-mâché ou madeira laqueada, e podiam ser folhadas com ouro.

           Apesar da associação com os besouros, as cristas frontais dos elmos de samurais assumiram várias formas dependendo do contexto, e insetos continuaram temas populares. Uma libélula, também conhecida como kachimushi (inseto da vitória), frequentemente adornava um elmo de samurai por causa da sua agressividade. Alguns designs de libélulas eram explícitos e ameaçadores, mas outros eram mais sutis e elegantes. Outros artrópodes predatórios e agressivos favorecidos pelos samurais incluíam o louva-a-deus e a centopeia. Esses elmos em específico eram tipicamente manufaturados no período Edo, e não foram usados em combate. 


          O período Edo (1603-1837) começou quando Tokugawa Ieyasu finalizou o período Sengoku ("era das batalhas") e unificou o Japão pelo estabelecimento do Xogunato Tokugawa. A paz perdurou por mais de 250 anos durante o período Edo, e a classe samurai, apesar de representar ainda a elite da sociedade, tinha pouca coisa a fazer. O tamanho e os designs extravagantes das cristas frontais nesse período sugerem que os elmos com essas decorações não possuíam mais uso prático em batalha. Ao invés disso, decoravam as salas de estar de famílias samurais e serviam mais como peças para "puxar assunto". Ironicamente, a falta de utilidade prática refletia seus donos - a classe samurai, cujas habilidades marciais não tinham mais uso prático, pelo menos por 250 anos.


REFERÊNCIAS

  1. Yang et al. (2021). Phylogeny and biogeography of the Japanese rhinoceros beetle, Trypoxylus dichotomus (Coleoptera: Scarabaeidae) based on SNP markers. Ecology and Evolution, Volume 11, Issue 1, Pages 153-173. https://doi.org/10.1002/ece3.6982
  2. Morita et al. (2022). The draft genome sequence of Japanese rhinoceros beetle Trypoxylus dichotomus. [Preprint] https://doi.org/10.1101/2022.01.10.475740
  3. Karino et al. (2005). Horn Length Is the Determining Factor in the Outcomes of Escalated Fights Among Male Japanese Horned Beetles, Allomyrina dichotoma L. (Coleoptera: Scarabaeidae). Journal of Insect Behavior, 18(6), 805–815.
  4. Del Sol et al. (2020). Population differences in the strength of sexual selection match relative weapon size in the Japanese rhinoceros beetle, Trypoxylus dichotomus (Coleoptera: Scarabaeidae)†. Evolution, 75(2), 394–413.
  5. Niimi et al. (2022). Recent advances in understanding horn formation in the Japanese rhinoceros beetle Trypoxylus dichotomus using next-generation sequencing technology. Current Opinion in Insect Science, Volume 51, 100901. https://doi.org/10.1016/j.cois.2022.100901
  6. Adachi et al. (2021).' Pivot burrowing of scarab beetle (Trypoxylus dichotomus) larva. Scientific Reports 11, 14594. https://doi.org/10.1038/s41598-021-93915-0
  7. Su, Nan-Yao (2022). Insects in Japanese Culture, and One That Saved the Country. American Entomologist, Volume 68, Issue 1, Pages 52–58. https://doi.org/10.1093/ae/tmac010
  8. https://www.thewintershow.org/artworkdetails/455/samurai-maedate
  9. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/24118
  10. Siva-Jothy, M.T. (1987). Mate securing tactics and the cost of fighting in the Japanese horned beetle,Allomyrina dichotoma L. (Scarabaeidae). Journal of Ethology 5, 165–172 https://doi.org/10.1007/BF02349949
  11. Morita et al. (2019) Precise staging of beetle horn formation in Trypoxylus dichotomus reveals the pleiotropic roles of doublesex depending on the spatiotemporal developmental contexts. PLoS Genetics, 15(4): e1008063. https://doi.org/10.1371/journal.pgen.1008063
  12. Morita et al. (2023). The draft genome sequence of the Japanese rhinoceros beetle Trypoxylus dichotomus septentrionalis towards an understanding of horn formation. Scientific Reports 13, 8735. https://doi.org/10.1038/s41598-023-35246-w