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Existem moscas sem asas?

          Moscas são insetos pertencentes à enorme ordem Diptera, sendo representadas por um diverso espectro de espécies, todas com ciclo de vida marcado por metamorfose completa (holometábolos) - ou seja, incluindo ovo, larva, pupa e adulto. Mas para quem achava que todas as moscas voavam e eram parecidas com as moscas domésticas (Musca domestica) ou varejeiras (Dermatobia hominis), saiba que algumas são bem estranhas e nem mesmo asas possuem!

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            Moscas ectoparasitas de morcegos constituem duas famílias: Nycteribiidae e Streblidade. Essas moscas infestam exclusivamente morcegos, estão distribuídas em mais de 500 espécies e, como todos os membros da superfamília Hippoboscoidea, se reproduzem via puparidade vivípara, na qual os ovos são fertilizados internamente e todos os estágios larvais se desenvolvem dentro do corpo da fêmea (as larvas são nutridas via glândulas especiais de "leite"). 

          As moscas da família Nycteribiidae, ao longo do processo evolutivo, perderam suas asas e seus olhos, e exibem um pequeno tórax relativo ao abdômen (devido à perda dos músculos de voo), dando a esses insetos uma aparência de aranha, pulgas ou mesmo carrapatos, como mostrado nas fotos abaixo (esses insetos possuem um tamanho variando de 1 a 5 mm). Em contraste, as moscas da família Streblidae exibem uma maior variação morfológica, com as asas de algumas espécies ainda com aparência normal ou funcional, mas outras expressando asas reduzidas ou ausentes; os olhos podem ser pequenos ou ausentes; e a forma corporal geral pode ser achatada lateralmente ou dorsoventralmente.




          Evidências sugerem que as moscas de morcegos se originaram durante um período de grande diversificação evolutiva dos morcegos, entre 50 e 30 milhões de anos atrás (Ref.6).

          Machos e fêmeas das moscas de morcegos são estritamente hematófagos (consomem sangue) e se alimentam regularmente nos hospedeiros. Devido à alimentação exclusiva de sangue (e, portanto, nutricionalmente deficiente), as moscas de morcego dependem de endossimbiontes bacterianos (ex.: gênero Arsenophonus) para suplementar suas necessidades nutricionais (Ref.9). Passam a maior parte das suas vidas sobre o corpo de morcegos, abrigadas na pelagem e nas asas, e morrem dentro de dois dias quando são separadas dos hospedeiros. Geralmente essas moscas parasitam apenas uma única espécie de morcego, mas podem parasitar múltiplas espécies dependendo das condições ambientais e da oferta de hospedeiros.

 

           As fêmeas das moscas de morcego regularmente deixam seus hospedeiros para depositar pré-pupas. Após emergência das pupas, os jovens adultos saem perambulando de forma aleatória até encontrarem um hospedeiro. Na média, os adultos vivem 97 dias (machos) e 156 dias (fêmeas).

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           As moscas de morcego são encontrados em todas as regiões biogeográficas, principalmente em regiões tropicais, e isso inclui várias regiões do Brasil (em especial no Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica). Em um recente estudo conduzido em duas colônias de morcegos da espécie Anoura geoffroyi em cavernas no sudeste Brasileiro, de um total de 1377 morcegos capturados, 84% estavam parasitados por espécies da família Streblidae (Ref.7).

          É ainda incerto se as moscas de morcego e outros artrópodes parasitas desses mamíferos voadores possuem papel relevante na transmissão de doenças zoonóticas associadas aos morcegos e de importância para humanos e outros animais. Um estudo publicado recentemente no periódico Journal of Virology (Ref.8), analisando 686 artrópodes coletados na superfície corporal de morcegos da Província de Yunnan, na China, entre 2012 e 2015, não encontrou nenhum vírus zoonótico transmitido por morcegos nesses parasitas (incluindo moscas). Por outro lado, pesquisadores e evidências limitadas sugerem que vírus patogênicos "morcego-associados", os quais são ecologicamente e epidemiologicamente ligados aos morcegos mas raramente são encontrados nesses animais, podem na verdade representar vírus de moscas de morcego ou de outros ectoparasitas de morcegos (Ref.6). 


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REFERÊNCIAS

  1. Amarga & Phelps (2021). New host and distribution records of bat flies (Diptera: Streblidae, Nycteribiidae) on cave-dwelling bats from Bohol Island, Philippines. International Journal of Tropical Insect Science 41, 3213–3222. https://doi.org/10.1007/s42690-021-00584-7
  2. Obame-Nkoghe et al. (2016). Bat flies (Diptera: Nycteribiidae and Streblidae) infesting cave-dwelling bats in Gabon: diversity, dynamics and potential role in Polychromophilus melanipherus transmission. Parasites Vectors 9, 333. https://doi.org/10.1186/s13071-016-1625-z
  3. Dick & Pospischil (2015). Nycteribiidae (Bat Flies). Encyclopedia of Parasitology, 1–4. https://doi.org/10.1007/978-3-642-27769-6_3462-1
  4. Barbier & Bernard (2017). From the Atlantic Forest to the borders of Amazonia: species richness, distribution, and host association of ectoparasitic flies (Diptera: Nycteribiidae and Streblidae) in northeastern Brazil. Parasitology Research 116, 3043–3055. https://doi.org/10.1007/s00436-017-5615-7
  5. Tortosa et al. (2013). Evolutionary History of Indian Ocean Nycteribiid Bat Flies Mirroring the Ecology of Their Hosts. PLoS ONE 8(9): e75215. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0075215
  6. Ramírez-Martínez et al. (2021). Bat Flies of the Family Streblidae (Diptera: Hippoboscoidea) Host Relatives of Medically and Agriculturally Important “Bat-Associated” Viruses. Viruses 13(5), 860. https://doi.org/10.3390/v13050860
  7. da Silva Reis et al. (2022). Variation of dipteran ectoparasites (Streblidae) on Anoura geoffroyi Gray, 1838 (Phyllostomidae) in two caves in southeastern Brazil. Parasitology Research 121, 255–265. https://doi.org/10.1007/s00436-021-07385-4
  8. Feng et al. (2022). Virome of Bat-Infesting Arthropods: Highly Divergent Viruses in Different Vectors, Vol.96, No.4. https://doi.org/10.1128/jvi.01464-21
  9. Morse et al. (2013). Evolution, Multiple Acquisition, and Localization of Endosymbionts in Bat Flies (Diptera: Hippoboscoidea: Streblidae and Nycteribiidae). Applied and Environmental Microbiology, Vol. 79, No. 9. https://doi.org/10.1128/AEM.03814-12